"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"
[Parte X-2-A]
"Onde
houver trevas, que eu leve a luz"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER TREVAS, QUE EU
LEVE A LUZ!
Matrimônios "à moda
antiga" podem ser passíveis de críticas em muitos aspectos, mas há um
detalhe que parece consensual: eram mais resilientes e duradouros do que os
atuais. As razões dessa mudança também podem ser discutíveis, mas algumas
parecem ser recorrentes e aparentemente irrefreáveis. Tudo indica, por exemplo,
que a liquidez chegou para ficar, ao menos até que novos fatos sugiram o
contrário. Conscientes de que luz e trevas parecem ser a principal
matéria-prima de que tempo e espaço se servem para nos condicionar como seres
existentes, parece lícito perguntar: que tipo de trevas mais dano e prejuízo têm
causado ao vínculo conjugal nos tempos atuais, e que tipo de luzes se mostram
capazes de dissipá-las mais eficazmente, propiciando ao casal uma qualidade de
vida sustentável e uma convivência consistente e equilibrada? Esse é o foco do
segundo tópico da décima parte de nossa reflexão.
No relato divino da criação
descrito pelas Escrituras, a existência das trevas precede a criação da luz,
sendo, por sua presença, imediatamente dissipada. Contrariamente, a grande
maioria dos casamentos começa envolta em luz, sonhos, projetos, promessas e expectativas, e pouco a pouco vai
sendo envolvida por sombras e trevas. O princípio clássico de que o mal não
cria, mas apenas deforma uma realidade boa já existente, aqui se revela com
particular nitidez. Na medida em que a convivência avança, não há mais como
manter oculto nosso lado sombra, os aspectos reprimidos e não reconhecidos da
nossa personalidade. Claro que gostaríamos de continuar sendo apenas "luz,
raio, estrela e luar" para nosso parceiro; é compreensível e desejável que
a disposição seja essa. Mas, sob a forma de medo e vingança, culpa e vergonha,
pecado e castigo, nossos impulsos reprimidos acabam se impondo e contaminando
nossas melhores intenções. O fato é que tudo aquilo que, por razões diversas,
não pôde ser vivido ou integrado adequadamente à nossa personalidade - tais
como impulsos inadequados, emoções reprimidas, experiências dolorosas, feridas
emocionais e carências afetivas - começa a entrar em cena influenciando nossas
percepções, reações e decisões, sem que sequer nos demos conta disso. Trata-se
de uma atuação silenciosa, indireta, porém eficaz e persistente. Todo cônjuge,
sob esse aspecto, é como um cavalo de Tróia invadindo a vida do parceiro.
Na convivência em geral, e
no contexto conjugal em particular, nossas sombras não se apresentam como
sombras e menos ainda como trevas. Sutil e estrategicamente - ou nem tanto -
elas se mascaram como podem e conseguem. Nossos medos, por exemplo, podem se
camuflar de irritação constante, nossa insegurança, como controle acirrado,
nosso sentimento de rejeição, como indiferença implacável, nossas carências,
como exigências descabidas, e assim por diante. Ocorre, assim, uma espécie de
transfiguração desses conteúdos sombrios, que passam a se manifestar sob formas
consideradas mais toleráveis pelo parceiro e socialmente mais aceitáveis. Outro
detalhe importante é o seu caráter reativo: nossas sombras costumam ser
ativadas por fatores diversos que atuam como gatilhos. Determinadas situações,
certas palavras ou gestos, ou até mesmo nossos silêncios, acabam desencadeando
conteúdos antigos, muitas vezes incompatíveis e desproporcionais
ao estímulo que está sendo vivenciado. Na
verdade, estamos reagindo não apenas ao que está acontecendo no aqui e agora,
mas a tudo aquilo que, ao longo da vida, foi sendo negado, reprimido e
acumulado, e que permaneceu desconhecido e não elaborado. Nesse sentido, muitas
de nossas atitudes ou reações podem parecer desconectadas, exageradas ou sem
sentido para nosso parceiro, causando estranheza e incompreensão.
Como se isso não bastasse,
nossas sombras são impulsionadas por uma espécie de mecanismo de defesa e
autopreservação. Resistem em ser reconhecidas e identificadas, tendo em vista
que sua própria existência depende desse ocultamento. Quanto menos conscientes
e menos percebidas, mais consistente e eficaz é sua atuação. A tendência de
racionalização - justificação das próprias atitudes ou reações - e de atribuir
ao outro a causa exclusiva dos conflitos, buscam proteger o ego de um confronto
mais profundo consigo mesmo. Não se trata de má-fé deliberada, mas de um
mecanismo utilizado por nosso psiquismo buscando manter certa coerência
interna, ainda que quase sempre à custa da deterioração do relacionamento.
Esses conteúdos sombrios não se dissipam automaticamente com o tempo; ao
contrário, cada nova experiência mal processada adiciona uma camada a mais a
esse conjunto de questões afetivas e emocionais mal resolvidas, tornando-o mais
denso, mais sensível, e cada vez mais difícil de ser contido.
Por outro lado, toda sombra tende a buscar alguma forma de expressão e de manifestação. E se não encontra vias conscientes e saudáveis para fazê-lo, emerge nas entrelinhas do relacionamento em comentários aparentemente banais e desconfortáveis, em atitudes repetitivas e indesejáveis, em climas emocionais conflitivos sem razão clara ou motivo justificado. Não se trata de eventos isolados, desconectados uns dos outros, mas de um modo de presença contínuo e persistente, ainda que disfarçado, interferindo na forma como os parceiros se veem, se sentem e reagem um para com o outro. Permanecendo desconhecidas, não só interferem, mas alteram profundamente o curso dos acontecimentos e o nível de qualidade do relacionamento. Essa é a principal razão pela qual afirmamos anteriormente que as sombras e trevas do nosso mundo interior são muito mais perigosas e danosas do que aquelas do nosso mundo exterior.
Obs.: Esta décima parte, tópico 02 "A",
será complementada e finalizada com a décima primeira, tópico 02 "B"
de mesmo título.
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