4. REFLEXÕES
PARA O 30.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
1.1- 4.1-AMAR O QUÊ? A QUEM? E DE QUE JEITO?
Era uma
pergunta provocativa! Os fariseus não queriam saber qual era o maior
mandamento. Souberam que Jesus tinha feito calar os saduceus, também numa
questão provocativa, e agora queriam tentar também a sorte. Perguntas com
múltiplas possibilidades de resposta oferecem sempre algum pretexto para críticas.
Pessoas fazem armadilhas para os outros quando fazem perguntas cuja resposta
não lhes interessa. O que in- teressa é a margem que poderão ter para desmontar
os argumentos do outro. Mas, Jesus aproveita para dar a resposta certa. Os
fariseus, mes- mo sem pretender isso, lhe deram a ocasião de ensinar, o que se
deve saber, sobre os mandamentos e que serve para todo mundo: “‘Amarás o Senhor
teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu
entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a
esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’ Toda a Lei e os profetas dependem
desses dois mandamentos” (Mt 22,37-40). O primeiro preceito é autoexplicativo.
Amar de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento, é uma expressão
que se coloca na primazia e na plenitude de qualquer outro amor. Já o segundo
preceito, esse poderia oferecer alguma consequência diferente. Quem seria o
“próximo”? O que significa amar o outro como a “si mesmo”? O povo de Israel tinha
clareza de que o compatriota era o “próximo”. Mas, quanto ao estrangeiro? A
Escritura já falava do estrangeiro: “Assim diz o Senhor: Não oprimas nem
maltrates o estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Ex
22,20). Jesus também falou sobre isso: “E se saudais somente aos vossos irmãos,
que fazeis de extraordinário? Não fazem os gentios o mesmo?” (Mt 5,47). Mas,
isso ainda parece dizer pouco. Poderia se tratar apenas de um preceito de não
prejudicar. Amar, já é outra coisa. Mas, Jesus falou claramente sobre isso em
outra ocasião: “Tudo, pois, quanto quereis que os outros vos façam, fazei-o vós
também a eles. Esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Outra questão é o
significado de “como a ti mesmo”. Acontece que o ser humano, ao amar a Deus
sobre todas as coisas, no fundo, acaba por imitar as ações de Deus. Pelo menos,
foi isso que Jesus disse: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai
pelos que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos
céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz descer a chuva
sobre jus- tos e injustos” (Mt 5,44-45). Então, de gente que ama a Deus se
chega a ser imitador do amor de Deus, por isso, torna-se também modelo desse
amor para o próximo, tal qual nos ensina São Paulo: “Irmãos: Sabeis de que
maneira procedemos entre vós, para o vosso bem. E vós vos tornastes imitadores
nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar
de tantas tribulações. Assim vos tornastes modelo para to- dos os fiéis da Macedônia
e da Acaia” (1Ts 1,5-7). De fato, na conclusão de sua vida e missão, Jesus
falará novamente do mandamento do amor. Mas, dessa vez, a expressão “como a ti
mesmo” dará lugar a um enunciado exemplar, de quem se tornou aquilo que pede
que os outros sejam: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns
aos outros” (Jo 13,34) e “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos
outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12). Jesus falou, portanto, com poucas
palavras, tudo o que precisava dizer a esse respeito. Mas, a questão continuou
aberta para quem não quis e não quer dar ouvidos. Ainda em nossos dias,
continuamos fazendo perguntas a Jesus cuja resposta não estamos interessados em
ouvir e praticar. Preferimos mais saber que lacunas Ele deixará para que
possamos preenche-las com as nossas ideias e opiniões. É desse modo que a
religião se torna pretexto para defendermos o que nos interessa. O que Jesus
diz, muitas vezes, não conta tanto. É preciso tomar muito cuidado para não sair
ensinando e praticando mandamentos diferentes desse que Jesus ensinou. Cuidado
para não dizer: “Amarás a ti mesmo de todo o teu coração, de toda a tua alma, e
de todo o teu entendimento! E amarás o teu Deus como ao teu próximo”. Nem:
“Amarás o teu próximo de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o
teu entendimento! E amarás a ti mesmo como ao teu Deus”. Nem mesmo: “Amarás o
teu próximo de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu
entendimento! E amarás ao teu Deus como a ti mesmo”.
Dom Rogério Augusto das Neves Bispo Auxiliar
de São Paulo Região Episcopal Sé
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