06-
HOMILIA-
4 de abril – VIGÍLIA PASCAL (LASR)*
Se o túmulo está
vazio, o motivo é nosso coração estar cheio
Por Luiz Alexandre Solano
Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues**
I. INTRODUÇÃO GERAL
A
Vigília Pascal constitui o âmago de todo o ano litúrgico. Ela pode ser
considerada a mãe de todas as vigílias, e, por isso mesmo, é fundamental que
todos participem dela e vivam essa experiência. A vigília começa após o pôr do
sol, no sábado santo, fora da igreja, onde o fogo é abençoado pelo celebrante.
Esse fogo simboliza o esplendor do Cristo ressuscitado dissipando as trevas do
pecado e da morte. Apresentamo-nos como discípulos do Ressuscitado com uma
única palavra nos lábios – “Eis-me aqui” – e com a disposição para seguir o
mesmo caminho trilhado por ele. Da escuridão nascerá a luz de Cristo. Jamais
nossos caminhos serão marcados pela escuridão. Nele e por causa dele, a luz
brilhará eternamente em nosso coração, a fim de que possamos também iluminar a
vida daqueles que nos cercam. A Vigília Pascal se divide em quatro momentos: 1)
liturgia da luz – o fogo é abençoado e torna-se novo para nós. Acende-se o
círio pascal, o mesmo fogo que guiou o povo do Antigo Testamento na caminhada
rumo à Terra Prometida; 2) liturgia da Palavra – todas as leituras e salmos
recordam a ação de Deus no meio do seu povo. Pela proclamação da Palavra, a
morte foi vencida, tudo se fez novo, e agora só há luz e vida; 3) liturgia
batismal – os novos cristãos são acolhidos pela comunidade. Todos os santos são
invocados para interceder por aqueles que serão batizados, e estes professarão
a fé; há a renovação das promessas batismais daqueles que já receberam o
sacramento. Sendo assim, todos são batizados pela ressurreição de Jesus; 4)
liturgia eucarística – o Cristo proclamado na Palavra como Ressuscitado é o
mesmo da Eucaristia. A Palavra e a Eucaristia são alimentos essenciais para a
vida dos batizados
.
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
(Os
comentários abaixo referem-se apenas a duas das oito possíveis leituras para a
vigília)
1. I leitura (Gn 22,1-18)
Levantar-se
cedo indica a prontidão de Abraão e seu desejo de obedecer. Diante do chamado,
ele responde prontamente: ”Eis-me aqui!” (v. 1). Estou presente! Eu não fujo! É
a expressão de quem assume o projeto divino. Resposta de quem é chamado por
Deus para uma missão. Diante do Deus que chama, não cabe qualquer outra
resposta que não seja “eis-me aqui”. Quando o profeta Isaías foi chamado, sua
resposta foi semelhante. Quando Deus nos chama, não há outra possibilidade
válida a não ser nos apresentarmos diante dele. Isso não depende absolutamente
de nossa boa vontade, se desejamos ou não, se estamos dispostos ou tomados pela
preguiça, se temos talentos ou nos achamos incapazes de servir. Absolutamente
não! Ao ouvirmos a voz de Deus nos chamar, cabe-nos ouvir atentamente e, com
espírito de servos, seguir os passos a nós destinados.
Um
dos muitos nomes pelos quais Deus pode ser conhecido é Providência. Em meio a
tantas lutas e desafios que enfrentamos diariamente, cabe-nos ter a plena
certeza de que Javé é o Deus de toda a providência. Diante dos temores de que
alguma coisa nos falte, cabe-nos recuperar a mensagem de Abraão e meditar nela.
Ele, num momento marcado pela angústia e pela incerteza, pela contradição e por
um desafio enorme, levanta os olhos (v. 13). Não permanece com os olhos presos
ao chão e a respostas humanas. Levanta os olhos como se estivesse à procura de
uma saída e, ao fazê-lo, enxerga a resposta. Seus olhos encontram a resposta
dada por Deus. Este já havia providenciado tudo quanto era necessário para
resolver os maiores temores de Abraão. O patriarca já havia experimentado a
presença do Deus peregrino, do Deus todo-poderoso, do Deus do impossível, e,
agora, o Deus da providência estava bem à sua frente. É importante saber e
reconhecer que o Deus da providência conhece cada uma das nossas necessidades
e, mais do que isso, caminha alguns passos à nossa frente. Não estamos à mercê
das contradições deste mundo. Podemos ter a plena certeza de que o Deus que
caminha ao nosso lado providencia as soluções necessárias e definitivas. A
experiência de Abraão foi tão significativa, que o lugar ficou conhecido como
aquele em que Deus providenciou a resposta (v. 14). O povo de Deus, quando no
deserto, experimentou de muitas maneiras a Providência divina. Possivelmente a
história da providência de Deus, alimentando-os com o maná, tenha se refletido
na maneira de viverem. Contudo, tanto a história do maná quanto muitas outras existentes
na Bíblia são relatos distantes de cada um de nós. Precisamos perguntar sobre
nossas próprias experiências! Afinal, o Deus da providência é o mesmo ontem,
hoje e será para sempre! Às vezes, no entanto, é tão difícil confiar na
Providência de Deus. A exemplo de Abraão, cabe-nos aprender que ser dependentes
de Deus não representa nenhum contratempo, porque ele sempre há de se
manifestar como o “Deus da providência”.
2. II leitura (Is 55,1-11)
A
leitura traz um oráculo dirigido aos pobres. A situação deles é por demais
crítica, pois carecem de alimentos básicos para a sobrevivência. A vida deles
se encontra ameaçada. Correm, na verdade, o risco de morrer antes do tempo.
Morrerão não porque seja vontade de Deus ou porque não tenham nenhum projeto de
vida pelo qual valha a pena lutar. A morte se aproxima deles por mãos de
outros: dos injustos e violentos que os ameaçam e, com isso, agridem a imagem
de Deus neles. Encontramos no texto interessante releitura da tradição
davídica, ao afirmar a dimensão comunitária da aliança; ou seja, Deus faz
aliança diretamente com o povo. Nesse sentido, o poder, que nas mãos dos reis
era geralmente utilizado para oprimir o povo mediante a cobrança de impostos,
é, agora, entregue à comunidade a fim de que viva a prática da justiça e do
direito.
3. Evangelho (Mt 28,1-10)
Se
o Império Romano produz morte, a ação de Deus produz vida. Há completa
desestabilização e inversão de papéis no relato do Evangelho: Jesus é
ressuscitado e os guardas que cuidavam do túmulo “ficaram como mortos” (v. 4).
Grande alegria invade as mulheres ao receberem a mensagem do anjo. Elas são as
primeiras testemunhas da ressurreição. São as protagonistas do maior e mais
fundamental evento da vida cristã. As mulheres discípulas fazem o primeiro
anúncio. Pode-se até mesmo dizer que são as mulheres que evangelizam os
discípulos nesse momento. Cumpre observar que o conteúdo da mensagem que elas
anunciarão é, como o próprio anjo identifica, “Jesus, o crucificado” (v. 5).
Nesse caso, a ressurreição é um dos sinais principais de que a violência do
império contra Jesus e contra todos os pobres jamais terá a última palavra.
Anunciar que Jesus, o Crucificado, ressuscitou é uma mensagem contracultural.
Enquanto
as mulheres correm em direção aos discípulos, Jesus lhes aparece e sua primeira
palavra como ressuscitado é: “Alegrem-se” (v. 9). Ressurreição é sinônimo de
alegria. A morte foi vencida e, por isso, é necessário vibrar de alegria. O
império da morte e da violência foi vencido, alegrem-se. O projeto de justiça,
fraternidade e misericórdia de Jesus está vivíssimo, alegrem-se. Vida e alegria
aproximam-se de tal forma em Jesus, que ficamos surpresos. Viver com alegria
mesmo em meio à violência do império – de ontem e de hoje – é consequência do
Ressuscitado entre nós. A ressurreição implica, dessa forma, repensar a vida
desde o avesso, ou desde o contrário; representa resistência em meio à
violência, alegria em meio à tristeza, protagonismo em meio à sujeição.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
1)
Talvez possamos absorver a real intensidade da experiência abraâmica alterando
os termos que ali aparecem para sentir o forte impacto das palavras: retiremos,
por alguns momentos, o nome de Abraão e insiramos nosso próprio nome.
Conseguimos notar a diferença? Como responderíamos? Saibamos que Deus não se
confunde, muito menos nos confunde. Ele nos chama pelo nome a fim de vivermos
intensamente seu projeto. O princípio é bem claro: o chamado é sempre
individual. Dessa forma, algumas perguntas se fazem urgentes: O que o Senhor
quer de nós? Como podemos ser úteis para sua missão e para seu projeto de
transformação deste mundo?
2)
A presença do Cristo ressurrecto em nós tem a capacidade de nos libertar ou nos
guardar do marasmo. Somente a força da ressurreição pode interromper os passos dados
nos descaminhos da vida. Nele podemos repensar a vida, os caminhos, os projetos
e a maneira de vivermos como discípulos. Basta tão somente dizermos: “Eis-nos
aqui, Mestre”.
Luiz Alexandre Solano Rossi*;
Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues**
*é doutor
em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e
pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor
no programa de mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR) e no Centro Universitário Internacional (Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É
licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife)
e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma).
Professor na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do
roteiro do 4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/4-de-abril-vigilia-pascal-lasr/
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