10- SANTO AGOSTINHO E A GRAÇA DE DEUS
Frei Mário Sérgio, OSA.
Neste artigo enfrentaremos a difícil questão da
graça em Santo Agostinho. Nosso santo é chamado de "doutor da graça"
justamente por sua defesa incansável dela. Confesso, no entanto, que o tema é
profundo e repleto de detalhes que escapam em um artigo de poucas linhas. Por
isso, falarei de modo geral, mas prometo não desampará-los e, futuramente,
trazer novas reflexões sobre o tema.
Para entendermos a problemática da graça em
Agostinho, que é inseparável da questão da liberdade e da nossa ação no mundo,
devemos partir de uma pergunta fundamental: o homem, com suas próprias forças e
méritos, pode sozinho ser bom, justo, alcançar a verdade e a felicidade? Se
você disser que sim, então surge outra pergunta: por que Cristo morreu na cruz?
Ele morreu na cruz justamente para nos reconciliar com Deus, para ser uma ponte
entre a humanidade e o Pai, pelo menos segundo a antiga tradição teológica da
Igreja. Sua morte significa que o homem, sozinho, não é capaz de lidar com sua
história e existência.
Mas, e se eu disser que o homem, com suas próprias
forças, pode se salvar? Nesse caso, você precisaria explicar o porquê da morte
de Cristo e de toda a sua encarnação. Sua morte teria sido em vão? Além disso,
você teria que se opor a toda uma tradição bíblica, reinterpretando-a ou
negando-a completamente. Há um fato, e o fato é este: Deus morreu por nós, e
sua morte foi gratuita; isso aconteceu porque o homem, por si só, não é capaz
de dar conta de sua vida.
Note-se que a discussão a discussão sempre gira em
torno de uma questão central: onde colocamos mais ênfase? Na força humana ou na
livre iniciativa da graça de Deus? Agostinho foi o defensor da livre iniciativa
da graça divina, enquanto muitos de seus adversários acentuavam os méritos e as
forças humanas. Os mais aguerridos opositores de Santo Agostinho nesse campo
foram os pelagianos. O nome desse movimento se deve a Pelágio, seu iniciador.
Pelágio admirava Agostinho, mas a discussão entre os dois começou quando
Pelágio estava na casa de alguns amigos, onde se lia e comentava as Confissões de
Santo Agostinho. Em certo momento, leu-se uma passagem, que é uma bela
oração: "Senhor, concede-me o que me ordenas e depois ordena-me o
que quiseres" (Confissões, X, 29). Essa frase despertou a
ira de Pelágio, que protestou, declarando-a uma blasfêmia, pois, segundo ele,
tirava toda a importância dos méritos e das forças humanas.
Pelágio, sejamos justos, não era uma pessoa má; ao
contrário, era um monge muito virtuoso e famoso pelo seu ascetismo. Ele
defendia, entre outras coisas, que o homem, com suas próprias forças, poderia
praticar o bem. Se Deus ordena fazer as coisas, como, por exemplo, os
mandamentos, isso significa que o homem, por suas próprias forças, também pode
cumpri-los. Do contrário, Deus não teria dado os mandamentos. Pelágio também
negava os efeitos do pecado original. Segundo ele, o pecado de Adão foi apenas
um mau exemplo, que prejudicou apenas ele e não toda a humanidade. Ele possuía
uma visão muito otimista do homem, talvez excessivamente otimista. Alguns
estudiosos classificam seu pensamento como um "soberbo naturalismo",
devido à sua ênfase na razão e nas forças humanas.
Do outro lado, está Agostinho, que imediatamente
percebe a necessidade de defender a essência do cristianismo, que é a
manifestação da graça de Deus na história, independente dos méritos humanos.
Para ele, os discursos de Pelágio e dos pelagianos esvaziavam a cruz de Cristo,
pois, se o homem pode se justificar sem a graça de Cristo, então, como disse
São Paulo, "a morte de Cristo não serve para nada" (cf.
Gálatas 2,21). Além disso, as Escrituras são claras quando dizem: "O
que tens que não tenhas recebido?" (1 Coríntios 4,7) ou "Sem
mim nada podeis fazer" (João 15,5) e "É Deus que
opera em vós tanto o querer quanto o realizar" (Filipenses 2,13).
Agostinho referia-se aos pelagianos como inimigos da cruz de Cristo.
Ele exemplificava a necessidade da graça em todos
os momentos da nossa vida com uma imagem: “assim como o olho, mesmo
estando perfeitamente são, não pode ver os objetos sem a ajuda da luz, da mesma
forma o homem, mesmo que esteja espiritualmente são, não pode viver bem se não
for auxiliado pela luz eterna da justiça” (De natura et gratia 27,
30).
Fonte Centro de Estudos
Agostinianos
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