sábado, 26 de novembro de 2022

RELIGIÃO O início de um novo ano litúrgico

 


 

RELIGIÃO

O início de um novo ano litúrgico

Por Mário Scandiuzzi 

No calendário litúrgico católico o ano não começa no dia 1º de janeiro

Neste domingo a Igreja celebra o 1º Domingo do Advento, que representa também o início de um novo ano litúrgico. Ele é dividido em dois grandes Ciclos: do Natal e da Páscoa, e tem ainda o Tempo Comum, com duração total de 34 semanas. E neste período a Igreja celebra os principais acontecimentos da história da Salvação. O último domingo do ano litúrgico é a festa de Cristo Rei do Universo.

No Advento são 4 domingos até o Natal. Um tempo em que somos convidados a fazer uma preparação espiritual para o nascimento de Jesus. Se no Natal, celebramos a vinda do “Verbo que se fez carne e habitou entre nós” (João 1,14), no ciclo da Páscoa, recordamos a paixão, morte e ressurreição de Cristo. E no Tempo Comum refletimos sobre a vida pública de Jesus, suas obras e seus ensinamentos. Desta forma a Igreja nos convida a viver a Salvação, através do amor e da misericórdia de Deus.

Assim como no calendário civil o início de um novo ano nos traz esperanças e alegrias, devemos ver o calendário litúrgico como a renovação da nossa fé.

Na festa de ano novo civil, é comum muitas pessoas traçarem metas. Vamos então aproveitar o ano litúrgico para repensar nossas ações, refletir sobre nossa vida e buscar nossa salvação. Faça o propósito de começar um novo ano com o coração renovado, aberto à Palavra de Deus.

https://pt.aleteia.org/2019/12/01/o-inicio-de-um-novo-ano-liturgico/

 

 


A PASTORAL DA PALAVRA (V) 6 – A Homilia

 

A PASTORAL DA PALAVRA (V)

 

6 – A Homilia


1. Que é uma homilia

A homília é um tipo especial de pregação com carac­terísticas próprias.  Há muitos tipos de pregação.  Assina­lemos alguns deles: O panegírico, que tende a ressaltar as virtudes de um santo e inculcar nos fiéis a sua imitação.

A homilia é aquele tipo de oratória sagrada que convém mais à celebração litúrgica da euca­ristia e dos sacramentos.  Ou melhor, as celebrações litúr­gicas foram criando, a partir da mais remota antiguidade, um gênero especial dentro da oratória – a homilia -, espécie de comentário dos textos da celebração aplicado aos fiéis, como participantes da celebração e como cris­tãos que devem viver o que celebram.

Etimologicamente falando, homilia vem da palavra grega “homilia” (reunião, conversa familiar) e esta por sua vez do verbo “homilein” (reunir-se, conversar).  As­sim, pois, o termo grego homilia significa trato ou conversa familiar.

Retoricamente com a palavra homilia se designa aquele gênero de oratória mais simples e familiar em oposição ao ‘discurso”.  Fócio nos diz que uma homilia se distingue de um sermão pelo fato de que a primeira se expunha familiarmente pelos pastores e era uma espécie de conversa entre eles e a assistência; o sermão, ao con­trário, era feito a partir do púlpito em forma mais solene.  O sermão era composto segundo as regras da retórica e da arte oratória, ao passo que a homilia é a interpretação familiar da Sagrada Escritura, feita com um fim prático e moral.  A homilia, mais do que mover e excitar os ânimos, destina-se a instruir e edificar os fiéis a propó­sito dos mistérios da fé.

Liturgicamente, a homilia é uma parte integrante da liturgia da Palavra (cf.  SC n. 52).  Note-se que até antes da reforma litúrgica conciliar dizia-se que, depois do Evangelho, a liturgia era interrompida para que os fiéis ouvissem a homilia. O fato de que atualmente a homilia seja parte integrante da liturgia nos obriga a precisar muito mais seu sentido e função.

Tecnicamente, na homilia distinguem-se duas funções litúrgicas importantes:

a) a de ser aplicação da mensagem ao hoje e aqui de nossas vidas;

b) a de ser ponte entre a liturgia da palavra e a liturgia eucarística ou sacramental.

Quanto à primeira função (a) antecipamos que a mensagem da Escritura tem uma atualidade (e não simplesmente uma aplicação moral) que foi sublinhada pela Constituição Sacrosanctum Concilium (cf. n. 33 e 7).

Quanto à segunda função (b) pode-se dizer que a homilia é o elo entre a “liturgia verbi” e a “liturgia sacra­menti”. É o que liturgicamente se denomina “passagem para o rito”.  A homilia (que nunca é um sermão isolado, mas que está dentro de uma celebração) deve concatenar a palavra ouvida com a celebração e mostrar sua atuali­dade precisamente na ação sacramental, como logo comen­taremos mais extensamente.  Isso segundo a melhor tra­dição patrística e segundo a Constituição Sacrosanctum Concilium (n. 35,2).

Ambas as funções coincidem, pois, no fato de conec­tar a Palavra de Deus com o hoje e o aqui de nossa cele­bração ou de nossa vida.

A homilia se distingue, pois, claramente de outros gêneros de oratória sagrada, como o panegírico, o comentário bíblico-exegético, o clássico sermão piedoso, a oração fúnebre.  E com mais razão se distingue de uma classe de catequese ou de teologia (embora a homilia possa e até deva aplicar certos princípios empregados na catequese).

2. Origens e história da homilia

A homilia mergulha suas raízes no povo bíblico de Israel.  Sabemos que muito antes de Jesus e no tempo de Jesus, terminada a leitura do texto bíblico na sina­goga, fazia-se a homilia que se encerrava com o qaddis, oração aramaica da qual Jesus tomou, ao que parece, as duas primeiras petições do Pai,-nosso.  “Moisés – diz Tiago em Atos 15,21 – tem em cada cidade os seus pregadores, que o lêem nas sinagogas todos os sábados”.  A mesma coisa é confirmada pelo historiador judeu Flá­vio Josefo.

O próprio Evangelho nos oferece um exemplo elo­qüente por parte de Jesus deste comentário homilético das Escrituras, na passagem da sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-30).  Na verdade, trata-se da primeira homilia cristã que se conserva num resumo escrito e na qual o próprio Jesus é o pregador e protagonista.  É um claro comentário ao texto de Isaías e uma clara aplicação do texto ao mo­mento presente, assim como à situação concreta dos que estão reunidos na sinagoga, incluindo o próprio Jesus (cf. v. 23s).  Mais ainda: o texto de Lucas deixa entre­ver que Jesus tinha o costume de ir à sinagoga no sábado e fazer a leitura (v. 16) e também de ensinar nas sina­gogas com louvor dos assistentes (v. 15).

Sabemos também por João 6,59 que Jesus pronun­ciou o discurso do pão de vida na sinagoga de Cafar­naum, provavelmente na festa de Páscoa (cf. Jo 6,4),festa que naquele ano Jesus passou na Galiléia já que não podia ir à Judéia (cf. 7,1).  Também em tal passa­gem há um longo comentário de diversos textos do Antigo Testamento sobre a páscoa e sua aplicação ao momento presente dos ouvintes (a presença de Jesus entre eles e a fé em sua palavra) e a situação conjuntural (a celebração da páscoa judaica que antecipa a páscoa cristã).

Temos outro exemplo eloqüente de outra homilia de Jesus, desta vez com os dois discípulos, na caminhada de Emaús (Lc 24,13-35).  Trata-se de uma homilia no sentido mais genuíno da palavra: “conversa familiar”.  Jesus, ao longo da rota que leva de Jerusalém a Emaús, vai interpretando o momento presente à luz dos textos escriturísticos.  Trata-se de uma verdadeira “liturgia verbi” que prepara os corações dos discípulos para a “liturgia sacramenti”, para o calor da celebração, para a profun­didade do encontro eucarístico com Jesus na casinha de Emaús.  Na verdade, as palavras de Jesus atualizam os textos bíblicos (cf. v. 27) e preparam os corações para a celebração eucarística (cf. v. 29 e 32).

A recitação, ou melhor, a proclamação da Bíblia e sua interpretação nas sinagogas, não pôde deixar de ter profundos vestígios entre os judeus-cristãos presentes às reuniões sinagogais. É preciso levar em consideração que os primeiros cristãos, antes de sua conversão e mesmo depois dela, estiveram em contato com o templo, e aos sábados com a sinagoga.

Recordemos também que alguns textos neotestamen­tários parecem ser textos homiléticos (p. ex. alguns frag­mentos da primeira carta de São Pedro).  Sabemos tam­bém que os apóstolos praticaram o comentário homilé­tico (p. ex. a famosa “conversa” de Paulo em Trôade dentro de uma reunião de caráter claramente litúrgico (At 20,7-12).

Entre os escritos cristãos pós-bíblicos, o primeiro testemunho que faz referência clara à homilia como parte da liturgia da Eucaristia encontra-se em Justino.  Assim diz em sua primeira Apologia (escrita pelo ano de 153) ao explicar a Missa:

«… E no dia chamado do sol, faz-se uma reunião num mesmo lugar de todos os que habitam nas cidades ou nos campos, e lêem-se os comentários dos apóstolos ou as escrituras dos profetas, na medida em que o tempo o permite.  Depois, quando o leitor acabou, quem preside exorta e incita pela palavra à imitação dessas coisas excelsas.  Depois nos levantamos todos ao mesmo tempo e recitamos orações” (n. 67)

Trata-se de uma homilia dominical (Justino fala do ‘dia chamado do sol’ e não do ‘dia do Senhor’ para ser compreendido pelos leitores gentios, a quem dirigia sua Apologia).  A homilia dessa reunião dominical situa­-se depois das leituras e antes da oração universal que precede a apresentação das oferendas para a Eucaristia.  Trata-se, pois, de uma homilia eucarística tal como se pratica em nossas igrejas hoje em dia.

São famosas as homilias dos Santos Padres (séc. II-VIII) que em grande parte nos foram transmitidas por escrito.  São o comentário vivo da Bíblia por parte da Igreja dos primeiros séculos.  São também um testemu­nho de que a liturgia nos conserva a melhor vivência da fé bíblica e a melhor “summa theologica” de todos os tempos.

Nos séculos posteriores, quando no Ocidente a ação litúrgica se torna arcana e clerical e deixa de ser uma ação inteligível para o povo, a homilia de feição patrís­tica ou escriturística desaparece, ao menos de modo geral, e já não figura nos livros litúrgicos. Entramos assim numa era de ausência de comentários homiléticos que serão de alguma forma subs­tituídos (mas não convenientemente supridos) pela pre­gação extralitúrgica .

As Rubricas gerais do Missal de São Pio V (1570) não falam da homilia: da proclamação do Evangelho passa-se ao Credo.  Contudo, o Rito que se deve observar na celebração da Missa supõe a possibilidade de que haja uma pregação depois do Evangelho (cf.  VI, 6).

Recordemos também que na administração da maio­ria dos sacramentos, dos séculos que nos precedem, não está prescrita nem prevista a leitura da Palavra de Deus nem, conseqüentemente, seu comentário homilético.  Po­demos ver um resto da homilia na catequese do Pontifi­cal Romano que o bispo dirige aos ordenandos.  Quando os sacramentos, sobretudo o matrimônio, são celebrados dentro da Missa, coisa freqüente nas últimas décadas que nos precedem, costumam comportar um comentário homilético.

Em alguns países, até não muito antes do Concílio Vaticano II, dar-se-á a estranha superposição de uma pregação ao longo da missa dominical, que se celebra em voz baixa e em latim.  Embora chocante para nós, não o era tanto no ambiente da época, se levarmos em conta que na missa se praticava todo gênero de devoções.  Na melhor das hipóteses, esta pregação desenvolvia o tema do evangelho.  Aqui está o que a este propósito prescre­veram as Rubricas de 1960, promulgadas por João XXIII:

“Depois do evangelho, sobretudo aos domingos e dias de festa de preceito, dirigir-se-á ao povo, segundo as circunstâncias, uma breve homilia.  Mas esta homilia, no caso de ser feita por um sacerdote que não o celebrante, não deve sobrepor-se à celebração da missa, impedindo a participação dos fiéis; também então a celebração deve ser interrompida e não deve voltar a continuar enquanto a homilia não tiver terminado”.

O Concílio Vaticano II encontra o terreno preparado para uma reabilitação da homilia, graças à renovação litúrgica das últimas décadas e, concretamente, graças ao documento que acabo de citar.  Insiste no fato de que a homilia deve partir do texto sagrado proclamado e esta­belece que a homilia é parte da própria liturgia.  Depois de assinalar a importância da Palavra de Deus (cf.  SC n.  24 e 51), diz no n. 52 da Sacrosanctum Concilium:

«Recomenda-se vivamente, como parte da própria Li­turgia, a homilia sobre o texto sagrado, em que, no de­curso do ano litúrgico, se expõem os mistérios da fé e as normas da vida cristã; não deve ser omitida sem grave causa nas missas dominicais e nas festas de pre­ceito, concorridas,pelo povo».

 

https://presbiteros.org.br/manual-de-homiletica/

 

 

A ESPIRITUALIDADE DO ADVENTO

 

A ESPIRITUALIDADE DO ADVENTO

 

1. Introduzindo

Quem quer refletir sobre a espiritualidade do advento, o que poderá fazer melhor do que indagar onde na liturgia do advento se manifesta a presença e ação do Espírito Santo? Se toda a liturgia se realiza “na força do Espírito Santo” (SC 6), o Espírito de Deus deve ter estado presente quando surgiu, na antiguidade da Igreja, o advento com sua liturgia e quando esta foi fixada por escrito, para que se celebrasse no espírito da Igreja. É verdade que também esta liturgia sofreu modificações, algumas importantes, ao longo da história e nas diversas partes do mundo; por último, pela reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Também com a renovada liturgia do advento queria-se voltar às fontes, à liturgia clássica do final da antiguidade cristã. Houve ainda no Brasil uma certa adaptação na vivência e celebração e com isso da espiritualidade do advento que se manifesta o mais claramente em novenas (populares) de natal que nem sempre derivam da liturgia do advento, nem a ela conduzem da melhor maneira possível. Não todas elas têm a qualidade daquela elaborada pela CNBB ou Ofício da novena do natal propostas por Irmã Penha e Marcelo Guimarães. Algumas destas novenas não são mais do que uma antecipação do natal.

Portanto, a espiritualidade autêntica do advento, devemos buscar em nossos livros litúrgicos, no missal, nos lecionários e na liturgia das horas.

2. O advento hoje em nossa liturgia

As Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, que encontramos entre as partes introdutórias do Missal Romano, dizem a respeito do advento o seguinte:

O tempo do advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o tempo do advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa (NALC 39).

Sendo assim, constatamos à primeira vista que o advento não é um tempo de penitência, e sim de alegra expectativa. A cor roxa dos paramentos litúrgicos não nos deve induzir a igualar o advento à quaresma. E é bom lembrar que o tom penitencial que o advento tinha nos séculos anteriores ao Concílio Vaticano II, foi tirado. Todas as orações foram revistas e purificadas de elementos penitenciais ou, quando necessário, modificadas, para receberem um tom de esperança em vista do encontro com o Senhor que vem.

A nova ordenação da liturgia do advento deu ao seu início uma orientação escatológica. Observamos isso, sobretudo, no 1º domingo do advento. Nos anos A, B e C os evangelhos deste domingo falam da parusia. Assim evita-se uma ruptura entre os últimos domingos do ano litúrgico, com seu cunho escatológico, e o novo ano da Igreja, que começa com o 1º domingo do advento.

No entanto, não ficamos no advento por muito tempo com a nossa atenção dirigida para a última vinda do Senhor. Meio logo passamos para o aspecto principal do advento, que é a preparação para a vinda do Filho de Deus na carne. A alegre espera do Messias fica nitidamente dominante e intensiva a partir do dia 17 de dezembro. Os dias 17 a 24 são, na realidade, exclusivamente dias de preparação para a festa do natal, a celebração do nascimento do Filho de Deus em Belém.

Embora esta acentuação diferente no início e no decorrer ulterior do advento seja clara, um certo dualismo permeia todo este tempo, porque, já no primeiro período a espera do natal se faz presente, assim como aparece a dimensão escatológica, na segunda parte do advento.

3. Os textos da liturgia eucarística do advento

Antes de começarmos a levantar elementos de teologia e espiritualidade dos textos da liturgia do advento, parece oportuno apresentar mais detalhadamente estes textos. Limitamo-nos aqui aos textos das missas do advento, porque a grande maioria dos leitores da Revista de Liturgia não reza e nem conhece os textos litúrgicos das horas, a não ser aqueles que constam no Ofício Divino das Comunidades.

Os domingos são caracterizados principalmente pelos evangelhos. No primeiro domingo do advento, como já foi mencionado, se lê todos os anos, um texto que fala do fim dos tempos. No segundo e terceiro domingo, se faz referência a João Batista. No quarto domingo proclamam-se acontecimentos que preparavam imediatamente o nascimento de Jesus: Os anúncios a José e Maria e a visita de Maria a Isabel. A primeira leitura é profética; na maioria das vezes de Isaías. A segunda leitura é apostólica e geralmente uma exortação à vigilância e a uma vida digna.

Nos dias da semana, até o dia 16, de dezembro, se faz, quase exclusivamente, uma leitura progressiva, embora descontínua, de passagens messiânicas do profeta Isaías. A estas leituras proféticas correspondem textos evangélicos que mostram o cumprimento das profecias. Elas são sempre, de algum modo, relacionadas à primeira vinda do Filho de Deus, mas elas anunciam também a última. Na segunda e terceira semana algumas perícopes evangélicas se referem a João Batista.

Na segunda parte do advento proclamam-se progressivamente textos dos evangelhos de Mateus e Lucas referentes à preparação imediata do natal, nas primeiras leituras, textos messiânicos correspondentes do Antigo Testamento, como por exemplo no dia 20 a profecia da jovem que conceberá e dará à luz um filho com o nome de Emanuel, e o evangelho da anunciação do nascimento de Jesus. No dia 22 lê-se do cântico dos cânticos a leitura do amado que salta pelas montanhas e de São Lucas o relato da visita de Maria a Isabel. Os prefácios têm como tema a dupla vinda de Cristo; a espera alegre do natal; Maria, a nova Eva; e Cristo, Senhor e juiz da história. Em determinados dias podemos rezar também outros prefácios, por exemplo, nas missas em que se proclamam a anunciação, o prefácio desta festa; ou quando se lê o evangelho da visita de Maria a Isabel, o segundo prefácio de Nossa Senhora que é inspirado no Magnificat.

De grande beleza e profundidade são muitas das orações do dia, especialmente as dos últimos dias antes do natal.

A omissão do Glória nas celebrações dominicais do advento não tem caráter penitencial, como na quaresma. O motivo disso é antes psicológico ou pedagógico: ele é omitido no advento para que seja novo na noite do natal.

4. A teologia da liturgia do advento

Antes de abordarmos a espiritualidade do advento, parece oportuno ver a teologia subjacente da liturgia destas semanas, da qual brota a espiritualidade. Nesta teologia podemos destacar a presença do Cristo e do Espírito Santo, e além disso, o cumprimento das promessas.

a) O advento, tempo de Cristo

Nas comunidades da Igreja na época dos apóstolos esperava-se com viva esperança a volta do Senhor Jesus na glória. Ela se expressava, sobretudo, pela aclamação maranatá, Vem, Senhor Jesus! Esta era, sobretudo por exemplo, a saudação final de Paulo ao terminar sua segunda carta aos Coríntios. Talvez a conhecemos melhor do final do livro do apocalipse e, com isso, de toda a bíblia: O Espírito e a esposa dizem ‘vem’ (…) Amém, vem, Senhor Jesus! (Ap 21,17). Lembramos também que nós mesmos aclamamos o Senhor assim em cada missa na oração eucarística, depois do relato da instituição. O advento todo, é, no fundo, um eco e em diferentes modulações, desta aclamação.

A espera do Messias, em Jesus de Nazaré, na preparação para comemorar a sua vinda na carne chega a seu cume nos dias que precedem imediatamente o natal. Aí ouvimos, como os nossos antepassados na fé, os patriarcas e profetas, particularmente Isaías, esperavam o Messias, Lembramo-nos especialmente do pequeno resto do povo de Israel que tinha a esperança certa do Messias, entre eles os mais próximos de Jesus: Zacarias e Isabel, João Batista, José e Maria. O advento resulta assim numa intensa celebração da longa espera do Messias na história da salvação, que nos ajuda a descobrir em quase cada página do Antigo Testamento, desde o livro do Gênesis, o mistério de Cristo. Assim aprendemos a ler a nossa história com os olhos iluminados pela fé e podemos nela descobrir a presença do Cristo que vem.

De fato, também na história atual, como já no Antigo Testamento e em todas as épocas, Cristo está presente e está para vir. Podemos neste momento lembrar o que os bispos latino-americanos disseram em Medellín:

Cristo ativamente presente em nossa história, antecipa seu gesto escatológico não só no desejo impaciente do homem para alcançar sua total redenção, mas também naquelas conquistas que, como sinais indicadores do futuro, o homem vai fazendo através da atividade realizada no amor (Introdução 5).

Se ouvimos e lemos as palavras dos profetas, de Isaías até João Batista, nas semanas do advento, dentro da nossa situação concreta, podemos também hoje descobrir a centralidade de Cristo na história atual, como ele era o centro da história do passado e o será no futuro, até que ele se manifeste em toda a sua glória como Senhor da história na parusia.

b) O advento, tempo do Espírito Santo

O verdadeiro precursor de Cristo é o Espírito Santo. Ele o foi em vista da primeira vinda do Filho de Deus e o é em vista da segunda e definitiva. Foi ele que falou pelos profetas (Credo niceno-constantinopolitano); ele inspirou os oráculos messiânicos; ele antecipou em Zacarias, Isabel, João Batista e Maria a alegria da vinda do Cristo. O primeiro capítulo do evangelho de Lucas parece ser uma antecipação de pentecostes, uma efusão da alegria messiânica sobre os últimos protagonistas do Antigo Testamento, especialmente nos cânticos evangélicos do Benedictus e do Magnificat, sem falar da concepção de Maria pelo Espírito Santo. Esta mesma presença e ação do Espírito continua sendo documentada, particularmente por Lucas, na atividade evangelizadora de Jesus e da Igreja dos apóstolos, em toda a Bíblia até em sua última página, onde João, o evangelista ouve a Igreja, guiada pelo Espírito, clamar: Vem, Senhor Jesus!

Como é importante que também hoje nos lembremos desta presença e ação do Espírito de Deus em nossa Igreja e no mundo, que se comunica, sobretudo, por meio daqueles que por ele se deixem guiar! Também em nossos dias ele pode abrir os corações para que acolham sua presença e ação e que se realize sempre mais entre nós o Reino de Deus!

c) O cumprimento das promessas

Nas leituras proclamadas durante o advento, sobretudo na missa, são-nos lembradas muitas promessas de Deus. As profecias messiânicas encontravam seu cumprimento em Cristo e assim se dão provas da fidelidade de Deus. A história se mostra como o desdobramento de um desígnio salvífico de Deus, que se revela precisamente nestas promessas que na plenitude do tempo convergiram em Jesus Cristo. Nele, e particularmente no natal, confluem a criação e as alianças, a lei e a sabedoria, a figura do servo e do Messias, a dimensão do sofrimento e das núpcias.

No advento aprendemos a confiar neste Deus das promessas, aprendemos que ele é fiel também hoje e sempre, como ele o foi no passado, conforme lemos na segunda carta a Timóteo: Fiel é esta palavra (que os eleitos obtenham a salvação em Cristo Jesus, com a glória eterna): Se com ele morremos, com ele viveremos, se com ele sofremos, com ele reinaremos; se nós o negarmos, ele nos renegará; se lhe somos fiéis, ele permanece fiel, pois não pode renegar-se a si mesmo (2Tm 2,11-13). Esta certeza de que Deus é fiel, é a base inabalável da alegria na confiante espera que vivemos e aprendemos no advento.

5. A espiritualidade do advento

A liturgia do advento contém uma autêntica espiritualidade litúrgica, centrada na vinda do Senhor e sua espera; a vinda do Senhor na carne e no fim dos tempos, assim como sua constante presença na Igreja que é prefigurada de modo particular em Maria, virgem, mãe da esperança.

a) O mistério de Cristo que vem

Palavras chaves do advento são espera e esperança, vigilância e acolhimento. Vigiar na espera de Cristo é uma atitude semelhante à da espera de um amigo ou de um noivo (por parte da noiva). João Batista descreveu tal espera alegre com as seguintes palavras: “Quem tem a esposa é o esposo, mas o amigo do esposo, que está presente e o ouve, é tomado de alegria à voz do esposo. Essa é minha alegria, e ela é completa” (Jo 3,29). Se a alegria do amigo do esposo já é tão grande, qual deve ser a nossa, a da Igreja, que é a esposa mesma?!

Teilhard de Chardin nos pode ajudar a compreender tal espera, com uma reflexão que encontramos no Epílogo do seu livro O Meio Divino:

Os israelitas eram uns eternos “expectantes”, e o mesmo eram os primeiros cristãos. De fato, o natal que deveria ter voltado para trás os nossos olhares, para concentrá-los sobre o passado, não fez outra coisa a não ser orientá-los para frente, para o futuro. Aparecido como por um instante no meio de nós, o Messias se deixou ver e tocar, somente para perder-se de novo, mais luminoso e inefável do que nunca, no abismo insondável do futuro. Ele veio, mas agora devemos esperá-lo mais do que nunca, e não apenas para um pequeno grupo de escolhidos, mas para todos. O Senhor Jesus só virá depressa se sabermos esperá-lo ardentemente. Há de ser um acúmulo de desejos, que faça eclodir o seu retorno.

b) Advento tempo da Igreja missionária e peregrina

A espera e a esperança que a liturgia do advento nos inspira não nos deixam tranqüilos e sossegados no mundo e na história em que vivemos. Ela nos inquieta, porque tem dentro de si um dinamismo que mexe conosco e nos impulsiona.

A proclamação das profecias e do seu comprimento nos pode levar a ver a nossa situação atual como se o Messias ainda não tivesse vindo. E tal visão não é errada porque, Ele veio, mas também há ainda há de vir. Assim o advento é um tempo de real espera da vinda do Senhor para nós. Podemos rezar com os justos do Antigo Testamento e esperar o cumprimento das profecias.

Pois o Senhor, de fato, deve ainda vir para nós e para o mundo, mas não apenas no fim dos tempos, e sim a cada momento de nossa vida e da nossa história, sobretudo para a Igreja: nossas comunidades e paróquias, nossas dioceses e a Igreja inteira.

Devemos pedir esta vinda na oração. Jesus mesmo nos ensinou a rezar: Pai nosso, venha o teu Reino! Mas ele não apenas nos mandou rezar. Ele nos enviou como ele mesmo foi enviado pelo Pai, para que o amor do Pai fosse conhecido e vivido.

O advento nos ajuda a renovar nosso fervor missionário de anunciadores do reino messiânico ao mundo inteiro, reino de amor, de justiça e de paz, do qual o natal se mostra como primícia e uma garantia preciosíssima. A espiritualidade do advento é uma espiritualidade comprometida, que nos leva a ser uma Igreja para o mundo e para toda a humanidade fonte de esperança e alegria.

c) O advento, tempo de Maria, da virgem da esperança

Para este último aspecto da espiritualidade do advento, provavelmente não se pode dizer algo menos pertinente do que aquilo que o Papa Paulo VI escreveu em sua carta apostólica sobre o culto à Virgem Maria, a respeito de Maria no advento. Primeiro ele lembra a solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Esta festa não pertence propriamente ao ciclo litúrgico do advento, mas, como diz o Papa, insere-se, harmonicamente, neste tempo, porque nela celebramos a preparação radical para a vinda do Salvador e para o feliz exórdio da Igreja sem mancha e sem ruga (cf. n. 3). Mais adiante o Papa escreve: Como figura e imagem da Igreja, Maria é plenamente a Virgem do advento. Pelo seu “sim” transformou a espera do Messias em presença, a promessa em dom. Assim, Maria pode ser o melhor exemplo para nós numa Igreja que quer viver a presença de Cristo no mundo de hoje (cf. n. 4).

Concluindo

Parece que podemos bem concluir esta nossa reflexão com duas observações de cunho mais pastoral.

1) Vimos como na história do povo da antiga aliança a espera do Messias foi uma dimensão dominante. O mesmo se pode dizer da história do novo povo de Deus. E esta espera sempre foi esperança. Esperança verdadeira, no entanto tem um fundamento. Tal fundamento se deixa perceber em sinais que dizem e até garantem que a espera não será em vão.

Não existem tais sinais também hoje, também em nossa sociedade de consumo que começa a celebrar o natal já nas semanas anteriores ao advento, sobretudo nas áreas do comércio? As luzes que iluminam as lojas e as ruas, não são elas ainda algum reflexo da luz da noite de Belém? A árvore de natal por mais artificial, que seja, não pode lembrar a árvore da vida? Os presentes que damos e recebemos, não pode ser um prolongamento do grande presente de Deus, no natal, que é seu próprio Filho? E a ceia de natal, mesmo de pessoas e famílias que não participam da ceia eucarística, não pode ser, de algum modo, sinal do grande banquete escatológico que já o profeta Isaías anuncia? Talvez tais sinais que existem, podem ser um trampolim, a partir do qual pelo menos um ou outro se deixam levar para mais perto ou para dentro do mistério do natal.

2) No entanto, geralmente não devemos apoiar costumes e mentalidade, frequentes também dentro de nossas comunidades, de pular por cima do advento e logo antecipar a celebração do natal.

A espera e a esperança do advento são tão grandes e importantes que não devemos perdê-las. Devemos nos dar um tempo e ajudar também nossos fiéis, para que possam abrir-se os corações, precisamente no advento, para o Senhor que vem. Se ele vier sem encontrar os corações abertos, ele não pode entrar. A liturgia do advento oferece a melhor ajuda para que aconteça esta abertura. Devemos também valorizar os símbolos que nos falam da vinda do Senhor, como por exemplo a coroa do advento, que nos mostra a aproximação e o brilho, cada semana mais forte, da luz que está vindo ao mundo. A árvore do natal e o presépio devem nos lembrar somente no natal e nas semanas do tempo do natal que o Salvador, a luz do mundo, nasceu. Nem as novenas chamadas “do natal” que, no entanto, querem preparar para a festa do nascimento do Filho de Deus entre nós, devem antecipar o natal, mas devem ajudar a preparar os corações das pessoas e das comunidades para o natal.

Advento quer dizer que o Senhor vem. Mas ele chega somente à medida em que o esperamos e nos abrimos para ele.

Pe. Gregório Lutz (CSSp).

Doutor em Liturgia.
Membro fundador do Centro de Liturgia. São Paulo, SP

 

http://centrodeliturgia.com.br/a-espiritualidade-do-advento/

 

 

 

 

 

FORMAÇÃO O que os santos dizem sobre o Tempo do Advento?

 

FORMAÇÃO

O que os santos dizem sobre o Tempo do Advento?

Para conhecer melhor o Advento, vamos conferir o que São Cirilo de Jerusalém, São João Paulo II e Santo Agostinho nos ensinam.

Na Igreja Católica, o início do Tempo do Advento marco o começo de um novo ano litúrgico. E esse período é especial para os cristãos no mundo inteiro, pois é quando eles podem renovar a esperança no Senhor que vem. Ao longo da história, muitos homens e mulheres foram impactados pela graça própria desse período. Para conhecer melhor o Advento, vamos conferir o que São Cirilo de Jerusalém, São João Paulo II e Santo Agostinho nos ensinam.

A vinda do menino e do rei Jesus

São Cirilo de Jerusalém fala que o Advento é um tempo que exala a vinda de Jesus, do pequeno menino e também do rei revestido de glória. “Ele virá, portanto, do alto dos Céus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Virá no fim deste mundo, em sua glória, no último dia. Será então o fim deste mundo criado e o início de um mundo novo”. Por isso, somos chamados a anunciar Cristo com ainda mais intrepidez nesse período.

“Anunciamos o advento de Cristo. Não, porém, um só, mas também o segundo, muito mais glorioso que o primeiro. Aquele revestiu um aspecto de sofrimento; este trará consigo o diadema do reino divino”, diz São Cirilo.

Ele ainda continua: “não nos detemos, portanto, a meditar só no primeiro advento, mas vivemos na esperança do segundo. Assim como aclamamos no primeiro: Bendito o que vem em nome do Senhor, exclamaremos também no segundo”.

A esperança própria do Natal

Já São João Paulo II nos fala sobre a beleza e o mistério do Natal. “O mistério do Natal, que daqui a poucos dias reviveremos, garante-nos que Deus é o Emanuel Deus conosco. Por isso nunca nos devemos sentir sozinhos”.

Ele ainda acrescenta que Jesus partilhou a nossa peregrinação na terra, garantindo-nos a consecução daquela alegria e daquela paz, que desejamos do fundo do nosso ser.

“O sentido da esperança cristã, reproposta pelo Advento, é o da expectativa confiante, da disponibilidade laboriosa e da abertura jubilosa ao encontro com o Senhor. Em Belém Ele veio para permanecer conosco para sempre”, ressalta São João Paulo II.

E não para por aí, pois ele ainda nos ensina que “o Advento mantém viva a expectativa de Cristo, que nos virá visitar com a sua salvação, realizando plenamente o seu Reino de justiça e de paz”.

Por isso, a recordação anual do nascimento do Messias em Belém renova no coração dos crentes a certeza de que Deus é fiel às suas promessas.

Vigiar é preciso no Tempo do Advento

Por fim, Santo Agostinho deixa um aviso importante: “o dia final surpreenderá mal preparado a quem o último dia de sua vida tiver encontrado despreparado”. Portanto, Agostinho adverte: “todo cristão há de manter-se vigilante, para que a vinda do Senhor não o surpreenda mal preparado”.

https://comshalom.org/o-que-os-santos-dizem-sobre-o-tempo-do-advento/

 

 

 

 


"VÍRUS OU DROGA? DESCOBERTO 'DOOMSCROLLING': O MONSTRO DO LAGO NESS" (Parte I)

 

"VÍRUS OU DROGA?  DESCOBERTO 'DOOMSCROLLING':

 O MONSTRO DO LAGO NESS" (Parte I)

Por Lindolivo Soares Moura(*)

   "Somos o que pensamos.  Tudo  que somos surge com nossos pensamentos.  Com  nossos  pensamentos  fazemos  o  nosso mundo" (Buda).

 

Responda rápido, sem refletir e sem racionalizar: de acordo com sua própria experiência, qual a melhor forma de melhorar o padrão de vida? Respondeu? Ok. Agora reveja tanto a pergunta como a resposta e certifique-se de que você interpretou da melhor maneira a primeira e se gostaria ou não de alterar parcial ou totalmente a segunda. Pronto? Tudo bem? Agora preste bem atenção na resposta dada pelo famoso jogador de futebol americano Uell Stanley Andersen, quando confrontado por uma repórter que lhe fez essa mesma pergunta: "a melhor forma de melhorar o padrão de vida - respondeu Andersen - é melhorar o padrão de pensamentos". Alguma semelhança entre ambas as respostas, a sua e a dele? Se você respondeu "sim", com certeza as ações de sua autoestima e de sua qualidade de vida estão em alta na Bolsa de Valores. Nada de pensar em se desfazer delas nesse momento. Se sua resposta foi "não", ou quem sabe um discreto "mais ou menos", acalme-se e relaxe! Nem tudo está perdido. Nada que uma corajosa e decidida alteração em seu "projeto" de vida, tal como recomendam os psicólogos, e/ou uma boa mudança em sua "filosofia" de vida, como sugerem os orientadores filosóficos, não possam ajudar a resolver.

Não há dúvida de que para que isso aconteça certas condições sejam necessárias. Há porém uma mudança que pode ser considerada tão imprescindível - "conditio sine qua non", como se  diz em latim - que sem ela qualquer tipo de esforço poderia resultar em vão. Tal mudança ou condição consiste justamente em abandonar o "piloto automático" que vem dirigindo sua vida - "deixa a vida me levar, vida leva eu..." - e de forma reflexiva e consciente assumir você mesmo a direção. Parece fácil mas não é! O hábito e a rotina sujam os olhos, subjugam nossos sentidos, e por bem pouco não submetem também nossa razão. Se pararmos para observar melhor, com cuidado e atenção, veremos que ao longo de nossa existência vamos pouco a pouco entregando a uns e outros,  aqui e ali, o leme e a direção de nosso barco, sem perceber que na maioria das vezes estamos colocando raposas para cuidar de nosso galinheiro, aves de rapina para administrar nossos celeiros, e alimentando todo tipo de urubus, corvos e gaviões, verdadeiros lobos em peles de cordeiros. Chamo a isso de turvamento ou perturbação da razão, cuja maior causa consiste em nossa preguiça ou desleixo em exercer essa tomada de consciência e de decisão. Gostaria de exemplificar melhor esse fenômeno com um exemplo prático da nossa contemporaneidade, para só então podermos entrar mais diretamente no tema que encabeça a presente reflexão.

Os tempos modernos  nos têm inegavelmente brindado com maravivilhas e grandezas "nunca d'antes vistas ou experimentadas", como diria Camões. Mas é igualmente inegável que eles nos têm trazido também certas surpresas que são verdadeiros enigmas e desafios aos olhos do bom senso e da razão. Refiro-me a um fenômeno específico em particular: trata-se da ascensão meteórica de certo número de  "influenciadores digitais", como assim são chamados, saídos do nada e do anonimato, com perdão da expressão, capazes de arregimentar da noite para o dia não apenas dezenas e centenas mas milhares e até milhões de seguidores, à forma de verdadeiros "rebanhos sem pastores". Tal prodígio carece ainda sem dúvida de melhores explicações, tanto por parte da Sociologia quanto da Psicologia, se é que sozinhas essas duas ciências conseguirão cumprir tal missão. Deixemos por enquanto de lado a questão relacionada à ascensão meteórica dos influenciadores, para que possamos nos focar melhor naquela, correlata, relacionada ao número e à escassez  - ou será "nenhuma"? - de consciência reflexiva de seus seguidores. Antes porém, um parágrafo que esperamos possa nos orientar melhor como chave de leitura, análise e interpretação.

De acordo com a chamada "Programação Neurolinguística" nosso cérebro "aprende" por repetição e prática, e se nele inserirmos uma informação ou repetirmos uma afirmação por certo tempo, ele as registrará como um "aprendizado", independentemente da veracidade ou não do que foi registrado. Da mesma forma, cada informação ou afirmação vão  passo a passo e pouco a pouco literalmente "programando" nossa mente inconsciente, mente esta que não consegue distinguir ou diferenciar uma experiência real de outra meramente imaginária. Por fim a Neurolinguística afirma que nosso cérebro é também um "servo fiel", e que tudo que lhe pedirmos com certeza ele no-lo concederá, ainda que para isso tenha que arquitetar uma solução qualquer. Karim Khoury exemplifica: "se lhe fizermos uma pergunta terrível, com certeza obteremos uma resposta terrível. Se lhe perguntarmos: 'por que jamais consigo ser uma pessoa de sucesso?',  ele nos responderá, mesmo que para isso tenha que inventar uma explicação: 'porque você é estúpido!', ou, 'porque você não merece!', e outras alternativas de solução. Ou seja, nosso cérebro e nossa mente reagem ou respondem na exata medida "em que" e "com o quê"  são "alimentados". Registre bem essas afirmações da Programação Neurolinguística, porque como foi dito elas servirão como nossa chave de leitura, análise e interpretação para as considerações que faremos a seguir. Abordaremos o fenômeno recente e altamente "contagioso" - uma nova Pandemia, seria? - que as pesquisas estão denominando "doomscrolling", ainda sem equivalente em português, e que em tradução livre seria mais ou menos algo equivalente a "rolar a tela compulsiva e obsessivamente -  uma espécie de vício e dependência - à caça de noticias ruins, negativas, tristes e pessimistas", geradoras de estresse, ansiedade e depressão.

Talvez você mesmo, ou quem sabe seus filhos ou netos, tenham já passado algumas horas diante de um computador ou videogame "se divertindo" com um dos jogos da chamada "série Doom", lançada há quase três décadas e atualizada de tempos em tempos com novos jogos, que pouco ou nada têm de saudável diversão. Em inglês o termo "doom" significa "ruína", perdição, e as ações da série se desenvolvem num universo distópico e apocalíptico em que o personagem principal, a ser assumido ou "encarnado" pelo jogador que tem o controle e o comando do jogo nas mãos (por isso ele é denominado "jogo de tiro em primeira pessoa") tem a missão de combater e exterminar demônios, mortos vivos, monstros e outras forças do mal, em defesa  da própria vida e em última instância da sobrevivência da humanidade. O termo distopia, em oposição a utopia, diz respeito a um tipo de sociedade imaginária em que tudo está "(des)organizado" e disposto de forma catastrófica, opressiva, assustadora, totalitária e ameaçadora. O sucesso foi tamanho que a série tem produzido várias sequências, bem como criado adaptações para romances, filmes, histórias em quadrinhos e outras modalidades do chamado mundo do entretenimento.

À parte a exatidão do tempo e a autoria da criação dos termos "doomscrolling" e "doomsurfing", parece consenso que o primeiro deles tenha sido "doomsurfing", algo como surfar ou navegar pelas telas do computador em busca de notícias ruins, negativas e prejudiciais - não para quem "navega" ou "surfa", naturalmente - surgindo posteriormente seu irmão gêmeo, "doomscrolling", com o sentido de rolar a tela - agora do celular - à caça do mesmo tipo de conteúdo ou informação. Em sua origem é provável que ambos os termos tenham sofrido influência direta ou ao menos indireta de "Doom", a mencionada série, em que o termo pode significar tanto ruína, perdição e danação, como extermínio, morte e destruição. Mas foi sobretudo a partir da Pandemia do Covid 19 que os termos recém-criados, notadamente "Doomscrolling", passaram a ser mais largamente utilizados tanto por certos meios de comunicação como também por algumas Universidades em suas pesquisas, conclusões e orientações.

De início o uso dos termos serviu para indicar o longo tempo que as pessoas, em sua grande maioria  confinadas ao estrito campo de seu ambiente domiciliar, passavam diante da tela aflitas e angustiadas com a Pandemia e com as notícias que se mostravam cada vez mais alarmantes e preocupantes. Preocupações que eram acompanhadas de receios e temores não só com o que ocorria ao redor do mundo, a nível de sociedades e nações, mas também com o que poderia suceder consigo mesmas, familiares, parentes e amigos mais próximos. Pouco a pouco, porém, sobretudo a partir do momento em que a pandemia parecia caminhar sob controle, "doomscrolling" e seu equivalente "doomsurfing" passaram a ser usados para se referir ao vício ou dependência  em todo e qualquer tipo de notícias negativas e nocivas, capazes de provocar danos e prejuízos não só mentais mas também físicos e emocionais, como tristeza, desânimo, pessimismo, negativismo, ansiedade e depressão. O que antes era sem dúvida saudável e recomendável, ou seja, o tempo criterioso e moderado dispendido em atenção e cuidado para com as informações e as orientações transmitidas pelas autoridades sanitárias através dos mais variados meios de comunicação, passou a ser uma tendência inconsciente, obsessiva, descontrolada e compulsiva por parte de um número cada vez maior de pessoas e grupos, não mais apenas por notícias e informações preocupantes e inquietantes, relacionadas à Pandemia, mas por todo e qualquer tipo de conteúdos e assuntos "atraentes e sedutores", ainda que eivados e contaminados por um outro tipo de vírus não menos perigoso e letal, que portava consigo pessimismo e negativismo. Note-se que negativismo e negacionismo são termos parecidos mas completamente diferentes no que tange ao conteúdo que portam consigo. Enquanto o primeiro designa desânimo e pessimismo, o segundo sugere imprudência, insensatez e descompromisso.

Não se deve em hipótese alguma concluir que por ter se expandido em tempos pandêmicos, em que os diversos meios de comunicação se tornaram fartos em notícias e comentários sobre perdas de vida, casos e internações, o vício e a dependência em conteúdos negativos e prejudiciais se restrinjam tão somente a esse estrito e específico campo de atuação, como já mencionado. O curioso do "Doomscrolling" - buscando evitar a redundância faremos uso apenas desse termo e não mais de seu irmão gêmeo, o "doomsurfing" - é que o vício e a dependência por esse tipo de conteúdo se alastrou por diversas outras áreas do convívio humano. Um exemplo disso é o que veio e vem ainda ocorrendo em nossos país, no tocante à política e à polarização em que ela nos meteu. Pouco importa saber, para efeito do que aqui nos interessa, que caminhos e descaminhos acabaram nos "conduzindo" ao extremismo e à radicalização. O certo é que a polarização partidária foi levada a um limite tal, que os grupos que dela surgiram e com ela se expandiram comportaram e continuam ainda se comportando avessos a qualquer tipo de diálogo, refratários a qualquer forma de entendimento e menos ainda de cooperação. Note-se que em si mesma a polarização não é um mal. Há países inclusive -  como nos Estados Unidos da América, por exemplo - em que o bipartidarismo, como forma clássica e tradicional de estruturação e composição partidária, acaba por desembocar inevitavelmente num certo tipo e grau de polarização. Esta porém só é de fato prejudicial e danosa quando se transforma em extremismo e radicalismo, e funciona à semelhança de duas ideologias arbitrárias ou autoritárias que ignoram a lei e fazem vistas grossas das "regras do jogo", e tentam se impor pela força, pela arbitrariedade e pela opressão. Quando isso ocorre, ignora-se entre outras coisas a vontade da maioria e se busca impor a todo custo e qualquer preço os interesses de uma minoria. O que isso tem a ver com "doomscrolling"? É o que buscaremos saber em seguida, buscando identificar essa área de tangência e esse eixo de conexão.

 

Obs.: esta primeira parte se complementa e se conclui com a parte II de mesmo título.

 

  (*) Texto enviado de Vitória(ES) por whatsapp.                        

 

SUGESTÃO DE LEITURA

 

SUGESTÃO DE LEITURA

01-         O Natal do carteiro  – 23 novembro 2010

Edição Português  por Allan Ahlberg  (Autor), 2 mais

Quando chega a época de Natal, o Papai Noel não é o único a arrancar os cabelos abarrotado de tantas tarefas. O Carteiro também trabalha em dobro para entregar todos os bons votos e desejos de felicidade - e alguns presentes também. Pois neste livro ele visita alguns personagens de contos de fadas tradicionais para lhes entregar a correspondência natalina - os ursinhos recebem um postal da Cachinhos Dourados; a Chapeuzinho Vermelho ganha do Lobo Mau uma carta com um jogo de tabuleiro; ao Humpty Dumpty chega um cartão com um quebra-cabeça enviado pelos Cavaleiros do Rei; o Homem Biscoito é presenteado com um almanaque e um livrinho de sabedorias; e até o Lobo Mau, mais um que adora o Natal, foi visitado pelo nosso amigo. Mas a grande tarefa do Carteiro nessa época do ano - como ninguém parou para pensar nisso? - é auxiliar a própria família Noel, fazendo chegar à sua fábrica os milhares de pedidos das crianças. Assim, ele também passa por lá, para deixar as suas cartas, e de quebra ainda ganhar um presente, que carteiro também merece. Ao acompanhar a história do Carteiro, as crianças encontram os envelopes recheados de cartas, cartões e presentinhos - como jogos e livros - e aprendem a manter uma tradição milenar que, mesmo com o avanço dos contatos via telefone e principalmente da correspondência eletrônica, nunca perderá a sua função.

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02-         Natal escondido– 17 novembro 2017

Edição Português  por Timothy Keller  (Autor)

Um presente perfeito para o natal mesmo quem não é cristão acredita estar bem familiarizado com a história do natal. As versões natalinas do bebê jesus deitado em uma manjedoura ornamentam prédios, lojas, shoppings, fachadas e jardins e entornos de igrejas, e melodias sobre pastores e anjos se fazem soar por toda parte. Mas, mesmo com a abundância dessas referências cristãs na cultura popular, quantos de nós pararam para de fato examinar com atenção as partes mais difíceis dessa história bíblica? em o natal escondido, keller conduz o leitor por uma viagem iluminadora rumo ao surpreendente cenário da natividade. Ao compreender a mensagem de esperança e de salvação encravada no relato bíblico do nascimento de Jesus, o leitor vai experimentar o poder redentor da graça de deus de maneira mais profunda e significativa.

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sábado, 19 de novembro de 2022

SB SABENDO BEM BEM VINDO!



 

SEJA BEM-VINDO!

 

 

 

DIA DO LEIGO E DA LEIGA

 

 ABERTURA DO ANO VOCACIONAL DO BRASIL

Tema: “Vocação: Graça e Missão” Lema: “Corações ardentes, pés a caminho” (cf. Lc 24, 32-33)

 

ABERTURA DA CAMPANHA PARA A EVANGELIZAÇÃO

 

JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO, SENHOR DA PAZ E DA UNIDADE- 34ª DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

DOMINGO, 20 DE NOVEMBRO  DE 2022