5.2-20
de setembro – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
Autêntica gratuidade!
1.
INTRODUÇÃO GERAL
O testemunho de
autenticidade de São Paulo ajuda a compreender que seguir Jesus Cristo não é
questão de privilégios e méritos, mas de configuração integral da vida: “o
viver é Cristo”. O risco para o qual o profeta Isaías chama a atenção é o de
manipular Deus por meio de pensamentos e conceitos que apequenam seu “tamanho”.
Como “trabalhadores da última hora”, somos chamados a viver uma vida de fé que
se identifica com a gratuidade divina e vence a tentação de querer que Deus
realize aquilo que achamos que ele deve realizar.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 55,6-9)
Isaías dirige as
palavras da primeira leitura deste domingo aos que vivem no exílio da
Babilônia. O convite é para fazerem uma mudança de estilo de vida: ao invés de
quererem que Deus faça o que eles desejam, o profeta adverte sobre a
necessidade de orientar a vida para Deus: “Abandone o ímpio seu caminho, e o
homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele,
volte para nosso Deus, que é generoso no perdão” (v. 7).
É tentadora a vontade de
“controlar” Deus; no entanto, a profecia ajuda a compreender que ele não é um
ídolo. Deus é do tamanho de si próprio, é do tamanho do amor, é do tamanho do
perdão e “foge” de qualquer tentativa de aprisionamento ou de manipulação por
parte dos nossos pensamentos. Converter-se significa identificar-se, como
pessoa, com Deus e com sua grandeza: “Meus pensamentos não são como os vossos
pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor” (v.
8).
O chamado à conversão
dos exilados é muito significativo também para nosso tempo. A liturgia da
Palavra adverte sobre o risco de uma fé meritocrática, que não deixa espaço à
graça, à gratuidade, para permitir que Deus seja ele mesmo com “os pensamentos”
que lhe são próprios. Isso significa, ainda, possibilitar que a imagem de Deus
que carregamos seja questionada, que o conceito de Deus que aprendemos possa
ser amadurecido, a fim de que a fé seja mais autêntica e sintonizada com o Deus
revelado pela Sagrada Escritura.
2. II leitura (Fl 1,20c-24.27a)
A carta de São Paulo aos
Filipenses vai nos acompanhar nestes próximos domingos. O apóstolo tinha um
carinho especial pelas pessoas dessa comunidade, que lhe demonstrou afeto e
atenção. Escreveu a carta enquanto estava na prisão, em Éfeso, e recebeu da
comunidade de Filipos alimento, roupas e algum dinheiro. Muito agradecido,
embora em momento de sofrimento extremo, Paulo testemunhou as dificuldades da sua
vida: “Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela
minha morte” (v. 20). Ele sente no corpo a fraqueza, a dor, e orienta o
sofrimento para a cruz de Cristo.
O testemunho de São
Paulo sempre inspira nossa vida cristã: incansável na pregação, nas viagens
para comunicar o Evangelho de Jesus Cristo, nas cartas que orientam para viver
na prática o seguimento de Jesus e ensinam os fundamentos da fé, na aflição das
prisões e das condenações, no discernimento das situações em que não foi
compreendido, ele continua tendo a força de anunciar que faz tudo o que faz
porque, nas suas palavras, “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (v.
21). Mesmo com todas as adversidades e contradições da vida, “só uma coisa
importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo” (v. 27).
3. Evangelho (Mt 20,1-16a)
O Evangelho deste
domingo traz a parábola que Jesus contou aos discípulos sobre um patrão que
saiu pelas praças para buscar trabalhadores para a vinha. Logo cedo, o patrão
encontrou os primeiros e “os contratou por uma moeda de prata” (v. 2). Às 9 da
manhã, continuou procurando e contratou outros (v. 3), fazendo o mesmo ao
meio-dia, às 3 (v. 5) e às 5 da tarde (v. 6), tendo os últimos trabalhado
apenas uma hora.
No final do dia de
trabalho, pagou cada um deles conforme tinha acertado: uma moeda de prata. Os
últimos receberam antes e, quando chegou a vez dos primeiros, animados,
pensavam que ganhariam muito mais, mas também receberam aquilo que fora
combinado: uma moeda de prata. Como não paravam de murmurar, um deles recebeu
uma advertência séria do patrão: “Estás com inveja, porque estou sendo bom?”
(v. 15).
A parábola rompe com a lógica do mérito que está instalada na
nossa mente e no nosso coração. O que está em jogo não é a relação econômica de
custo versus benefício.
A parábola ajuda a compreender e a viver a fé: uns acolheram antes, outros mais
tarde, mas para todos a graça, a bênção, o amor do Pai são os mesmos! Somos
nós, hoje, os “trabalhadores da última hora”! Isso não significa que quem acreditou
primeiro tenha privilégios.
A parábola provoca a
trocar a lógica do privilégio pela lógica da gratuidade. A fé é um mistério:
uns a receberam e vivem com maturidade, outros a descobriram e vivem com
imaturidade, e outros ainda não a vivem e não deixam de ser pessoas boas. Não
cabe a ninguém exigir a maior parte e querer apontar a direção em que Deus deve
ser bom!
Pior ainda pode ser a
tentativa de estabelecer com Deus uma relação mercadológica: “Eu ofereço isso e
quero em troca aquilo!” Deus é sempre bom, sempre gratuidade. A fé é um
mergulho nesse amor para amadurecer a vida no caminho do bem, superando a
lógica dos mais fortes, dos privilegiados, deixando Deus ser Deus, do jeito de
Deus!
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A gratuidade é um estilo
de vida. Por que fazemos o que fazemos? Aquilo que realizamos na nossa vida é
orientado para qual direção? Para o mérito ou para a gratuidade? Para o aplauso
ou para a verdade? Crescer na gratuidade é compreender aquilo que Deus espera
de nós e conformar nossos pensamentos aos dele. Isso exige um processo de
conversão autêntico que todos somos convidados a assumir. É muito importante
não esquecer aquilo que também Antoine de Saint-Exupéry ensinou: “O amor
verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca”.
Pe.
Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon
André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São
Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em
Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia
Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/20-de-setembro-25o-domingo-do-tempo-comum-2/
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