4.2-Solenidade da Santíssima Trindade – A
O mistério da
Santíssima Trindade é a luz que ilumina todas as verdades da fé. E é um
mistério de amor profundo.
Meus queridos
Irmãos,
Como o Pai Me amou, assim Eu vos
amei! Palavras de vida para guardar no peito e transbordar alegria em cada novo
dia.
Este
tempo maravilhoso de Páscoa, que foi encerrado com o Domingo de Pentecostes,
nos colocou diante dos olhos a unidade da obra do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. Cristo veio cumprir a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que
ficássemos nele e mantivéssemos a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que
ficássemos nele e mantivéssemos o que Ele fundou, renovando-o constantemente,
neste mesmo Espírito. Assim, a festa de hoje vem contemplar o tempo pascal,
como uma espécie de síntese. Síntese, porém, não intelectual, mas “misterial”,
isto é, celebrando a nossa participação na obra das pessoas divinas. A festa da
Santíssima Trindade sempre foi celebrada no domingo seguinte ao domingo de
Pentecostes, com a finalidade de mostrar o triunfo da Santíssima Trindade na
história da salvação: o Pai Criador, o Filho Salvador, o Espírito Santo que
renova e refaz todas as coisas.
Amigos
e amigas,
Foi
Jesus que revelou que no Deus único, há três pessoas distintas. Santo Antônio
afirmou que na palavra Pax está contida a revelação do mistério da Trindade:
“Note que na palavra pax, paz, há três letras e uma sílaba, em que se designa a
Trindade e a Unidade: no P, o Pai; no A, primeira vogal, o Filho, que é a voz
do Pai; no X, consoante dupla, o Espírito Santo, procedente de ambos. Assim, ao
dizer: A paz esteja convosco, recomenda-nos Cristo a fé na Trindade e na
Unidade”.
A
Santíssima Trindade, na palavra do Concílio Ecumênico Vaticano II, afirma que o
dogma da Santíssima Trindade é o centro de nossa fé.
O
próprio Cristo envia os seus discípulos para a missão determinando que o
mandato do batismo seja efetuado em nome da Trindade Santíssima: “Ide pelo
mundo e batizai a todos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”(Cf. Mt
28,19). A existência de um Deus único, com uma só natureza divina, mas
distinto em três pessoas, é revelação de Jesus.
Por
isso a Santíssima Trindade permeia toda a vida do cristão. Todas as vezes que
fazemos o sinal da Cruz estamos invocando a Santíssima Trindade. Quando fazemos
o sinal da Cruz reverenciamos o Deus único e verdadeiro, Pai, Filho e Espírito
Santo. E, assim, também começa a Santa Missa com a saudação inicial: “A graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus-Pai e a comunhão do Espírito Santo
estejam convosco”, quando pedimos que seja Bendito seja Deus que nos reuniu no
amor de Cristo.
A
Trindade está presente em tudo: no glória quando glorificamos ao Pai, ao Filho
e ao Espírito Santo; bem como, no Credo, quando renovamos a nossa fé no Deus
uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo.
Estimados
irmãos,
O
mistério da Santíssima Trindade é a luz que ilumina todas as verdades da fé. E
é um mistério de amor profundo. A Trindade é a comunidade perfeita, a
comunidade de amor pleno. O Pai criou tudo por amor; o Filho, muito amado pelo
Pai constrói no mundo, com sua vida, um reino de amor, e o amor é um dos
grandes dons do Espírito Santo. Assim, no Santo Evangelho de hoje(cf. Jo
3,16-18), tirado do diálogo de Jesus com Nicodemos, recorda o imenso amor de
Deus pelas criaturas, pelos homens e pelas mulheres, um amor tão grande, tão
sublime, tão profundo que vence a barreira do pecado e da morte à custa do
sangue derramado de seu próprio Filho. Um amor inaudito que quer ter todas as
criaturas junto a si, participando de sua feliz vida eterna. Deus nos ama
de tão maneira que nos enviou o Espírito Santo em auxílio da fraqueza e da
miséria de nossa fé, completando o nosso coração de esperança, avivando a fé em
Jesus, o Redentor, revestindo de tal maneira nossa vida a ponto de que é Ele
que reza em nós e em nós rende louvores e graças a Deus. Deus Pai já não olha
para o nosso pecado e ignorância, mas vê o “o próprio Espírito, que advogada
por nós em gemidos inefáveis.”(Cf. Rm 8,26)
Caros
irmãos,
Na
primeira leitura(cf Ëx 34,4b-6.8-9)depois de ter obtido o perdão de Deus para o
Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Jahwéh. Consigo, levava as duas novas
tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam gravados os
mandamentos da aliança. Precisamente aqui, o autor insere a teofania
(“manifestação de Deus”). Deus aproxima-se de Moisés “na nuvem”: a nuvem, que
paira a meio caminho do céu e da terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo
privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem; ao
mesmo tempo a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério de
Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença
adivinha. A teofania continua, depois, com uma auto-apresentação do próprio
Jahwéh. Como é, então, que o próprio Deus Se define? Que é que Ele diz de Si
próprio? Nesta apresentação, Deus não menciona a sua grandeza e onipotência, o
seu poder e majestade; mas menciona as “qualidades” que fazem d’Ele o parceiro
ideal na “aliança”: Jahwéh é o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para se
indignar e cheio de misericórdia e fidelidade” (vers. 6). Num desenvolvimento
que aparece no texto bíblico, mas que a nossa leitura de hoje não conservou (vers.
7), Jahwéh fala ainda da sua misericórdia (“até à milésima geração”), que é
ilimitada e desproporcional quando comparada com a sua ira (“até à terceira e à
quarta geração”). Aqui, os números não significam nada e não devem ser tomados
à letra: são apenas uma forma de representar a desproporcional misericórdia de
um Deus, infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. De
resto, Israel é convidado a descobrir e a comprometer-se com esse Deus que é
sempre fiel aos seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele
necessitam.
A
questão essencial é esta: Deus ama o seu Povo e cuida dele com bondade e
ternura. A sua misericórdia é ilimitada e, aconteça o que acontecer, irá sempre
triunfar. Israel, o Povo da aliança, pode estar tranquilo e confiante, pois
Jahwéh, o Deus do amor e da misericórdia, garante a sua eterna fidelidade a
esses atributos que caracterizam o seu ser. Moisés responde a esta apresentação
com as petições habituais: que Jahwéh continue a acompanhar o seu Povo em caminhada
da terra da escravidão para a terra da liberdade; que Jahwéh entenda a dureza
do coração do Povo e que perdoe os seus pecados; que Jahwéh renove a eleição
(vers. 9). E Deus, confirmando a sua auto-apresentação (Deus de amor e de
bondade, lento para a ira e rico de misericórdia), não só perdoa o Povo, como
até lhe propõe a renovação da aliança (vers. 10).
Deus é
sempre, para o homem, o mistério que a “nuvem” esconde e revela: detectamos a
sua presença, mas sem O ver; percebemos a sua proximidade, sem conseguirmos
definir os contornos do seu rosto. A ânsia do homem em penetrar o mistério de
Deus leva-o, com frequência, a inventar rostos de Deus; mas, muitas vezes,
esses rostos são apenas a projeção dos sonhos, dos anseios, das necessidades e
até dos defeitos dos homens e têm pouco a ver com a realidade de Deus. Para
entrarmos no mistério de Deus, é preciso estabelecermos com Ele uma relação de
proximidade, de comunhão, de intimidade que nos leve ao encontro da sua voz,
dos seus valores, dos seus desafios (“subir ao monte”).
Nesta
leitura Deus Se apresenta, fundamentalmente, Ele Se define como o Deus da
relação e da comunhão. Deixa claro que é um Deus “com coração” – e com um
coração cheio de amor, de bondade, de ternura, de misericórdia, de fidelidade.
Apesar de o seu Povo ter violado os compromissos que assumiu, Deus não só
perdoa o pecado do Povo, mas propõe o refazer da “aliança”: é que, acima de
tudo, este Deus do amor preza a comunhão com o homem: o seu objetivo é integrar
os homens na família de Deus.
Deus,
da sua parte, faz tudo para viver em comunhão com o homem. No entanto,
respeita, de forma absoluta, a liberdade do homem.
Prezados
irmãos,
A
Primeira Carta aos Coríntios (que criticava alguns membros da comunidade por
atitudes pouco condizentes com os valores cristãos) provocou uma reação
extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Este,
informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento
confronto com os seus detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de
Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar
a reconciliação. Paulo, entretanto, partiu para Tróade. Foi aí que reencontrou
Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o dissenso
fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo.
Reconfortado, São Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à
qual juntou um apelo em favor de uma coleta para os pobres da Igreja de
Jerusalém. Esse texto é a nossa Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Estamos
nos anos 56/57. O texto de hoje é, precisamente, a conclusão da Segunda Carta
de Paulo aos Coríntios. Se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta
aos Coríntios (cf. 1 Cor 16,19-24), ela surpreende-nos pela brevidade, frieza e
impessoalidade. Não parece a despedida de uma “carta de reconciliação”, mas
antes uma despedida entre partes que conservam uma certa tensão na sua relação.
Na segunda leitura – Cf. 2Cor 13,11-13, São Paulo começa por
deixar algumas recomendações de caráter geral aos membros da comunidade.
Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e
que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos
e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto das
dificuldades e tensões vividas recentemente pela comunidade. O mais notável
desta carta é, contudo, a fórmula final de saudação: “a graça do Senhor Jesus
Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta
fórmula – a mais claramente trinitária de todo o Novo Testamento – é,
certamente de origem litúrgica. Provavelmente, era a fórmula que os cristãos
utilizavam quando, no contexto da celebração eucarística, trocavam a saudação
da paz.
Esta fórmula constitui uma impressionante confissão de fé no Deus trino. Ela
manifesta a fé dos crentes nesse Deus é amor e, portanto, que é “família”, que
é comunidade. Ao utilizarem esta fórmula, os batizados se reconhecem como
membros dessa “família de Deus”; e reconhecem também que ser “família de Deus”
é fazerem todos parte de uma única família de irmãos. São, portanto, convocados
para viverem em unidade: em comunhão com Deus e em união com todos os irmãos.
A
comunidade cristã é convidada a descobrir que Deus é amor. A fórmula “Pai,
Filho e Espírito Santo” expressa essa realidade de Deus como amor, como
família, como comunidade. Os membros da comunidade cristã, que pelo batismo
aderiram ao projeto de salvação que Deus apresentou aos homens em Jesus e cuja
caminhada é animada pelo Espírito, são convidados a integrarem esta comunidade
de amor. O fim último da nossa caminhada é a pertença à família trinitária.
Esta “vocação” deve expressar-se na nossa vida comunitária. A nossa relação com
os irmãos deve refletir o amor, a ternura, a misericórdia, a bondade, o perdão,
o serviço, que são as consequências práticas do nosso compromisso com a
comunidade trinitária.
Caros
irmãos,
São
João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não
hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos
homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho,
cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para
mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… No dia em que celebramos a
Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar, com João,
esta incrível história de amor e a nos espantar com o peso que nós – seres
limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias –
adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus.
O amor
de Deus se traduz na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta
gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita
absolutamente a nossa liberdade e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No
entanto, rejeitar a oferta de Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a
auto-suficiência, é um caminho de infelicidade, que gera sofrimento, morte,
“inferno”.
Nós, os
batizados, devíamos ser as testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas
comunidades cristãs ou religiosas deviam ser a expressão viva do amor
trinitário.
Irmãos
e Irmãs,
A
proposta de Deus nasce de amor, explicita-se na encarnação e morte de Jesus, e
tem por finalidade dar a todos a vida eterna. O homem e a mulher, em resposta
ao chamado de Deus, consiste em aceitar ou não aceitar a missão de Jesus, o
Filho. Aceitar ou não exige uma decisão pessoal, de adesão ao Evangelho da
libertação e da vida nova. Jesus garantiu que o Espírito Santo nos ajudaria a
conhecer a Verdade e a discernir as coisas. A decisão passa pela adesão ao
Cristo Ressuscitado, o Redentor e Salvador, através de uma adesão misteriosa e
amorosa de docilidade ao Reino e ao Seguimento do Cristo.
Deus
uno e trino que é indivisível. Indivisível, mas amoroso e generoso na comunhão
amorosa e eterna com a Trindade, devemos construir uma vida do amor, com amor e
para amar, como Cristo nos amou e amou a sua Igreja. Sim, a solenidade da
Santíssima Trindade, nos convida a buscar e viver a integração da unidade na
pluralidade em todos os sentidos.
Que a
Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo acompanhe sempre as nossas vidas e nos
ajude a fazer a experiência amorosa de Deus. Vem Trindade Santa, caminha
conosco e nos dê a sua paz! Amém!
Homilia Recebida Por Email
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