4.2-30º DOMINGO DO TEMPO COMUM-25/10/2026
O PRIMADO
DO AMOR
Por Pe.
Ms. Maicon André Malacarne*
- INTRODUÇÃO GERAL
A última frase escrita por Dante na Divina comédia ajuda
a entrar na liturgia da Palavra deste 30º Domingo do Tempo Comum: “L’amor che
move il sole e l’altre stelle”. A escrita em toscano, similar ao que se conhece
hoje como a língua italiana, pode ser traduzida por “o amor que move o sol e as
outras estrelas”. O sumo poeta, depois de conhecer os territórios do Inferno e
do Purgatório e de experimentar a esperança do Paraíso, finaliza com uma
espécie de dança cósmica, em que tudo converge para o amor, sem o qual nada
pode aproximar-se de Deus. O amor é, de fato, o centro de tudo! O Evangelho vai
recordar esse movimento contínuo, permanente e inseparável: o amor a Deus e o
amor aos irmãos. Por isso, o amor não deve ser uma teoria, um conceito
abstrato, mas deve ser vivido na atenção aos mais frágeis, “os estrangeiros, os
órfãos, as viúvas e os pobres” de cada tempo e de cada lugar. Como a comunidade
de Tessalônica, essa experiência se realiza na alegria e nas dificuldades, nas
contradições de cada dia.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
2. I leitura (Ex 22,20-26)
O trecho dessa leitura
está dentro do chamado “Código da Aliança”, uma série de preceitos
ético-sociais que tornavam bem prática a vivência do Decálogo, as “Dez
Palavras” entregues por Deus a Moisés, que estabeleciam o fundamento do estilo
de vida dos israelitas com Javé e com os irmãos da comunidade.
O código evidencia três
categorias de pessoas “abandonadas” que merecem atenção privilegiada: 1) os
estrangeiros; 2) os órfãos e as viúvas; 3) o pobre que precisou pedir dinheiro
emprestado. Todos carregavam o peso de não ter defesa, de viver no pleno
abandono e na solidão. A comunidade deveria ser, para eles, o refúgio e a
fortaleza.
“Não oprimas nem
maltrates o estrangeiro” (v. 20). O código se abre com a consciência de que
também o povo israelita foi estrangeiro no Egito. Viver distante da pátria, da
família e da cultura pode ser extremamente violento para uma pessoa, dado que
seu quadro de referências fica muito frágil. O preconceito e a intolerância se
tornam pesos ainda maiores para uma situação já bastante difícil.
“Não façais mal algum à
viúva nem ao órfão” (v. 21). Nenhum mal, nenhum peso a mais do que aquele que
já têm de carregar, é o mandato de Deus. De fato, os órfãos e as viúvas viviam
a situação do abandono total do marido e do pai. Em uma sociedade patriarcal,
tal condição era a pior possível, porque não restava nenhuma proteção. Deus é o
único defensor, por meio da prática da comunidade.
“Se emprestares dinheiro
a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao teu lado, não sejas um usurário,
dele cobrando juros” (v. 24). Muitas pessoas precisavam de ajuda por causa dos
altos impostos ou das tragédias no campo, que não possibilitavam a produção e a
sobrevivência. Esses pobres se tornavam presas fáceis de especuladores, que
buscavam o lucro na necessidade das pessoas. A comunidade não pode entrar nessa
dinâmica de injustiça e de corrupção, a fim de manter a aliança com Deus.
2. II leitura (1Ts 1,5c-10)
São Paulo faz grande
elogio à comunidade de Tessalônica, que, por meio da vivência da fé, fez o
testemunho do seguimento de Jesus Cristo ultrapassar as fronteiras geográficas:
“a partir de vós, a Palavra do Senhor não se divulgou apenas na Macedônia e na
Acaia, mas a vossa fé em Deus propagou-se por toda parte” (v. 8). A causa dessa
experiência é a abertura da comunidade ao Senhor: “acolhendo a Palavra com a
alegria do Espírito Santo” (v. 6).
Na origem de uma boa
comunidade está a disposição de se deixar conduzir pela Palavra de Deus. Não se
trata somente de confrontar ideias, mas sobretudo de acolher o Espírito Santo,
que conduz por lugares inimagináveis. De fato, apesar do sucesso dessa
comunidade, não se pode esquecer que ela passou por momentos muito fortes de
hostilidade e de perseguição. A evangelização nunca é tranquila, sempre provoca
e desestabiliza determinados grupos, que se sentem ameaçados à medida que se
estabelece a pessoa humana como fundamento do cuidado e do amor. A comunidade
cristã cresce no paradoxo.
3. Evangelho (Mt 22,34-40)
No último domingo,
acompanhamos uma controvérsia entre os fariseus e Jesus sobre o tema dos
tributos. No Evangelho deste domingo, aparece outra controvérsia, que diz
respeito ao maior mandamento da Lei. Os diálogos que os fariseus buscavam
estabelecer não eram para tentar buscar pontos de convergência, mas para acusar
e desmoralizar Jesus. Carregavam as ofensas prontas.
Na tentativa de pôr em
prática o Decálogo, os doutores da Lei, que se achavam os maiores detentores da
moral e dos bons costumes, tinham multiplicado uma série de preceitos, de
códigos, de proibições, a ponto de já não se saber o que era essencial e o que
era secundário. Para Jesus, o mais importante não era a discussão sobre “o mais
importante”, e sim sobre o sentido da Lei e sobre aquilo que fundamentava todo
o estilo de vida que Deus tinha revelado a Moisés.
O amor a Deus e o amor
aos irmãos e irmãs estão no fundamento de tudo que vem depois. Nada resiste sem
amor: “Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (v. 40).
Jesus não era apegado aos preceitos, não permaneceu na superficialidade das
normas nem nunca desistiu de anunciar um amor vivido na prática, na
sensibilidade para com a vida das pessoas, especialmente os mais sofridos. Amar
a Deus, como fez a comunidade de Tessalônica, significa abrir-se à sua Palavra.
Amar os irmãos e irmãs significa não invisibilizá-los, mas estender-lhes a mão
e emprestar-lhes a voz.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
O verbo “amar” aparece,
no Evangelho, conjugado no futuro: “Amarás”. Nosso futuro depende da capacidade
de amar, da qualidade do amor. No meio das guerras, dos conflitos, das divisões
dentro da comunidade cristã, estamos sempre mais próximos da morte. A ameaça ao
futuro é forte denúncia de que o amor está sendo deixado de lado. O abandono do
amor pode encontrar uma compensação no apego frio às normas exteriores. De
fato, os fariseus não estavam preocupados com a vida das pessoas, mas em manter
seus privilégios e seu olhar reduzido. O risco de uma vida apequenada, fechada
em ideias inquestionáveis, é consequência do fechamento ao amor, do apagamento
de um futuro melhor. A primeira reação é abrir os olhos, identificar “os
estrangeiros, os órfãos, as viúvas, os pobres” do nosso tempo, para amá-los a
ponto de permitir que sejam questionados todos os nossos julgamentos.
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS,
pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na
Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela
Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/25-de-outubro-30o-domingo-do-tempo-comum-2/
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