4.2- 1º de março – 2º DOMINGO DA QUARESMA (LASR)*
INVERTENDO A LÓGICA DO TRIUNFO
Por Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Deus fala e chama a cada
um dos homens e mulheres para viver um novo projeto de vida. Trata-se, sem
dúvida, de verdadeiro desafio, que exige que a pessoa se desacomode, saia de
sua zona de conforto e caminhe sempre com Deus e em direção ao outro. Não
vivemos isolados em ilhas. Somos seres relacionais e, do ponto de vista
cristão, vivemos em comunidades. Tudo leva a considerar o outro como alguém que
possibilita o diálogo: falamos e ouvimos a fim de construir verdadeira
humanidade.
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Gn 12,1-4a)
Deus nos fala! Não há dúvida quanto a isso. Contudo, entre seus
muitos conteúdos, certamente estão aqueles que dizem respeito à
responsabilidade, aos desafios e às missões que nos esperam. Muitos de nós
desenvolvemos uma espécie de “ouvido seletivo”, ou seja, escutamos tão somente
o que desejamos ouvir. Prestamos atenção apenas nos anúncios de Deus que tenham
relação com o fato de recebermos alguma coisa.
No entanto, temos um Deus que nos desafia a dar passos de fé e
pela fé. Abraão escuta exatamente isto: “Saia de sua terra” – de seus espaços
de conveniência, de sua zona de conforto – e vá para uma terra que ainda irei
lhe mostrar. O desafio é para que ele dê passos além daqueles que já havia
dado. Abraão deveria sair do lugar-comum e romper com aquilo que possuía e com
as fronteiras que o impediam de caminhar.
O desafio de Deus significa desacomodação. Implica ruptura e
separação. Mostra-nos que não podemos viver e permanecer como se limitados
àquilo que somos e temos. Sempre há a necessidade imperiosa de dar um passo a
mais, de caminhar um pouco mais. Nisto, porém, reside um dos nossos maiores
problemas: passamos muito tempo acomodados. Muitas vezes pensamos que a melhor
posição que poderíamos tomar seria a acomodação. Por causa disso, não aprovamos
a atitude de Deus quando procura romper com nossas zonas de conforto. Até Deus
pode passar dos limites, pensamos!
O Deus de Abraão, porém, impede que fiquemos bem
acomodados e instalados. Ele provoca Abraão para que se desacomode e caminhe
dentro dos passos propostos pelo próprio Deus. A experiência de Abraão nos
coloca diante de um Deus de ação. Um Deus que nos leva a permanecer em pé e a
dar passos firmes em direção a um amanhã que ele mesmo garante.
“Saia de sua terra e vá para onde lhe mostrarei.” Não precisamos
ter medo, pois o mapa está nas mãos de Deus. No chamado divino existe a
promessa de que não caminharemos sozinhos. Tornamo-nos peregrinos pelas
estradas deste mundo. Cabe-nos compreender, todavia, que Deus também se torna
peregrino conosco. Ele nos acompanha. Não poderíamos ter companhia melhor.
Quando Deus pede que Abraão saia, Ele se dispõe a fazer o mesmo caminho.
Abraão parte com novo programa de vida! A obscuridade do destino
contrasta com a clareza do que deve abandonar. A terra para a qual deve seguir
não é sequer nomeada. Abraão, no entanto, está firme. Sabe ouvir e sabe
responder. Sabe que cada chamado para uma nova missão implica deixar para trás
o que é conhecido e dá segurança a fim de lançar-se no desconhecido. Recusar os
riscos do desafio de Deus significaria, para Abraão, o mesmo que permanecer no
mesmo lugar e, o que é pior, do mesmo tamanho. Assumi-los, por sua vez, abriria
a possibilidade de novos e inesperados horizontes. Abraão percebe que existem
certas coisas que somente Deus pode fazer. É pura graça dele derramada sobre
seus filhos e filhas. A ação é exclusiva – “eu farei”, “eu abençoarei”, “eu
tornarei” – do Deus que caminha junto a nós. Não podemos nos esquecer desta
verdade fundamental: Deus é a fonte de todo bem! Por que, então, por vezes,
teimamos em procurar água pura e cristalina em outras e estranhas fontes?
No relato da torre de Babel, por exemplo, constatamos justamente
o contrário: são as pessoas que desejam, por todos os modos, construir uma
torre altíssima para perpetuar o próprio nome. É uma das representações dos
projetos humanos feitos à revelia de Deus. Todavia, esse projeto da humanidade
em Babel resultou em confusão, em dispersão e em antivida (cf. Gn 11,9). Em
Abraão, diferentemente, encontramos um projeto de vida. Deus promete que ele se
tornará uma fonte de bênção para a humanidade. Abraão não constrói a partir de
si mesmo a bênção; ele é abençoado. Babel dessa forma está, em Abraão,
verdadeiramente neutralizada! É Deus que faz, que fala, que abençoa, que nos
constrói como seres humanos. O que as pessoas querem realizar por si mesmas e
para si mesmas, Deus fará para Abraão. A ação é sempre dele. Quando nos
propomos caminhar, ele não nos deixa sozinhos e nos abençoa tremendamente.
Abraão nos ensina que o projeto de Deus é coletivo. Um projeto
que tem relação com a reunião e a unidade das pessoas. Não é um projeto para
aconchegar nosso individualismo, para que ele viva sossegado em seu canto. A
ação de Deus sobre nós é para que cada um se torne também uma bênção para todos
os outros. Trata-se de um “sim” fundamental à solidariedade. Cada um de nós precisa
se ver apenas como instrumento da bênção de Deus. Ele nos abençoa não para que
sejamos proprietários definitivos da sua bênção, mas para que tenhamos
condições de abençoar as pessoas com as quais convivemos.
Em Deus não há o projeto do egoísmo, mas o primado da partilha.
Aquilo que ele nos concede não é apenas para nós. A ação abençoadora de Deus
sobre nós acontece para que nos tornemos fonte inesgotável de bênçãos para
todos os outros. Às vezes, porém, invertemos a maneira de compreender a
experiência de Abraão: focamos apenas nas bênçãos que recebeu e constatamos que
ele era um privilegiado. Esquecemo-nos de que seu privilégio era, de fato,
alcançar outras pessoas a partir do que havia recebido. A grandeza de Abraão
não consistia em sua força militar, política ou econômica. Sua grandeza, na
verdade, manifestava-se no Deus grande que caminhava ao seu lado.
2. II leitura (2Tm 1,8b-10)
Há em Deus um plano cheio de graça. Por isso, a graça,
compreendida como favor imerecido, é concedida a todas as pessoas. Não há
necessidade, diz a leitura, de obras próprias ou, ainda, de um projeto pessoal
bem construído. A percepção de que Jesus deve ser considerado tudo em todos é
por demais importante. Nele, por ele e para ele são todas as coisas. Nesse
sentido, Jesus é suficiente para a salvação do ser humano. O ser humano não é
“autossalvador”, ou seja, não consegue salvar a si mesmo. A ação de salvação,
sempre e necessariamente, pressupõe a ação de Deus.
3. Evangelho (Mt 17,1-9)
Na transfiguração relatada no Evangelho de Mateus, a
passagem-chave é a exortação dirigida aos três discípulos, Pedro, Tiago e João.
Uma expressão/exortação que do passado reverbera com força, atravessando tempo
e espaço, e nos alcançando com igual intensidade: “Escutai-o”. Na Quaresma se
faz necessário abrir os ouvidos para escutar com verdadeira atenção. Não se
fazem discípulos quando os ouvidos se fecham às palavras de seu mestre. Todo
discípulo é primeiramente, de fato e de verdade, um ouvinte. Todavia, é
necessário também ouvir os outros. Não vivemos isolados em ilhas. Somos seres
relacionais e, do ponto de vista cristão, vivemos em comunidades. Tudo leva a
considerar o outro como alguém que possibilita o diálogo: falamos e ouvimos a
fim de construir verdadeira humanidade. Temos grande facilidade de ouvir os
meios de comunicação, discursos os mais diversos, até mesmo alguma música. Não
temos, porém, a mesma facilidade para escutar alguém. Uma multidão de sons pode
povoar nosso interior, desde que não sobre espaço aos sons de irmãos e de irmãs.
Transformamo-nos em consumidores de ruídos e, negando os sons da fraternidade,
esvaziamo-nos de nós mesmos. Escutar Jesus dentro de nossos próprios contextos
é o maior dos nossos desafios. Acolher a palavra de Jesus requer
disponibilidade e qualidade de tempo. Caso contrário, corremos o risco de
confundir os ruídos do cotidiano com a voz do nosso Mestre.
Jesus sobe à montanha para viver uma experiência inusitada. Lá,
diante dos olhos estarrecidos dos três discípulos, transfigura-se. Suas vestes
mudam e passam a se parecer com aquelas dos mártires (cf. Ap 3,15-18). No
entanto, para além da transfiguração, aparecem também Elias e Moisés. A
presença deles vem confirmar o caminho de Jesus na direção do conflito final.
Tal presença aponta que a missão do Mestre não é marcada pela neutralidade.
Contrariamente a essa percepção, sua vida transcorre num caminho marcado pelo
conflito e, no conflito, assume uma posição de solidariedade às vítimas, o que
o conduzirá inevitavelmente à morte. Todavia, a missão de Jesus não era a mesma
que Pedro gostaria de assumir. Quantas e quantas vezes nossas visões e
interesses se distanciam do projeto de Jesus? Pedro, diante da experiência
fantástica, pensa que o alto da montanha é o melhor lugar para permanecer.
Sente o desejo de fazer tendas, estabelecer-se ali mesmo e vivenciar a vida
cristã como se fosse um eterno retiro, longe do barulho das pessoas, das
cidades e vilas. Um ambiente ideal para viver de contemplação. Ele, porém,
ouvia tão somente a própria voz. Tinha um projeto pessoal que se distanciava
muitissimamente do projeto de Jesus. Quando ouvimos a própria voz, deixamos de
ouvir a voz de Deus. Nesse sentido, os ruídos que nos atrapalham não são
somente externos, mas também internos.
Descer a montanha será, para os discípulos, muito mais difícil
do que subir. Eles se acostumariam facilmente com a zona de conforto
proporcionada pela experiência religiosa e da experiência ficariam reféns.
Transformariam a vida de Cristo numa experiência intimista e desconectada da
realidade conflituosa. Entretanto, fazia-se necessário descer a montanha. É
justamente em meio ao povo que se vive e se faz missão. Jesus bem sabia que a
Boa Notícia não poderia ficar escondida. Descer a montanha traz o sentido de
fazer o caminho para dentro da realidade. Toda a mensagem de Jesus nasce da
realidade política, social, econômica e religiosa. Ele jamais nega a realidade,
pois vive para transformá-la. Nesse caso, o cotidiano é o espaço privilegiado
da sua atuação. Ele podia, até mesmo, por breves momentos, subir montanhas.
Suas raízes e missão se encontravam, contudo, no meio do povo. Pedro, como
porta-voz de seus companheiros, é apresentado como carente de inteligência. Ele
traz no coração o desejo de reter permanentemente a revelação da glória
celeste. Pode-se dizer que, na perspectiva humana, esse é um desejo
compreensível, mas se contrapõe ao chamado dos discípulos ao seguimento de
Jesus pelo caminho da cruz. Eles experimentam uma antecipação da
bem-aventurança celestial e por isso dizem: “É bom estarmos aqui” (v. 4). Pedro
pensava segundo a perspectiva do triunfo. Imaginava um Cristo vitorioso para
vitoriosos. A lógica da vitória impedia o apóstolo de se ver adequadamente e,
por isso, sua proposta parecia querer desviar Jesus de seu trajeto de
solidariedade com as vítimas da história. Jesus, por sua vez, constrói seu
itinerário pessoal e teológico à luz da solidariedade com os pequeninos, mesmo
que, para isso, a consequência seja se tornar vítima do Império Romano, como
tantos outros do seu povo já haviam sido.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
1) O discípulo e a discípula de Jesus vivem o Evangelho
inseridos na realidade do dia a dia. Jamais é possível pensar o estilo de vida
de Jesus como um processo que conduz à alienação. Deve-se viver Jesus na
realidade do dia a dia com a missão de transformá-la.
2) Em Deus não há o projeto do egoísmo, mas o primado da
partilha. Aquilo que ele nos concede não é apenas para nós. A ação abençoadora
de Deus acontece para que nos tornemos fonte inesgotável de bênçãos para todos
os outros.
Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
*é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de
São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia,
EUA). É professor no programa de mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e no Centro Universitário Internacional
(Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É
licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife)
e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma).
Professor na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do
roteiro do 4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/1o-de-marco-2o-domingo-da-quaresma-lasr/
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