8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA ( * )
"A
TERCEIRA MARGEM: UMA ALTERNATIVA VIÁVEL AO EXTREMISMO E À POLARIZAÇÃO"
[Texto Integral]
"O rio atinge seus
objetivos porque aprendeu a
contornar os obstáculos"[Lao Tsé]
Se
você é um “ribeirinho”, isto é, mora com sua família nas proximidades de um
rio, das duas uma: ou você vive na margem direita ou na margem esquerda; não há
uma terceira opção. Mas o que aconteceria se alguém de sua família, depois de
anos desfrutando do convívio familiar, decidisse ir morar no meio do rio? Em “A
terceira margem do rio”, Guimarães Rosa, um dos maiores expoentes da literatura
brasileira, nos brinda com um conto arquetípico e seguramente de alcance
universal, cuja força simbólica continua a suscitar perguntas e inquietações
sobre como estruturamos nossa convivência e organizamos nossa vida.
Diferentemente de inúmeras narrativas, incluindo a parábola bíblica do filho
pródigo, em que quem parte é o filho, sendo por isso tratado como rebelde,
enquanto pais e familiares permanecem, o conto apresenta um pai que, sem
explicação aparente, manda construir uma canoa, nela entra, afasta-se de ambas
as margens e passa a viver no rio, sem retornar à terra nem abandonar
completamente o convívio familiar. Permanece ali, numa espécie de coexistência
limítrofe, entre a presença e a ausência, a proximidade e o afastamento, o
pertencimento e a ruptura. Sua insólita atitude suscita questionamentos sobre
sanidade e loucura, equilíbrio e extremismo, entre outras questões pertinentes.
Ele não ocupa nenhuma das margens, mas tampouco desaparece por completo. Sua
escolha desconcerta os que permanecem em terra firme, desafiando categorias
culturalmente preestabelecidas de interação e convivência humanas. Já ao final
da vida, sensibilizado com a debilidade física do pai, o filho se oferece para
ocupar seu lugar na canoa. Para sua surpresa, o pai aceita, mas o filho, que
não contava com essa aceitação, foge imediatamente. O conto não esclarece o
destino do pai, do filho ou dos demais familiares, incluindo a esposa e a
filha.
Chegamos
aqui ao ponto que consideramos relevante para a presente reflexão: poderia essa
espécie de terceira margem ser interpretada como uma terceira via diante dos
direitismos e esquerdismos que nos têm sido apresentados como formas únicas de
organizar nossa convivência e nossa interação no campo da política? Sem
atribuir ao autor uma resposta que em momento algum ele tornou explícita, nossa
intenção é explorar mais de perto essa possibilidade. Outro exemplo, desta vez
oferecido pela mãe natureza, talvez nos possa ajudar nessa busca.
Mas
antes responda rápido, sem refletir: o maior rio em volume de água do mundo, o
Amazonas, é continuidade do Rio Negro ou do Rio Solimões? Não importa qual
tenha sido sua resposta. Reveja-a agora com calma, sem pressa. Tudo bem? Se
você respondeu “de ambos”, sua resposta foi cirúrgica. O portentoso Amazonas
começa a ser formado pelo encontro desses dois rios, o Negro e o Solimões, nas
cercanias de Manaus, capital do mais extenso estado do Brasil, o Amazonas, que
lhe empresta o nome. Se você acertou, parabéns! Isso, porém, por si só, não lhe
confere um certificado de inteligência ou de um QI acima da média. Pelo
contrário, recomenda cautela antes de concluir que quem respondesse o contrário
estaria errado, sem antes examinar bem o grau de certeza de sua resposta.
Afinal, as aparências também podem enganar. Um exemplo disso é o fato de que a
coloração escura do Rio Negro, ao contrário do que à primeira vista se poderia
presumir, não resulta de sujeira, imundice ou outras formas de contaminação, e
sim de grande quantidade de substâncias orgânicas dissolvidas, provenientes da
decomposição de matéria vegetal recolhida ao longo de seu percurso. Mas
deixemos essa digressão para outra ocasião e retomemos nosso foco: poderia o
encontro de águas tão diferentes que se unem para formar um novo e único rio
nos ajudar na tarefa de descortinar caminhos e alternativas que nos ajudem a
superar o extremismo e a polarização política em que nos colocamos, fomos
colocados ou para os quais, por descuido de nosso exercício crítico, acabamos
sendo arrastados? Esse será, daqui para frente, nosso questionamento-guia.
Se
o que nos foi ensinado estava certo, o Rio Negro tem suas nascentes fincadas no
solo do assim chamado “Escudo das Guianas”, a partir de onde percorre
territórios da Colômbia, da Venezuela e do Brasil por aproximadamente mil e
setecentos quilômetros, até chegar a Manaus. Suas águas são escuras,
semelhantes às de um denso chá de coloração preta. O Rio Solimões, por sua vez,
tem suas origens nos Andes peruanos, de onde parte e vai coletando grande
quantidade de sedimentos minerais responsáveis pela coloração barrenta de suas
águas, visualmente mais claras que as do Rio Negro. Temos, assim, dois rios de
origens distintas, que seguem trajetórias únicas e percorrem caminhos
diferentes, com composições igualmente distintas e características próprias.
Curiosamente, quando suas águas se encontram, continuam caminhando lado a lado,
ainda distinguíveis por vários quilômetros, como se fossem dois rios
independentes um do outro. Entretanto, é sabido que o portentoso Amazonas já
está sendo formado desde o início desse encontro. A mistura das águas começa gradual
e progressivamente, influenciada por diferenças de temperatura, de velocidade,
de densidade e de composição química, com o contraste se tornando cada vez
menos perceptível, até desaparecer por completo. Trata-se de um encontro
paradigmático para nossa reflexão, uma vez que ele nos oferece uma imagem
sugestiva quanto às possibilidades de convivência pacífica e respeitosa entre
nós, seres humanos, a um só tempo tão parecidos e tão diferentes.
Claro
que esse encontro e essa convivência pacífica não têm o condão de transformar
um fenômeno natural em receita pronta para os problemas humanos. Afinal, a
natureza não segue um “telos” ou um fim prévia e conscientemente estabelecido,
não escreve manifestos, não organiza partidos, tampouco convoca greves, manifestações
e comícios. Ainda assim, seu simbolismo pode nos ajudar a compreender questões
que, em razão de crenças exacerbadas e emoções excessivamente alteradas, têm se
tornado desnecessariamente complexas, transformando-se num desafio para nossa
convivência ordeira, respeitosa e pacífica.
Como
primeiro tópico de uma grande lição, o chamado “encontro das águas”,
respeitados o alcance e o limite da analogia, sugere que pessoas e grupos não
precisam pensar ou agir de maneira idêntica para construir um “Tao” coletivo,
um caminho comum a ser trilhado e compartilhado pelo restante de suas vidas.
Crenças e convicções, ideias e ideologias, diferenças e idiossincrasias, quando
respeitadas e abraçadas com disposição, mansidez de espírito, e humildade de
coração, podem ampliar perspectivas, enriquecer o esforço coletivo e favorecer
soluções que nenhum ser humano lograria alcançar sozinho. Sugere também que a
convivência pacífica e cooperativa não exige que um lado anule o outro, menos
ainda que cada um renuncie às suas crenças mais sagradas e às suas convicções
mais profundas. Exige, sim, com certeza, disposição para reconhecer a
existência e a essência desse outro, compreender suas razões e sua trajetória
de vida, bem como a necessidade de perseguir formas de coexistência que
respeitem direitos e potencializem uma vida mais digna e plena para todos, e
não apenas para os membros de uma determinada classe ou os adeptos desse ou
daquele partido. É nesse horizonte de convergência que se situa o chamado bem
comum ou bem coletivo.
É
evidente que natureza é natureza, ser humano é ser humano. Diferentemente dos
rios, mares e oceanos, a razão e a sabedoria nos permitem estabelecer
objetivos, formular projetos, não só avaliando de tempos em tempos as
consequências de nossas decisões e de nossos atos, como também revendo a
pertinência de nossos credos e crenças, verdades e convicções, ideias e
ideologias. Isso não significa conformismo, jogar o jogo das conveniências.
Nada disso. Antes, significa reconhecer que nossas percepções são limitadas,
por vezes imperfeitas, e que nenhuma pessoa, grupo, partido ou religião possui
o monopólio do caminho, da verdade e da vida.
O
chamado “encontro das águas” sugere também que a vida em sociedade não precisa
ser tratada como uma espécie de olimpíada ou competição permanente, em que,
para que um grupo possa ganhar ou um partido possa vencer, todos os demais
tenham necessariamente que fracassar ou perder. A vida coletiva não precisa
funcionar como uma disputa mortífera em que os vencedores são alçados à galeria
dos heróis e os perdedores condenados ao ostracismo do anonimato. Nem todos os
córregos, riachos e rios conseguem chegar ao mar. Alguns secam, outros se
perdem pelo caminho, e há ainda aqueles cujo percurso é interrompido pelo
próprio homem antes de atingir seu destino. Trajetória semelhante à das
sementes da parábola, em que, por motivos diversos, muitas não chegarão a
desabrochar nem dar frutos.
Nem
todo rio que não chega ao mar fracassa por falta de esforço, perseverança ou
determinação. Há circunstâncias e obstáculos que escapam ao seu controle, à sua
vontade e ao seu empenho. Essa analogia nos ensina que precisamos evitar
atribuir aos indivíduos, isoladamente, responsabilidade pelos caminhos que não
conseguem percorrer, sobretudo quando lhes falta o apoio do grupo e o suporte
da coletividade. "O homem é, por natureza, um animal político", nos
lembra Aristóteles. “Nenhum ser humano é uma ilha”, nos ensina John Donne,
clérigo e poeta inglês do século XVI. A meritocracia tem seu alcance mas também
tem seus limites.
PAUSA PARA UM
MERECIDÍSSIMO COFFEE BREAK
A
terceira margem sugerida por Guimarães Rosa nos oferece uma imagem de forte
alcance metafórico e arquetípico, que nos desafia a pensar para além das
categorias habituais de interação e convivência, bem como nos convida a rever
convicções ideológicas cristalizadas, petrificadas, como se fossem irretocáveis
e absolutas. Ao aproximarmos essa imagem da vida social e da prática política,
não precisamos transformar cada personagem do conto em um modelo de convivência
política. Podemos, sim, aproveitar a metáfora para nos perguntar se somos
invariavelmente obrigados a escolher entre duas margens percebidas como opostas
e inconciliáveis, frequentemente marcadas pela intransigência e pela intolerância,
não raro descambando para a perseguição e a violência. Nesse sentido, talvez
essa terceira margem possa ser interpretada como uma terceira via na busca pela
superação do extremismo e da polarização, sem que isso signifique submissão
passiva e acrítica por parte de qualquer dos lados, nem fuga do conflito ou
neutralidade confortável diante de eventuais violações e injustiças.
Trata-se,
antes, de pensar com liberdade e autonomia, assumir responsabilidades e
construir possibilidades de convivência pacífica sem renunciar a valores
fundamentais e a princípios estruturantes de uma convivência e uma interação
tão ricas quanto possível. Tal perspectiva, sem dúvida, se aproxima bastante da
concepção de “ethos”, conceito grego que o teólogo brasileiro Leonardo Boff
interpreta como habitat, a toca comum do animal – no presente caso, do animal
humano. Um espaço compartilhado em que as diferenças não sejam motivo
permanente de hostilidade, mas parte da realidade que precisamos construir com
cooperação e administrar com sabedoria. Assim como o encontro das águas não
exige que um dos rios desapareça para que o outro prevaleça, caminhando juntos
por certo tempo sem se mesclar, até que o encontro definitivo aconteça, a
terceira margem sugere que a convivência humana também exige processos,
adaptação e paciência. Entendimento não se alcança por decreto, assim como
confiança não surge por força de medidas e canetaços. Se assim fosse, bastaria
a publicação de normas e resoluções para acabar com as divergências e resolver
boa parte dos problemas. Uma eficiente impressora, nesse caso, funcionaria
melhor do que qualquer iniciativa ou projeto voltados para o mesmo fim.
No
exercício da prática política, posições ideológicas diferentes podem acabar se
convertendo em posturas de discriminação, intolerância, confronto e exclusão.
Não raro, o extremismo e a polarização acabam transformando divergências em
antagonismos, alimentando a convicção de que o outro não é apenas alguém que
pensa diferente, mas alguém que precisa ser derrotado, silenciado ou afastado
da vida pública. Com isso, a defesa excessivamente ideológica de uma causa pode
sufocar sugestões enriquecedoras e soluções inteligentes para os problemas
coletivos. Superar essa lógica não significa renunciar a direitos fundamentais ou
adotar neutralidade diante da corrupção e da injustiça. Há valores que precisam
ser defendidos e limites éticos que não podem ser ultrapassados. Conciliar,
aqui, não significa capitular, assim como dialogar não significa concordar com
todos e com tudo. Pensar “com” não significa pensar “como”. O desafio maior,
nesse caso, talvez esteja em distinguir firmeza de intransigência, convicção de
fanatismo e divergência de intolerância e hostilidade.
Podemos
sustentar posições diferentes e reconhecer méritos em quem discorda de nós. A
capacidade de autocrítica, isto é, de submeter a juízo o próprio lado e o
próprio partido, talvez seja um dos testes mais expressivos da verdadeira
liberdade e da autêntica autonomia. Quando a lealdade partidária nos impede de
reconhecer erros e excessos, bem como os desvios de nossas lideranças, deixamos
de defender apenas uma ideia ou ideologia, permitindo, sem perceber, que
sejamos manipulados como marionetes pelas mãos de “líderes” arbitrários e
inescrupulosos venerados como ídolos. Essa postura costuma ser muito mais fruto
da teimosia e do espírito beligerante do que da inteligência e da mentalidade
pacifista. Talvez ninguém tenha compreendido a importância do perdão, da
conciliação e da convivência pacífica de maneira tão expressiva quanto um tal
Jesus de Nazaré e, no seguimento de suas pegadas, um tal peregrino de Assis de
nome Francisco, a quem tradicionalmente se atribuem estas palavras: “Senhor,
fazei-me instrumento de vossa paz! Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde
houver ofensa, o perdão; onde houver discórdia, a união; onde houver dúvida, a
fé...”. A mensagem de ambos nos convida a substituir a hostilidade pela
disposição de construir relações mais humanas, justas e colaborativas.
Quando
essa disposição parecer difícil ou mesmo impossível, ainda assim restará a
esperança de que o diálogo, a compreensão e o perdão impeçam que a divergência
se transforme em intolerância, e esta, em hostilidade permanente. Talvez seja
essa a travessia de que mais estejamos precisando nesse momento: enxergar o
outro como irmão, e não como inimigo, e compreender que a derrota de um grupo
não é condição indispensável para o avanço coletivo. Afinal, quem toma partido
pela justiça não pode esquecer que ela está acima do seu partido. A terceira margem
não precisa ser equidistante da direita e da esquerda, nem uma posição
destinada a agradar a todos. Pode representar uma maneira diferente de
compreender a realidade e reconhecer que aquilo que nos separa também pode nos
aproximar. Se os rios conseguem seguir juntos sem que um precise declarar o
outro vencido, também nós, humanos, podemos fazê-lo. Por mais difícil que isso
seja. Como afirma Sêneca: “Não é porque as coisas são difíceis que nós não
ousamos – é porque nós não ousamos que as coisas são difíceis”.
É
possível que Guimarães Rosa tenha testemunhado o encontro das águas entre o
Negro e o Solimões. Se o fez, é provável que esse encontro tenha servido de
inspiração para seu conto “A terceira margem de um rio”. A natureza, em sua
natural sabedoria, por vezes nos ensina lições preciosas de convivência
pacífica e de colaboracionismo. A razão humana, que sempre interpretamos como
sendo o nosso grande diferencial em relação aos demais seres vivos, não deveria
ser considerada um bem absoluto. Ela também precisa ser domada, domesticada,
para que assim esteja em condições de nos auxiliar em nossa busca pela
necessária separação entre o bem e o mal, o certo e o errado, o trigo e o joio.
Dominada pela paixão, ela não consegue cumprir bem sua missão. Torna-se cega e
surda e, se não muda, paralítica. Enquanto essa surdez e essa cegueira
persistirem, cordeiros e ovelhas estarão sendo levados ao matadouro, e não a
pastos verdejantes e fontes de água limpa. Para que esse círculo seja rompido,
o recurso nos chega com a sabedoria oriental. Chama-se “despertar da
consciência”.
[L.S.M.]
(*) Reflexão enviada de
Vitória (ES) via Whatsapp.

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