sexta-feira, 31 de maio de 2024

REFLEXÃO DOMINICAL III “O Sábado é para o Homem”

 

REFLEXÃO DOMINICAL III

“O Sábado é para o Homem”

A Liturgia nos faz ler hoje os textos da Bíblia que falam do dia de descanso festivo: o “sábado” dos Judeus e o “domingo” dos cristãos. A santificação do dia do Senhor ocupa um lugar privilegiado na Sagrada Escritura.

Tal como lemos em Dt 5, 12 – 15, foi o próprio Deus quem instituiu as festas do Povo escolhido e quem o instava a observá-las: Guardarás o dia do sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor, teu Deus. Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras; mas no sétimo dia, que é o repouso do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum…

Além do sábado, existiam entre os judeus outras festas principais: a Páscoa, o Pentecostes, os Tabernáculos em que se renovava a Aliança e se agradeciam os benefícios obtidos. O sábado, depois de seis dias de trabalho nos afazeres próprios de cada um, era o dia dedicado a Deus em reconhecimento da sua soberania sobre todas as coisas.

No tempo de Jesus, haviam-se introduzido muitos abusos rigoristas, o que originou diversos choques dos fariseus com o Senhor, como o que relata o Evangelho de Mc 2, 23 – 3,6. Num sábado, enquanto atravessavam um campo semeado, os discípulos de Jesus começaram a arrancar espigas. Disseram-lhe os fariseus: Olha, como é que eles fazem em dia de sábado o que não está permitido? … Cristo recorda-lhes que as prescrições sobre o descanso sabático não têm um valor absoluto e que Ele, o Messias, é o Senhor do sábado.

Jesus Cristo teve um grande apreço pelo sábado e pelas festividades judaicas, embora soubesse que, com a sua chegada, todas essas disposições seriam abolidas para darem Iugar a festas cristãs. São Lucas diz-nos que a Sagrada Família ia todos os anos a Jerusalém por ocasião da Páscoa ( Lc 2, 41). Jesus também celebrou todos os anos essa solenidade com os seus discípulos. Vemo-lo, além disso, santificar com a sua presença a alegria de um casamento ( Jo 2, 1 – 11), e na sua pregação emprega frequentemente exemplos de festejos domésticos: o rei que celebra as bodas de seu filho. O banquete pela chegada do filho que havia partido para longe da casa paterna e que retorna ( Lc 15, 23 ). O Evangelho está dominado uma alegria festiva, sinal de que o noivo, o Messias, se encontra já entre os seus amigos.

O próprio Senhor quis, pois, que celebrássemos as festas, interrompendo as ocupações habituais para procurá-lo mediante a participação da Santa Missa e uma oração mais intensa e sossegada, dedicando mais à família e dando ao corpo e à alma o descanso necessário.   O domingo é realmente o dia que o Senhor fez para o regozijo e para alegria (  Sl 117, 24 ).

A Ressurreição do Senhor teve lugar no “primeiro dia da semana”, como testemunham todos os Evangelistas. E na tarde daquele mesmo dia, Jesus apareceu aos seus discípulos reunidos no Cenáculo, mostrando-lhes as mãos e o lado como sinais palpáveis da Paixão. Oito dias mais tarde, isto é, no “primeiro dia da semana” seguinte, apareceu de novo em circunstancias semelhantes ( Cf. Jo, 20).

É possível que o Senhor quisesse indicar-nos que esse primeiro dia devia ser uma data muito particular. Os cristãos entenderam-no assim e desde o início começaram a reunir-se para celebrá-lo, de tal modo que o denominavam o dia do Senhor ( Ap 1, 10),  donde provém a palavra domingo. Os Atos dos Apóstolos e as Epístolas de São Paulo mostram como os nossos primeiros irmãos na fé se reuniam aos domingos para a fração do pão e para a oração, e é isso exatamente o que se continua a fazer até boje ( Cf. ( At 20, 7; 1 Cor 16, 2 ; At 2, 42 ) .

Diz assim um texto dos primeiros séculos: “Não ponhais os vossos assuntos temporais acima da palavra de Deus, antes, abandonando tudo no dia do Senhor para ouvir a Palavra de Deus, correi com diligência às vossas igrejas, pois nisso se manifesta o vosso louvor a Deus. Que desculpa terão diante de Deus os que não se reúnem no dia do Senhor para ouvir a palavra de Deus e alimentar-se com o alimento divino que permanece eternamente?” ( Cf. Didaqué, ll, 59, 2 – 3 ).

Para nós, o domingo deve ser uma festa muito particular e muito apreciada. Mais ainda quando em muitos lugares parece ter perdido o seu sentido religioso. Assim escrevia São Jerônimo: “O Senhor fez todos os dias. Há dias que podem ser dos judeus, dos hereges ou dos pagãos. Mas o dia do Senhor, dia da Ressurreição, é o dia dos cristãos, o nosso dia. Chama-se dia do Senhor porque, depois de ressuscitar no primeiro dia da semana judaica, o Senhor subiu ao Pai e reina com Ele. Se os pagãos o chamam dia do Sol, nós aceitamos de bom grado essa expressão. Nesse dia, ressuscitou a Luz do mundo, brilhou o Sol da justiça” .

Desde o começo, pois, e de uma forma ininterrupta, esta data foi sempre celebrada de um modo muito particular. “A Igreja – ensina o Concílio Vaticano II —, por uma tradição apostólica que tem a sua origem no próprio dia da Ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal cada oito dias, no dia que é chamado com razão «dia do Senhor ou domingo»… Por isso o domingo deve ser apresentado e inculcado à piedade dos fiéis como festa primordial, de maneira que seja também dia de alegria e de libertação do trabalho”  ( SC, 106).

Começamos a viver bem este dia — quando, desde que acordamos, procuramos imitar a fé e a alegria daqueles homens e mulheres que, no primeiro domingo da vida da Igreja, se encontraram com Cristo ressuscitado. Procuramos então imitar Pedro e João que correm para o sepulcro, ou Maria Madalena que reconhece Jesus quando Ele a chama pelo nome, ou os discípulos de Emaús…, pois é o mesmo Senhor que nós vamos ver.

E não nos esquecemos de que os nossos primeiros irmãos na fé nos ensinaram que o domingo é inseparável da atenção e da piedade com que devemos participar da Santa Missa, dada a relação íntima e profunda de ambos com o mistério pascal. Por isso, perguntamo-nos   se cada domingo é realmente para nós um dia que gira em torno da Missa e se, em função dela, todas as horas que a precedem ou lhe sucedem estão preenchidas pela consideração alegre de que fomos resgatados e somos vitoriosos em Cristo, por cuja morte e Ressurreição nós também já não estamos sob o império da morte, antes somos filhos de Deus.

Para a reevangelização do mundo, é particularmente urgente realizar um apostolado eficaz a respeito da santificação do domingo, um apostolado que penetre nas famílias. Porque há gente que esmorece e chega a perder o espírito cristão por uma maneira errada de descansar nos fins de semana. “É dever dos cristãos a preocupação de fazer que o domingo se converta novamente no dia do Senhor, e que a Santa Missa seja o centro da vida cristã… O domingo deve ser um dia para descansar em Deus, para adorar, suplicar, agradecer, pedir perdão ao Senhor pelas culpas coe metidas na semana que passou, pedir-lhe graças de luz e força espiritual para os dias da semana que começa” ( Papa Pio Xll ) e que iniciaremos então com mais alegria e com o desejo de acometer o trabalho com outro entusiasmo.

E poderemos então ensinar muitas pessoas a considerar este preceito da Igreja “não somente como um dever primário, mas também como um direito, uma necessidade, uma honra, uma sorte à qual um fiel vivo e inteligente não pode renunciar sem motivos graves” ( Beato Paulo Vl ).

Não se trata apenas de consagrar genericamente o tempo a Deus, pois isso já se contém no primeiro Mandamento. O que este preceito tem de específico é que manda reservar um dia preciso para o louvor e o serviço de Deus, tal como Deus quer ser louvado e servido. Ele pode “exigir do homem que dedique ao culto divino um dia da semana, para que assim o seu espírito, descarregado das ocupações cotidianas, possa pensar nos bens do Céu e examinar, no íntimo da sua consciência, como andam as suas relações obrigatórias e invioláveis, com Deus” ( São João XXlll, Mater et Magistra ).

O descanso dominical – bem como os demais dias de preceito – não pode ser para nós um tempo de repouso cheio de ociosidade insossa, desculpável talvez em quem não a Deus. “Descanso significa represar: acumular forças, ideais, planos… Em poucas palavras: mudar de ocupação, para voltar depois – com novos brios – aos afazeres habituas” (São Josemaria Escrivá, Sulco, 514 ). Trata-se de um “descanso dedicado a Deus”, e, ainda que nos nossos dias se vá assistindo a uma grande mudança de costumes, o cristão deve entender que também hoje “o descanso dominical tem uma dimensão moral e religiosa de culto a Deus” .

Os domingos e dias de preceito são ocasião para dedicarmos mais tempo à família, aos amigos, àquelas pessoas que o Senhor nos confia. Para os pais, é a oportunidade, que talvez não tenham ao longo da semana, de conversar tranquilamente com os filhos ou de fazer alguma obra de misericórdia: visitar um parente doente, o vizinho ou o amigo que está só…

A alegria que embargou a alma da Santíssima Virgem, no Domingo da Ressurreição, será também nossa, se soubermos pôr o Senhor no centro da nossa vida, dedicando-lhe os domingos com toda a generosidade.

Que a alegria do Senhor que gozamos neste dia de festa seja, de verdade, nossa força para toda a semana!

Mons. José Maria Pereira

http://www.npdbrasil.com.br/religiao/rel_hom_gotas0283.htm#msg01

CORAÇÃO DE JESUS Sagrado Coração: mais que uma devoção, uma espiritualidade Padre Joãozinho

 

 

CORAÇÃO DE JESUS

Sagrado Coração: mais que uma devoção, uma espiritualidade

 

Padre Joãozinho

A dedicação ao Sagrado Coração de Jesus, desenvolvida ao longo da vida da Igreja, é mais que uma devoção, é uma espiritualidade.

Na Bíblia, há uma dedicação do povo às coisas do coração. “Tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” (Ezequiel 11,19). “Vinde a mim vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mateus 11,28-29).

O coração de Jesus é o coração manso e humilde de Deus colocado dentro do nosso peito. O Senhor não é só uma inteligência suprema, Ele é coração, e o coração de Jesus é a manifestação visível do amor do Pai.

Ao longo desses dois mil anos de história da Igreja, os santos padres desenvolveram a espiritualidade do coração de Jesus. Mais tarde, Santa Maria Margarida, no século XVII, teve a imagem do coração de Cristo para fora do peito, coroado de espinhos e inflamado de amor. Essa imagem acabou fazendo história e aprofundando essa espiritualidade. A Festa do Sagrado Coração de Jesus foi oficializada pela Igreja; a primeira sexta do mês é dedicada a Ele.

Os efeitos da consagração ao Sagrado Coração

Os efeitos da consagração ao Sagrado Coração de Jesus estão diretamente ligados às promessas de Jesus feitas a Santa Maria Margarida, as quais foram propagadas doze, porém são inúmeras. O primeiro grande efeito é a experiência do amor de Deus, de quem somos filhos amados. E esse amor não nos abandona; pelo contrário, acompanha-nos sempre. Jesus, quando voltou para o Pai, deixou-nos uma grande promessa: “Estarei convosco todos os dias até o fim”. Essa é a certeza: Deus está conosco.

O Senhor é um colo, o Sagrado Coração de Jesus é um refúgio, uma rocha protetora, diz uma das promessas. Ele não é legislador, mas Pastor que pega Sua ovelha no colo e cuida de suas feridas.

As experiências de um padre do coração de Jesus são muitas, em minha vida não é diferente. Há uma promessa do Sagrado Coração que diz: “Darei aos sacerdotes consagrados ao meu Sagrado Coração a graça de alcançar até os corações mais endurecidos”. Certa época, eu pregava muito da cabeça, da inteligência, da teologia, e as pessoas se convenciam intelectualmente, mas não no coração, não se convertiam. Até que Deus tocou meu coração e percebi que precisava falar afetivamente do coração de Deus, pois Ele não é só inteligência, é também coração.

 

Na pregação seguinte, usei dois artifícios: a inteligência e a afetividade para apresentar Deus. Uma pessoa veio a mim, após essa pregação, e disse que tudo o que falei com a cabeça ela compreendeu, mas o que a convenceu e a converteu foi quando eu disse afetivamente que Deus é coração. Daí, surgiu a canção: “Conheço um coração tão manso, humilde e sereno…” Conhecer o coração do Pai converte as pessoas.

O Sagrado Coração de Jesus é mais que uma devoção, é uma espiritualidade. É a espiritualidade da ternura, do coração, é a mística do afeto. É reconhecer que Deus é mais que Pai, Ele é Pai e Mãe, e tem um colo para nós. A grande dica para aproveitarmos bem toda essa espiritualidade é nos deixarmos adormecer no coração d’Ele. Há momentos em que precisamos repousar no coração do Senhor, seguir o conselho de Jesus que nos diz: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e eu vos aliviarei”. Deixe-se repousar no coração de Deus.


https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/devocao/sagrado-coracao-mais-que-uma-devocao-uma-espiritualidade/

(*)Padre Joãozinho, SCJ

Padre da Congregação do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos), doutor em Teologia, diretor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP), músíco e autor de vários livros. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/

A HOMILIA IMPLÍCITA Por Pe. Silvio Sassi, ssp

 

 

A HOMILIA IMPLÍCITA

Por Pe. Silvio Sassi, ssp

 

Como veiculamos os nossos discursos? A mensagem não é só o conteúdo, mas também o modo pelo qual é apresentado. Como se faz a análise da linguagem da homilia, tendo presentes as funções (emotiva, poética, conotativa, referencial, metalinguística, fática), que envolvem a linguagem na relação entre duas ou mais pessoas? Com essa análise, o pregador pode ter uma ideia de postura e consideração para com a assembleia e do grau de comunicabilidade que há com ela.

É possível dispor de instrumentos de análise que permitam ao pregador uma avaliação de sua comunicação homilética? O desejo de melhorar a própria homilia pode contar com uma averiguação preventiva sobre o modo de pregar habitual? Como é possível, relendo (para quem faz a homilia por escrito) ou escutando uma gravação, formar uma ideia sobre aquilo que quisemos comunicar?

Para uma análise da qualidade comunicativa da homilia, tendo em vista a sua melhoria, pode-se fazer uso da semiologia, método de estudo rigoroso sobre todos os sistemas de signos. É um fenômeno típico da comunicação interpessoal.

1.    Conteúdo implícito e conteúdo explícito

 

De início, vale precisar que o objeto deste artigo não é o conteúdo teológico, as ideias desenvolvidas, a exatidão doutrinal, a fidelidade exegética das interpretações e adaptações para o público. Ocupar-nos-emos do modo pelo qual os diversos aspectos da homilia se tornam um ato comunicativo dirigido a uma assembleia. Em termos sintéticos, poderíamos dizer que o assunto do artigo não é o que é dito, mas o modo de dizer. Não tomamos, portanto, o conteúdo explícito daquilo que é dito, mas voltamos a atenção ao conteúdo implícito das homilias.

A nossa convicção de partida é um fenômeno típico da comunicação interpessoal levado ao seu extremo na comunicação de massa: a mensagem não é somente o conteúdo do discurso, mas também o modo pelo qual o conteúdo é apresentado. Um bom ator de teatro pode pronunciar em cerca de 50 modos diversos a simples expressão “esta noite”.

No caso dos meios de massa, podemos exemplificar o fenômeno observando que, em um capítulo de telenovela, aquilo que é contado constitui o pedaço de uma história, que recebemos com os sentidos da visão e da audição, mas é apresentado também, bem misturado com a história, um mundo de valores que inadvertidamente recebemos.

Para a homilia, podemos dizer que, por meio daquilo que é dito e constitui o conteúdo, se produz uma série de fenômenos linguísticos que revelam, por exemplo, a concepção do pregador a respeito de seu ministério de pregador, talvez sem se dar conta, ou então a ideia que ele tem a respeito de seu público dominical.

Levando em conta sensibilidades diversas no modo de elaborar a homilia — da improvisação à preparação minuciosa —, é necessária, para um estudo posterior mais aprofundado, ou uma gravação da homilia, ou o texto exato, para quem faz a homilia com base em texto escrito.

2.    Funções linguísticas e comunicação homilética

 

Sobre a homilia integral (em gravação ou texto), como foi proferida, podemos realizar uma parte da análise linguística. Esta consiste em descobrir a importância que proporcionalmente nós demos, na pregação, às emoções, à ordenação das ideias, à preocupação de ter a atenção da assembleia e também ao cuidado de explicar os termos usados que sejam pouco conhecidos.

Convém recordar, antes de tudo, que, no processo comunicativo da homilia, temos uma comunicação linguística completa nos seus vários aspectos:

1.  Emissor: aquele que fala = o pregador (função emotiva);

2.  Mensagem: o que é dito na homilia (função poética);

3.  Receptor: aquele que escuta = a assembleia (função conotativa);

4.  Código: a língua usada e o sentido das palavras (função metalinguística);

5.  Contexto: a situação concreta na qual se desenvolve a comunicação = os assuntos tratados como informação (função referencial);

6.  Contato: o canal usado na comunicação = a voz e os sentidos receptivos (função fática).

O linguista R. Jakobson vincula a esses elementos de todo processo comunicativo as funções que a linguagem assume ao pôr em relação duas ou mais pessoas (funções indicadas entre parênteses, acima).

Concentremo-nos sobre a compreensão de cada função e suas consequências para a comunicação homilética.

2.1.        Função emotiva

 

A função emotiva exprime a atitude do emissor com relação à mensagem: são as tomadas de posição emotivas do pregador no confronto com aquilo que ele diz. Identifiquemos na gravação ou sublinhemos no texto da homilia todas as interjeições e as frases que terminam em exclamação. Esses elementos linguísticos são o instrumento de expressão da emotividade do pregador. Sabemos que as expressões emotivas são o espelho do estado de ânimo daquele que fala e uma pressão indireta exercida sobre quem escuta.

Na homilia na qual são numerosas as exclamações, há uma presença quase evidente da subjetividade de quem fala, incluindo também o desejo de tornar pública, no contexto da homilia, a própria emotividade. Dizer: “Que alegria, irmãos!”, ou então: “Que gestos insensatos!” exprime a alegria, no primeiro caso, ou um julgamento, no segundo, que não são necessariamente idênticos em quem escuta. Desse modo, julgar “insensato” um gesto exprime a emoção da reprovação, mas não automaticamente a motivação de uma reprovação compartilhada por quem escuta.

A função emotiva não nos informa sobre o conteúdo do que foi disposto, mas sobretudo, sobre o estado de ânimo e sobre os juízos de quem fala. Destaquemos ainda em nossa homilia todos os adjetivos, que são o índice mais vistoso da função emotiva, enquanto exprimimos os juízos de valor para aprovação ou desaprovação. A esse propósito, podemos nos perguntar: “Em qual relação estão a série de nossos adjetivos e o juízo da palavra de Deus?”.

Uma homilia na qual se encontra muita função emotiva (interjeições, exclamações, adjetivos e advérbios adjetivados) corre o risco de eclipsar o anúncio para pôr a subjetividade do pregador em primeiro lugar.

2.2.        Função poética

 

A função poética acentua a mensagem em si: o pregador cuida da forma e da estrutura de sua homilia, convicto de que dará força àquilo que diz. Esclarecemos logo que “função poética” não significa uma homilia em forma de poesia com estrutura livre ou calibrada sobre uma métrica particular. Uma manifestação essencial de um texto em função poética é o seu ritmo.

Consideremos o trabalho operado sobre a nossa homilia para imprimir certa cadência: frases longas, frases curtas; frases coordenadas, frases subordinadas; frases causais, adversativas, modais, temporais. Faz parte da cadência também a estrutura global da homilia: uma sucessão de perguntas e respostas; uma homilia construída sobre uma série de negações com uma afirmação final; uma homilia simétrica de realidades a condenar e realidades a aprovar.

Outro elemento da função poética é o cuidado do estilo, que, no âmbito publicitário, encontra o seu cumprimento no slogan. Pode haver na homilia uma frase-slogan, que seja repetida de vez em quando, ou pela riqueza de seu conteúdo-síntese ou pela sua grandeza gramatical e sintática. O pregador a repete porque deseja que se imprima na mente do ouvinte como mensagem a recordar.

Uma última manifestação da função poética é o uso de imagens construídas, recorrendo a todas as figuras da retórica: metáfora, comparação, elipse, paradoxo etc.

Procuremos perceber no nosso texto, portanto, o ritmo, a cadência, a simetria, o estilo e as imagens retóricas e nos daremos conta da atenção que dispensamos à preparação da homilia ou ao efeito na audiência.

2.3.        Função conotativa

 

A função conotativa é orientada ao receptor: a homilia chama diretamente em causa o ouvinte, no qual o coenvolvimento ocorre principalmente mediante o uso da segunda pessoa do singular ou do plural e mediante o imperativo e o vocativo.

Observemos, em nossa homilia, as frases em função conotativa, como: “Vocês que têm a possibilidade…”; “Vocês que desejam…”; “Se você quer obter…”; “Se você escuta somente…”. Além disso, voltemos a atenção a todos os imperativos: “Vocês devem…”; “Empenhemo-nos…”; “Não deixem escapar a ocasião…”; “aproveitem…” e as ordens impessoais do tipo: “É necessário…”; “Deve-se…”; “É preciso fazer tudo para…”.

Por meio dessa análise, o pregador pode ter uma ideia de como ele considera os seus fiéis. A comunicação nos diz que o receptor se sentirá chamado em causa à medida que compreender o apelo que lhe é dirigido. Aplicado à situação homilética, isso significa: o ouvinte se sente interpelado à medida que a exortação lhe é proposta em modo compreensível.

Uma consideração que podemos fazer sobre a função conotativa diz respeito à distância ou à proximidade do pregador em relação à sua assembleia. Por que dizer “vocês devem” e não “nós devemos”? Linguisticamente, o imperativo exprime a necessidade daquele que fala de distinguir-se daqueles que escutam. Pode-se objetar que usar “vocês” em vez de “nós” e recorrer com frequência ao imperativo são somente modos de falar e, portanto, é exagerado querer ver nisso o desejo do pregador de se isolar da assembleia. Nós estamos propondo, como base de trabalho, a ideia de que essas “inércias” linguísticas são, com efeito, a expressão de escolhas conscientes ou inconscientes que deixam transparecer a personalidade do pregador.

Uma última consideração sobre a função conotativa expressa nos vocativos e imperativos nos permite formar uma visão a respeito do tipo de argumentação escolhido na impostação da homilia. Revendo nossa homilia, perguntemo-nos: a força de persuasão alavanca a coerência do discurso (problema — argumentação — solução), a demonstração da verdade (aquilo que não é verdade põe em evidência a verdade), a emoção (sentimento de alegria, de dor), a lógica das perdas e ganhos, a relação pessoal com Deus, caracterizada pelo amor e pela Aliança?

Descobrindo a justificação que está na base de nossos vocativos/interpelações e imperativos, podemos nos dar conta se a nossa homilia é predominantemente discurso teológico, atualização, iniciação, moral.

2.4.        Função referencial

 

A função referencial põe em evidência todas as informações que, na mensagem, dizem respeito a um contexto preciso: na homilia, procuramos os argumentos que se referem a um saber determinado. Podemos considerar a função referencial sob dois aspectos. Em primeiro lugar, ela nos faz refletir sobre a “situação” da comunicação homilética. Entendemos por situação o conjunto de circunstâncias em que ocorre a comunicação: o espaço material (igreja — acústica — disposição dos bancos — ruídos), o ambiente circunstante (tempo — horário), a identidade dos que estão presentes (assembleia apenas de crianças, ou de adultos, ou mista), os acontecimentos históricos gerais, paroquiais e familiares recentes dos quais se está ainda vivendo as consequências.

Observemos, em nossa homilia, as informações que nos revelam nosso interesse pelos fatores espaciais, temporais e históricos de nossa assembleia no momento em que esta se torna auditório de nosso discurso. Se não há frases ou acenos particulares à situação concreta, é preciso pelo menos interrogar-se se alguns desses critérios foram levados em consideração na preparação global da homilia: breve para uma circunstância alegre; mais longa porque a comunidade deve viver um momento particular; alusão direta ou indireta à situação histórica geral ou particular.

A função referencial, em seu aspecto de “situação”, informa-nos se a nossa homilia não é genérica, mas preparada levando em conta as coordenadas históricas e espaço-temporais da assembleia.

O segundo aspecto da função referencial nos dá a maneira de avaliar aquilo que escolhemos e queremos que a assembleia saiba por meio da pregação. Frases como: “Celebramos hoje a jornada de oração pelas vocações”, “para o dia das missões recolhemos…”, “essa palavra que usamos deriva do grego e significa…”, “o dogma da encarnação significa…” são de caráter referencial/informativo.

Estendendo a toda a homilia a reflexão de caráter informativo, devemos incluir a explicação catequética, dogmática e teológica, tendo sempre em conta que o critério de verificabilidade das nossas afirmações é dado pela fé, que é a garantia do nosso falar.

2.5.        Função metalingüística

 

A função metalinguística serve ao emissor e ao receptor para verificar se usam ambos o mesmo código: o pregador se preocupa com que a sua palavra seja entendida pelo receptor no mesmo sentido dado por ele ao pregar. Frases como: “Quando dizemos…, queremos nos referir a…”, “usamos a palavra bem-aventurança no sentido evangélico, não como…”, “devemos nos pôr de acordo quando falamos ‘participação ativa’”, “quando digo…, entendo esse termo com um sentido diferente do uso ordinário” são de caráter metalinguístico porque contêm a preocupação de fazer-se entender e também de explicar o termo ou a frase utilizada.

Preocupar-se em fazer definições claras e simples em nossa homilia significa desejar uma comunicação de qualidade e querer que a assembleia entenda nosso discurso.

Devemos perseguir uma mútua compreensão entre pregador e fiéis em relação ao sentido no qual entender, sejam os termos religiosos, sejam os termos do falar corrente. É melhor uma definição a mais que esclareça o significado de nossa palavra do que uma série de afirmações ligadas a um termo, que se pressupõe entendido por todos, enquanto cada um compreende como achar melhor, com o risco de incomunicabilidade. A falta absoluta da função metalinguística na homilia pode ser indício de uma avaliação incorreta do nível de compreensão da assembleia: aquilo que é claro para o pregador não é automaticamente claro para ela.

2.6.        Função fática

 

A função fática serve para estabelecer e pedir a atenção dos receptores: o pregador deseja captar e ter a atenção da assembleia. Frases como: “Vocês estão me acompanhando ou não?”, “o que vocês pensam disso?”, “estejam bem atentos”, “gostaria que vocês prestassem bem atenção nisso”; “me expliquei ou devo dizer em outros termos?”; “façamos o esforço de compreender juntos” estão na função fática, porque servem para chamar a atenção da assembleia.

Observemos, em nossa homilia, as expressões que revelam nossa preocupação em ter a atenção do auditório. O pregador atento ao efeito de suas palavras sabe que pode escolher entre um pedido de atenção explícito ou um mais indireto.

O pedido de atenção indireto consiste em levar em conta as leis da percepção e, portanto, recordar-se que, depois de cinco minutos de homilia, a atenção diminui progressivamente; no uso de frases breves sem muitos incisos e sem frases subordinadas; em um estilo que sabe variar entre reflexão, informação, exortação e apelo moral.

A presença ou a ausência da função fática em nossa homilia indicam em que medida consideramos as reações do público ao nosso discurso.

3.    Conclusão

 

Observando as várias funções do texto linguístico, detivemo-nos um pouco nos diversos elementos que entram em jogo na comunicação homilética. Ao final de nossa análise, retomemos o texto da homilia, nos pontos em que destacamos as diversas funções. Demos atenção a elas porque não é fácil realizar uma homilia em uma só função: seria um discurso mutilado. Geralmente todas as funções estão presentes, mesmo que em grau quantitativo diferente: pode-se constatar até mesmo uma “hierarquia” das funções. Uma homilia será diferente da outra em razão da dosagem particular que põe em evidência essa ou aquela função.

A utilidade prática da análise que propomos se pode resumir em duas vantagens:

a) avaliando frequentemente as diversas funções, damo-nos conta de alguns mecanismos que não são o conteúdo, mas podem incidir sobre ele;

b) prestando atenção na variação das funções ao elaborar a homilia, talvez nos preocupemos mais com todos os aspectos da comunicação.

A perspectiva limitada e talvez um pouco técnica de nossa intervenção não pretende ser uma receita maravilhosa nem enfocar somente considerações sobre a habilidade no uso da palavra. Guia-nos a preocupação do papa Paulo VI expressa na encíclica Ecclesiam Suam:

Devemos voltar ao estudo não já da eloquência humana ou da retórica vã, mas da arte genuína da palavra sagrada. Devemos procurar as leis da sua simplicidade e da sua limpidez, da sua força e da autoridade para vencer a natural imperícia no emprego de tão alto e misterioso instrumento espiritual, o qual é a palavra, e para competir nobremente com tantos que hoje têm larguíssimo influxo com a palavra mediante o acesso às tribunas da opinião pública (51-52).

Pe. Silvio Sassi, ssp

 

https://www.vidapastoral.com.br/artigos/temas-pastorais/a-homilia-implicita/

ESTILO DE VIDA Quais são as melhores coisas de ser católico(a)?

 

 

ESTILO DE VIDA

Quais são as melhores coisas de ser católico(a)?

Cerith Gardiner -

Nós listamos algumas delas, dê uma olhada

Há uma infinidade de razões maravilhosas para ser católico, desde desenvolver um relacionamento com nosso Pai Celestial — e saber que quando chegar a hora Ele estará lá esperando de braços abertos para nos receber por uma eternidade — até ter orientação para levar uma vida gratificante.

No entanto, ser católico envolve outros aspectos igualmente bons. Listamos alguns deles aqui embaixo, com os quais achamos que você pode concordar. Mas também adoraríamos saber quais são suas partes favoritas de ser batizado(a) na fé católica. Conte pra gente nos comentários abaixo!

1
HUMOR SAGRADO

Desde tentar reprimir uma risada quando se trata de uma leitura com nomes que deixam você totalmente sem palavras, até as brincadeiras depois da missa dominical ou em eventos da Igreja, os católicos sabem como encontrar alegria na fé. E isso é particularmente essencial num mundo cheio de desafios.

2
ESQUADRÃO SANTO

Imagine ter uma equipe inteira de amigos celestiais torcendo por você! Os santos são como o seu melhor fã-clube, cada um com sua experiência única. Precisa de ajuda com itens perdidos? Chame Santo Antônio. Sentindo-se um pouco desesperado? São Judas protege você.

E mais, aprender sobre os milhares de homens e mulheres santos que viveram antes de nós não pode deixar de nos inspirar na forma como conduzimos as nossas vidas hoje. Graças à tecnologia, temos mais acesso às informações sobre esses santos com o clique de um botão.

3
DATAS FESTIVAS

Ser católico significa reconhecer algumas pessoas e acontecimentos-chave da nossa fé. E isso, muitas vezes, significa celebração. Com um calendário litúrgico repleto de festas e eventos especiais, há sempre um motivo para uma reunião alegre, comida deliciosa e – quem sabe – um ou dois bailes. Esta é uma ótima maneira de combater o isolamento que tantas pessoas sentem devido ao advento das mídias sociais e a uma vida que gira em torno das telas.

4
CONFISSÃO, NOSSO BOTÃO DE RESET

Você já desejou apertar o botão de reset ao final de um dia difícil? A Confissão é como uma reinicialização espiritual, oferecendo uma chance de refletir, arrepender-se e começar de novo com o perdão e a graça que a acompanham. O sacramento também é uma ótima maneira de nos aproximar de Deus ao longo dos anos.

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CULINÁRIA CATÓLICA

Peixe às sextas-feiras, almoços deliciosos e beneficentes – a comunidade católica sabe como combinar fé com comida. Não se trata apenas de alimentar a alma; também temos maneiras deliciosas de alimentar o corpo! E mais: isso envolve uma oportunidade de compartilhar uma refeição com entes queridos e amigos.

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OTIMISMO ETERNO

Os católicos têm uma visão esperançosa da vida. Com a promessa da vida eterna, existe um sentimento de otimismo que pode ajudar a enfrentar os desafios do presente. É quase como ter um deslocador de perspectiva integrado!

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Quem dizem os homens que eu sou? Uma leitura de Marcos 8,27-38 (I) Por Pe. Shigeyuki Nakanose, svd

 

Quem dizem os homens que eu sou? Uma leitura de Marcos 8,27-38 (I)

Por Pe. Shigeyuki Nakanose, svd

 

Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe e, no caminho, perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam: “João Batista; outros, Elias; outros, ainda, um dos profetas”. “E vós”, perguntou ele, “quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”. Então, proibiu-os severamente de falar a alguém a seu respeito (Mc 8,27-30).

 

Quem é Jesus? Questão central e decisiva na comunidade de Marcos, diante do surgimento de várias lideranças populares por volta do ano 70. Para a comunidade, que professava Jesus morto e ressuscitado como “Cristo”, a compreensão da identidade e da missão de Jesus era, ao mesmo tempo, a compreensão da missão dos cristãos: quem eram os verdadeiros discípulos e as discípulas de Jesus de Nazaré?

A pergunta “Quem dizem os homens que eu sou?” atravessa milênios e continua em discussão, oferecendo várias imagens de Jesus: milagreiro, rei triunfante, sacerdote, psicólogo, monge, economista, revolucionário etc. Cada imagem revela uma faceta da vivência de um indivíduo cristão. Pois a essência da pessoa humana de Jesus com sua proposta de vida é fundamental para viver a fé cristã. Hoje a pergunta de Jesus continua nos interpelando: “Quem dizem os homens que eu sou?” Para responder melhor a essa pergunta, é preciso, primeiramente, situá-la no contexto histórico em que Jesus e a comunidade de Marcos viveram.

 

1.    Situando na história

 

            O pano de fundo histórico da febre messiânica, que contagiava e movimentava o povo de Israel no primeiro século d.C., é consequência do fracasso do movimento dos macabeus (166-63 a.C.) e da ascensão e dominação do poder romano (63 a.C.-135 d.C.). Depois de grande sofrimento e opressão sob as três dominações estrangeiras (babilônica, persa e grega), o povo depositou grande esperança nas mãos dos macabeus. Esperava que eles fossem os líderes verdadeiros que iriam libertar o povo do jugo dos opressores. Mas fracassaram! O movimento dos macabeus desembocou na formação de uma monarquia tão opressora quanto a dos gregos. Eles se preocupavam apenas com o interesse e a segurança de sua dinastia, a dos “asmoneus”. A velha história se repete!

            A frustração aumentou com a chegada dos romanos e do seu tremendo poderio militar. O povo se submeteu impotente às ordens humilhantes de mais uma potência estrangeira que chegou para devastar sua pátria. A devastação acontecia não somente no campo de tributos e comércio (moedas), mas também no campo cultural e religioso. Os imperadores, por exemplo, apresentavam-se como filhos de Deus, filhos do cometa e sumos sacerdotes. A história relata dois exemplos de imposição cultural e religiosa dos imperadores que provocaram indignação e revolta nos judeus e poderiam ter provocado um banho de sangue: os estandartes militares de Pilatos com a imagem do imperador César marchando para Jerusalém (26-27 d.C.) e a tentativa de erguer a estátua do imperador Caio Calígula no templo de Jerusalém (40-41 d.C.).

E, para piorar a situação do povo, os romanos nomearam os idumeus, inimigos dos judeus, para reger a Palestina: Herodes Magno e seus filhos (Arquelau, Antipas e Filipe), cujos reinados foram marcados pela brutalidade e tirania, espalhando ódio e desespero no meio do povo. Arquelau, por exemplo, sufocou a revolta dos judeus de Jerusalém, massacrando 3 mil pessoas na praça do Templo na Páscoa. Os reis herodianos promoveram a ostentação do luxo segundo o estilo romano, construindo palácios em cidades como Cesareia, Jerusalém, Séforis, Tiberíades, Jodefá etc. Aumentaram os tributos, assim como intensificaram a exploração, a opressão e a violência contra os camponeses, que constituíam 90% ou mais da população da Palestina. Era comum presenciar famílias inteiras sendo vendidas como escravos por causa de dívidas.

Infelizmente, os líderes religiosos de Jerusalém praticamente não fizeram nada diante da situação do povo; ao contrário, o desempenho deles visava aos próprios interesses e privilégios, obtendo lucro também por meio da colaboração com o império. Um dos relatos da época registra o abuso cometido pelo sumo sacerdote Ismael (59-61 d.C.):

Naquela época, o Rei Agripa conferiu o sumo sacerdócio a Ismael, filho de Fiabi. Surgiu então mútua inimizade e luta de classe entre os sumos sacerdotes, de um lado, e os sacerdotes e líderes do populacho de Jerusalém, do outro […]. Era tamanha a falta de vergonha e a afronta da parte dos sumos sacerdotes, que descaradamente enviavam escravos à entrada de suas casas para receber os dízimos devidos aos sacerdotes, resultando daí que, sem nada ter, os pobres religiosos morriam de fome (Flávio Josefo apud CROSSAN; REED, 2007, p. 235).[1]

 

Os governantes religiosos estavam envolvidos com extorsão e ladroeiras, transformando o Templo num “covil de ladrões” (Mc 11,17). O povo vivia em completo abandono. Nesse caldeirão de tensões sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas renascem e crescem os movimentos de resistência com visões escatológicas e apocalípticas do reino de Deus: Deus intervém e transforma o mundo do mal, da injustiça e da violência num mundo de justiça e de paz. Os movimentos resultaram em duas grandes revoltas nos primeiros cem anos do domínio romano: no ano 4 a.C., com cerca de 2 mil rebeldes crucificados em Jerusalém, e em 66-73 d.C., na Guerra Judaica, com a destruição do Templo e da cidade de Jerusalém.

No primeiro século havia vários movimentos de resistência ao domínio romano. Vejamos os que são conhecidos:

1)      Banditismo judaico: os camponeses endividados e expulsos de suas terras se refugiavam nas montanhas e se juntavam aos salteadores. Atacavam as caravanas romanas e faziam incursões nas áreas fronteiriças. Flávio Josefo, historiador e colaborador de Roma, falando sobre o banditismo judaico da década de 30 d.C., informou: “Salteadores que viviam em cavernas estavam devastando grande parte da zona rural e infligindo aos habitantes calamidades não menores que as de uma guerra” (G.J.1.304 – HORSLEY; HANSON, 1995, p. 76). Os bandidos, na verdade, mantinham contato com os camponeses das aldeias, compartilhavam os mesmos valores culturais e religiosos e muitas vezes faziam justiça em favor dos habitantes locais. Os habitantes, por sua vez, geralmente os apoiavam e até arriscavam a vida para protegê-los. Na Galileia, esse movimento do banditismo era suficientemente forte para ameaçar e levantar-se em rebelião contra seus dominadores, judeus e romanos, e, com um líder bem-sucedido, o movimento tornava-se uma esperança escatológica para o povo explorado e empobrecido.

2)      Movimentos messiânicos com reis populares: os camponeses em dificuldade juntavam-se a algum movimento messiânico sob a liderança de um rei carismático. Eles sonhavam com um líder como o rei Davi e o “filho do homem” (Dn 7), que poderia estabelecer o reinado definitivo de Israel, derrotando os romanos e expulsando os governantes corruptos. Na época de Jesus, o povo seguia vários “reis messiânicos”, como Judá, filho de Ezequias, Sião, ex-escravo de Herodes, Atronges, um pastor etc.

3)      Movimentos proféticos: no primeiro século, constata-se o renascimento de profetas com as características transmitidas na tradição bíblica (Elias, Amós, Oseias, Miqueias, Jeremias etc.). Eles, como João Batista, denunciavam as injustiças e anunciavam o julgamento iminente de Deus. Alguns deles inspiravam e lideravam até um movimento de revolta contra as autoridades, como no caso dos profetas samaritanos, por volta de 30 d.C.

Nesse contexto histórico de constantes ondas de revoltas populares, Jesus de Nazaré aparece diante do povo com a fama de ser um profeta.

2.    Jesus de Nazaré

 

Nem sempre é fácil descrever o Jesus histórico e sua vida. Nos evangelhos, misturam-se as atividades de Jesus e as interpretações feitas, posteriormente, pelas comunidades cristãs. Mas é inegável que ele é originário da aldeia de Nazaré e passou a maior parte da sua vida pregando, atuando e andando de uma aldeia para outra na Galileia. Seus atos, ensino, ditos e parábolas eram enraizados nas experiências da vida camponesa da sua terra. Eis algumas práticas de Jesus que se diferenciavam da imagem oficial do Messias daquele tempo (NAKANOSE, 2004, p. 115):

1)      Jesus anuncia a boa-nova, primeiramente, aos pobres da Galileia. Essa região não é, para a elite judaica, o lugar apropriado para a aparição do Messias: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46).

2)      Jesus critica a lei da pureza: Jesus vive no meio dos marginalizados, toca o leproso (Mc 1,41), come com os pecadores (Mc 2,15) e acolhe a mulher impura (Mc 5,25-34). O que ele está propondo é reincorporar os marginalizados na vida social em vez de excluí-los pela Lei discriminatória. Devolve-lhes a alegria de viver como gente! Essa atitude de Jesus desafia a imagem do Messias como mestre e guardião da Lei oficial, por quem os fariseus e os essênios esperavam (Mc 7,1-7).

3)      Jesus não manda nas pessoas nem as domina, mas veio para servi-las (Mc 10,45). Essa prática não segue a regra do Messias rei vitorioso que instaura o reinado de Deus mediante a violência e a dominação. A prática da libertação não se baseia no poder, mas no serviço. Quem usa o poder para libertar o povo corre o risco de subjugá-lo com o mesmo poder (Mc 9,33-37; 10,42-45).

4)      Jesus é descrito como o profeta Jeremias, desafiando as autoridades judaicas estabelecidas no Templo: “Não está escrito: Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões!” (Mc 11,17; Jr 7,11). Essa é a causa principal da ira das autoridades do Templo, considerado por muitos como o local onde o Messias vai se apresentar e começar a sua conquista e seu domínio triunfante (Lc 4,9).

A imagem do Messias que nasce da prática de Jesus se contrapôs à poderosa figura messiânica davídica esperada pelo povo judeu. Ele é o “servo sofredor” (Is 42,1-9), que prega e pratica um relacionamento social e religioso baseado no amor, na compaixão e na justiça, o que o leva a um confronto com as autoridades e, consequentemente, à cruz. O sofrimento e a morte de Jesus não são castigos nem projeto de Deus, mas consequência de sua prática da justiça e da solidariedade.

Os primeiros seguidores e seguidoras, que conseguiram compreender esse messianismo do servo após a morte de seu mestre e a experiência pascal, colocaram-se ao lado dos crucificados da sociedade para construir o reino de Deus, de amor e solidariedade. Porém, foi difícil seguir o projeto do Jesus servo sofredor na sociedade greco-romana, controlada pelo império que pregava e buscava poder, riqueza, posição social, honra, fama etc. É também muito grande a tentação de imaginar e pregar Jesus como rei triunfante e profeta poderoso nas dificuldades e nos momentos de perseguição. A comunidade de Marcos não foi exceção. Ela enfrentou a crise de identidade: quem é Jesus e qual a sua missão nos movimentos de resistência contra o império existentes na Galileia.

3.    A figura messiânica e a comunidade de Marcos

 

            Após a morte de Herodes Agripa I (44 d.C.), a Judeia voltou a ser província romana. Com a perda da autonomia política da Judeia e a terrível fome no fim dessa década, a Palestina presenciou o aumento sucessivo dos movimentos violentos de resistência, o qual atingiu seu ápice na Guerra Judaica de 66-73:

1)      O banditismo aumentou em proporções epidêmicas. Os principais líderes carismáticos foram: Eleazar bem Dinai; Tolomau; Jesus, filho de Safias etc.

2)      Os reis e os profetas messiânicos prometiam a libertação do jugo dos romanos e reuniam enorme movimento popular: o rei messiânico Manaém, filho de Judas, o Galileu; o profeta Egípcio etc.

3)      Os sicários, que apareceram na década de 50 d.C., sequestraram, assassinaram os aristocratas colaboradores dos romanos, provocaram agitações a favor da liberação judaica e, finalmente, aderiram aos grupos rebeldes na luta contra o império em 66-70.

No fim da década de 60, toda a Palestina estava infestada de movimentos de revolta, que agitavam a comunidade de Marcos. A comunidade se juntaria à revolta armada com a bandeira do rei Jesus messiânico? A dúvida e indecisão da comunidade estão manifestadas em seu texto:

Pois naqueles dias haverá uma tribulação tal, como não houve desde o princípio do mundo que Deus criou até agora, e não haverá jamais. E se o Senhor não abreviasse esses dias, nenhuma vida se salvaria; mas, por causa dos eleitos que escolheu, ele abreviou os dias. Então, se alguém vos disser: “Eis o Messias aqui” ou “ei-lo ali”, não creiais. Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos. Quanto a vós, porém, ficai atentos. Eu vos preveni a respeito de tudo (Mc 13,19-23).

 

Quem é Jesus? A comunidade de Marcos trata do assunto do messianismo de Jesus de modo particular. Olhando, sobretudo, a primeira parte do Evangelho de Marcos (Mc 1,1-8,26), o leitor logo percebe as constantes ordens de silêncio depois da prática poderosa e libertadora de Jesus e da menção de seus títulos. Eis a lista dessas ordens:

1)      “Na ocasião, estava na sinagoga deles um homem possuído por um espírito impuro, que gritava, dizendo: ‘Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o Santo de Deus’. Jesus, porém, o conjurou severamente: ‘Cala-te e sai dele’. Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando grande grito, deixou-o” (Mc 1,23-25).

2)      “Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios. Não consentia, porém, que os demônios falassem, pois eles sabiam quem era ele” (Mc 1,32-34).

3)      “Um leproso foi até ele, implorando-lhe de joelhos: ‘Se queres, tens o poder de purificar-me’. Irado, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: ‘Eu quero, sê purificado’. E logo a lepra o deixou. E ficou purificado. Advertindo-o severamente, despediu-o logo, dizendo-lhe: ‘Não digas nada a ninguém; mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece por tua purificação o que Moisés prescreveu, para que lhes sirva de prova’” (1,40-44).

4)      “Pois havia curado muita gente. E todos os que sofriam de alguma enfermidade lançavam-se sobre ele para tocá-lo. E os espíritos impuros, assim que o viam, caíam a seus pés e gritavam: ‘Tu és o Filho de Deus!’ E ele os conjurava severamente para que não o tornassem manifesto” (3,10-12).

5)      “Tomando a mão da criança, disse-lhe: ‘Talítha Kum’ – o que significa: ‘Menina, eu te digo, levanta-te’. No mesmo instante, a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos. E ficaram extremamente espantados. Recomendou-lhes então expressamente que ninguém soubesse o que tinham visto. E mandou que dessem de comer à menina” (5,41-43).

 

Lançando um olhar sobre essa lista e outros textos, podemos ter uma resposta parcial à pergunta que fizemos à comunidade de Marcos a respeito do messianismo: por que Jesus impõe o silêncio e não permite que as pessoas mencionem seus títulos? Antes de tudo, Jesus desfaz um equívoco: a pretensão do povo em transformá-lo num Messias poderoso e triunfante. Foi exatamente essa pretensão que penetrou e dominou a comunidade de Marcos. Eles olhavam o céu, esperando e pedindo que Jesus interviesse logo no mundo para estabelecer seu reino glorioso e definitivo. Entretanto, ele os adverte e se contrapõe à figura messiânica davídica triunfalista. Dessa maneira, a comunidade começa a orientar seus membros para o verdadeiro messianismo de Jesus e seu destino na segunda parte do evangelho, que se inicia em Mc 8,27-38.

(Continuará no próximo Domingo...)

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