4.3-31 de maio – SANTÍSSIMA
TRINDADE
Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos
do Amaral**
Deus
uno e trino, comunidade de amor
INTRODUÇÃO
GERAL
A Santíssima Trindade é a melhor comunidade! Dessa frase
entendemos o que diz o filósofo Gaston Bachelard: “No princípio está a
relação”. A beleza da Trindade consiste no mistério do Amor. O Pai é aquele que
ama, o Filho é o amado e o Espírito Santo é o amor, a substância mesma de Deus.
Nessa “ciranda”, o dinamismo eterno é o amor. Assim, entendemos o que Santo
Agostinho outrora falou: “Se vês a caridade, aí vês a Trindade” (Tratado De Trinitate). O
mistério celebrado nesta solenidade é o alto das comemorações pascais; trata-se
de um mistério vivido e celebrado no cotidiano da vida da Igreja, sobretudo nos
domingos. A bem da verdade, é o Mistério por excelência, pois nele se vê, à luz
da fé, o mistério do Criador, do Redentor e do Santificador, nas missões
trinitárias. Deus é comunidade que vive e dispensa o amor, e a Igreja é chamada
a ser ícone da Trindade. Na primeira leitura, testemunhamos a ação de Deus, que
desce ao encontro de Moisés, o qual, por sua vez, ora a Deus, clamando sua
misericórdia em vista da dureza do coração de seu povo. Na segunda leitura, em
tom admoestador, Paulo convida a comunidade coríntia a viver na alegria,
purificando os corações para o amor, vivenciando a paz em nome de Deus Pai,
Filho e Espírito Santo. No Evangelho, contemplamos a missão soteriológica de
Deus: ele quer salvar o mundo, por Jesus, na unidade do Espírito Santo, que nos
foi dado no batismo e celebrado no domingo passado, o de Pentecostes. A
comunidade joanina vive uma fé madura e intensa em Deus e nos convida a
participar dessa comunhão, que tem sua fonte no Deus uno e trino.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ex 34,4b-6.8-9)
Moisés é profeta de Deus. Ele levanta-se quando ainda é noite,
antes do amanhecer, e vai até a montanha do Senhor, o Horeb, o monte Sinai.
Leva consigo duas tábuas para servir de lugar de registro para Deus gravar sua
Lei (Torá – instrução). O v. 5 nos apresenta um movimento de descendimento de
Deus, Ele vem para junto de Moisés e conversa com seu servo. Como no capítulo
19, Moisés faz-se mediador da aliança – BeRiT
– e, ao se encontrar com Deus na montanha, ouve a proclamação
divina da misericórdia e da justiça. Trata-se de uma atitude divina reveladora:
Deus se faz próximo, aproxima-se de seu escolhido, Moisés. O fato de Deus
descer da nuvem indica que se desvela de sua majestade. A nuvem sempre
simbolizou o próprio Deus. Essa atitude agora indica que Deus abdica de seu
trono, faz-se próximo, desce até sua criatura. No v. 6, enquanto Deus passava
diante de Moisés, este gritou: “Deus misericordioso e clemente, paciente, rico
em bondade e fiel”. Moisés procura nomeá-lo, na tentativa de “circunscrever”
Deus em seu espaço de linguagem. Nomear é buscar apossar-se. Isso, porém, é
apenas uma tentativa, pois Deus é inapreensível, por isso é mistério. O v. 8
apresenta Moisés humilde diante de Deus, inclinado diante do numinoso, do mistério
que ultrapassa sua compreensão e seus olhos, que estavam buscando o Senhor.
Moisés intercede por si e por todos os seus: “Senhor, se é verdade que gozo de
teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura,
perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (v.
9). Moisés é cônscio de que seu povo é teimoso, que endureceu sua cerviz a
Deus, que tem pecados e que, mesmo assim, é sua propriedade. Moisés é um líder
nato que se entende frágil, mas, não obstante sua fragilidade, fala com Deus,
intercede por seu povo junto a Ele, não tem medo de receber suas críticas nem
de ouvir suas repreensões. Sua coragem e fé são expressões de sua capacidade de
lidar com a vida e endereçar suas pulsões (seus afetos, demandas e alegrias) a
Deus.
2. II leitura (2Cor 13,11-13)
A segunda leitura, pequena em extensão, mas grande em
significado, é uma parênese, isto é, uma exortação que o apóstolo Paulo faz às
comunidades de Corinto. Começando com um imperativo: “Alegrai-vos”, seguido de
outro: “Trabalhai”, indica que a comunidade deve escutar atentamente essa
palavra para mover-se na direção de uma vida espiritual, que tem como expressão
primeira a alegria (chairete, de charis:
graça) e, em seguida, a purificação, o aperfeiçoamento espiritual, a concórdia,
o amor e a paz. A fé, para Paulo, não é somente um bem-estar pessoal, mas leva
ao comunitário, ao bem compartilhado e celebrado na Eucaristia. No v. 12 a
comunidade é convidada a viver a relação espiritual mediante a expressão do
beijo santo (hágia filemati), o
ósculo da paz. “Todos os santos vos saúdam” indica que toda a Igreja está
saudando essa comunidade. “Santos” significa os que são batizados no Cristo e
vivem a santidade derivada do batismo; em última instância, são todos os
cristãos da comunidade. Acrescida a esse versículo está a saudação trinitária
própria de Paulo e muito conhecida pelas comunidades ainda hoje, sobretudo no
início das missas: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão
do Espírito Santo estejam com todos vós”. Às vezes, abrindo ou concluindo suas
cartas com tal saudação, Paulo busca destacar que a Igreja é ícone da Trindade,
vive a partir dela e por ela. A Trindade é não apenas o destino para o qual a
Igreja caminha, mas também sua origem e seu meio.
3. Evangelho (Jo 3,16-18)
Belíssimo e profundo, o Evangelho é mais uma oração da fé.
Trata-se de um testamento do que Deus deseja realizar pela humanidade: salvar.
Chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho ao mundo para que não
morra todo o que nele crer (v. 16), mas seja salvo. Amar o mundo é a missão
natural de Deus. Ele só pode amar, e, se não amasse, deixaria de ser Deus. Deus
é amor, afirma-nos o apóstolo João (1Jo 4,8). O amor divino tem como finalidade
permitir que o mundo viva, esteja salvo. Corresponde a um amor capaz de
sustentar o mundo em sua definição. Deus não enviou seu Filho ao mundo para
condená-lo, mas para salvá-lo. Jesus é o mediador único e absoluto da salvação.
Para Jesus, o mundo tem sentido soteriológico, pois é habitação de Deus,
sua shequinah está
no meio de nós.
Para o Evangelho
joanino, crer é sinal de comunhão com Deus, participação na vida divina e no
misterioso caminho para a eternidade. Nele, os termos “fé”, “crer” e
“acreditar” ocorrem uma centena de vezes. Trata-se de Evangelho que é expressão
de uma comunidade de iniciados, e não de iniciantes; de pessoas de fé madura, a
qual as levou a superar os desafios internos e encontrar, nos sinais realizados
por Jesus e, sobretudo, em sua palavra, que é testamento escrito, o significado
para crer. Por isso, em João, Jesus está continuamente discursando acerca da
fé. Não crer, para a comunidade joanina, significa estar fora da comunhão com
Deus, a qual conduz o fiel à salvação, pois é pela fé que a humanidade será salva,
incorporada no amor divino. Embora o texto do Evangelho não evidencie o
mistério explícito da Trindade, dizer que Deus salva significa crer no Pai, o
Criador, no Filho, o Redentor, e no Espírito Santo, o Santificador. Não crer já
é, para a comunidade joanina, estar condenado, pois não há outro caminho
salvífico senão em Cristo (Jo 14,6).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Levar a comunidade a
entender que o mistério da Trindade é mais para ser vivido e celebrado que
entendido e estudado. A Trindade é mistério relacional. Ajudar os fiéis a
compreender que dominicalmente celebramos a Trindade, pois toda Eucaristia é ao
Pai, pelo Filho, na comunhão do Espírito Santo. Proporcionar uma catequese
trinitária, percebendo que o mistério fundamental de nossa fé é nossa comunhão
com as pessoas divinas, Pai e Filho e Espírito Santo.
Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior
Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial
da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia
pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão
Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: gustavocesar339@gmail.com
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da
Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade
“sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve,
Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/31-de-maio-santissima-trindade-2/
Nenhum comentário:
Postar um comentário