4.2- 30 de agosto – 22°
DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
O exigente seguimento de Jesus
I
INTRODUÇÃO GERAL
A abundância de pessoas
nas assembleias ou a quantidade de seguidores nas mídias sociais não significam
real compromisso com o seguimento de Jesus. Esta liturgia mostra que a proposta
de Jesus é exigente e não pode ser acolhida por mero entusiasmo frenético.
Na primeira leitura (Jr
20,7-9), o profeta Jeremias testemunha sua experiência pessoal com a Palavra de
Deus. Ele se diz seduzido pelo Senhor, a quem entrega integralmente sua vida,
pondo-a a serviço da missão profética. Essa fidelidade acarreta-lhe sofrimento,
isolamento e perseguição, revelando que a adesão coerente à vontade de Deus
implica, muitas vezes, a aceitação do conflito e da dor. A experiência de
Jeremias torna-se, desse modo, paradigmática para todos aqueles que acolhem a
Palavra de Deus e procuram viver de acordo com seus valores.
Paulo exorta os cristãos
a se oferecerem como culto agradável a Deus (Rm 12,1-2). O apóstolo afirma que
esse é o sacrifício que verdadeiramente corresponde à vontade divina: não um
rito exterior, mas uma vida transformada. Tal oferta se concretiza na recusa de
se conformar com a mentalidade deste mundo, na capacidade de discernir a
vontade de Deus e na disposição de orientar a própria vida segundo esse
discernimento.
O Evangelho retoma e
aprofunda essa perspectiva, ao apresentar Jesus advertindo os discípulos de que
o caminho da vida não passa pelos êxitos ou triunfos humanos, mas pelo amor que
se exprime no dom de si, até as últimas consequências (Mt 16,21-27). Seguir
Jesus implica assumir o mesmo itinerário de entrega, fazendo da cruz não um
obstáculo, mas o lugar onde se revela o sentido para a vida.
II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Jr 20,7-9)
O texto apresenta uma
oração de Jeremias. Ela parece perturbadora, pois se situa em um contexto de
crise pessoal, marcado pela desilusão e pelo desânimo, possivelmente
relacionado com o episódio da prisão do profeta pelos ministros do rei Sedecias
e do seu lançamento numa cisterna, onde se afundava no lodo (Jr 38,4-6). Essa
súplica assume uma forma de denúncia e de acusação dirigida a Deus, revelando o
drama interior diante do sofrimento que resulta da fidelidade à vocação.
A acusação do profeta se estrutura por meio da forte metáfora da
“sedução”. Jeremias descreve sua relação com o Senhor em termos de uma iniciativa
divina irresistível, na qual Deus se insinua na sua vida, o pressiona e o
domina. O verbo hebraico pth,
utilizado no texto (v. 7), evoca o campo semântico da sedução amorosa, até com
conotações de vulnerabilidade e engano, e é empregado em outros contextos
bíblicos para designar a sedução de uma jovem (Ex 22,15). Do mesmo modo, o
verbo ykl, que
caracteriza a ação de Deus sobre o profeta, exprime a ideia de prevalecer,
exercer poder ou dominar.
Contudo, o profeta
sente-se abandonado por aquele que o seduziu e constrangeu à missão, ficando
exposto à hostilidade, ao ridículo e à perseguição dos adversários (v. 8). Daí
nasce sua desilusão, que se traduz na decisão de silenciar a Palavra e romper
com a missão (v. 9). Não obstante, a Palavra de Deus permanece viva e atuante
no interior do profeta, comparável a um fogo ardente que consome seu coração e
o impede de renunciar à vocação recebida.
2. II leitura (Rm 12,1-2)
Paulo exorta os romanos
a se oferecerem a si mesmos a Deus. O “corpo” representa o ser humano enquanto
sujeito de relações, chamado a viver em comunhão com Deus, com os outros e com
o mundo. Assim, o cristão é aquele que se entrega inteiramente a Deus e orienta
todos os momentos da sua existência para ele.
Essa entrega assume a
forma de um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Tais qualificativos se
inserem em uma tradição bíblica que distingue o culto meramente formal e
exterior do culto autêntico, que brota do interior do ser humano e envolve a
totalidade da sua vida (Am 5,21-25; Os 6,6; Jo 4,23-24). Portanto, o verdadeiro
culto consiste, para Paulo, na oferta integral da própria vida a Deus, em
resposta à misericórdia recebida e à salvação concedida.
Assim, oferecer
inteiramente a própria vida a Deus implica, em primeiro lugar, não se conformar
com “este mundo”, isto é, manter uma atitude crítica diante das estruturas, dos
esquemas mentais e dos valores que sustentam uma realidade marcada pelo egoísmo
e pelo pecado. Em segundo lugar, exige uma transformação interior profunda, que
envolve o coração, a mentalidade e a inteligência, tornando o fiel capaz de
discernir a vontade de Deus e de orientar sua vida de acordo com ela.
O “culto espiritual” de
que Paulo fala implica a relação com Deus, com os outros e com o mundo. O
cristão é chamado a renunciar aos caminhos do orgulho, da autossuficiência, da
injustiça e do pecado, e a empenhar-se no conhecimento dos desígnios divinos,
acolhendo-os interiormente e vivendo de forma coerente com as exigências do
Evangelho.
3. Evangelho (Mt 16,21-27)
Nesse texto do
Evangelho, Jesus explicita que o caminho messiânico passa necessariamente pelo
sofrimento, pela cruz e pela morte, e estende essa exigência aos discípulos.
A afirmação de Jesus
resulta de sua sensibilidade aos eventos históricos: as autoridades judaicas
têm a intenção de eliminar fisicamente aquele que ameaça as estruturas
religiosas e sociais vigentes. Consciente desse desfecho, Jesus não abdica da
missão recebida, mas reafirma sua decisão de levar o projeto de amor do Pai até
as últimas consequências.
Entretanto, Pedro reage
de forma veemente a essa perspectiva e opõe-se à possibilidade de Jesus sofrer
o destino da cruz (v. 22). Como porta-voz da comunidade dos discípulos, sua
reação revela uma compreensão ainda incompleta e inadequada do mistério de Deus
na vida de Jesus. Seu entendimento estava marcado pela lógica comum daquele
tempo, segundo a qual o Messias deveria cumprir sua missão de forma gloriosa,
com êxito e vitória.
A resposta severa de
Jesus a Pedro visa corrigir essa visão distorcida e reconduzir os discípulos à
compreensão autêntica do desígnio divino (v. 23). A salvação não se realiza por
meio de triunfos humanos nem de esquemas de poder e dominação, mas pelo amor
levado até as últimas consequências, cuja expressão mais extrema é a cruz.
Pedro reproduz as tentações enfrentadas por Jesus no início do seu ministério
(Mt 4,3-10).
Em seguida, Jesus
instrui acerca das exigências do discipulado. Segui-lo implica renunciar a si
mesmo, tomar a própria cruz e acompanhá-lo no seu caminho de amor, entrega e
dom da vida (v. 24). A renúncia a si mesmo não significa negação da própria
identidade, mas a superação do egoísmo e da autossuficiência, de modo que a
vida se torne um dom oferecido a Deus e aos outros. Um discípulo não pode
permanecer centrado nos seus interesses pessoais, mas é chamado a uma
existência aberta, marcada pela gratuidade e pela solidariedade.
Por fim, Jesus apresenta
três motivações fundamentais para que os discípulos acolham o caminho da cruz
(v. 25-27). Em primeiro lugar, afirma que quem perde a vida por amor a
encontra, pois a verdadeira vida é aquela que se recebe de Deus como dom
eterno. Em segundo lugar, recorda que a vida presente não é definitiva e, por
isso, não deve ser preservada a qualquer custo, mas orientada para a conquista
da vida plena, a qual se constrói no amor e na entrega. Por fim, evoca o
horizonte do juízo final, no qual cada um será recompensado segundo as próprias
opções de vida.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
As leituras afirmam que
a fidelidade a Deus supõe a coragem de assumir um caminho contracultural,
marcado pela entrega e pela transformação interior. Seja na missão profética de
Jeremias, na exortação ética de Paulo ou no discipulado proposto por Jesus, a
experiência de fé apresenta-se como resposta total ao chamado de Deus, que
passa pela cruz, mas conduz à verdadeira vida.
Esses textos nos motivam
a viver a fé com autenticidade e coragem em um contexto frequentemente marcado
pelo individualismo e pela busca de reconhecimento. A Palavra de Deus continua
a arder no coração e a impulsionar o testemunho. Assumir a cruz hoje envolve
seguir o caminho de Jesus, que consiste na doação amorosa de si a Deus e à
humanidade.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é
natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do
Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia
e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje
e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de
Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no
Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco
da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG.
E-mail: marcusmareano@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/30-de-agosto-22-domingo-do-tempo-comum/
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