5.3-HOMILIA DO 25° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
O REINO DE DEUS É GRAÇA E GENEROSIDADE
“Meus pensamentos não são
como os vossos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor.”
(Is. 55,8)
A liturgia da Palavra deste domingo convida-nos a adentrar no
coração amoroso de Deus a fim de compreendermos que os caminhos e pensamentos
divinos estão acima dos caminhos e pensamentos humanos. Em vista disto, os
fiéis devem renunciar aos planos e a lógica egoísta e materialista do mundo e
se quiserem partilhar o Reino de Deus.
O trecho retirado de evangelho de Mateus narra uma “parábola do
Reino” através da qual Jesus catequiza os discípulos para que eles compreendam
a realidade do Reino e se tornem capazes de testemunhá-lo (Mt.20,1-6a). Apresentando o agir
de Deus através da imagem de um patrão que age com generosidade com todos os
trabalhadores independente do horário que chegaram ao trabalho, o Mestre lembra
aos discípulos que seu Pai convida à salvação todos os seres humanos, sem levar
em conta a origem étnica, o tempo de acolhida da fé, os seus méritos, suas
qualidades ou seus erros cometidos no passado. A Deus interessa apenas a
decisão e convicção com que se acolhe o seu convite. Independentemente do nosso
passado, Cristo pede-nos uma transformação da nossa mentalidade, uma conversão
pastoral, pessoal, eclesial e comunitária, de modo que a nossa relação com Deus
não seja marcada por interesse em recompensas, mas pelo amor e pela gratuidade.
A parábola serve para denunciar a concepção errada que alguns
possuíam de Deus e da salvação. Os fariseus, por exemplo, enxergavam Deus como
um patrão que pagava as ações do ser humano. Se o homem cumprisse
escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus lhe pagaria
uma recompensa. (cf: parábola do fariseu e do publicano, Lc. 18,9-14) Segundo esta imagem,
Deus não dá nada, é o homem que conquista tudo por próprio mérito. Esta
concepção errada da fé pode conduzir inclusive a heresia do pelagianismo[1] que negava a ação
benevolente da Graça e colocava o ser humano como protagonista exclusivo da
própria salvação. Assim, Deus se torna uma espécie de comerciante, que todos os
dias aponta no seu livro de registros, as dívidas e os créditos do homem, que
no final de semana faz as contas, vê os dias trabalhados e entrega a recompensa
ou aplica um castigo. No entanto, o Deus Pai que Jesus conhece e cuja
misericórdia é refletida no agir de Jesus, não é um contador, com calculadora
ou lápis na mão fazendo as contas da humanidade para lhes pagar conforme os
seus merecimentos. Ele é um pai, cheio de bondade e compaixão, que ama todos os
seus filhos igualmente e que derrama sobre todos, sem excepção, a
superabundância do seu Amor.
Por isto, na primeira leitura (Is.55,6-9) encontramos o profeta Isaías, que cumprindo a sua missão
profética entre os exilados da Babilônia, procura consolar sua fé e manter
acesa a chama da esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e
decepcionado. O povo de Israel, ao longo de 70 anos de sofrimento no cativeiro
babilônico, tomou consciência das suas falhas e infidelidades, e descobriu que
viver longe de Deus não conduz à felicidade. O convite do profeta é, portanto,
para um recomeço. Assim como o povo de Israel depois do exílio, somos todos
convidados a converter-nos. Devemos deixar o passado para trás e ouvir
decididos o convite “para trabalhar na vinha” e prontamente responder com
convicção.
A segunda leitura (Fl. 1,20c-24.27a) nos apresenta o
exemplo do Apóstolo Paulo. Ele não estava entre os primeiros discípulos. Ele se
quer conheceu Jesus no período da missão. Foi encontrado por Cristo no caminho
de Damasco, ouviu o convite e deixando o passado para trás iniciou sua missão
para levar a proclamação do Evangelho até os confins da terra. São Paulo
transformou Jesus Cristo no centro de sua nova caminhada. Deixou sua vida de
perseguidor e tornou-se arauto, anunciador da misericórdia de Deus. Paulo foi
inclusive muito perseguido e rejeitado por escrupulosos que afirmavam que ele
não era verdadeiro Apóstolo porque não conheceu Jesus Cristo no período da sua
Paixão, Morte e Ressurreição. Nos deve cativar e espantar a centralidade
de Cristo na vida de Paulo. Mas não apenas deve nos admirar, isto deve-nos
levar a viver do mesmo modo. Falo novamente aqui de nossa tendência a esquecer
o que é essencial e se fixar no que é secundário, mesmo que este secundário
seja importante. É mais relevante falar de Cristo e do seu Evangelho do que
saber decorado todo o Código de Direito Canônico. É mais notável testemunhar
Cristo e os seus valores do que falar da hierarquia da Igreja. É mais valoroso
anunciar Cristo e a sua proposta de Reino do que debater questões de
disciplina. Direito Canônico, Disciplina, Hierarquia devem servir para
aproximar. São meios para anunciar Jesus Cristo, não cercas ou grades para
separar. Assim, devemos nos perguntar: Cristo está, verdadeiramente, no centro do anúncio que
realizamos em nossas ações eclesiais aos seres humanos do nosso tempo?
Meus irmãos e irmãs com os quais tenho a graça de compartilhar a
mesma fé, a parábola nos lembra assim, que todos têm lugar no Reino de Deus e
na Igreja. No entanto, todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus, no seu
modo de ser e agir, garante inegavelmente que sim! Não existem trabalhadores
(discípulos missionários) mais importantes do que outros. Seu Reino não possui
trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que existe são homens e
mulheres das mais diversas idades que aceitaram o convite do Senhor (infância,
adolescência, adulto, idoso, não interessa) e foram servir na sua vinha.
As parábolas do Reino são um tremor desconcertante que abala a
estrutura dos nossos pensamentos interesseiros. Em tempos de uma sociedade
narcisista, egocêntrica e enraizada na falsa meritocracia, contemplar a
benevolência de Deus que acolhe e aceita todos que estão dispostos a deixar sua
vida passada para trás e viver no seu Reino, trará algumas dificuldades para
nossa consciência baseada em interesses e recompensas.
A partir da lógica da misericórdia de Deus, que sentido que faz as
atitudes de quem se sente dono da comunidade porque está nela há mais tempo do
que os outros? Exemplo concreto: ao longo destes dez anos de ministério convivi
muito com o serviço denominado ECC. Se trata de um importante serviço
evangelizador das famílias e pelo qual tenho muito carinho. Todavia, sua
pedagogia muitas vezes jaz sem eficácia porque alguns casais permanecem com o
mesmo pensamento dos primeiros trabalhadores que foram chamados na parábola.
Ouvi muitas vezes em reuniões: “Eu estou há 12 anos no ECC. Tenho mais
direito”. E esta mesma atitude repercute, se repete, nas coordenações de capela
comunitárias, nas pastorais e movimentos, etc.
Encontramos cristãos que não entendem como Deus ama, aceita e
convida a todos a se aproximar da sua infinita e inesgotável misericórdia.
Pessoas que estão engessadas na mesma atitude do filho que não aceita o irmão
que gastou a herança e volta para casa machucado e faminto (Lc. 15,11-32). igualmente os
primeiros trabalhadores da parábola de hoje ou o irmão mais velho da parábola
do Filho Pródigo, muitas vezes nos sentimos injustiçados porque alguém que
passou a vida longe de Deus agora faz parte da Igreja ou de nossa comunidade
local. E o resultado disto é que nos tornamos invejosos e condenamos a lógica
de misericórdia. Às vezes, nós nos achamos no direito de censurar Deus e sua
compaixão benevolente por causa da dureza de nosso coração. Queremos impor a
nossa frieza e indiferença, fruto do pecado, acima da compaixão infinita de
Deus. Esquecemos que somos nós que fomos feitos a imagem e semelhança de Deus e
queremos impor nossa imagem fria, débil, quebrada pelo pecado e amargurada
sobre Ele.
Na comunidade cristã, no Reino de Jesus, a idade, o tempo de
serviço, a cor da pele, a quantidade de moedas que trazemos no bolso, a posição
social ou hierárquica, não servem para oferecer privilégios ou tornar superior
aos outros irmãos. Embora tenhamos missões e funções diversas devido as
necessidades da evangelização, todos são iguais em dignidade e todos devem ser
acolhidos, amados e considerados da mesma forma. Contemplemos a vocação do
Apóstolo Paulo que acabamos de ouvir na segunda leitura. Quem é São Paulo senão um
destes trabalhadores que chegaram atrasados ao trabalho na parábola? E este “trabalhador
tardio” se tornou o maior missionário evangelizador de todos os tempos!!!
Alguém que conheceu Jesus Cristo no “horário da tarde” foi o responsável por
levar o Evangelho aos confins da terra e se tornou o “doutor das Nações”.
O que importa é que o quanto antes ouvirmos o chamado, o quanto
antes abandonarmos a vida passada, o quanto antes nos convertermos, mais tempo
seremos felizes na vinha do Senhor e saborearemos a presença de Deus que é a
verdadeira recompensa que deveríamos buscar tenazmente.
Oremos: Ó Deus de bondade, sempre
disposto a convidar a humanidade a conversão. Abre os nossos olhos, as nossas
mãos e os nossos corações, Senhor de infinita ternura, ensina-nos, pelo teu
Espírito, a acolher a todos que querem servir no anúncio do Teu Reino. Amém.
Pe. Paulo Sérgio Silva.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.
[1] O Pelagianismo trata-se de uma
heresia iniciada por um monge da Bretanha, chamado Pelágio. Ele afirmava que a
Graça de Deus não era necessária para que o homem realizasse atos de virtude.
Cristo morreu na cruz e deu o exemplo. A heresia induzia ao grave erro de negar
a necessidade de Deus para nossa salvação.
https://diocesedecrato.org/homilia-do-25-domingo-do-tempo-comum-ano-a/
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