4.2- JESUS, CAMINHO QUE CONDUZ AO PAI
“Aproximai-vos do Senhor,
pedra viva […] (1Pd. 2,4)
Depois de apresentar o Bom Pastor como expressão da solicitude,
do zelo e do cuidado de Deus para com o seu povo no domingo anterior, a
liturgia, hoje, catequeticamente nos exorta a refletir sobre a necessária,
íntima e indelével relação existente entre Jesus, o Bom Pastor, e o seu
rebanho. Esta relação emerge concretamente no mundo material na forma de uma
comunidade – a Igreja – povo santo que nasce de Jesus e cujos membros continuam
o “caminho” de Jesus, dando testemunho do Reino de Deus no mundo, através da
confiante entrega ao pai e na partilha do amor em gestos concretos a
humanidade.
A primeira
leitura (At. 6,1-7) apresenta-nos os primeiros passos uma
jovem comunidade, recém nascida do lado aberto do Senhor e em “desenvolvimento”
orquestrado pelo Espírito Santo. Aquilo que poderia contribuir para criar uma
divisão – a insatisfação de alguns fiéis que se sentem preteridos no
atendimento – se torna um meio para a providência fazer surgir carismas e
serviços na comunidade. O Espirito Santo faz surgir a “diaconia” para serviço
da caridade aos famintos. Vemos aqui o germe do sacerdócio ministerial (bispos,
presbíteros, diáconos). Deste modo a “família de Deus” (Igreja) vai tendo seu
rosto revelado. Trata-se de uma comunidade santa, ainda que constituída por
humanos pecadores. Uma família estruturada hierarquicamente que surge não para
perpetuar o poder de dominação, mas para facilitar o serviço caritativo
definido por Cristo a maior autoridade. Um serviço exercido por meio do diálogo
fraterno. Uma família eclesial que recebe os dons divinos como dispensadores
dos seus benefícios, não como donos. Estes dons são colocados a serviços dos
irmãos e irmãs. Em suma, uma comunidade cujo “nascimento” é impulsionado pelo
Espírito Santo; é Ele que a anima, lhe dá vida e a rejuvenesce. E é este mesmo
Espírito que lhe confere a força e a coragem para permanecer sendo testemunha
ocular de Jesus Cristo ao longo das eras na história. Nem sempre conseguimos
assistir serenos os caminhos da missão Igreja. Muitas vezes queremos intervir
para direcioná-la para onde nosso discernimento humano presume ser o adequado.
Quando formos assaltados por esta inclinação ou temor, lembremos: “o Espírito
Santo é quem conduz a Igreja”.
A segunda
leitura (1Pd. 2,4-9) como tem feito há algumas semanas,
nos faz permanecer no caminho catequético no qual que Pedro conduz suas
comunidades nascentes do final do século I e a nós também. Aqui, nos são
apresentadas algumas das primeiras analogias e imagens que irão definir a
Igreja e sua Missão. Recordando a eclesiologia do A.T., a Igreja que é vista
como o “novo Israel” é chamada de “raça escolhida, Sacerdócio do Reino e nação
santa”, pois do mesmo modo que Israel foi constituído por Deus para manifestar
a sua presença e santidade no meio das nações, assim a Igreja, o povo
sacerdotal, foi escolhido por Deus para santificar o mundo. O apóstolo Pedro,
usa a imagem da pedra angular e das outras pedras utilizadas na construção de
um edifício para se referir ao fundamento da Igreja que é Cristo e do lugar dos
fiéis na sua construção. Esta comunidade chamada a ser “templo espiritual”,
deve se manter consciente de que é na vida de Cristo, pedra viva e honrosa, que
se deve construir a vida dos discípulos. Todos adquiriram a solidez e a firmeza
graças a fé e ao Batismo que os tornaram filhos de Deus, membros de Cristo e
templos do Espírito Santo. Em nossa vida eclesial, em meio aos desafios que a
vida comunitária apresenta ou impõe, como membros deste templo espiritual,
recordemos que somos chamados para colaborar no seu crescimento e na sua
solidez como testemunhas de Cristo ressuscitado no meio deste mundo sempre
prontos a dar razões da sua fé e da sua esperança. Por tanto, se fará sempre
necessário evitar se tornar pedra solta pela desobediência e que ocasionalmente
se tornará pedra de tropeço para os irmãos e irmãs.
O Evangelho
(Jo. 14,1-12) nos coloca como atentos ouvintes do discurso
íntimo que Jesus oferece aos discípulos logo depois da Última Ceia. O Mestre
faz sua despedida e proclama suas últimas recomendações. Os discípulos sentem o
ambiente ser tomado pelo amargo gosto de um luto antecipado. Isto gera
preocupação e inquietação. Afinal, quem os guiará se o Mestre desaparecer? O
que se segue são palavras tão substanciais que permanecerão alimentando o
coração e a fé dos discípulos ao longo de todas as eras.
“Não se
perturbe o vosso coração” (Jo 14,1). Quem nunca sentiu o coração
perturbado, inquieto, temeroso, ferido, machucado? Nestas frágeis condições o
coração procura alento, abrigo, repouso e um sentido para continuar a pulsar. É
interessante perceber que embora esteja se dirigindo a muitos discípulos,
Jesus, utiliza o termo “coração” no singular. Pois, mesmo muitos, eles agora
formam um só corpo e um só coração em Cristo (Rm. 12,5). Assim, eles compreenderão que
é na unidade e solidariedade eclesial que encontrarão a paz que necessitam. (At. 4,32).
Eles são a família de Deus. E nesta família, há lugar para todos
(Jo. 14, 2-3).
Basta que todos os homens escutem as suas propostas do Reino e que aceitem
viver como humanidade nova no amor e no dom da vida.
E como chegar a esta morada? Qual é a direção e o caminho
correto? Aqueles que conviveram com Jesus sabem a resposta. Jesus Cristo
é Caminho.
Nele se encontra a Verdade.
Por ele se alcança a Vida verdadeira
e abundante. Nele, com Ele e por Ele se vai ao Pai. Em nossa história,
diariamente se nos apresentam outros caminhos tão barulhentos e cheios de lábia
como os vendedores ambulante que nos abordam nas ruas de uma cidade ruidosa.
Caminhos com luzes repletas de sedução que por um instante preenchem nosso
coração, mas que rapidamente o deixam vazio, sequioso, frustrado e
insatisfeito. É preciso resistir a estes caminhos, pois nenhum deles nos levará
ao nosso destino filial.
Não há razão ou necessidade para a ansiosa afirmação de Filipe.
Como ele pode ainda não conhecer o Pai? Tal afirmação talvez expresse o desejo
de um coração que almeja contemplar uma manifestação gloriosa aos moldes das
teofanias do Antigo Testamento. Todavia, não há necessidade de anjos
vingadores, raios, trovões ou terremotos, pois diante dos discípulos está o
Filho, Deus encarnado, manifestação concreta e palpável do amor e da vontade do
Pai. Quem conviveu com Jesus, conheceu de perto o pulsar do amoroso coração de
Deus.
Nosso grande problema é que mesmo sabendo que somente Cristo,
Caminho, Verdade e Vida, pode satisfazer nossa sede de amor e dignidade,
continuamos, mesmo depois de dois mil anos da plenitude da revelação (a
Encarnação) a procurar atalhos e caminhos alternativos. Sabemos como voltar
para a casa do Pai, pois Cristo percorreu o caminho para nos ensinar. Ele nos
deixou um mapa: sua vida, sua palavra, os seus gestos de amor e a sua morte
(dom pleno da vida) permanecem manifestando a todos em um silêncio eloquente qual
o itinerário que devemos percorrer.
A “casa do Pai” é a comunidade dos seguidores de Jesus (a
Igreja). Os discípulos devem seguir este caminho de obediência ao Pai, pois
somente assim se tornarão a casa onde habita a plenitude da divindade: o Pai, o
Filho e o Espírito Santo.
Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora
da Conceição – Farias Brito.
https://diocesedecrato.org/homilia-do-5o-domingo-da-pascoa-ano-a/
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