09-A mulher
na voz da Igreja
Diante das alarmantes estatísticas de feminicídio e outras violências
contra as mulheres no Brasil, é importante ecoar sempre mais as vozes que
buscam superar essa vergonhosa realidade. De modo especial no contexto do Dia
Internacional da Mulher, a Igreja Católica amplia a sua própria voz para
exaltar a beleza da dignidade de cada mulher, investindo sempre mais para que a
sociedade não tolere as agressões cotidianamente registradas: a singularidade
das mulheres, de sua missão na sociedade, não pode ser atingida por violências
e extermínios. As vidas e as dignidades feridas vitimam as mulheres e toda a
sociedade, pois as mulheres guardam dons capazes de ajudar o mundo a sair da
decadência. No cristianismo, a mulher tem um estatuto especial de dignidade: é
destinada a fazer parte de sua estrutura viva e transformadora. As
possibilidades de conquista de um novo tempo, oferecidas pela singularidade
feminina, ainda precisam ser adequadamente reconhecidas, para que haja sempre
mais respeito às mulheres e seja possível construir nova realidade.
Nesse contexto contaminado por atos de violência e desrespeito às
mulheres, ignora-se a fundamental contribuição feminina para a família,
instituições variadas e toda a sociedade. Pela voz do apóstolo Paulo,
escrevendo aos Gálatas, é preciso, pois, escutar a voz da Igreja, que proclama:
“Ao chegar à plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho, nascido de uma
mulher”. A mulher encontra-se, pois no coração do evento salvífico. Homem e
mulher alicerçam-se na mesma pedra angular. Homem e mulher foram criados à
imagem e semelhança de Deus. Por isso, a vocação dialogal é constitutiva da
condição de cada homem e mulher, possibilitando a ambos alcançar crescimento e
bem exercer a missão de reger o mundo. Qualquer comprometimento dessa dimensão
dialogal entre homem e mulher gera perdas irreparáveis, configurando
preconceitos, discriminações e exclusões autoritárias, segregacionistas.
Na antropologia bíblica, a mulher é essencial também na constituição da
identidade de cada homem. Homem e mulher são, pois, igualmente dignos, imagem e
semelhança de Deus, ao mesmo tempo que expressam uma unidade na comunidade
humana, sinal de comunhão interpessoal. Na unidade dos dois, ensina a Igreja, o
homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir um ao lado do
outro, ou juntos, mas também a existir reciprocamente um para o outro. Em razão
do pecado, veio a perturbação da relação original entre o homem e a mulher,
desvirtuando a grandeza e a importância de cada um. O pecado que contamina a
humanidade configura uma ruptura e uma constante ameaça à unidade entre os
dois. Não se pode, pois, admitir relação de domínio entre homem e mulher, por
comprometer a estabilidade da igualdade fundamental. Ferir essa igualdade é
banir a mulher da sociedade.
Atenção seja dada quando, na atualidade, são realizadas deliberações
sobre os direitos da mulher, no amplo contexto dos direitos humanos. Trata-se
de horizonte que não pode permitir relativizações, para não agravar ainda mais
os cenários de violência que ameaçam as mulheres, objetificando-as para consumo,
manipulando-as. Há, pois, de se considerar sempre e melhor a feminilidade, a
sua grandeza, reconhecendo a sua essencialidade para o bem de toda civilização.
Nesse sentido, a sociedade deve investir em caminhos para que a mulher seja
cada vez mais protagonista, buscando vencer o machismo. Assim, equilibrar a
relação entre homens e mulheres no contexto social, para adequadamente
articular singularidades, curar patologias que produzem violências.
O respeito à dignidade da mulher cria a oportunidade para uma nova ordem
alicerçada no amor. Trata-se de uma urgência, considerados os muitos
descompassos da contemporaneidade. A ordem do amor tem na mulher um especial
protagonismo, indispensável nas reconstruções civilizatórias. A mulher,
portanto, desempenha um papel singular que não pode ser destruído, violentado
ou tratado com indiferença. A feminilidade tem competências singulares na
prática e no ensinamento do amor. Essas competências se expressam em diferentes
contextos culturais, pelas singularidades biológicas, espirituais e psíquicas
de cada mulher. A Igreja ensina que a dignidade da mulher está intimamente
ligada ao amor: ao amor que ela recebe por sua feminilidade e ao amor que ela
doa. As mulheres são paradigma para sustentar a grande força que gera equilíbrio
na humanidade. Ecoem as vozes que buscam construir novos tempos a partir da
superação de violências que as ameaçam. A sociedade possa avançar sempre no
respeito à mulher, caminho para experimentar o amor e aprender a amar.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
https://cnbbleste2.org/2026/03/a-mulher-na-voz-da-igreja/
DIA INTERNACIONAL DA MULHER: A VOZ DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A PRESENÇA FEMININA
No Dia Internacional da
Mulher, celebramos não apenas as conquistas e a força feminina, mas também
refletimos sobre o papel da mulher na sociedade e na Igreja. Ao longo da
história, a Igreja Católica tem se manifestado sobre a dignidade, a vocação
e a importância das mulheres em diversos documentos oficiais. Confira
abaixo um resumo de alguns desses importantes textos, que iluminam a missão
feminina sob a luz da fé cristã.
1. Gaudium et Spes (1965) – A
Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II traz uma visão abrangente sobre o
papel da mulher na sociedade moderna. O documento destaca a igualdade de
dignidade entre homens e mulheres e reforça os direitos femininos, promovendo o
respeito e a valorização das mulheres em todos os âmbitos.
2. Inter Mulieres
Claras (1970) – Na Carta Apostólica do Papa Paulo VI, Santa Teresa de Ávila foi
proclamada Doutora da Igreja. Este reconhecimento reafirma o valor da
contribuição intelectual e espiritual das mulheres na teologia e na vida da
Igreja.
3. Mulieris Dignitatem (1988) – Carta
Apostólica do Papa João Paulo II sobre a dignidade e a vocação da mulher. O
documento destaca o “gênio feminino”, ressaltando o valor insubstituível das
mulheres na família, na Igreja e na sociedade. João Paulo II reflete sobre o
papel da mulher na história da salvação, inspirando-se especialmente em Maria,
mãe de Jesus.
4. Christifideles
Laici (1988) – Este documento de João Paulo II fala sobre a vocação e a missão
dos leigos na Igreja e no mundo, sublinhando a relevância da contribuição
feminina. O Papa encoraja as mulheres a atuarem ativamente na evangelização e
no serviço à comunidade.
5. Carta às Mulheres
(1995) – Também escrita pelo Papa João Paulo II, esta carta expressa
gratidão e reconhecimento pelo papel das mulheres em todos os campos da vida
humana. O Papa agradece às mães, esposas, filhas, irmãs, trabalhadoras,
consagradas e mulheres de todas as vocações, exaltando seu valor e
contribuição.
6. Verbum Domini (2010) – Na
Exortação Apostólica do Papa Bento XVI, é destacada a importância das mulheres
no anúncio da Palavra de Deus e na transmissão da fé. O Papa Bento XVI valoriza
o papel das mulheres na evangelização e no testemunho cristão, especialmente
como catequistas e educadoras da fé.
7. Evangelii
Gaudium (2013) – Na Exortação Apostólica do Papa Francisco, é reforçada a
importância da presença feminina na vida eclesial. O Papa destaca a necessidade
de uma maior participação das mulheres em posições de liderança e
responsabilidade na Igreja, respeitando a sua dignidade e carismas.
8. Querida Amazonia
(2020) – Nesta Exortação Apostólica Pós-Sinodal, o Papa Francisco destaca
o papel essencial das mulheres na região amazônica e na Igreja. Ele enfatiza a
necessidade de ampliar os espaços para uma participação feminina mais incisiva
na Igreja, especialmente em áreas de liderança e decisão pastoral.
9. Praedicate
Evangelium (2022) – A Constituição Apostólica
sobre a Cúria Romana, promulgada pelo Papa Francisco, permite que leigos,
incluindo mulheres, possam ocupar cargos de governo e chefia na Cúria. Essa
mudança reforça a importância da colaboração feminina em posições de destaque
na estrutura da Igreja.
Neste Dia Internacional da
Mulher, ao celebrarmos as muitas conquistas das mulheres, também
recordamos o reconhecimento da Igreja Católica à importância feminina. Que o
exemplo de Maria e das santas mulheres, somado à reflexão desses documentos,
nos inspire a promover uma sociedade mais justa, inclusiva e cheia de amor.
Parabéns a todas as mulheres! Que
Deus abençoe e fortaleça cada uma de vocês!
Referências Bibliográficas
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium
et Spes: Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual. 1965.
PAULO VI. Inter Mulieres
Claras: Carta Apostólica. 1970.
JOÃO PAULO II. Mulieris
Dignitatem: Carta Apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher. 1988.
JOÃO PAULO II. Christifideles
Laici: Exortação Apostólica sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e
no mundo. 1988.
JOÃO PAULO II. Carta às
Mulheres. 1995.
BENTO XVI. Verbum Domini:
Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja.
2010.
FRANCISCO. Evangelii Gaudium:
Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 2013.
FRANCISCO. Querida Amazonia:
Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Amazônia. 2020.
FRANCISCO. Praedicate Evangelium:
Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana. 2022.
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