4.2- 5 de abril – DOMINGO DA PÁSCOA (LASR)*
A Páscoa como o novo êxodo
Por
Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues**
I. INTRODUÇÃO GERAL
A festa da Páscoa
representa o centro de nossa fé. Muitos líderes religiosos viveram e morreram,
mas somente o túmulo de Jesus se encontra vazio. Na libertação de Jesus, somos
todos libertados. A morte, que era poderosa, tornou-se frágil. A maior e mais
terrível força já existente, que ameaçava a integridade e a dignidade do ser
humano, foi vencida, de uma vez por todas, pela ressurreição de Jesus.
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 10,34a.37-43)
Na primeira leitura,
encontramos o discurso que Pedro pronunciou na casa do centurião Cornélio.
Nesse discurso é sublinhada, com insistência, a participação de Deus nos
acontecimentos fundadores da Igreja: “Deus ungiu a Jesus com a força do
Espírito Santo”; “Deus estava com ele”; “Deus o ressuscitou ao terceiro dia”;
“Deus o nomeou como juiz dos vivos e dos mortos” (v. 38.40.42). O anúncio de
Pedro é que o acesso à Igreja, que constitui um caminho de libertação, foi
aberto por Deus a todos os homens e mulheres, tendo como única condição a
conversão do coração. Estamos diante de incrível dupla conversão: tanto Pedro
quanto Cornélio passam por um processo de transformação. Fronteiras e
preconceitos devem ser vencidos, e, para isso, a presença do Espírito Santo é
fundamental. O encontro de Pedro com Cornélio será de enorme importância para
entendermos como, com base no amor de Cristo, podemos ser mais tolerantes uns
para com os outros, apesar de nossas diferenças. Em Jesus já não há razão para
pensarmos em impurezas. Não há cidadão de segunda classe e, por conta disso,
uma revolução social tem início. Numa sociedade onde os melhores são
diferenciados dos piores, os maiores diferenciados dos menores, Jesus demonstra
que o humano é muito mais importante do que a possibilidade de dividi-lo em
puro ou impuro.
2. II leitura (Cl 3,1-4)
A ressurreição de Jesus
representa nossa própria ressurreição. Esta traz novo estilo de vida, o qual se
define como a busca das coisas do alto. Todavia, não se trata de trocar as coisas
da terra pelas do alto e vivermos como se fôssemos alienados. O mundo em que
vivemos foi criado por Deus; ele mesmo invadiu a história quando libertou os
escravos no Egito e, supremamente, quando o Verbo se fez carne, assumindo a
história da humanidade como se fosse sua própria história. Não é o caso,
portanto, de desprezar a realidade do mundo em que vivemos, e sim de saber que
temos um projeto do alto para este mundo. A valorização da história deve ser
refletida na maneira como se vive o projeto de Jesus na realidade. Deus tem uma
“densidade” histórica muito perceptível. O Deus “incriado” invade a história
humana para libertar todos quantos se encontrem escravizados.
3. Evangelho (Jo 20,1-9)
A Páscoa cristã
representa um novo êxodo; uma nova passagem, na qual Deus deseja fazer que as
pessoas saiam do país da servidão e caminhem em direção à liberdade. Longe das
idolatrias que podem impedir o caminhar, deverá prevalecer o mandamento do
amor. A libertação pascal acontece a partir do momento em que o discípulo
missionário de Jesus sai de sua prisão pessoal e caminha em direção a Deus e
aos irmãos e irmãs, a fim de amá-los. A paixão e a morte de Jesus significam
que é Deus, e não a força humana, que nos liberta de nossos limites e
impossibilidades. A interpretação do mistério pascal através dessa lente nos
permite pensar em iniciativas de libertação social, econômica, ideológica e
cultural de todos os oprimidos. Os cristãos, ao vivenciarem o programa de
libertação presente na Páscoa, passam a colaborar com todos os que recusam o
triunfo do ódio. Por ser puro dom de Deus, a ressurreição preserva o ideal da
libertação de todas as armadilhas que tentam prejudicar o ser humano. Nesse
sentido, é possível e necessário compreender a ressurreição como uma realidade
holística, ou seja, uma realidade produzida por Deus, que busca a libertação
integral do ser humano.
Uma cena com
características curiosas: por correr mais depressa do que Pedro, o “outro
discípulo” chegou antes ao sepulcro. Esse discípulo, “que queria ver Jesus”,
viu e creu, conforme o evangelista (v. 8). Todo o Evangelho de João concede a
esse amigo de Jesus certa preeminência em relação a Simão Pedro. Na manhã da
Páscoa, é exatamente ele que tem a esplêndida intuição da fé no Ressuscitado.
Uma fé libertadora, que se apresenta também como um presente do Deus vivo. Com
a notícia do túmulo vazio, Pedro e o outro discípulo saem em desabalada
carreira. Quem ama sai correndo em direção ao amado. Ao chegar ao túmulo e
vê-lo vazio, o discípulo sem nome espera a chegada do seu companheiro. Ele não
se considera superior a Pedro. É paciente e espera. Podemos muito bem
compreender, porém, que somente aquele que mais ama consegue ver coisas que os
outros não veem. Através dos olhos desse discípulo, podemos ver que Jesus está
vivo.
No primeiro dia da
semana, conforme o texto bíblico, surge a nova criação que emerge da morte e
ressurreição de Jesus. Foi num domingo que ele nos recriou a partir de sua
ressurreição. Muito possivelmente, Maria Madalena representa a comunidade que
está sem a perspectiva da fé e, por isso, não consegue assimilar a morte de
Jesus. Como poderia ter morrido aquele em quem depositávamos toda a nossa fé?
Ao olhar para o túmulo, ela pensava que ali Deus havia atingido seu limite. Um
lugar que ficaria permanentemente marcado no imaginário do povo como o local do
fracasso de Deus. Todavia, ela busca algo para preencher o vazio de seu
coração. Anseia por vida, dignidade e amor. A fé sempre exige de nós algo a
mais. Todos podemos ver as mesmas coisas, mas somente aquele que olha com fé
poderá transcender-se a partir do olhar. O discípulo amado viu exatamente as
mesmas coisas vistas por Pedro. Pode-se dizer que a qualidade do olhar fez toda
a diferença. Mesmo que tudo possa indicar o contrário, aquele que olha com fé
continua a caminhar; vê além dos horizontes e, mesmo que seja inverno, consegue
antecipar a primavera.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
1) As atitudes de Pedro
e Cornélio muitas vezes ressurgem nos comportamentos de cristãos que, não raro,
se apresentam como intolerantes e com o desejo de separar as pessoas. Cultivam
preconceitos contra tudo o que é diferente do próprio pensamento e imaginação
e, por conta disso, em vez de buscarem a aproximação com as pessoas, acabam por
promover o afastamento. Como evangelizar nesse caso?
2) Numa sociedade onde
os melhores são diferenciados dos piores, os maiores diferenciados dos menores,
Jesus demonstra que o ser humano é muito mais importante do que a possibilidade
de divisão. Quais seriam as práticas evangélicas que nos levariam a viver unidos,
e não desunidos?
Luiz Alexandre Solano
Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues**
*é
doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)
e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor
no programa de mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR) e no Centro Universitário Internacional (Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É
licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife)
e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma).
Professor na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do
roteiro do 4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/5-de-abril-domingo-da-pascoa-lasr/
Nenhum comentário:
Postar um comentário