9- SANTO AGOSTINHO E O MAIOR MANDAMENTO DA LEI
“Oh, grande Pai Agostinho, mostra-nos o
caminho que nos levará ao Céu!”
Em seu comentário à Primeira
Epístola de São João, Santo Agostinho expõe ser estritamente necessária a
observância dos mandamentos do Senhor para estar em comunhão com Deus, pois,
“sabemos que o conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos”[1]. No entanto, voltemo-nos para o Evangelho e vejamos o que o
Senhor diz acerca deste mandamento. Jesus,
ao ser interrogado sobre qual é o maior mandamento da Lei, responde: “Amarás o
Senhor teu Deus, de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu
espírito. Esse é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a
este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a Lei e os
Profetas”.[2]
Portanto, “podes ter feito tudo
o que quiseres – diz Santo Agostinho –, se somente a Caridade te faltar, o
resto de nada te servirá. Se a possuís, cumpris toda a Lei”[3]. Eis o caminho para o Céu: preocupemo-nos somente com uma coisa:
AMAR, pois, “a prática da Caridade, derramada em nossos corações, por obra do
Espírito Santo, nos conduz à visão de Deus que é Amor"”[4], isto é, amando cresceremos,
amando ouviremos o Senhor, amando seremos semelhantes a Ele, pois Deus... é
Amor!
Se ainda não nos convencemos do
sublime papel da Caridade em nosso caminho espiritual, Santo Agostinho afirma:
“Se quiseres professar a fé, mas sem acrescentar o amor, começas a parecer-te
com os demônios”[5], pois, “a Caridade é o único sinal que distingue os filhos de
Deus dos filhos do demônio. Todos podem fazer sinal da Cruz de Cristo. Todos
podem responder: Amém. Todos cantarem Aleluia. Todos serem batizados. Todos
frequentarem igrejas. Todos construírem os muros das basílicas. Mas os filhos de Deus não se
distinguirão dos filhos do demônio a não ser pela caridade. Os que possuem a
caridade nasceram de Deus. Os que não a possuem não
nasceram de Deus. Grande sinal distintivo! Grande discernimento!”[6]
Olhemos para dentro do nosso
coração e examinemos se nele existe a Caridade! Se ela não existir em nós, o
Senhor não resiste a um coração humilde que lhe suplica a sua graça. Portanto,
“[...] dize a Deus o que és. Pois, se não disseres a Deus o que és, Deus te
condenará pelo que encontrar em ti”[7]. O Senhor nos purifica, se na humildade, nos abrimos à Caridade,
se lhe pedimos a graça de amar, se lhe pedimos para d’Ele nascer e sermos, de
fato, seus filhos. E, onde está a humildade, há a paz, e onde há a paz, ali
manifesta-se a Caridade: eis que começaremos a Amar com o Amor que vem de Deus.
Queres ser perfeito? Começas
por amar. “Começaste a amar? Deus começou a habitar em ti. Dá amor àquele que
começou a habitar em ti, a fim de que ele te torne mais perfeito, habitando
cada vez mais perfeitamente em ti.” [8]
Questionemo-nos agora: qual é a
perfeição da Caridade? Como devemos colocar em prática o mandamento do Amor?
Para Agostinho, a perfeição da Caridade está em ter tanto amor a ponto de
morrer pelo irmão. Amar até mesmo os nossos inimigos, aqueles que mais nos
custam, e amá-los com um profundo desejo de que se tornem nossos irmãos, o que
nos leva a entender que “nosso amor, pois, não deve ter nada de carnal”[9], mas deve sim ser espiritual e gratuito, de modo que, sejamos
neste mundo tal como Deus é, e nos tornemos de fato seus filhos, “pois Ele faz
nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os
justos e sobre os injustos.”[10]
Nenhuma perfeição, porém, é
alcançada sem esforço. Da mesma forma, tendo a caridade começado a brotar em
nosso coração, ainda há muito trabalho para que amemos de modo perfeito: a
nossa caridade precisa ser aperfeiçoada. Portanto, para começarmos a amar de
modo perfeito, precisamos de pequenas iniciativas.
Para Santo Agostinho, “[...] o
começo da caridade é dar do supérfluo ao necessitado, ao que está colocado em necessidade”.[11] Vejamos quantas necessidades os que estão ao nosso redor carregam
dentro de si. E não pensemos somente em coisas materiais, pois são muitos que
necessitam da nossa atenção, dos nossos cuidados, das nossas advertências, dos
nossos favores, das nossas orações! Poderíamos citar uma lista de pequenas
obras de Caridade, mas deixemos o apóstolo Paulo falar por nós, vejamos o que
ela é, e aprendamos a exercê-la em nossa vida:
“A caridade é paciente, a caridade é
bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem
escandalosa. Não busca os próprios interesses, não se irrita, não guarda
rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo
desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”[12]
Quantos pecados nós cometemos
contra a Caridade! Mas temos uma esperança: “[...] a caridade apaga os pecados”[13]. Se
muito pecamos, temos a segurança de ser perdoados pelo muito amar. Amemos,
portanto, na medida em que devemos ser perdoados, e o fogo do Amor será aceso
no mundo, e viveremos nessa Terra uma antecipação do Céu, onde todos serão
Filhos de Deus, e onde todos saberão uma só coisa: amar.
Se a Caridade é a raiz de todas
as nossas ações, alcançamos a grande liberdade: “Ama e faze o que quiseres. Se
te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se
corriges, corriges com amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do
coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair se não o bem[14]”.
Santo Agostinho, rogai por nós!
Irmã Nádia Katianne Rodrigues
Silva, asjm
_______________
[1] 1Jo
2,3.
[2] Mateus
22, 36-40.
[3] Santo
Agostinho - Comentário à Primeira Epístola de São João p. 113.
[4] Constituições
nº 31;
[5] Santo
Agostinho, op. cit. p.62.
[6] Id.,
p. 113.
[7] Id.,
p. 37.
[8] Id.,
p. 174.
[9] Id.,
p. 41.
[10] Mateus 5,
45.
[11] Santo
Agostinho, op. cit. p.122.
[12] I
Cor 13, 4-7.
[13] Santo
Agostinho, op. cit. p.37.
[14] Id.,
p. 151.
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