sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

LEITURAS DA MISSA SOLENIDADE DA SANTA MÃE DE DEUS MARIA

 

LEITURAS DA MISSA

 

SOLENIDADE DA SANTA MÃE DE DEUS MARIA

 

 

Anim.:É Deus, fonte de toda bênção, que agora nos vai falar. Abramos nossos ouvidos e coração àquilo que Ele quer nos comunicar.

PRIMEIRA LEITURA 6 (Nm 6, 22-27)

Leitura do Livro dos Números.

²²O Senhor falou a Moisés, dizendo: ²³“Fala a Aarão e a seus filhos: Ao abençoar os filhos de Israel, dizei- -lhes: ²‘O Senhor te abençoe e te guarde! ²O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! ²O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!’ ²Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei”.

 - Palavra do Senhor. T. Graças a Deus.

 SALMO 66(67)

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção. (bis)

1. Que Deus nos dê a sua graça e a sua bênção, * e sua face resplan- deça sobre nós! / Que na terra se conheça o seu caminho * e a sua salvação por entre os povos.

2. Exulte de alegria a terra inteira, * pois julgais o universo com justiça; / os povos governais com retidão, * e guiais, em toda a terra, as nações. 3. Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, * que todas as nações vos glorifiquem! / Que o Senhor e nos- so Deus nos abençoe! * E o respei- tem os confins de toda a terra.

 SEGUNDA LEITURA (Gl 4, 4-7)

Leitura da Carta de São Paulo aos Gálatas.

Irmãos: Quando se com- pletou o tempo previsto, Deus en- viou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos co- rações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai! Assim já não és escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro: tudo isso por graça de Deus

. - Palavra do Senhor. T. Graças a Deus.

 

ACLAMAÇÃO (Hb 1,1-2)

 Aleluia, aleluia, aleluia

. De muitos modos, Deus outrora nos falou pelos profetas; nestes tempos derradeiros, nos falou pelo seu Filho.

 

 EVANGELHO (Lc 2, 16-21)

 

P. O Senhor esteja convosco. T. Ele está no meio de nós.

 P. Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.

T. Glória a vós, Senhor.

P. Naquele tempo, ¹os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. ¹Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. ¹E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam. ¹Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração. ²Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, con- forme lhes tinha sido dito. ²¹Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.

- Palavra da Salvação. T. Glória a vós, Senhor.

LEITURAS DA SEMANA: DE 01 DE JANEIRO A 07 DE JANEIRO DE 2024- Consagração do novo ano a Nossa Senhora

 

 

LEITURAS DA SEMANA: DE 01 DE JANEIRO A 07 DE JANEIRO DE 2024

Dia 1º, 2ªf, MARIA, MÃE DE DEUS: Nm 6,22-27; Sl 66,2-3.5- 6.8(R.2a); Gl 4,4-7; Lc 2,16-21;

Dia 02, 3ªf, Santos Basílio Magno e Gregório Nazianzeno: 1Jo 2,22- 28; Sl 97(98); Jo 3,19-28;

Dia 03, 4ªf, Santíssimo Nome de Jesus: 1Jo 2,29-3,6; Sl 97(98); Jo 1,29-34; Dia 04, 5ªf, 1Jo 3,7-10; Sl 97(98); Jo 1,35-42;

Dia 05, 6ªf: 1Jo 3,11- 21; Sl 99(100); Jo 1,43-51;

Dia 06, sáb.: 1Jo 5,5-13; Sl 147(147B); Mc 1,7-11;

Dia 07, dom., EPIFANIA DO SENHOR: Is 60,1-6; Sl 71,1- 2.7-8.10-13(R.cf.11); Ef 3,2-3a.5- 6; Mt 2,1-12 (Visita dos Magos).

Consagração do novo ano a Nossa Senhora

 

Ó Nossa Senhora, Mãe dos homens e dos povos, vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, vós que sentis, maternalmente, todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas que abalam o mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor, que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos diretamente ao vosso coração. Abraçai, com amor de Mãe e de Serva do Senhor, este nosso mundo humano que vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos.

De modo especial, entregamos e consagramos a vós aqueles homens e nações que têm particular necessidade dessa entrega e consagração.

À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus! Não desprezeis as súplicas que se elevam de nós que estamos na provação.

Encontrando-nos, hoje, diante vós, Mãe de Cristo, diante do vosso Imaculado Coração, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos à consagração que, por nosso amor, o vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Eu consagro-Me por eles — foram as suas palavras — para eles serem também consagrados na verdade” (Jo 17,19).

Queremos nos unir ao nosso Redentor, nessa consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no Seu coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e conseguir a reparação.

https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/oracao/consagracao-do-novo-ano-a-nossa-senhora/

REFLEXÃO DOMINICAL I MARIA, CONTUDO, CONSERVAVA TODOS ESSES ACONTECIMENTOS E OS MEDITAVA EM SEU CORAÇÃO

 

REFLEXÃO DOMINICAL  I

MARIA, CONTUDO, CONSERVAVA TODOS ESSES ACONTECIMENTOS E OS MEDITAVA EM SEU CORAÇÃO

 

 Há oito dias, fomos testemunhas do nascimento terrestre do Filho de Deus como Homem, Deus-Verbo, nascendo em Belém de Maria, Virgem. Ele que entra na história submete-se à lei do fluir humano e encerra o passado: com Ele tem fim o tempo de expectativa, isto é, da Antiga Aliança e abre o futuro: a Nova Aliança da graça e da reconciliação com Deus. Mediante o mistério do nascimento de Deus no tempo, mediante a evocação dos acontecimentos de Belém, separamo-nos do ano "velho" e entramos no ano “novo”. Hoje, no último dia da oitava do Natal, a atenção da Igreja cheia da mais profunda veneração e de amor, volta seu olhar à maternidade de Maria, isto é, daquela que deu ao Filho de Deus a natureza humana e a vida humana. Foi graças a ela que nós hoje pronunciamos o nome de Jesus, afinal, foi neste dia que tal nome foi posto ao Filho de Maria (cf. Lc 2, 21). Isto marca definitivamente a identidade de Maria: ela é “a mãe de Jesus”, ou seja, a mãe do Salvador, do Cristo, do Senhor, Mãe de Deus (Theotokos). Jesus não é um homem como qualquer outro, mas é o Verbo de Deus, uma das Pessoas divinas, o Filho de Deus. O novo ano começa, portanto, sob o signo da Santa Mãe de Deus. O olhar materno é o caminho para renascer e crescer; para dar-nos conta de que sempre podermos contar com a intercessão daquela que nos trouxe o autor da vida, Jesus Cristo. Maria é a mulher da atitude meditativa, a expressão duma fé madura, adulta, não inicial; duma fé que não é recém- -nascida, duma fé que se tornou geradora. A Virgem rezava, a Virgem pensava nos acontecimentos à luz de Deus, na presença silenciosa do Senhor, procurando entender o sentido profundo do que acontecia ao seu redor. Somente quem faz assim pode ver sempre Deus em todas as coisas e em todas as circunstâncias. “Maria, contudo, conservava todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19). Esse versículo é princípio de piedade filial para todos aqueles que querem progredir na vida espiritual: na escola de Maria aprendemos o silêncio, a meditação e a paz. Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide com uma vida plena e feliz. Em outras palavras, o desejo de paz corresponde ao princípio moral fundamental, ou seja, ao desejo de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios de Deus para a humanidade. A paz, por sua vez, não diz respeito à falta de conflitos, mas à capacidade de agir apesar deles. A paz nos dá coragem para enfrentar os desafios, de ultrapassar as fronteiras, de ir além dos limites que nós mesmos criamos. É esta a paz interior que encontramos em Maria: paz que mesmo diante do tumulto e confusões da história, de acontecimentos cujo sentido muitas vezes não somos capazes de compreender, vencemos contemplando o Filho Jesus, Príncipe da Paz. No início do Ano Novo, coloquemo-nos sob a proteção da Santa Mãe de Deus, que é nossa mãe. Que Ela nos ajude a guardar e meditar tudo, sem ter medo das provações, na certeza de que o Senhor é fiel e sabe transformar as cruzes em ressurreições. Que Ela nos ajude e nos acompanhe neste novo ano; que ela obtenha para nós e para o mundo inteiro o dom da paz. Amém!

Dom Cícero Alves de França Bispo Auxiliar de São Paulo

https://arquisp.org.br/sites/default/files/folheto_povo_deus/ano-48b-08-santa-maria-mae-de-deus.pdf

REFLEXÃO DOMINICAL II "SANTA MÃE DE DEUS, MARIA - JESUS, A PAZ QUE O MUNDO DESEJA"

 

 

 

REFLEXÃO DOMINICAL  II

"SANTA MÃE DE DEUS, MARIA - JESUS, A PAZ QUE O MUNDO DESEJA"

Primeiro de ano é o “Dia Mundial da Paz” e talvez muitos se perguntem, o que adianta celebrar esta data se no mundo há ainda tanto ódio, conflito, guerras e mortes absurdas em um total desrespeito á vida? É bom entendermos que paz, não significa ausência de problemas, mas sim presença de Deus em nossa vida e nesse sentido, a paz que o homem tanto quer e sonha, já foi plantada em meio aos homens quando Jesus encarnou-se entre nós, através de Maria.

Na graça e salvação que Jesus nos trouxe tudo se renova só que precisamos compreender o agir de Deus que é diferente dos homens, a paz no mundo, da maneira como entendemos, só é possível se os poderosos das grandes nações fizerem um pacto de pararem com a guerra, com os conflitos e desentendimentos, essa paz dificilmente irá acontecer embora todos a desejemos com intensidade.

A paz é antes de tudo um dom, um presente, que em Jesus, Deus oferece ao homem; podemos aceitá-lo ou rejeitá-lo, e quando o aceitamos, deixamos de ser meros expectadores e começamos a fazer uma nova história, por isso o evangelho nos coloca os pastores como protagonistas. Eles poderiam ter ignorado a mensagem do anjo e permanecerem em suas pastagens o resto da noite, mas ao verem a luz e ouvirem o anúncio alegre, puseram-se á caminho de Belém, e ao encontrarem tudo como o anjo lhes havia informado, disseram a José e Maria o que lhes fora dito sobre o menino. O testemunho dos pastores ajudará José e Maria a compreenderem melhor a missão que lhes fora confiada. Mas a grande mudança acontece nos pastores, que se abriram e acreditaram na boa nova. E agora, todos se admiram ao ouvir aqueles homens, tido como mentirosos e brigões, cujo testemunho não valia nos tribunais. Agora, eles que são os últimos da sociedade, tornam-se os primeiros anunciadores da boa nova. Quanto a Maria, guardava todas essas coisas em seu coração. Muitas vezes, nos esquecemos facilmente das coisas que não conseguimos explicar, só guardamos em nós aquilo que é lógico e explicável.

A fé e a confiança em Deus nos leva a aceitar certos fatos, que a nossa lógica não explica, mas que sabemos ser o jeito de Deus agir. Maria se fez serva do Senhor, não era necessário Deus explicar tudo, a todo o momento, Deus não nos deve nenhuma explicação.
Deus se faz ouvir e se deixa ver, é uma experiência íntima e pessoal que nos leva a glorificá-lo e louvá-lo.

Por isso a criança deverá se chamar Jesus, Emanuel, Deus conosco. Ele é a paz, desejada e sonhada pela humanidade, dom que Deus coloca ao nosso alcance, mas ao mesmo tempo algo a ser conquistado, e que só se concretiza quando percebemos, como os pastores, que ele caminha conosco, como irmão e parceiro, na construção de um mundo novo.

José da Cruz é Diácono da
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim – SP
E-mail  
jotacruz3051@gmail.com

http://www.npdbrasil.com.br/religiao/rel_hom_gotas0125.htm

REFLEXÃO DOMINICAL III SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – 1º de janeiro

 

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REFLEXÃO DOMINICAL  III

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – 1º de janeiro

Por Izabel Patuzzo

 

O plano divino da salvação

I.              INTRODUÇÃO GERAL

 

No início do ano-novo civil, a Igreja celebra uma solenidade especial: a de Santa Maria, Mãe de Deus. Com ela, a Igreja nos recorda o importante papel de Maria no plano da salvação. Essa festa tão antiga remonta ao Concílio de Éfeso, em 431. No plano da salvação, Maria aceita que, pela ação do Espírito Santo, a Palavra de Deus encarnada habite em seu ventre. Com seu sim a Deus, torna-se morada do Espírito Santo.

O novo ano que se inicia nos oferece também novas oportunidades, novas ideias e novas decisões para fortalecer nossa relação com Deus e com o próximo, tendo Maria como modelo de discípula capaz de dizer ao Senhor: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Neste primeiro dia do calendário civil, a liturgia nos convida a rezar pela paz no mundo inteiro. Promover a paz é uma das bem-aventuranças proclamadas por Jesus. As leituras desta solenidade apontam para diversas coordenadas em nossa vida.

A primeira leitura nos fala da presença amorosa de Deus, como fonte contínua de bênção, que nos acompanha e protege em todos os momentos de nossa vida. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo nos recorda que Jesus veio a este mundo para nos libertar pelo poder do amor incondicional, a ponto de dar sua vida por nós. O Evangelho nos mostra que a chegada de Jesus a este mundo é motivo de júbilo para aqueles que têm o coração aberto para acolhê-lo, como os pastores de Belém.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

 

1.    I leitura (Nm 6,22-27)
 

Um dos motivos para essa leitura ser escolhida para a solenidade é o fato de estarmos no primeiro dia do ano de nosso calendário civil. Dessa forma, esse texto do livro dos Números se apresenta como uma fórmula de bênção para o ano que se inicia. Segundo a tradição judaica, em ocasiões importantes, uma das funções sacerdotais era abençoar o povo. A bênção era sinal de fidelidade à Aliança e a garantia de que a promessa feita por Deus a Abraão – de acordo com a qual todas as gerações futuras seriam abençoadas – de fato se cumpria continuamente na história. As palavras dirigidas por Deus a seu servo Moisés significam que essa bênção passa de geração em geração àqueles que são fiéis na observância da Aliança.

Tal bênção situa-se no contexto das últimas instruções do Senhor Deus a Moisés, antes que o povo escolhido deixasse o monte Sinai. Ela é um dom concedido a toda a comunidade dos fiéis reunidos, para que tenham vida, força e felicidade; todos são agraciados pela bênção divina. Repeti-la por três vezes significa o reconhecimento de que é fruto da generosidade divina; Deus mostra sua face de geração em geração, porque é sempre presente na vida de seu povo. Cada invocação corresponde a um dom especial: bênção, proteção e paz. O autor do texto expressa a fé de Israel, que sempre pede ao Senhor Deus que mostre sua face amiga e conceda a paz. Para aqueles que temem a Deus, essa bênção resume tudo de que precisam para uma vida em plenitude.

2. II leitura (Gl 4,4-7)

 

Alguns cristãos da Galácia provenientes do judaísmo pregavam que, para alcançar a salvação, os cristãos de origem não judaica deveriam se submeter a certas tradições e costumes judaicos, como a circuncisão e certas regras sanitárias e de purificação dos alimentos. Paulo intervém com muita convicção, afirmando que Jesus Cristo veio para todos e pelo batismo é que todos alcançaram a salvação. Esta não vem pela Lei ou por costumes judaicos, mas pela fé em Jesus Cristo. Sua morte redentora inaugurou nova era para judeus e não judeus. A salvação se estende a todos os que aceitam a proposta do discipulado de Jesus.

O texto apresentado na liturgia de hoje consiste num dos pontos centrais da carta aos Gálatas. Em sua mensagem, o apóstolo Paulo ensina que Cristo veio para libertar todos os que estavam sob o jugo da Lei. Pela sua morte redentora, ele libertou todos os que eram escravos, tornando-os filhos de Deus. A leitura recorda também que Jesus nasceu de uma mulher; implicitamente, lembra-nos Maria, Mãe de Jesus. A centralidade do ensinamento desse texto é a dignidade dos discípulos de Jesus de serem filhos de Deus por adoção. Assim como Jesus, o discípulo pode se dirigir a Deus como filho. Paulo foi fiel ao Evangelho que lhe foi transmitido pelos apóstolos, no qual Jesus se dirige a Deus como Pai. Assim, a palavra “filho” é aplicada a Jesus e a todo cristão batizado.

3. Evangelho (Lc 2,16-21)
 

A narrativa de Lucas sobre o nascimento de Jesus dá a conhecer que as primeiras pessoas que se alegram, acolhem e visitam o Filho de Deus recém-nascido são os pastores. Eles cuidavam de seus rebanhos quando, durante a noite, os anjos dos céus lhes anunciam a grande notícia, encorajando-os a não ter medo. É precisamente essa a mensagem central da solenidade que celebramos. Iniciamos novo ano sob a proteção de Maria, que trouxe ao mundo o Filho de Deus. A exemplo dos pastores, que se dirigem apressadamente para visitar Jesus, Maria e José junto à manjedoura, nós também somos convidados a contemplar a simplicidade e a pequenez com que o Salvador veio ao mundo.

Os pastores, além de se dirigirem apressadamente para encontrar-se com Jesus, glorificam e louvam a Deus por esse tão grande acontecimento. No nascimento de Jesus, Deus se faz muito próximo desse grupo de pessoas. Jesus também vem como o verdadeiro pastor que, mais tarde, irá dar a vida pelas suas ovelhas. Ele foi acolhido por essa categoria de trabalhadores que passam a noite cuidando de seu rebanho. Simbolicamente, Lucas indica que o anúncio oficial do nascimento de Jesus é feito pelos anjos, criaturas divinas que trazem a boa notícia, em primeiro lugar, aos pastores. A atividade de pastoreio, no Antigo Testamento, era atribuída a Deus. Assim, a presença dos pastores tem um sentido profundo de identificação com a missão de pastorear o povo que Jesus irá desenvolver e que Lucas apresentará em todo o decorrer do
terceiro Evangelho.

Assim como os pastores agiram ao ouvir o canto celeste dos anjos, somos convidados a proclamar a glória de Deus, porque o Príncipe da paz vem até nós. Jesus é a luz que brilha na escuridão da noite. A experiência do nascimento é um ato comunicativo em todos os sentidos. Os anjos são comunicadores da Boa Notícia, e os pastores são aqueles que apressadamente acolhem a mensagem e vão ao encontro de Jesus. Maria, por sua vez, ensina-nos que as maravilhas desse grande acontecimento são para serem guardadas no silêncio do coração. É preciso esforço para compreender esse mistério. Lucas nos apresenta Maria como uma pessoa que sabe ouvir a mensagem divina, que a medita e guarda no coração. Desde a visitação, é aquela que acredita na mensagem do Senhor; escuta-a e a põe em prática. Por isso, Deus realiza grandes coisas em seu favor e em favor de seu povo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

 

Lucas descreve Maria como uma pessoa que sabe escutar. A história da salvação apresentada nas Escrituras nos revela que Deus é o primeiro a escutar o clamor de seu povo. Ele não se mantém indiferente às suplicas de seus filhos. Duas palavras-chave caracterizam a ação de Deus em relação à humanidade: escuta e palavra. Depois de escutar seu povo, Deus lhe dirige palavras de orientação. Como discípulos de Jesus, aprendamos de Maria e dos pastores a atitude de escutar o que Deus nos fala.

O papa Francisco nos convida a ser uma Igreja de encontro e de diálogo. A escuta nos educa para sermos atentos às manifestações de Deus em nossa vida, bem como para escutar uns aos outros. Há muitos gritos da humanidade, da criação, que precisam ser escutados. Precisamos ser atentos como Maria, que ouve, contempla, guarda no coração o que Deus lhe comunica, mas se deixa transformar por tudo que ouve.

Os pastores também se puseram nessa atitude de ouvintes dos anjos e depois agiram segundo a mensagem divina. A liturgia deste dia nos apresenta grandes modelos de pessoas que souberam ouvir a voz de Deus e pôr em prática a mensagem recebida do alto. Interroguemo-nos: temos a mesma sensibilidade para estarmos atentos à vida e perceber a presença de Deus, como Maria e os pastores? Somos, a exemplo deles, capazes de deixar que a Palavra de Deus transforme nossa vida? Que a luz desta solenidade possa trazer para nosso novo ano um sonho para nosso bem e do próximo; um sonho-projeto para este ano; uma escolha de amor que nos guie por todo
o ano.

Izabel Patuzzo

 

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. E-mail: isabellapatuzzo@hotmail.com

https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus-1o-de-janeiro/

Graça e livre-arbítrio: aproximações e distinções entre Santo Agostinho e Lutero

 

 

Graça e livre-arbítrio: aproximações e distinções entre Santo Agostinho e Lutero

Introdução

O conceito da graça, à época de Santo Agostinho, recebeu diferentes acepções, sendo popularmente concebido de forma pejorativa e se associando a determinadas recomendações que não tinham por finalidade a justiça (GROSSI et al., 2002).

É na controvérsia com Pelágio, asceta e religioso latino, que Santo Agostinho sistematizou o conceito teológico da graça, contrapondo-se à ideia pelagiana de uma vontade humana potente e autossuficiente capaz de por si própria resistir ao pecado. A posição agostiniana sobre esse tema será anexada à ortodoxia eclesiástica católica, sendo evocada para refutar controvérsias posteriores, que ora negavam o livre-arbítrio e a liberdade humana, ora exacerbavam a autossuficiência da natureza humana não corrompida pelo pecado.

A asserção agostiniana do livre-arbítrio e da graça na experiência humana de liberdade e salvação está presente no contexto da Reforma, em que se observa, segundo alguns autores (GROSSI et al., 2002), um novo direcionamento da devoção moderna, privilegiando a experiência relacional entre Deus e os homens na configuração da vivência cristã.

Contudo, no bojo do contexto da Reforma, a instauração de uma nova pietas pela fé reformada traz discussões sobre o entendimento da graça, com posições que se distanciam da concepção agostiniana, sobretudo dos reformadores que radicalizaram a posição luterana.

Neste artigo apresenta-se a concepção agostiniana da graça, a partir da controvérsia pelagiana, necessária para a compreensão do tema; em seguida, após sucinta contextualização biográfica de Lutero e das questões luteranas presentes na Reforma, enfocam-se as aproximações e distanciamentos entre os entendimentos luterano e agostiniano acerca da graça e livre- arbítrio, e da graça e justificação.

A concepção agostiniana da graça

A sistematização do conceito teológico da graça no pensamento agostiniano tem como cenário o desenvolvimento da “Polêmica Pelagiana”. Nela, Santo Agostinho contrapõe o entendimento de Pelágio – de uma natureza humana não maculada pelo pecado original, do livre-arbítrio potente da vontade para realizar o bem, se assim o homem desejar – à concepção da natureza humana “adoecida” pelo pecado das origens e, por conseguinte, da necessidade do “remédio” divino para auxiliar na inclinação da vontade para o bem.

Se a antropologia pelagiana apontava para a criação do homem dotado de livre-arbítrio por Deus como uma graça, a agostiniana mostrará os limites de tal concepção, pois, segundo o grande Doutor da Igreja, tratava-se não de procurar os dons do Criador na criatura, mas os dons que Ele oferta às criaturas para a salvação. Expunha, assim, a necessidade humana da graça para a correção dos pecados, tendo em vista uma natureza humana concreta e real, sujeita aos vícios e vicissitudes inerentes ao tempo (GROSSI et al., 2002).

A ênfase agostiniana recai sobre o advento do Cristo para a salvação humana, pois, diferentemente de Pelágio, para quem cada homem é um novo Adão no tocante ao pecado original, isto é, cada homem depende de si mesmo para resistir ao pecado, para o bispo hiponense é somente a partir da graça salvífica cristã que o homem pode perseverar no caminho do bem, assim, a graça cristã é o auxílio pelo qual os homens se libertam da tendência ao pecado, resistindo às más inclinações.

Como caridade divina, a graça não se resume à existência das leis vetero e neotestamentárias, tal como advogava Pelágio, pois o auxílio que estas podem proporcionar aos homens depende antes do entendimento estimulado pela graça. A posição agostiniana quanto a esse ponto será referendada pela Igreja nos sínodos de Diospólis (415 d.C.) e Cartago (418 d.C.), além da Tractoria do papa Zózimo (GROSSI et al., 2002).

A “auctoritas” agostiniana nos séculos XV e XVI encontra na Escola de Tübingen, Alemanha, um dos pontos principais de difusão das ideias defendidas por Santo Agostinho, sobretudo das interpretações dadas por ele aos textos paulinos. Relacionando-se ao ideal de uma nova piedade cristã, os teólogos daquela escola evocavam os escritos do bispo hiponense, sublinhando a autoridade deste como “intérprete fiel de São Paulo” (GROSSI et al., 2002).

A influência da Escola de Tübingen se estende à teologia de Wittenberg, tendo Lutero como participante.

Lutero e Santo Agostinho: Reforma, aproximações e distanciamentos entre graça e livre-arbítrio

Martinho Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483, na cidade de Eisleben, Alemanha. Vivia em inquietude e tormento constantes, experimentando estados de incerteza, denominados “Anfechtugen” (OLSON, 2001), ansiedade espiritual aguda sobre o estado de sua alma com a ideia da obtenção da salvação – ideia essa que permeava quase todos os ambientes cristãos de sua época. Ele se despede de seu curso Jurídico e de seus colegas em 16 de julho de 1505, em uma vila universitária da cidade de Erfurt, Alemanha.

No dia seguinte entra para o Convento Negro dos Agostinianos Eremitas, sendo influenciado pelo grande doutor africano Agostinho de Hipona, pelo neoplatonismo, pela teologia do pecado e da graça, pela escolástica nominalista e, também, pela mística de Bernard de Clairvaux. Baseando-se em “De spiritu et littera”, no debate de Heidelberg e na luta contra o pelagianismo, Johan Von Staupitz (1469-1524), vigário geral da Ordem de Santo Agostinho, na Alemanha, acompanha e orienta o jovem monge na continuação dos seus estudos de Teologia.

Assim, em 1508 Lutero assume a cátedra “Lectura in Bíblia” na nova universidade de Wittenberg (VILLARES, 2002). Von Staupitz percebe a força, obstinação e a fé de Lutero, tornando-se então seu confessor e, por meio desse trabalho pastoral e fraterno, a sua influência é fundamental para a formação da intelectualidade, da disciplina da piedade e da personalidade de Lutero.

A pergunta que sempre acompanha Lutero em seus estudos é: “como posso conseguir o amor e o perdão de Deus?” No término de um ano de noviciado recebe as regras, momento em que repete a fórmula:

Eu, irmão Augustin Luder, faço profissão e voto ao Deus todo poderoso, a Santa Maria, sempre virgem, e ao Padre Prior Winand, representando o nome e os poderes do Superior Geral dos Frades Eremitas de Santo Agostinho e de seus sucessores: de obediência e também de vida sem nenhuma posse pessoal e na caridade, de acordo com a regra de Santo Agostinho até sua morte

(CRISTIANI, 1954, p.1029).

Lutero é ordenado padre e celebra sua primeira missa em 2 de maio de 1507. Na continuidade de seus estudos, descobre que para obter o perdão de Deus os homens não necessitavam de castigos contínuos ou de praticar boas obras, mas sim e unicamente de terem fé em Deus, baseando-se em razões bíblicas fundamentais.

Em 1511, retorna angustiado de sua visita a Roma, ao descobrir um ambiente de imoralidade, obscenidade, blasfêmia, heresia e apatia espiritual. No ano seguinte, obtém o seu doutoramento em teologia, em Wittenberg, passando a lecionar disciplinas bíblicas naquela universidade.

Os estudos das “Cartas aos Romanos” influenciam a sua forma de interpretar o Evangelho, e juntamente às críticas ao ambiente eclesiástico da época, Lutero decide tornar públicas suas ideias, elaborando as 95 teses, expondo suas descobertas teológicas e criticando, também, o sistema das indulgências. Consta que as teses foram fixadas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517.

Influenciado, ainda, pelo sentido da piedade de Santo Agostinho, as indulgências eram vistas por Lutero como intoleráveis, provocando o debate sobre a legitimidade do ato em si e do valor cobrado sobre elas.

É, também, do grande Doutor da Igreja que sofre ascendência, ao enfatizar na Tese 38 a importância da fé, que ele entende como superior aos próprios sacramentos:

Essa fé em sua palavra faz com que sejas verdadeiramente batizado, seja lá qual for o estado de tua contrição. Por isso, a fé é necessária em toda a parte. Tens na exata medida em que crês. É assim que entendo que dizem nossos mestres: os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque acontecem [...] mas porque se crê, como dissemos acima. Assim aqui: a absolvição é eficaz não porque acontece, seja lá quem afinal a faz, quer erre, quer não erre, mas porque se crê

(LUTERO, 1987, p.146).

Recorre à interpretação agostiniana para incitar à compreensão da misericórdia divina necessária a todo cristão, até mesmo aos santos: Nesta vida, nenhum santo está sem pecado, segundo 1Jo 1,8: “Se dissermos que não temos pecado”, etc. Ele diz a mesma coisa também em Da natureza e da graça (De natura et gratia)2.

Lutero acreditava que a Igreja precisava ser renovada e queria iniciar um debate. Em um curto espaço de tempo, o conhecimento do conteúdo dessas teses tomou toda a Alemanha e se espalhou por várias regiões da Europa. As ideias defendidas por ele surgiram num período em que o papado ainda não havia se refeito completamente do Cisma de Pisa (1511-1512). Roma saía do V Concílio de Latrão (1512-1517) pensando ter solucionado as questões doutrinais vigentes, e o poder imperial de Carlos V exercia influência nas decisões da Cúria, gerando um clima de animosidade e insegurança eclesiástica (WOLFF, 2015).

Apesar de ter sido extremamente pressionado a renegar o seu entendimento teológico e os seus escritos, tanto pela Igreja (excomunhão) como pelas autoridades seculares (banimento), Lutero não alterou suas convicções.

O Movimento da Reforma propagou-se por toda a Europa. No início de 1530, os vários líderes protestantes escreveram a Confissão de Augsburg (Confessio Augustana) sintetizando os componentes doutrinários basilares do luteranismo, lido perante o Imperador Carlos V e o Sacro Império Romano Germânico na data de 25 de julho. Lutero faleceu na data de 18 de fevereiro de 1546, aos 62 anos. Por fim, em 1555 o imperador reconhece e faz saber que existiam duas diferentes confissões de fé cristãs nos territórios sob o seu poder: a católica e a luterana.

É conhecido De Servo Arbítrio, escrito de Lutero que se contrapõe diretamente às concepções do humanista Erasmo de Roterdã. As críticas luteranas se voltam às proposições do humanista, sobretudo àquelas que relativizavam as consequências do pecado das origens para a natureza humana, e consequentemente, para o livre-arbítrio da vontade.

Lutero via nessa relativização contornos semipelagianos, evocando o caráter absoluto da graça cristã para a correção da vontade humana corrompida e prisioneira do pecado original. A graça revela-se na fé em Cristo, como expõe:

Visto, porém, que acusa o mundo inteiro deste pecado e, como é notório, a partir da experiência, que esse pecado foi desconhecido do mundo, como também Cristo, fato que é revelado pelo Espírito acusador, fica evidente que o livre-arbítrio com sua vontade e razão é considerado cativo e condenado perante Deus por esse pecado. Por isso, enquanto ignora a Cristo e não crê nele, nada pode querer ou intentar de bom, mas serve obrigatoriamente aquele pecado ignorado (LUTERO, 1993, p.210).

A obrigatoriedade em pecar, tal como apontado por Lutero, choca-se com a ideia do livre-arbítrio da vontade, pois coloca as ações humanas no reino das necessidades.

De forma diversa, Santo Agostinho não nega o adoecimento da vontade pelo pecado; todavia, a existência do livre-arbítrio é ressaltada, visto que sem ele não é possível a graça. A mesma graça que coopera com o livre-arbítrio para direcionar a vontade humana para o bem é aquela que justifica o homem perante Deus. Santo Agostinho enfatiza essa colaboração entre graça e vontade para que os homens se tornem justos e se justifiquem:

Sem tua vontade não estará em ti a justiça de Deus. Certamente a vontade não é senão tua, a justiça não é senão de Deus. Pode existir justiça de Deus sem tua vontade, todavia à margem de tua vontade [a justiça] não pode dar-se em ti. Serás obra de Deus, não somente por ser homem, mas por ser justo. Melhor é para ti ser justo que ser homem. Se o ser homem é obra de Deus e o ser justo é obra tua, ao menos essa obra tua é maior que a de Deus. Mas, Deus te fez a ti sem ti. Quem te fez sem ti não te justificará sem ti

(SANTO AGOSTINHO, 1981, p.13).

Se a noção do livre-arbítrio da vontade de Lutero se afasta do entendimento agostiniano, sua concepção da graça que justifica se aproxima das ideias do bispo hiponense. A justificação independe das obras humanas, e a graça se expressa nas leis eternas, isto é, divinas, da fé e do amor, cujo exemplo é o Cristo:

A perfeição e a imperfeição não são inerentes às obras e não estabelecem qualquer distinção de condição exterior ou de status entre cristãos; pelo contrário, são inerentes ao coração, à fé, ao amor, de tal modo que todo aquele que acredita mais e tem mais amor, tal pessoa é perfeita, independentemente de ser um homem ou uma mulher, um príncipe ou um camponês, um monge ou um leigo, pois o amor e a fé não criam dissensões e distinções exteriores. Aqui devemos dividir os filhos de Adão em duas partes: a primeira pertence ao reino de Deus; a segunda ao reino do mundo. Todos aqueles que acreditam verdadeiramente em Cristo pertencem ao reino de Deus [...] Ora, tais pessoas não têm necessidade nem da lei nem da espada [...] fazem muito mais do que quaisquer leis ou ensinamentos poderiam exigir

(LUTERO, 1995, p.87, grifo do autor).

Justificado pela fé, instaura-se uma vida nova ao cristão, pautada pela observação das leis divinas, não o sujeitando estritamente às leis temporais, pois as transcendem. Eis um dos aspectos principais da piedade, tal como desenvolvido por Lutero, demarcadora da via moderna de devoção, sintetizada no desejo inato de Deus e na relação íntima entre Criador e criatura (GROSSI et al., 2002).

Destacando a importância e liberdade da fé, Lutero afirmava, no contexto da Reforma: “A fé é algo que Deus elabora no espírito. Daí a afirmação comum, que também está presente em Agostinho: ninguém pode ou deve ser forçado a acreditar em alguma coisa contra a sua vontade” (LUTERO, 1995, p.62).

É sabido que a concepção da justificação de Lutero é tributária da interpretação que fazia de São Paulo, sobretudo da Carta aos Romanos, e de Santo Agostinho, principalmente do tratado “De spiritu et littera” (GROSSI et al., 2002). Santo Agostinho frisava, no referido tratado, a importância das leis da fé e do amor para a justificação, pois são leis contrárias ao pecado, e a justiça cristã como expressão da lei da graça, isto é, da graça como gratuidade da salvação: Deus, soberanamente justo, salvará aqueles que Nele creem.

A obediência do cristão às leis seculares e divinas, a ação da graça sobre a vontade, resultando na liberdade do homem, a fé que o faz perseverar no caminho reto e na observação das leis por amor, encontram-se sintetizadas na passagem seguinte, estabelecendo os princípios da justiça cristã e o caminhar humano para a justificação:

O cumprimento da lei depende da liberdade, mas pela lei se verifica o conhecimento do pecado e, pela fé, a súplica da graça contra o pecado. Pela graça, a cura da alma dos males da concupiscência; pela cura da alma, a liberdade; pela liberdade, o amor da justiça; pelo amor da justiça, o cumprimento da lei. Desse modo, assim como a lei não é abolida, mas é fortalecida pela fé, visto que a fé implora a graça, pela qual se cumpre a lei, assim a liberdade não é anulada pela graça, mas consolidada, já que a graça cura a vontade, pela qual se ama livremente a justiça

(SANTO AGOSTINHO, 1998, p.52).

A graça é, tal como apresentado por Santo Agostinho, a experiência relacional entre o homem e o divino, ou seja, a relação humana com Deus e Cristo redentor, e se inscreve na relação entre livre-arbítrio e liberdade, não sendo estes termos sinônimos.

Nessa acepção, enquanto a liberdade é resultante do influxo da graça sobre a vontade, para que esta penda para o bem, o livre-arbítrio é o meio pelo qual ela atua. Nesses termos, os homens, ao exercerem o seu livre-arbítrio, tanto podem se aproximar quanto se afastar de Deus. Ressalta-se que se tornam mais livres à medida que seus atos os aproximam do Eterno, pois se encontram menos sujeitos aos vícios e vicissitudes do livre-arbítrio.

De forma relacional, portanto, graça e liberdade marcam indelevelmente a trajetória humana, pois dessa relação brota o início da fé, geradora da esperança. Por sua vez, a esperança possibilita ao cristão perseverar até a justificação estar completa, na Jerusalém celestial, onde gozará da justiça e graça eternas, nas palavras de Santo Agostinho:

Estais certos, portanto, de que não trabalhais em vão, se perseverardes até o fim do bom propósito. Deus, que agora aos libertados não retribui conforme suas obras, então retribuirá de acordo com suas obras. Deus retribuirá o mal com o mal, porque é justo; e o bem pelo mal, porque é bom. E retribuirá o bem com o bem, porque é bom e justo, e não retribuirá o mal com o bem, somente pelo fato de que não é injusto. Resumindo: dará o bem pelo mal, a graça pela injustiça, o bem pelo bem, graça sobre graça

(SANTO AGOSTINHO, 2002, p.45).

Considerações Finais

As ideias de Lutero, como apontado, embasou uma nova pietas, e sem elas não se podem entender os caminhos percorridos pela ortodoxia católica nos Seiscentos, na reformulação e contestação havidas a partir do advento do movimento da fé reformada.

Em parte, como também discorrem os autores citados, a radicalização do movimento reformista não deve ser atribuída, stricto sensu, às ideias luteranas.

De um lado, no tocante à doutrina agostiniana da graça contra o pelagianismo, Lutero foi defensor das ideias do bispo hiponense. De outro, não se deve negar que Lutero promoveu certo enrijecimento da teoria da graça agostiniana, limitando, por conseguinte, o conceito de livre-arbítrio, tal qual defendido por Santo Agostinho.

Se tomada como inexorável a tendência do arbítrio humano ao pecado, perde-se o meio pelo qual atua a graça, já que esta, segundo o pensamento agostiniano, age sobre o livre-arbítrio e com a colaboração dele. Aponta-se que o livre-arbítrio, entendido como irremediavelmente pendente ao mal e ao pecado, coloca as ações humanas como determinadas pelo reino das necessidades, e como tal, já não haveria razões para se atribuir responsabilidade pelos atos realizados pelos homens, pondo fim, portanto, ao campo ético no qual se desenvolve a vida humana.

A diferenciação entre livre-arbítrio e liberdade, como exposto no texto, traz luzes ao entendimento do pensamento agostiniano, sendo esta última um valor a se conquistar, diferentemente do livre-arbítrio, bem médio, inerente a todos os humanos.

Não se nega com tal asserção a presença da graça, pois a liberdade, em sentido cristão, tal como entende Santo Agostinho, só é possível pela graça. Graça e livre-arbítrio constituem o binômio dos atos humanos voltados para o bem.

Partindo das concepções agostinianas partilhadas por Lutero, a análise mais profícua busca, para a comunhão dos princípios verdadeiramente cristãos, apontar a convergência de alguns pontos dos ideais luteranos com as proposições da Igreja Católica, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, instauradoras de um diálogo ecumênico cristão. Nesse sentido, destaca-se que esse Concílio reconhece as preocupações manifestadas por Lutero, ressaltando a fidelidade ao evangelho como forma de renovação contínua da Igreja por meio da palavra divina, bem como a fidelidade à história humana como motriz das mudanças necessárias para se levar a cabo a missão evangelizadora.

Trata-se, portanto, de compartilhar de um ideal comum a católicos e cristãos da fé reformada – entendendo a Igreja como o Povo de Deus, Cristo como mediador único, e os ministérios como serviços sacerdotais –, bem como de assegurar a liberdade religiosa das pessoas como um direito.

Referências

CRISTIANI, L. Luther et saint Augustin. In: AUGUSTINUS magister. Congrés International Augustinien. Paris, 1954. v.2.

GROSSI, V. et al. O homem e sua salvação. São Paulo: Loyola, 2002. t.2

LUTERO, M. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 1987.

LUTERO, M. Obras selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 1993. (Debates e Controvérsias, v.4, n.2).

LUTERO, M. Sermão sobre a autoridade secular. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

OLSON, R. História da teologia cristã: 200 anos de tradições e reforma. São Paulo: Vida, 2001.

SANTO AGOSTINHO. A Graça. São Paulo: Paulus, 1998. (O Espírito e a Letra, v.1).

SANTO AGOSTINHO. A Graça. São Paulo: Paulus, 2002. (A Graça e a Liberdade, v.2).

SANTO AGOSTINHO. Obras de San Augustín. Sermones. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), 1981.

VILLARES, A. A recepção de Santo Agostinho em Lutero e nos escritos confessionais luteranos. In: CONGRESSO INTERNACIONAL AS CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO 1600 ANOS DEPOIS: PRESENÇA E ACTUALIDADE, 2000, Lisboa. Actas do Congresso Internacional... Lisboa: Universidade Católica, 2002.

WOLFF, E. Divisões na Igreja: desafios para o ecumenismo hoje. Theologica Xaveriana, n.180, p.381- 407, 2015.

Notas

2 CfLutero (1987, p.162).

MATTOS, J.R.A. Graça e livre-arbítrio: aproximações e distinções entre Santo Agostinho e Lutero. Reflexão, v.42, n.2, p.263-269,

2017. https://doi.org/10.24220/2447-6803v42n2a3997

SANTO AGOSTINHO Sermão de Santo Agostinho: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa

 

SANTO  AGOSTINHO

Sermão de Santo Agostinho: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa

As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo nos advertem que, em meio à multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.

Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta o recebeu como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e, nesta condição, ser alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado. Pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.

Portanto, o Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e os fez irmãos; remiu os cativos e os fez co-herdeiros. Que ninguém dentre vós ouse dizer: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa! Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou: Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).

Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? encontrarás um faminto para repartires com ele o pão? um sedento para dares de beber? um doente para visitar? um desunido para reconciliar? um morto para sepultar? Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu: lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui: daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Queres realmente saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos: Em verdade eu vos digo: ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).

Fonte: Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (Sermo 103, 1-2. 6: PL 38, 613.615) (Séc.V)

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