sexta-feira, 6 de março de 2026

09-A mulher na voz da Igreja

 

09-A mulher na voz da Igreja

Diante das alarmantes estatísticas de feminicídio e outras violências contra as mulheres no Brasil, é importante ecoar sempre mais as vozes que buscam superar essa vergonhosa realidade. De modo especial no contexto do Dia Internacional da Mulher, a Igreja Católica amplia a sua própria voz para exaltar a beleza da dignidade de cada mulher, investindo sempre mais para que a sociedade não tolere as agressões cotidianamente registradas: a singularidade das mulheres, de sua missão na sociedade, não pode ser atingida por violências e extermínios. As vidas e as dignidades feridas vitimam as mulheres e toda a sociedade, pois as mulheres guardam dons capazes de ajudar o mundo a sair da decadência. No cristianismo, a mulher tem um estatuto especial de dignidade: é destinada a fazer parte de sua estrutura viva e transformadora. As possibilidades de conquista de um novo tempo, oferecidas pela singularidade feminina, ainda precisam ser adequadamente reconhecidas, para que haja sempre mais respeito às mulheres e seja possível construir nova realidade.

Nesse contexto contaminado por atos de violência e desrespeito às mulheres, ignora-se a fundamental contribuição feminina para a família, instituições variadas e toda a sociedade. Pela voz do apóstolo Paulo, escrevendo aos Gálatas, é preciso, pois, escutar a voz da Igreja, que proclama: “Ao chegar à plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho, nascido de uma mulher”. A mulher encontra-se, pois no coração do evento salvífico. Homem e mulher alicerçam-se na mesma pedra angular. Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso, a vocação dialogal é constitutiva da condição de cada homem e mulher, possibilitando a ambos alcançar crescimento e bem exercer a missão de reger o mundo. Qualquer comprometimento dessa dimensão dialogal entre homem e mulher gera perdas irreparáveis, configurando preconceitos, discriminações e exclusões autoritárias, segregacionistas.

Na antropologia bíblica, a mulher é essencial também na constituição da identidade de cada homem. Homem e mulher são, pois, igualmente dignos, imagem e semelhança de Deus, ao mesmo tempo que expressam uma unidade na comunidade humana, sinal de comunhão interpessoal. Na unidade dos dois, ensina a Igreja, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir um ao lado do outro, ou juntos, mas também a existir reciprocamente um para o outro. Em razão do pecado, veio a perturbação da relação original entre o homem e a mulher, desvirtuando a grandeza e a importância de cada um. O pecado que contamina a humanidade configura uma ruptura e uma constante ameaça à unidade entre os dois. Não se pode, pois, admitir relação de domínio entre homem e mulher, por comprometer a estabilidade da igualdade fundamental. Ferir essa igualdade é banir a mulher da sociedade.

Atenção seja dada quando, na atualidade, são realizadas deliberações sobre os direitos da mulher, no amplo contexto dos direitos humanos. Trata-se de horizonte que não pode permitir relativizações, para não agravar ainda mais os cenários de violência que ameaçam as mulheres, objetificando-as para consumo, manipulando-as. Há, pois, de se considerar sempre e melhor a feminilidade, a sua grandeza, reconhecendo a sua essencialidade para o bem de toda civilização. Nesse sentido, a sociedade deve investir em caminhos para que a mulher seja cada vez mais protagonista, buscando vencer o machismo. Assim, equilibrar a relação entre homens e mulheres no contexto social, para adequadamente articular singularidades, curar patologias que produzem violências.

O respeito à dignidade da mulher cria a oportunidade para uma nova ordem alicerçada no amor. Trata-se de uma urgência, considerados os muitos descompassos da contemporaneidade. A ordem do amor tem na mulher um especial protagonismo, indispensável nas reconstruções civilizatórias. A mulher, portanto, desempenha um papel singular que não pode ser destruído, violentado ou tratado com indiferença. A feminilidade tem competências singulares na prática e no ensinamento do amor. Essas competências se expressam em diferentes contextos culturais, pelas singularidades biológicas, espirituais e psíquicas de cada mulher. A Igreja ensina que a dignidade da mulher está intimamente ligada ao amor: ao amor que ela recebe por sua feminilidade e ao amor que ela doa. As mulheres são paradigma para sustentar a grande força que gera equilíbrio na humanidade. Ecoem as vozes que buscam construir novos tempos a partir da superação de violências que as ameaçam. A sociedade possa avançar sempre no respeito à mulher, caminho para experimentar o amor e aprender a amar.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

https://cnbbleste2.org/2026/03/a-mulher-na-voz-da-igreja/

DIA INTERNACIONAL DA MULHER: A VOZ DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A PRESENÇA FEMININA

 

No Dia Internacional da Mulher, celebramos não apenas as conquistas e a força feminina, mas também refletimos sobre o papel da mulher na sociedade e na Igreja. Ao longo da história, a Igreja Católica tem se manifestado sobre a dignidade, a vocação e a importância das mulheres em diversos documentos oficiais. Confira abaixo um resumo de alguns desses importantes textos, que iluminam a missão feminina sob a luz da fé cristã.

1.    Gaudium et Spes (1965) – A Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II traz uma visão abrangente sobre o papel da mulher na sociedade moderna. O documento destaca a igualdade de dignidade entre homens e mulheres e reforça os direitos femininos, promovendo o respeito e a valorização das mulheres em todos os âmbitos.

2.    Inter Mulieres Claras (1970) – Na Carta Apostólica do Papa Paulo VI, Santa Teresa de Ávila foi proclamada Doutora da Igreja. Este reconhecimento reafirma o valor da contribuição intelectual e espiritual das mulheres na teologia e na vida da Igreja.

3.    Mulieris Dignitatem (1988) – Carta Apostólica do Papa João Paulo II sobre a dignidade e a vocação da mulher. O documento destaca o “gênio feminino”, ressaltando o valor insubstituível das mulheres na família, na Igreja e na sociedade. João Paulo II reflete sobre o papel da mulher na história da salvação, inspirando-se especialmente em Maria, mãe de Jesus.

4.    Christifideles Laici (1988) – Este documento de João Paulo II fala sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, sublinhando a relevância da contribuição feminina. O Papa encoraja as mulheres a atuarem ativamente na evangelização e no serviço à comunidade.

5.    Carta às Mulheres (1995) – Também escrita pelo Papa João Paulo II, esta carta expressa gratidão e reconhecimento pelo papel das mulheres em todos os campos da vida humana. O Papa agradece às mães, esposas, filhas, irmãs, trabalhadoras, consagradas e mulheres de todas as vocações, exaltando seu valor e contribuição.

6.    Verbum Domini (2010) – Na Exortação Apostólica do Papa Bento XVI, é destacada a importância das mulheres no anúncio da Palavra de Deus e na transmissão da fé. O Papa Bento XVI valoriza o papel das mulheres na evangelização e no testemunho cristão, especialmente como catequistas e educadoras da fé.

7.    Evangelii Gaudium (2013) – Na Exortação Apostólica do Papa Francisco, é reforçada a importância da presença feminina na vida eclesial. O Papa destaca a necessidade de uma maior participação das mulheres em posições de liderança e responsabilidade na Igreja, respeitando a sua dignidade e carismas.

8.    Querida Amazonia (2020) – Nesta Exortação Apostólica Pós-Sinodal, o Papa Francisco destaca o papel essencial das mulheres na região amazônica e na Igreja. Ele enfatiza a necessidade de ampliar os espaços para uma participação feminina mais incisiva na Igreja, especialmente em áreas de liderança e decisão pastoral.

9.    Praedicate Evangelium (2022) – A Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, promulgada pelo Papa Francisco, permite que leigos, incluindo mulheres, possam ocupar cargos de governo e chefia na Cúria. Essa mudança reforça a importância da colaboração feminina em posições de destaque na estrutura da Igreja.

Neste Dia Internacional da Mulher, ao celebrarmos as muitas conquistas das mulheres, também recordamos o reconhecimento da Igreja Católica à importância feminina. Que o exemplo de Maria e das santas mulheres, somado à reflexão desses documentos, nos inspire a promover uma sociedade mais justa, inclusiva e cheia de amor.

Parabéns a todas as mulheres! Que Deus abençoe e fortaleça cada uma de vocês!

Referências Bibliográficas

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes: Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual. 1965.

PAULO VI. Inter Mulieres Claras: Carta Apostólica. 1970.

JOÃO PAULO II. Mulieris Dignitatem: Carta Apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher. 1988.

JOÃO PAULO II. Christifideles Laici: Exortação Apostólica sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. 1988.

JOÃO PAULO II. Carta às Mulheres. 1995.

BENTO XVI. Verbum Domini: Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. 2010.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 2013.

FRANCISCO. Querida Amazonia: Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Amazônia. 2020.

FRANCISCO. Praedicate Evangelium: Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana. 2022.

https://piasdiscipulas.org.br/dia-internacional-da-mulher-a-voz-da-igreja-catolica-sobre-a-presenca-feminina/

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