terça-feira, 28 de abril de 2026

8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 

8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

                  [Parte X-2-A]

               "Onde houver trevas,  que eu leve a luz" [Atribuída a São Francisco de Assis]

ONDE HOUVER TREVAS, QUE EU LEVE A LUZ!

Matrimônios "à moda antiga" podem ser passíveis de críticas em muitos aspectos, mas há um detalhe que parece consensual: eram mais resilientes e duradouros do que os atuais. As razões dessa mudança também podem ser discutíveis, mas algumas parecem ser recorrentes e aparentemente irrefreáveis. Tudo indica, por exemplo, que a liquidez chegou para ficar, ao menos até que novos fatos sugiram o contrário. Conscientes de que luz e trevas parecem ser a principal matéria-prima de que tempo e espaço se servem para nos condicionar como seres existentes, parece lícito perguntar: que tipo de trevas mais dano e prejuízo têm causado ao vínculo conjugal nos tempos atuais, e que tipo de luzes se mostram capazes de dissipá-las mais eficazmente, propiciando ao casal uma qualidade de vida sustentável e uma convivência consistente e equilibrada? Esse é o foco do segundo tópico da décima parte de nossa reflexão.

No relato divino da criação descrito pelas Escrituras, a existência das trevas precede a criação da luz, sendo, por sua presença, imediatamente dissipada. Contrariamente, a grande maioria dos casamentos começa envolta em luz, sonhos, projetos,  promessas e expectativas, e pouco a pouco vai sendo envolvida por sombras e trevas. O princípio clássico de que o mal não cria, mas apenas deforma uma realidade boa já existente, aqui se revela com particular nitidez. Na medida em que a convivência avança, não há mais como manter oculto nosso lado sombra, os aspectos reprimidos e não reconhecidos da nossa personalidade. Claro que gostaríamos de continuar sendo apenas "luz, raio, estrela e luar" para nosso parceiro; é compreensível e desejável que a disposição seja essa. Mas, sob a forma de medo e vingança, culpa e vergonha, pecado e castigo, nossos impulsos reprimidos acabam se impondo e contaminando nossas melhores intenções. O fato é que tudo aquilo que, por razões diversas, não pôde ser vivido ou integrado adequadamente à nossa personalidade - tais como impulsos inadequados, emoções reprimidas, experiências dolorosas, feridas emocionais e carências afetivas - começa a entrar em cena influenciando nossas percepções, reações e decisões, sem que sequer nos demos conta disso. Trata-se de uma atuação silenciosa, indireta, porém eficaz e persistente. Todo cônjuge, sob esse aspecto, é como um cavalo de Tróia invadindo a vida do parceiro.

Na convivência em geral, e no contexto conjugal em particular, nossas sombras não se apresentam como sombras e menos ainda como trevas. Sutil e estrategicamente - ou nem tanto - elas se mascaram como podem e conseguem. Nossos medos, por exemplo, podem se camuflar de irritação constante, nossa insegurança, como controle acirrado, nosso sentimento de rejeição, como indiferença implacável, nossas carências, como exigências descabidas, e assim por diante. Ocorre, assim, uma espécie de transfiguração desses conteúdos sombrios, que passam a se manifestar sob formas consideradas mais toleráveis pelo parceiro e socialmente mais aceitáveis. Outro detalhe importante é o seu caráter reativo: nossas sombras costumam ser ativadas por fatores diversos que atuam como gatilhos. Determinadas situações, certas palavras ou gestos, ou até mesmo nossos silêncios, acabam desencadeando conteúdos antigos, muitas vezes incompatíveis e desproporcionais

 ao estímulo que está sendo vivenciado. Na verdade, estamos reagindo não apenas ao que está acontecendo no aqui e agora, mas a tudo aquilo que, ao longo da vida, foi sendo negado, reprimido e acumulado, e que permaneceu desconhecido e não elaborado. Nesse sentido, muitas de nossas atitudes ou reações podem parecer desconectadas, exageradas ou sem sentido para nosso parceiro, causando estranheza e incompreensão.

Como se isso não bastasse, nossas sombras são impulsionadas por uma espécie de mecanismo de defesa e autopreservação. Resistem em ser reconhecidas e identificadas, tendo em vista que sua própria existência depende desse ocultamento. Quanto menos conscientes e menos percebidas, mais consistente e eficaz é sua atuação. A tendência de racionalização - justificação das próprias atitudes ou reações - e de atribuir ao outro a causa exclusiva dos conflitos, buscam proteger o ego de um confronto mais profundo consigo mesmo. Não se trata de má-fé deliberada, mas de um mecanismo utilizado por nosso psiquismo buscando manter certa coerência interna, ainda que quase sempre à custa da deterioração do relacionamento. Esses conteúdos sombrios não se dissipam automaticamente com o tempo; ao contrário, cada nova experiência mal processada adiciona uma camada a mais a esse conjunto de questões afetivas e emocionais mal resolvidas, tornando-o mais denso, mais sensível, e cada vez mais difícil de ser contido.

Por outro lado, toda sombra tende a buscar alguma forma de expressão e de manifestação. E se não encontra vias conscientes e saudáveis para fazê-lo, emerge nas entrelinhas do relacionamento em comentários aparentemente banais e desconfortáveis, em atitudes repetitivas e indesejáveis, em climas emocionais conflitivos sem razão clara ou motivo justificado. Não se trata de eventos isolados, desconectados uns dos outros, mas de um modo de presença contínuo e persistente, ainda que disfarçado, interferindo na forma como os parceiros se veem, se sentem e reagem um para com o outro. Permanecendo desconhecidas, não só interferem, mas alteram profundamente o curso dos acontecimentos e o nível de qualidade do relacionamento. Essa é a principal razão pela qual afirmamos anteriormente que as sombras e trevas do nosso mundo interior são muito mais perigosas e danosas do que aquelas do nosso mundo exterior.

Obs.: Esta décima parte, tópico 02 "A", será complementada e finalizada com a décima primeira, tópico 02 "B" de mesmo título.

( * ) Texto enviado pelo autor, de Vitória(ES) via WhatsApp

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