sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

008- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 

  

008-               REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

 

                  [Parte IX-02]

 

             "Onde houver tristeza, que eu leve a alegria!"

                  [Atribuída a  São Francisco de Assis]

 

ONDE HOUVER TRISTEZA, QUE EU LEVE A ALEGRIA!

 

A proposta desta segunda parte é refletir sobre a forma mais produtiva de aplicar, no contexto da vida conjugal, a inversão operada por Osho em relação ao chamado princípio da causalidade, sobretudo quando o relacionamento demanda atenção e cuidados especiais. Tal inversão – "Crie o efeito - a causa virá" – subverte a ordem clássica do chamado princípio da causalidade: "Crie a causa e o efeito virá". Evidentemente, esse princípio, invertido ou não, não é o único a reger o mundo científico, e muito menos os campos da espiritualidade e da convivialidade. As religiões e a espiritualidade podem operar de acordo com outros princípios, do tipo "Creia, e a tua fé te libertará", em que a fé atua como causa e a libertação como seu efeito principal. Seria perfeitamente compreensível que Osho, reconhecido mundialmente como mestre da espiritualidade, aplicasse sua inversão a algum princípio do campo religioso ou da vida espiritual. Sua escolha, entretanto, recai sobre um princípio de caráter reconhecidamente laico - o princípio científico da causalidade. Exatamente por isso, sua proposta ganha em alcance e universalidade.

Para Osho, tudo é energia. E essa regra, ao contrário de todas as demais, não admite exceção alguma. Nesse sentido, também a matéria não é senão uma forma peculiar de energia. Sua percepção dialoga perfeitamente com a seguinte afirmação do poeta e escritor inglês William Blake, para quem a imaginação não é senão a energia divina no ser humano. Para Blake, "O homem não é um corpo separado da alma. Aquilo que chamamos de corpo é a parte da alma que se distingue pelos seus cinco sentidos". Se admitirmos que tudo é energia - incluindo Deus - como afirma Osho, concordaremos que o amor também o é. Isso ajuda a compreender melhor a clássica afirmação cristã segundo a qual Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. Não existe - ao menos até que o bom senso venha a sugerir o contrário - definição de Deus mais coerente e mais universal do que essa. Se todos os povos e culturas se dessem por satisfeitos apenas com essa definição, dificilmente teriam sido implantadas guerras "santas", cruzadas, caça às bruxas, inquisição e outros extremismos do gênero. Por equivalência de raciocínio, termos como excomunhão, condenação e inferno seriam banidos de todo e qualquer jargão.

Se Osho afirma que tudo é energia, podemos afirmar que tanto a edificação de um matrimônio quanto o seu resgate realizam-se por intermédio de duas energias principais: o amor e a fé. A fé é uma força potencial poderosa, lamentavelmente pouco valorizada e pouco aproveitada, capaz de mover picos e transportar montanhas. Essa expressão é metafórica, claro, e diz respeito à sua impressionante magnitude. Que ninguém duvide do que aqui vem dito, pois quem faz essa afirmação é autoridade máxima no que diz. Já o amor é uma força com potencial suficiente para alavancar o próprio mundo. Existe uma outra força potencialmente poderosa - ainda que não tanto quanto o amor: o ódio. Mas, de acordo com Luther King Junior, "o ódio não pode expulsar o ódio - só o amor pode fazer isso". Agora observe bem o que diz São Paulo falando sobre o amor: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos; ainda que eu tivesse o dom da profecia, conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas; ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos ou entregasse o meu corpo para ser queimado nas chamas, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria". Já São Tiago, falando sobre a fé, afirma: "Assim como o corpo sem espírito é morto, também a fé sem obras é morta. Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também os demônios creem - e tremem".

Para Paulo, o mais importante não é o quê, nem o quanto se é capaz de fazer: se o que se faz não é feito por amor, esse fazer de nada adianta. Já para Tiago, o que realmente importa não é se se tem ou não se tem fé, e sim se essa fé se concretiza, ou não, em obras e disposições. Um filho assegura ao pai: "Eu vou!" - e não vai. O outro diz: "Não vou!" - e vai. Quem, afinal, fez a vontade do pai? "Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor entrará no Reino dos céus - afirma Jesus - mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus". Não se trata de colocar Paulo e Tiago frente a frente, menos ainda de se decidir quem tem razão. Paulo retrata o amor enquanto potência, energia criadora; Tiago retrata a fé enquanto energia transformadora. Ou seja, é possível existir amor e fé - enquanto energia ou potência - que não necessariamente se atualizam nem se concretizam em ação alguma. Mas quando ambas se transformam em ações e disposições, carregam consigo o potencial de sustentar o mundo e manter a vida pulsando. Direcionando para a vida conjugal, de nada adianta dizer e repetir continuamente "eu te amo!", se esse amor permanece apenas energia e potência, sem produzir ações e disposições que se comprometem de fato. De que tipo de disposições estamos falando? Uma vez mais Paulo responde: "O amor é paciente, o amor é bondoso, o amor se alegra com a verdade...", e assim por diante.

Quem prioriza mais a profissão que a própria família, quem investe mais no dinheiro que no próprio vínculo, quem se dedica mais aos amigos que ao próprio parceiro, e mesmo assim declara repetidamente: "eu te amo!" - é falso e contradiz a si mesmo. Quem trai quando promete lealdade, quem agride quando jura proteger, quem espanta a alegria e reproduz a tristeza, e mesmo assim não se cansa de confessar: "eu te amo!" - no dizer de Paulo, é como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Mostra-me teu amor que muito promete e pouco se compromete, e eu te mostrarei meu amor que nada promete e se compromete por inteiro. O amor que muito se declara quer convencer daquilo que já não convence por si mesmo. Quem muito se declara pouco investe; quem pouco investe muito promete; quem muito promete pouco se compromete. O amor expresso em atos não precisa de palavras e declarações convencedoras. A concretude dos atos e das disposições fala por si mesma.

Resgatar um vínculo pode vir a ser uma tarefa ainda mais difícil que edificá-lo. O lado confortador - "realismo esperançoso", diria Suassuna - é saber que quando a energia do amor e a energia da fé passam a agir conjugada e sinergicamente, o resultado é um recurso extremamente poderoso. Mas aqui é preciso cuidado redobrado: seria um erro estratégico lamentável confiar exclusivamente à fé - isto é, à graça - a tarefa de operar esse resgate. Se é verdade que a graça supõe a natureza, o inverso é igualmente verdadeiro. Isso significa, entre outras coisas, tratar quem está doente e buscar ajuda para quem está enfermo. De nada adiantam flores, presentes, promessas e declarações de amor, se essa disposição não for a contraparte de qualquer declaração feita em nome do amor. Quem ama, cuida! Cuida de si, antes mesmo de cuidar do outro. Isso também é trazer de volta a alegria, lá onde, um dia, por grave erro ou atitude doentia, o sofrimento e tristeza entraram em cena.

Não se espera um barco afundar, para só então começar a resgatá-lo; não faz sentido. O mesmo cuidado deve-se ter com o vínculo conjugal. Quanto antes o resgate for iniciado, maiores as chances de continuar navegando com segurança, por mares nunca antes navegados. Há casais que literalmente ignoram essa regra: permitem que seu matrimônio chegue ao fundo do poço, e só então decidem que é hora de resgatá-lo. A probabilidade de exito, em tal caso, diminui drasticamente. Aqui o princípio é científico: quanto mais precoce for o diagnóstico, e mais imediata a implementação da terapêutica, mais favorável será o prognóstico. A saúde do vínculo depende da saúde física, psíquica e emocional de cada um dos parceiros. O amor é construção: para que uma declaração do tipo "eu te amo!" corresponda à verdade - e não se reduza a mero romantismo de palavras - o cuidado consigo mesmo precede o cuidado com o outro, com o vínculo e com quem quer que seja. Afinal, como foi dito, se o amor ao próximo pressupõe o amor a si mesmo, por qual razão deveria ser diferente quando se trata da pessoa que escolhemos para ser a mais próxima de nós mesmos? "Eu me amo!" precede o "Eu te amo!", assim como ambos precedem e condicionam o "Nós nos amamos!". Sem exceção; em qualquer idioma.

Todo momento presente é sempre uma tensão entre o passado - que já não volta mais - e o futuro - que ainda não se viveu. Sob tal prisma, o matrimônio é uma experiência humana das mais impressionantes: entre bilhões de pessoas, escolhemos uma, com a qual compartilharemos, da forma mais íntima possível, quem somos. Nem ao melhor terapeuta do mundo nos damos a conhecer a um nível tão profundo. Mas isso tem um preço: o melhor e o pior de nós mesmos, quer queiramos quer não, sempre estarão em jogo. Freud sabia disso: que a rigor, só o amor humano é capaz de amar e odiar sem limites, nos extremos; por razões óbvias, Deus é absolutamente incapaz disso. Nesse sentido, todo matrimônio é e será sempre um mergulho no passado, buscando resgatar o melhor de nós mesmos e o melhor do outro, tornando nossa jornada em direção ao futuro a mais confiante e esperançosa possível. Viver e morrer são processos simultâneos e totalmente interdependentes. "É morrendo que se vive", dirá Francisco ao final de sua Oração. Que se vive, não só em direção a uma eventual vida futura, mas já, como compromisso e investimento, para com a vida presente. Na vida matrimonial não há como ser diferente: tristeza e felicidade vão e voltam, se estranham e se aproximam, convivem lado a lado e se alternam sem pedir licença, como se fossem porcos-espinhos. São dois pólos de energia - um negativo e outro positivo - que, paradoxalmente, precisam um do outro para que a luz do desejo e do amor possa continuar brilhando e iluminando.

Termino com as palavras poéticas e proféticas do escritor espírito-santense Antônio Rocha Neto, cujo olhar sempre vai além do que a razão, sozinha, é capaz de alcançar. Criações como as dele dispensam comentários; falam por si mesmas.

          "Sobre felicidade e tristeza"

Todo mundo já  escutou e sabe cantar o famoso refrão da canção "Felicidade", do saudoso Tom Jobim. "Tristeza não tem fim, felicidade sim" .

Nesta letra o Mestre brinca com o duplo sentido das palavras. O leitor incauto pode, apressadamente, concluir que o grande compositor tenha feito uma leitura um tanto pessimista da vida, concluindo que viver é lidar sempre e sempre com a tristeza, com a infinita tristeza, com raros, fortuitos, episódicos encontros com esta tal felicidade. Não, não. Quisesse ele que fosse este o sentido da afirmação do refrão daquela linda melodia, teria batizado a canção com o nome de Tristeza. Mas ela se chama Felicidade! Sim, porque tristeza, meus amigos, tristeza não tem fim, finalidade alguma! Felicidade , não por acaso, rima com finalidade, e deve, esta sim, ser perseguida, cultuada e cultivada, por você, por mim, como o fez Jobim, desde agora até o fim!

Obs.: Esta nona parte será complementada pelas partes posteriores de mesmo título.

( * ) Texto enviado pelo autor, via WhatApp de Vitória(ES).

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