sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

10- Refletindo com Lindolivo Soares Moura (*)

 10-      Refletindo com Lindolivo Soares Moura (*)


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO E O AMOR CONJUGAIS RESSIGNIFICADOS À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO” – [ Parte I ]

             "Pois é dando que  se recebe, é perdoando que se é  perdoado, e é morrendo que se vive  para a vida eterna"  [Atribuída a  São Francisco de Assis]

Prestes a se tornar mãe pela primeira vez, a bela jovem, rosto de menina, parecia demasiado tensa antes de adentrar a sala de parto. Sensível à situação, o médico responsável orientou a equipe a mantê-la em sua própria sala por alguns instantes, até que se acalmasse. Percebendo que a tensão continuava alta e que a jovem não conseguia recobrar a serenidade, aoroximou-se e lhe disse delicadamente: “Não sou lá muito religioso, mas conheço a oração do Pai Nosso. Se quiser, podemos rezá-la juntos”. Tão logo recebeu um leve aceno de concordância, todos se deram as mãos e começaram a orar todos juntos: “Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome...”. Nem bem haviam terminado, quando uma paz contagiante tomou conta do lugar onde se encontravam. Tão intensa que o semblante daquela jovem, antes agitado, agora se encontrava imerso em um profundo silêncio. “Podemos passar agora à sala onde você dará à luz seu bambino?”, perguntou o jovem médico, sem saber ainda, com certeza, se seria menino ou menina. Diante de um novo aceno favorável, logo davam início aos procedimentos necessários para o parto. Não demorou muito para que um choro estridente ecoasse pela sala. “Que coisa mais linda! É uma menina! Você já sabia?”, perguntou a enfermeira mais próxima, enquanto segurava nos braços a criança recém-nascida. A jovem mãe permaneceu em silêncio por um tempo. Finalmente, com o rosto agora transfigurado, como se houvesse sido envolvida por algum tipo de Espírito, exclamou em alta voz: “Glória a Deus nas alturas!”. “Glória a Deus!” - repetiram todos em uníssono.

Assim como a Oração do Pai Nosso, outras tantas orações, mantras e ensinamentos são considerados arquetípicos, isto é, referenciais e universais. Transcendem credos, religiões, filosofias, ideologias ou qualquer outra forma de espiritualidade que se pratique ou que se deixe de praticar. Nossa escolha visando encontrar a melhor moldura para a presente reflexão poderia perfeitamente ter recaído sobre o belíssimo Hino ao Amor, de São Paulo, o desconcertante Sermão da Montanha, proferido por Jesus, além, naturalmente, do próprio Pai Nosso. Isso para ficarmos apenas no âmbito do Cristianismo. Muitos outros grandes mestres não cristãos também nos deixaram pérolas preciosas de espiritualidade. Optamos pela Oração de São Francisco - ou pelo menos a ele atribuída, mesmo não sendo dele, como asseguram alguns - primeiro por fidelidade à fonte que nos serviu de inspiração; segundo, por ser reconhecidamente uma das orações mais universalmente conhecidas, superada apenas, supõe-se, pela Oração do Pai Nosso. A simplicidade, a beleza e a profundidade fazem dessa envolvente Oração um convite à meditação direcionado até mesmo para ateus, agnósticos, indecisos, indiferentes, e quantos mais não tenham sido incluídos nessa classificação. O mesmo poderia ser dito das demais orações ou passagens anteriormente mencionadas; são, todas elas, preciosidades de valor inestimável.

Se a Oração de São Francisco se tornou tão familiar a um contingente humano tão vasto, isso certamente se deve ao fato de que ela traduz, de modo surpreendentemente sutil e fecundo ao mesmo tempo, o amor exigente e comprometedor que deve reger a convivência entre pessoas, sobretudo aquelas que se unem com vistas a um projeto de maior envergadura, como é o caso da vida conjugal. Cada expressão, cada gesto e cada invocação, do começo ao final, evidenciam virtudes e atitudes de imenso potencial terapêutico e restaurador. Não é um texto destinado apenas à reflexão ou à meditação, mas sobretudo,  à prática constante. Seu conteúdo assume feições de um projeto revolucionário quando serve de bússola que ilumina e orienta o amor conjugal e tantas outras modalidades do modo de amar humano. Se optamos pelo vínculo matrimonial, é porque ele, por excelência, constitui o espaço em que luzes e sombras, alegrias e tristezas, virtudes e fraquezas se confrontam e se aperfeiçoam juntas, lado a lado, ainda que o respeito mútuo pela individualidade de cada parceiro permaneça como uma das sementes mais promissoras para o fortalecimento do vínculo.

Orientando cada gesto, cada decisão e cada passo do casal, a Oração de Francisco demonstra impressionante sintonia com os desafios atuais, notadamente quando uma nova e controvertida configuração de amor insiste em invadir a cena e se impor como protagonista: o assim chamado "amor líquido". Conjugalidade não é palco para enredos sem compromisso, passarela para ostentação de vaidades, cenário para exibicionismo afetivo, ampliação de status e duplicação de patrimônio; menos ainda, um contrato de prestação de serviços sexuais e terceirizações sentimentais. Esse é um repertório típico de BBBs - autênticas usinas de criação e reprodução de futilidades, cuja sigla sequer merece tradução. De "aluguéis" já bastam as barrigas - resguardados o respeito e o reconhecimento pelas mães que, por solidariedade genuína, e não por ganhos financeiros, se dispõem a abraçar missão tão nobre - ou até mais - quanto qualquer outra.

Conjugalidade, antes de tudo, é campo de partilha e crescimento mútuo, onde ambos os parceiros se deixam interpelar não apenas um pelo outro, mas sobretudo pelo “nós” que nasce desse singular encontro. “Amar - nos lembra Saint-Exupéry - não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção”. Cada súplica, cada gesto e cada invocação dessa riquíssima Oração evidenciam atitudes e posturas que revelam um potencial terapêutico e restaurador imensurável. São diretrizes preciosas, capazes de fortalecer o vínculo e mantê-lo em condições de sustentar sua integridade diante das contínuas e profundas alternâncias de temperatura que a vida conjugal traz consigo: desde a brisa suave da primavera, contrastando com o calor intenso do verão, passando pela melancolia do outono, e culminando com o frio intenso, e por vezes congelante, do inverno.

Feitas essas considerações, é chegada a hora de refletirmos sobre como cada tópico ou invocação dessa singular Oração pode ser transformado em luz e orientação para aqueles que, livres e conscientemente, abraçaram o vínculo sagrado do matrimônio. Em crise ou não - toda crise é também sinônimo de oportunidade, como ensina a milenar tradição chinesa - tal vínculo continua sendo suporte e referência para todos os demais tipos de convivência. E isso não é apenas força de expressão.

Obs.: esta primeira parte continua e se complementa, com a segunda de mesmo título.

(* ) Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana, Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES. Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental..

https://www.escavador.com/sobre/3708588/lindolivo-soares-moura

Nenhum comentário:

Postar um comentário