8- FIDELIDADE E
ESPERANÇA NO DEUS VIVO: Entendendo o livro de Daniel
Por Prof. Dr. Shigeyuki Nakanose, svd*
O livro
de Daniel, em linguagem apocalíptica, alimenta a fidelidade, a resistência e a
esperança na luta do povo fiel a Deus contra o império opressor de Antíoco IV
Epífanes, rei selêucida, no século II a.C. (Dn 11,21-39). Aponta os sinais de
esperança presentes na ação do Deus vivo e libertador, ao longo da história de
Israel, para a restauração do Reino de Deus (Dn 6,26-29; 7,9-28), uma sociedade
fundada na justiça, no amor e na fraternidade (Dn 4,24; 12,3).
Abrindo o livro de Daniel,
encontramos imagens e narrativas fascinantes:
A grande estátua com a cabeça de ouro, peito e
braços de prata, ventre e coxas de cobre, pernas de ferro e pés de ferro e de
barro (Dn 2,1-49);[1]
A estátua de ouro e os três jovens na fornalha
(3,1-97);
O sonho da árvore gigantesca (3,98-4,34);
O banquete do rei Baltazar com o mistério da mão
que escreve uma mensagem incompreensível (5,1-6,1);
O rei divinizado e Daniel na cova de leões
(6,2-29);
As quatro feras com o ancião e a figura humana
(7,1-28);
A visão sobre o carneiro e o bode (8,1-27);
A visão terrível dos perseguidores (10,1-11,45);
O anúncio de Miguel sobre a salvação e a
ressurreição (12,1-4).
O livro de Daniel é construído com narrativas fictícias,
novelas, alegorias com visões e sonhos, que são os principais recursos da
literatura apocalíptica. Esse texto, escrito no século II a.C., é uma obra
apocalíptica importante para defender as tradições de Israel, suscitando a
fidelidade, a resistência e a esperança do povo fiel a Deus, contra o
imperialismo selêucida (grego), cujas consequências são a injustiça, a
concentração de poder, as perseguições e as opressões praticadas pelos generais
selêucidas, sobretudo pelo rei Antíoco IV Epífanes.
1. Literatura apocalíptica
A literatura apocalíptica se encontra no Antigo
Testamento desde o tempo do Império Persa, devido ao seu domínio opressor (cf.
Is 65,17-25; Ap 21,1; 2Pd 3,13). Contudo, é no período entre 200 a.C. e 100
d.C. que esse tipo de literatura floresceu. O objetivo desses escritos é animar
as comunidades ameaçadas em todos os sentidos, também em sua existência, pelos
Impérios Grego e Romano (cf. numerosas obras apócrifas, como o Livro de
Enoque, a Assunção de Moisés etc., que
influenciaram as origens do cristianismo, por exemplo: Jd, 2Pd). O gênero
literário apocalipse é marcado por várias características. Eis algumas:
Apocalíptica: o
termo “apocalipse” é a transcrição de uma palavra grega que pode ser traduzida
por “revelação” (Ap 1,1-2). Toda obra apocalíptica supõe uma revelação que Deus
faz aos homens e às mulheres sobre a história, o cosmos, o fim dos tempos, o
futuro e a intervenção divina, muitas vezes utilizando simbolismo, visão e
linguagem enigmática.
A história: a
apocalíptica apresenta-se como a revelação de um conhecimento secreto – que
teria sido recebido no passado – sobre o presente e sobre o futuro, estando
este muito próximo de acontecer (o fim dos tempos). É uma forma de contar a
história mostrando que, apesar de toda a força e poder dos impérios e de todo o
sofrimento que o povo está vivendo, Deus não perdeu o controle da história e
logo irá intervir para punir os opressores e trazer paz e justiça ao seu povo
fiel e justo. O fato de o povo perseguido e sofrido ter uma visão ampla da
história, na ótica da vitória final dos justos (o juízo final de Deus), suscita
nele a fidelidade, a resistência e a esperança. A história é instrução que
ensina o povo a resistir para viver!
Dualismo (bem
e mal): a história é vista como o campo de combate entre o bem e o mal. O mal,
representado pelos poderosos e perversos, persegue o bem, os fiéis a Deus. No
final desse combate, os fiéis serão libertos e salvos pela ação de Deus, e o
reino do bem se estabelecerá no fim dos tempos, que já está sendo anunciado.
O imperialismo: o
movimento apocalíptico é marcado pela opressão violenta e sistemática dos
impérios tiranos – guerras, tributos, fome, miséria, escravidão, comércio
abusivo, perseguição cultural e religiosa e idolatria (imperialismo). No
pós-exílio, a partir de 538 a.C., quando os grandes impérios (Persa, Grego e
Romano) dominaram o mundo, o movimento profético, em sua forma clássica, foi
desaparecendo (Sl 74,9) e surgiu o movimento apocalíptico como meio de protesto
e de resistência do povo, que esperava o fim do império.
Fidelidade, resistência e
esperança: os autores apocalípticos produzem, sob a opressão e a perseguição
dos impérios, os livros em linguagem simbólica (visões, números, sonhos,
novelas), compreensível para seu povo, a fim de fortalecer a fidelidade,
estimular a resistência e apontar sinais de esperança presentes na ação de Deus
ao longo da história.
2. O contexto do livro de Daniel
O conjunto do livro de Daniel apresenta uma
história ampla (Babilônia, Média, Pérsia, Grécia). Mesmo que o autor do livro
remonte seus escritos a um passado distante – o exílio da Babilônia e o início
do Império Persa –, com as personagens Nabucodonosor (3,1) e Dario (6,1), uma
leitura mais atenta nos leva a concluir que o livro reproduz a realidade do período
dos generais selêucidas, sobretudo do rei Antíoco IV, entre os anos 175-164
a.C.: as menções da perseguição de Antíoco IV (7,24-25; 8,9-12; 11,21-39), da
profanação do templo, da construção de um altar a Zeus Olímpico (“o ídolo
abominável”: 8,13; 9,27; 11,31; 12,11; cf. a “abominação da desolação” em 1Mc
1,54), do martírio de “homens esclarecidos” (11,33-35; cf. 1Mc 1,56-64) etc.
Os generais de Alexandre Magno, imperador que
venceu os persas e consolidou o Império Grego (333 a.C.), continuaram, nos territórios
dominados, o processo de expansão da helenização (ou seja, do espírito do
imperialismo, com a busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra mediante a
implantação da cultura grega: cf. Sb 2). Antíoco III (223-187 a.C.), general
dos Selêucidas com sede na Síria, intensificou a helenização na Palestina. Seu
filho Antíoco IV Epífanes (175-164 a.C.), que carregava a dívida de guerra de
seu pai com o Império Romano, por ter perdido a batalha em Magnésia (189 a.C.:
cf. Dn 11,18), incrementou desesperadamente a helenização, usando o exército, o
comércio e a religião, em busca de riqueza e de poder (1Mc 3,41). Ele fez
campanha no Egito e saqueou o templo de Jerusalém (169 a.C.;cf. 1Mc 1,16-28;
2Mc 5,15-23).
Na implantação da helenização, da cultura e religião
grega na Judeia, Antíoco IV Epífanes emitiu um decreto (167 a.C.), extinguindo
as práticas da religião judaica (interdições alimentares da Lei: 1,5-8; 2Mc
6,18-31 etc.), consideradas como expressão da identidade judaica: “o rei mandou
a Jerusalém e às cidades de Judá um documento com várias ordens: tinham de
adotar a legislação estrangeira; proibia oferecer holocaustos, sacrifícios e
libações no santuário e também guardar os sábados e festas. Quem não obedecesse
à ordem do rei, morreria” (1Mc 1,44-45.50; cf. Dn 11,31).
A longa dominação imperialista (Babilônia,
Pérsia, Grécia) chegou ao auge com Antíoco IV.
Não bastavam a exploração econômica e a opressão política: o espírito da
helenização do império estava ameaçando exterminar a cultura e a religião
judaica, apagar a mais profunda identidade do povo judeu. Nesse contexto,
alguns judeus, motivados por interesses econômicos e políticos (empregos,
acordos comerciais, benefícios e cargos políticos, como intermediários da
opressão), seguiram o decreto de Antíoco IV, assumindo padrões e costumes da
cultura grega (1Mc 1,43.52).
No entanto, muitos judeus resistiram aos
opressores gregos e até partiram para a luta armada, como a insurreição de
Matatias com seus filhos, que receberam o apelido de Macabeus (1Mc 2,1-48). Ao
grupo dos Macabeus se agregaram alguns piedosos, hassidim ou
assideus (1Mc 2,42), que eram um grupo religioso, fiel e devoto à Torá e às
próprias tradições. Outros eram contra a resistência militar, pregando a
resistência religiosa e a não violência (11,32-35). Posteriormente, a partir
deles surgiram o movimento dos fariseus e o dos essênios.
3. Autor, redação e estrutura
O título “Daniel” é um pseudônimo, nome adotado
pelo autor ou responsável pela obra. É possível que seja um nome inspirado no
lendário Daniel, citado por Ez 14,14.20, ao lado de Noé e Jó. Daniel significa
“Deus é meu juiz” ou “Deus faz justiça”. O autor apocalíptico usa esse nome
para apresentar o julgamento e a justiça de Deus contra a perseguição e a
opressão do imperialismo grego.
O livro de Daniel foi escrito em três línguas
diferentes: hebraico (1,1-2,4a; 8,1-12,12), aramaico (2,4b-7,28, com acréscimo
em grego de Dn 3,24-90) e grego (13,1-14,42). O livro, portanto, passou por um
longo período de formação, com a junção de várias histórias de diferentes
momentos, que foram reunidas por um editor final. Muito provavelmente, o grupo
piedoso dos “homens esclarecidos” (11,35; 12,3) é o redator do livro de Daniel,
dado que o livro salienta a fidelidade à Torá e às próprias tradições judaicas,
admitindo a possibilidade do martírio (3,19-21; 6,17-18).
Na redação final, o livro de Daniel tem duas partes
com mais duas pequenas unidades anexadas no fim. A primeira (1,1-6,29) conta a
história de Daniel e seus companheiros na corte dos imperadores Nabucodonosor e
Dario, resistindo aos poderosos do império, permanecendo fiéis à Lei e às suas
tradições e enfrentando fornalhas e covas de leões nas execuções de morte;
assim são salvos pelo único Deus vivo, libertador e protetor da vida. A segunda
(7,1-12,13) contém a visão mais ampla da história, apresentada como uma
sequência de surgimentos e declínios dos impérios (as quatro feras: Babilônia,
Média, Pérsia, Grécia), que serão derrubados pela ação de Deus, o único
absoluto; assim se aproxima o Reino de Deus, a ressurreição e a salvação
definitiva, animando a fidelidade, a resistência e a esperança dos fiéis a
Deus.
O primeiro anexo narra a história de Susana
(13,1-64), na qual Daniel é apresentado como sábio, com o dom do discernimento,
salvando da morte uma mulher inocente, fiel a Deus. O segundo narra a história
de Bel e o Dragão (14,1-42), na qual Daniel desmascara o culto a Bel e ao
Dragão, a idolatria e a superstição dos babilônios, representantes dos infiéis
ao Deus verdadeiro. O Deus único de Israel protege e salva os que o amam
(14,38). Os anexos são um suplemento do livro para fortalecer a fé no poder de
Deus e agir com sabedoria e fidelidade à Torá e à religião de Israel, mesmo em
meio às perseguições.
4. Principais mensagens
O autor desconhecido, talvez pertencente ao grupo
dos piedosos, oferece a seu povo, cruelmente perseguido por Antíoco IV
Epífanes, as seguintes mensagens de orientação, encorajamento e esperança:
A crítica
ao poder opressor do império, aos seus ídolos e à sua idolatria (a
estátua de ouro, a árvore gigantesca, o rei divinizado etc.): o autor tenta
incutir a fé no Deus vivo e a fidelidade à religião e cultura judaicas,
ameaçadas pelo poder opressor do império tirano com sua idolatria (Antíoco IV
chega a colocar-se no lugar de Deus, motivo pelo qual adotou o sobrenome
Epífanes – “deus manifesto”: o culto ao rei divinizado em Dn 6,6-10), que tenta
impor aos judeus, com violência, sua política junto com a religião e os
costumes, a serviço de seu lucro e poder.
O governante com justiça e
misericórdia (Nabucodonosor e Dario convertidos – 4,16-34;
6,26-29): o imperador absolutista deve converter-se e aprender que o poder
pertence apenas ao Deus altíssimo; o governante deve praticar a justiça e a
misericórdia para com os pobres e construir a alternativa do Reino de Deus
(4,24).
Deus vivo (6,21.27):
o autor descreve o Deus de Israel como o Deus vivo, criador, libertador e
protetor da vida, que triunfa sobre os poderosos imperialistas, obrigando-os a
reconhecê-lo como o único todo-poderoso no céu e na terra. No sofrimento e na
perseguição, Deus criador altíssimo liberta e salva aquele que é justo e fiel à
cultura e à tradição de Israel e que está disposto a sofrer o martírio para não
desobedecer aos preceitos de sua fé (3,1-6,29; 11,33-35).
A total fidelidade a Deus (os
três jovens na fornalha, Daniel na cova dos leões, os homens esclarecidos
etc.): a fidelidade à Lei e à tradição, expressa nas práticas religiosas, é
salientada como um dos caminhos para enfrentar o poder opressor. Essa
fidelidade a Deus deve ser total: fidelidade às tradições de Israel não só
interiormente, mas também exteriormente, a ponto de correr o risco do martírio
(3,19-21; 6,17-18).
O senhorio de Deus atuante na
história (as quatro feras destruídas, o carneiro e o bode etc.: 7,1-12,13):
o livro de Daniel apresenta uma teologia da história, ou seja, uma leitura
profunda da história com a fé no Deus atuante da vida. O livro aponta os sinais
de esperança presentes na ação divina ao longo da história, provando a soberania
de Deus sobre todos os povos, entre os quais o povo oprimido por Antíoco IV; a
libertação do povo de Deus; o juízo definitivo no final dos tempos; a
instalação do Reino eterno e universal de Deus (7,14.27; 2,44; 6,27). Tudo isso
ajuda o povo de Deus a enfrentar os momentos de crise e tribulação, na espera
do fim do império.
O Reino de Deus com o “povo
dos santos do Altíssimo”, representado pelo filho de homem (7,1-28):
o povo fiel ao projeto do Deus de amor e de justiça (4,24; 9,4) constrói o Reino
de Deus, Reino que desmascara e destrói as pretensões dos impérios, fundados na
injustiça e na contínua exploração, na produção de miséria e exclusão (2,24-49;
4,11-14). Instaura uma sociedade fundada na justiça e no amor, que produzem
liberdade, partilha, solidariedade e fraternidade (4,23-24).
A não violência: o autor do
livro de Daniel, que pertence a uma parte do grupo dos piedosos justos (“homens
esclarecidos”: 11,33; 12,3), propõe a resistência religiosa e não violenta,
confiando na ação de Deus e esperando a salvação final.
A ressurreição na vida eterna
e gloriosa de Deus: a fé na ressurreição dos justos e piedosos
mártires na dimensão transcendente exprime a luta, a resistência e a esperança
da utopia do Reino definitivo de Deus, no contexto da luta dos oprimidos e
perseguidos contra os opressores imperialistas. Os mártires justos e piedosos,
que ressuscitam historicamente na memória do povo (Sl 112,6), já animam e
iluminam a caminhada da luta pela vida (11,33-35).
A esperança ativa: o fim
escatológico é a libertação do povo de Deus (12,1). No entanto, o fim
apocalíptico não poderá ser conhecido antes de seu momento (12,9).
Bem-aventurado é aquele que se mantém firme, espera e alcança o tempo
determinado (12,2). Essa espera não deve ser passiva, mas, sim, ativa, na
caminhada da construção do Reino de Deus (12,13).
Uma palavra
final
No contexto histórico-social de Antíoco IV, o livro
de Daniel apresenta, em linguagem cifrada (símbolos, visões, sonhos, novelas),
a crítica e a condenação do imperialismo armamentista, que se movimentou por
meio da concentração de riqueza e de poder, provocando a violência física e
espiritual contra o povo fiel à tradição de Israel. O livro propõe a
fidelidade, a resistência e a esperança na luta contra o império violento e
opressor, apontando os sinais de esperança presentes na ação do Deus vivo e
libertador ao longo da história de Israel, para a restauração do Reino de Deus,
uma sociedade fundada na justiça, no amor e na fraternidade.
Quase dois mil anos se passaram, mas o imperialismo
armamentista, com a manipulação ideológica e religiosa, continua devorando
pessoas fracas e inocentes por meio de guerras, invasões, ditaduras brutais,
trabalho escravo, economia selvagem, fome, violência espiritual, alienação…;
até as igrejas que promovem a leitura fundamentalista da Bíblia tornam-se
espaços férteis para conservar e justificar o espírito do imperialismo,
fazendo, por exemplo, o livro de Daniel transformar-se em fantasias religiosas,
arrancando-lhe a chance de animar a resistência contra o imperialismo à vista
das transformações históricas.
Referências bibliográficas
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NAKANOSE, S.; DIETRICH, L. J. (org.). Uma
história de Israel: leitura crítica da Bíblia e arqueologia. São Paulo:
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Bíblica Latino-americana, Petrópolis, n. 35/36, p. 136-151, 2000.
Prof. Dr. Shigeyuki Nakanose, svd*
*Shigeyuki Nakanose, svd, é assessor do Centro
Bíblico Verbo e professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp).
E-mail: contato@cbiblicoverbo.com.br
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