sexta-feira, 23 de outubro de 2026

8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA ( * )

 8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA ( * )


"A TERCEIRA MARGEM: UMA ALTERNATIVA VIÁVEL AO EXTREMISMO E À POLARIZAÇÃO"

                 [Texto Integral]

"O rio atinge seus objetivos  porque aprendeu  a  contornar  os  obstáculos"[Lao Tsé]

Se você é um “ribeirinho”, isto é, mora com sua família nas proximidades de um rio, das duas uma: ou você vive na margem direita ou na margem esquerda; não há uma terceira opção. Mas o que aconteceria se alguém de sua família, depois de anos desfrutando do convívio familiar, decidisse ir morar no meio do rio? Em “A terceira margem do rio”, Guimarães Rosa, um dos maiores expoentes da literatura brasileira, nos brinda com um conto arquetípico e seguramente de alcance universal, cuja força simbólica continua a suscitar perguntas e inquietações sobre como estruturamos nossa convivência e organizamos nossa vida. Diferentemente de inúmeras narrativas, incluindo a parábola bíblica do filho pródigo, em que quem parte é o filho, sendo por isso tratado como rebelde, enquanto pais e familiares permanecem, o conto apresenta um pai que, sem explicação aparente, manda construir uma canoa, nela entra, afasta-se de ambas as margens e passa a viver no rio, sem retornar à terra nem abandonar completamente o convívio familiar. Permanece ali, numa espécie de coexistência limítrofe, entre a presença e a ausência, a proximidade e o afastamento, o pertencimento e a ruptura. Sua insólita atitude suscita questionamentos sobre sanidade e loucura, equilíbrio e extremismo, entre outras questões pertinentes. Ele não ocupa nenhuma das margens, mas tampouco desaparece por completo. Sua escolha desconcerta os que permanecem em terra firme, desafiando categorias culturalmente preestabelecidas de interação e convivência humanas. Já ao final da vida, sensibilizado com a debilidade física do pai, o filho se oferece para ocupar seu lugar na canoa. Para sua surpresa, o pai aceita, mas o filho, que não contava com essa aceitação, foge imediatamente. O conto não esclarece o destino do pai, do filho ou dos demais familiares, incluindo a esposa e a filha.

Chegamos aqui ao ponto que consideramos relevante para a presente reflexão: poderia essa espécie de terceira margem ser interpretada como uma terceira via diante dos direitismos e esquerdismos que nos têm sido apresentados como formas únicas de organizar nossa convivência e nossa interação no campo da política? Sem atribuir ao autor uma resposta que em momento algum ele tornou explícita, nossa intenção é explorar mais de perto essa possibilidade. Outro exemplo, desta vez oferecido pela mãe natureza, talvez nos possa ajudar nessa busca.

 

Mas antes responda rápido, sem refletir: o maior rio em volume de água do mundo, o Amazonas, é continuidade do Rio Negro ou do Rio Solimões? Não importa qual tenha sido sua resposta. Reveja-a agora com calma, sem pressa. Tudo bem? Se você respondeu “de ambos”, sua resposta foi cirúrgica. O portentoso Amazonas começa a ser formado pelo encontro desses dois rios, o Negro e o Solimões, nas cercanias de Manaus, capital do mais extenso estado do Brasil, o Amazonas, que lhe empresta o nome. Se você acertou, parabéns! Isso, porém, por si só, não lhe confere um certificado de inteligência ou de um QI acima da média. Pelo contrário, recomenda cautela antes de concluir que quem respondesse o contrário estaria errado, sem antes examinar bem o grau de certeza de sua resposta. Afinal, as aparências também podem enganar. Um exemplo disso é o fato de que a coloração escura do Rio Negro, ao contrário do que à primeira vista se poderia presumir, não resulta de sujeira, imundice ou outras formas de contaminação, e sim de grande quantidade de substâncias orgânicas dissolvidas, provenientes da decomposição de matéria vegetal recolhida ao longo de seu percurso. Mas deixemos essa digressão para outra ocasião e retomemos nosso foco: poderia o encontro de águas tão diferentes que se unem para formar um novo e único rio nos ajudar na tarefa de descortinar caminhos e alternativas que nos ajudem a superar o extremismo e a polarização política em que nos colocamos, fomos colocados ou para os quais, por descuido de nosso exercício crítico, acabamos sendo arrastados? Esse será, daqui para frente, nosso questionamento-guia.

Se o que nos foi ensinado estava certo, o Rio Negro tem suas nascentes fincadas no solo do assim chamado “Escudo das Guianas”, a partir de onde percorre territórios da Colômbia, da Venezuela e do Brasil por aproximadamente mil e setecentos quilômetros, até chegar a Manaus. Suas águas são escuras, semelhantes às de um denso chá de coloração preta. O Rio Solimões, por sua vez, tem suas origens nos Andes peruanos, de onde parte e vai coletando grande quantidade de sedimentos minerais responsáveis pela coloração barrenta de suas águas, visualmente mais claras que as do Rio Negro. Temos, assim, dois rios de origens distintas, que seguem trajetórias únicas e percorrem caminhos diferentes, com composições igualmente distintas e características próprias. Curiosamente, quando suas águas se encontram, continuam caminhando lado a lado, ainda distinguíveis por vários quilômetros, como se fossem dois rios independentes um do outro. Entretanto, é sabido que o portentoso Amazonas já está sendo formado desde o início desse encontro. A mistura das águas começa gradual e progressivamente, influenciada por diferenças de temperatura, de velocidade, de densidade e de composição química, com o contraste se tornando cada vez menos perceptível, até desaparecer por completo. Trata-se de um encontro paradigmático para nossa reflexão, uma vez que ele nos oferece uma imagem sugestiva quanto às possibilidades de convivência pacífica e respeitosa entre nós, seres humanos, a um só tempo tão parecidos e tão diferentes.

Claro que esse encontro e essa convivência pacífica não têm o condão de transformar um fenômeno natural em receita pronta para os problemas humanos. Afinal, a natureza não segue um “telos” ou um fim prévia e conscientemente estabelecido, não escreve manifestos, não organiza partidos, tampouco convoca greves, manifestações e comícios. Ainda assim, seu simbolismo pode nos ajudar a compreender questões que, em razão de crenças exacerbadas e emoções excessivamente alteradas, têm se tornado desnecessariamente complexas, transformando-se num desafio para nossa convivência ordeira, respeitosa e pacífica.

 

Como primeiro tópico de uma grande lição, o chamado “encontro das águas”, respeitados o alcance e o limite da analogia, sugere que pessoas e grupos não precisam pensar ou agir de maneira idêntica para construir um “Tao” coletivo, um caminho comum a ser trilhado e compartilhado pelo restante de suas vidas. Crenças e convicções, ideias e ideologias, diferenças e idiossincrasias, quando respeitadas e abraçadas com disposição, mansidez de espírito, e humildade de coração, podem ampliar perspectivas, enriquecer o esforço coletivo e favorecer soluções que nenhum ser humano lograria alcançar sozinho. Sugere também que a convivência pacífica e cooperativa não exige que um lado anule o outro, menos ainda que cada um renuncie às suas crenças mais sagradas e às suas convicções mais profundas. Exige, sim, com certeza, disposição para reconhecer a existência e a essência desse outro, compreender suas razões e sua trajetória de vida, bem como a necessidade de perseguir formas de coexistência que respeitem direitos e potencializem uma vida mais digna e plena para todos, e não apenas para os membros de uma determinada classe ou os adeptos desse ou daquele partido. É nesse horizonte de convergência que se situa o chamado bem comum ou bem coletivo.

É evidente que natureza é natureza, ser humano é ser humano. Diferentemente dos rios, mares e oceanos, a razão e a sabedoria nos permitem estabelecer objetivos, formular projetos, não só avaliando de tempos em tempos as consequências de nossas decisões e de nossos atos, como também revendo a pertinência de nossos credos e crenças, verdades e convicções, ideias e ideologias. Isso não significa conformismo, jogar o jogo das conveniências. Nada disso. Antes, significa reconhecer que nossas percepções são limitadas, por vezes imperfeitas, e que nenhuma pessoa, grupo, partido ou religião possui o monopólio do caminho, da verdade e da vida.

 

O chamado “encontro das águas” sugere também que a vida em sociedade não precisa ser tratada como uma espécie de olimpíada ou competição permanente, em que, para que um grupo possa ganhar ou um partido possa vencer, todos os demais tenham necessariamente que fracassar ou perder. A vida coletiva não precisa funcionar como uma disputa mortífera em que os vencedores são alçados à galeria dos heróis e os perdedores condenados ao ostracismo do anonimato. Nem todos os córregos, riachos e rios conseguem chegar ao mar. Alguns secam, outros se perdem pelo caminho, e há ainda aqueles cujo percurso é interrompido pelo próprio homem antes de atingir seu destino. Trajetória semelhante à das sementes da parábola, em que, por motivos diversos, muitas não chegarão a desabrochar nem dar frutos.

Nem todo rio que não chega ao mar fracassa por falta de esforço, perseverança ou determinação. Há circunstâncias e obstáculos que escapam ao seu controle, à sua vontade e ao seu empenho. Essa analogia nos ensina que precisamos evitar atribuir aos indivíduos, isoladamente, responsabilidade pelos caminhos que não conseguem percorrer, sobretudo quando lhes falta o apoio do grupo e o suporte da coletividade. "O homem é, por natureza, um animal político", nos lembra Aristóteles. “Nenhum ser humano é uma ilha”, nos ensina John Donne, clérigo e poeta inglês do século XVI. A meritocracia tem seu alcance mas também tem seus limites.

 

PAUSA PARA UM MERECIDÍSSIMO COFFEE BREAK

 

A terceira margem sugerida por Guimarães Rosa nos oferece uma imagem de forte alcance metafórico e arquetípico, que nos desafia a pensar para além das categorias habituais de interação e convivência, bem como nos convida a rever convicções ideológicas cristalizadas, petrificadas, como se fossem irretocáveis e absolutas. Ao aproximarmos essa imagem da vida social e da prática política, não precisamos transformar cada personagem do conto em um modelo de convivência política. Podemos, sim, aproveitar a metáfora para nos perguntar se somos invariavelmente obrigados a escolher entre duas margens percebidas como opostas e inconciliáveis, frequentemente marcadas pela intransigência e pela intolerância, não raro descambando para a perseguição e a violência. Nesse sentido, talvez essa terceira margem possa ser interpretada como uma terceira via na busca pela superação do extremismo e da polarização, sem que isso signifique submissão passiva e acrítica por parte de qualquer dos lados, nem fuga do conflito ou neutralidade confortável diante de eventuais violações e injustiças.

 

Trata-se, antes, de pensar com liberdade e autonomia, assumir responsabilidades e construir possibilidades de convivência pacífica sem renunciar a valores fundamentais e a princípios estruturantes de uma convivência e uma interação tão ricas quanto possível. Tal perspectiva, sem dúvida, se aproxima bastante da concepção de “ethos”, conceito grego que o teólogo brasileiro Leonardo Boff interpreta como habitat, a toca comum do animal – no presente caso, do animal humano. Um espaço compartilhado em que as diferenças não sejam motivo permanente de hostilidade, mas parte da realidade que precisamos construir com cooperação e administrar com sabedoria. Assim como o encontro das águas não exige que um dos rios desapareça para que o outro prevaleça, caminhando juntos por certo tempo sem se mesclar, até que o encontro definitivo aconteça, a terceira margem sugere que a convivência humana também exige processos, adaptação e paciência. Entendimento não se alcança por decreto, assim como confiança não surge por força de medidas e canetaços. Se assim fosse, bastaria a publicação de normas e resoluções para acabar com as divergências e resolver boa parte dos problemas. Uma eficiente impressora, nesse caso, funcionaria melhor do que qualquer iniciativa ou projeto voltados para o mesmo fim.

No exercício da prática política, posições ideológicas diferentes podem acabar se convertendo em posturas de discriminação, intolerância, confronto e exclusão. Não raro, o extremismo e a polarização acabam transformando divergências em antagonismos, alimentando a convicção de que o outro não é apenas alguém que pensa diferente, mas alguém que precisa ser derrotado, silenciado ou afastado da vida pública. Com isso, a defesa excessivamente ideológica de uma causa pode sufocar sugestões enriquecedoras e soluções inteligentes para os problemas coletivos. Superar essa lógica não significa renunciar a direitos fundamentais ou adotar neutralidade diante da corrupção e da injustiça. Há valores que precisam ser defendidos e limites éticos que não podem ser ultrapassados. Conciliar, aqui, não significa capitular, assim como dialogar não significa concordar com todos e com tudo. Pensar “com” não significa pensar “como”. O desafio maior, nesse caso, talvez esteja em distinguir firmeza de intransigência, convicção de fanatismo e divergência de intolerância e hostilidade.

 

Podemos sustentar posições diferentes e reconhecer méritos em quem discorda de nós. A capacidade de autocrítica, isto é, de submeter a juízo o próprio lado e o próprio partido, talvez seja um dos testes mais expressivos da verdadeira liberdade e da autêntica autonomia. Quando a lealdade partidária nos impede de reconhecer erros e excessos, bem como os desvios de nossas lideranças, deixamos de defender apenas uma ideia ou ideologia, permitindo, sem perceber, que sejamos manipulados como marionetes pelas mãos de “líderes” arbitrários e inescrupulosos venerados como ídolos. Essa postura costuma ser muito mais fruto da teimosia e do espírito beligerante do que da inteligência e da mentalidade pacifista. Talvez ninguém tenha compreendido a importância do perdão, da conciliação e da convivência pacífica de maneira tão expressiva quanto um tal Jesus de Nazaré e, no seguimento de suas pegadas, um tal peregrino de Assis de nome Francisco, a quem tradicionalmente se atribuem estas palavras: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz! Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, o perdão; onde houver discórdia, a união; onde houver dúvida, a fé...”. A mensagem de ambos nos convida a substituir a hostilidade pela disposição de construir relações mais humanas, justas e colaborativas.

Quando essa disposição parecer difícil ou mesmo impossível, ainda assim restará a esperança de que o diálogo, a compreensão e o perdão impeçam que a divergência se transforme em intolerância, e esta, em hostilidade permanente. Talvez seja essa a travessia de que mais estejamos precisando nesse momento: enxergar o outro como irmão, e não como inimigo, e compreender que a derrota de um grupo não é condição indispensável para o avanço coletivo. Afinal, quem toma partido pela justiça não pode esquecer que ela está acima do seu partido. A terceira margem não precisa ser equidistante da direita e da esquerda, nem uma posição destinada a agradar a todos. Pode representar uma maneira diferente de compreender a realidade e reconhecer que aquilo que nos separa também pode nos aproximar. Se os rios conseguem seguir juntos sem que um precise declarar o outro vencido, também nós, humanos, podemos fazê-lo. Por mais difícil que isso seja. Como afirma Sêneca: “Não é porque as coisas são difíceis que nós não ousamos – é porque nós não ousamos que as coisas são difíceis”.

É possível que Guimarães Rosa tenha testemunhado o encontro das águas entre o Negro e o Solimões. Se o fez, é provável que esse encontro tenha servido de inspiração para seu conto “A terceira margem de um rio”. A natureza, em sua natural sabedoria, por vezes nos ensina lições preciosas de convivência pacífica e de colaboracionismo. A razão humana, que sempre interpretamos como sendo o nosso grande diferencial em relação aos demais seres vivos, não deveria ser considerada um bem absoluto. Ela também precisa ser domada, domesticada, para que assim esteja em condições de nos auxiliar em nossa busca pela necessária separação entre o bem e o mal, o certo e o errado, o trigo e o joio. Dominada pela paixão, ela não consegue cumprir bem sua missão. Torna-se cega e surda e, se não muda, paralítica. Enquanto essa surdez e essa cegueira persistirem, cordeiros e ovelhas estarão sendo levados ao matadouro, e não a pastos verdejantes e fontes de água limpa. Para que esse círculo seja rompido, o recurso nos chega com a sabedoria oriental. Chama-se “despertar da consciência”.

 

[L.S.M.]

 

(*) Reflexão enviada de Vitória (ES) via Whatsapp.

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