4.2- O MANDAMENTO NOVO
Meus
queridos irmãos e irmãs,
Celebramos
nesta Quinta-Feira a abertura do Tríduo Pascal em que Nosso Senhor Jesus Cristo
institui a Eucaristia com um doce e ingente apelo à fraternidade, à comunhão, à
concórdia e a paz. Jesus pereniza no tempo e na história a sua presença em
nosso Meio, presente pela consubstanciação do pão no Seu Corpo e do Vinho em
Seu Sangue. Lúcido e grandioso mistério da Nossa Fé.
E
a libertação do povo é feita, simbolicamente, com o gesto significativo do
Lava-pés: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos amei uns aos outros, assim
como Eu vos Amei, disse o Senhor”.
Meus
irmãos,
Celebramos
hoje um adeus: uma despedida de alguém que vai para melhor, ou seja, que vai
voltar para o Pai, mas, que ao mesmo tempo, deixa uma profunda nostalgia, uma
contagiante saudade, sobretudo, por causa do modo como esta despedida será
levada a efeito, na noite seguinte. Por isso a celebração de hoje, com seus
paramentos brancos, é de alegria, de júbilo, entoando o canto do glória,
suprimido durante toda a Quaresma, hoje é entoado solenemente, com todos os
sinos de nossas Igrejas badalando para comemorar a Instituição da Eucaristia e
do Mandamento do Amor, amor sem limites e com grande intensidade. Alegria
misturada com dor, alegria em tom menor, misturada com lágrimas, sendo
considerada uma alegria inibida. É a única liturgia do ano, em que se canta o
Glória, sem que se cante o Aleluia.
Jesus
vai percorrendo o seu caminho e todos os fiéis bem sabem que Jesus será preso,
julgado, acoitado, humilhado e crucificado.
Irmãos
e Irmãs,
A
primeira leitura (cf. Ex 12,1-8.11-14)
fornece o fundo histórico para situar a última Ceia como refeição e banquete
pascal na vida de Jesus e nas raízes judaicas da liturgia cristã. Conta à
instituição da refeição do cordeiro pascal no antigo judaísmo, com o sentido
salvífico que Israel aí reconhece: a libertação da escravidão. O Cântico de
Meditação é um canto que os sacerdotes entoavam ao levantar o Cálice da bênção,
gesto retomado por Jesus na última Ceia.
Todos
sabemos que os israelitas celebravam todos os anos o memorial do êxodo comendo
o cordeiro pascal. Tratava-se de um memorial de libertação. Celebrava-se, antes
de mais nada, a proteção da vida. Páscoa, nesse sentido, adquiria um sentido
subversivo. Uma celebração que questionava a escravidão em todas as suas formas
ao invocar a presença de um Deus libertador.
Por
isso toda Páscoa deveria levar à libertação e ao processo de libertação.
Afinal, diz o texto: “Assim devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias
nos pés e cajado na mão. E comereis às pressas, pois é Páscoa, isto é, a
‘Passagem’ do Senhor! ” (12,11). Páscoa não representa somente festa, mas
também preparação para o que está adiante. Toda Páscoa, nesse caso, aponta para
a frente, ou seja, para aquilo que ainda não existe, mas se deseja. Celebra-se,
portanto, não somente a libertação da opressão cotidiana, mas também a
libertação do futuro.
Por
isso, no Evangelho (cf. 1Cor 11,23-26)
temos um grande mistério divino entregue a mãos humanas. Jesus, reunindo os
apóstolos a fim de comer com eles a Ceia pascal, como faziam todas as famílias
hebréias, para recordar a libertação do povo judeu da escravidão egípcia. A
ceia seguia todo um ritual que prescrevia um cordeiro pascal, o que devia ser
de um ano e sem nenhum defeito.
São
Pedro se escandaliza, porque quem deveria lavar os pés dos mestres seriam os
escravos. Para Jesus, o serviço é sinal de encontro com Deus. Não é necessária
a busca pelo primeiro lugar, quando é possível compreender que o corpo do outro
é o mais verdadeiro e real altar que temos. Jesus assume a posição de servo
para iluminar para nós o caminho do serviço desinteressado e solidário pelo
próximo.
Mas
São Pedro não compreende o gesto de Jesus. Talvez ele vivesse um momento de
conversão. Talvez estivesse acostumado e já não ligasse para as relações
desiguais que sua sociedade apresentava. Já não se espantava com as
desigualdades sociais. Afinal, sempre havia sido assim e, certamente,
continuaria do mesmo modo. Não é dessa forma que a maioria de nós pensa? Para
ele, mestre e discípulo eram funções que determinavam o maior e o menor, isto
é, quem mandava e quem obedecia. Jesus atropela a cultura de dominação e propõe
nova forma de relação social. Em Jesus, as pessoas se relacionam como iguais.
Lavar os pés traz o símbolo da humildade do discípulo que se apresenta como o
menor de todos e, por isso mesmo, é o escolhido de Deus.
Jesus
assumiu a presidência da refeição, como se fosse um pai de família, como de fato
é o pai dos apóstolos e o pai da nossa fé, porque vencerá o pecado e anunciará
a vida plena em Deus, o Senhor.
O
primeiro gesto de Jesus foi levantar ao redor da mesa, pegar um manto, amarrar
uma toalha, derramar um pouco de água num vaso e iniciar a lavar os pés de seus
doze apóstolos. Depois do lava-pés Jesus voltou ao seu lugar pegou um pedaço de
pão molhou-o no vinho e deu-o a Judas Iscariotes, dizendo: “O que tens a fazer,
faze-o logo”. E Judas retirou-se rápido da sala, com os pés lavados, mas com
Satanás no seu Corpo.
Após
a retirada de Judas Jesus anunciou que por pouco tempo os seus apóstolos ainda
O teriam em seu meio. Por isso deixou o
maior de todos os mandamentos: “Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei.
Todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jô
13,33-35).
Daí
Jesus encheu a jarra de vinho e passou aos seus Apóstolos para que bebessem não
o vinho, mas seu sangue, o sangue que seria o elo, que seria o selo, a garantia
da nova e eterna aliança entre Deus e a humanidade. Tomou, em seguida, um
pedaço de pão e deu-o aos seus apóstolos para comer, porque já não era pão, mas
seu corpo, era o pão da vida eterna, o pão da vida plena. E pediu que este
Memorial fosse repetido em sua memória. Estava, portanto, inaugurada e
perenizada na história da salvação a Eucaristia, como mandamento máximo da vida
cristã, mandamento máximo da entrega de Deus pelos homens. Cada vez que comemos
e bebemos o pão e o vinho transubstanciados no corpo e no sangue refazemos o
memorial da nossa fé, “anunciando Senhor a Vossa Morte e Ressurreição”.
Jesus,
ainda, fez uma admoestação de que os discípulos repetissem este gesto em sua
memória, prometendo que nunca abandonaria seus discípulos, apesar de tudo o que
iria acontecer. Tratava-se da glorificação de Jesus e da sua união com o Pai,
pedindo unidade de todos os discípulos.
Meus
irmãos e Minhas irmãs,
Nesta
noite venturosa Jesus nos dá a Eucaristia, institui o Sacerdócio, prega e
determina o amor fraterno, por isso deveríamos celebrar a vida.
Mas
a compaixão também toma conta de nossos íntimos. O Evangelho também anuncia os
momentos de dor, de sofrimento, de renúncia, de vontade, de solidão porque
Jesus vai passar no momento da sua Paixão e Morte.
Todos
nós somos convidados a sofrer com Jesus nesta noite da traição de Judas e
conseqüente entrega de Jesus aos sumos sacerdotes e ao poder romano que ocupava
Jerusalém e a terra dos judeus.
Enquanto
Jesus rezava no monte das Oliveiras foi amarrado com cordas e conduzido a
julgamento. Abandonado pelos seus discípulos e seus amigos, renegado por Pedro
por três vezes Jesus teve a mesma sorte que os criminosos de então. Noite de
maldade, por isso tenhamos compaixão de Jesus, estejamos ao seu lado,
caminhemos com Ele, vivendo as agruras que Jesus viveu nesta noite. Vamos amar,
e que comecemos a amar em casa as pessoas mais velhas, aqueles que vivem o
melhor momento de sua longa trajetória, e que muitas vezes são abandonados nos
asilos e na solidão de suas residências. Solidão de Jesus que muitas vezes é a
solidão de nossos velhos. Amar sem limites, amar sem recompensas, amar por
amor, amar sem limites, amar com generosidade. Amor que nos imbui de grande
generosidade para poder participar, para poder viver, para poder celebrar a
Eucaristia, supremo memorial do amor de Deus pela humanidade, ao se entregar e
morrer pela salvação da humanidade.
A
Segunda leitura (Cf. 1Cor 11,23-26)
nos oferece o relato mais antigo da instituição eucarística. O Apóstolo Paulo
afirma que aquilo que transmite foi recebido do próprio Senhor. Ele recorda aos
Coríntios que a fração do pão remonta ao próprio Jesus e se reveste, por
consequência, de importância central na vida da Igreja. A Eucaristia pode e
deve ser compreendida como a celebração atual desse grande passo por meio do
qual Jesus arrastou atrás de si aqueles que aceitaram o desafio do amor. Já não
caminhamos separados de Jesus. Caminhamos, sim, iluminados por ele.
Na
comunidade de Corinto haviam surgido inúmeras divisões que acabavam
comprometendo a unidade do corpo de Cristo e, além disso, a celebração do
memorial do Senhor havia se degenerado em um espetáculo escandaloso. São Paulo
relembra a instituição da Eucaristia num ambiente fortemente marcado por
divisões. Para ele, a Eucaristia deveria ser pensada e vivida como memória da
morte de Jesus e como dom de vida para a humanidade. A Eucaristia, como dom de
vida, deveria estar acima de qualquer divisão. Por meio dela, as barreiras
seriam superadas e pontes criadas. Já não haveria distância para aqueles que se
aproximavam da mesa do Senhor. Todos eles e elas seriam um só em comunhão com o
Cristo.
Uns
queriam ser melhores do que os outros e, por conta disso, não havia espaço para
o amor, a partilha e o serviço. O corpo de Cristo estava, pois, fragmentado. O
Cristo que havia morrido e ressuscitado para que todos fossem um nele corria o
risco de ser transformado num Cristo dividido por causa da imaturidade de
muitos.
Irmãos
e Irmãs,
Junto
com a Eucaristia Jesus institui naquela ceia bendita o sacramento da ordem.
Ganhamos junto com a Eucaristia os presbíteros, os sacerdotes, aqueles homens
abnegados que fazem e refazem o mistério da nossa fé, o memorial da paixão,
morte e ressurreição de Jesus, a santa Eucaristia. Doce e grandioso presente de
fé e de salvação: o próprio Cristo realmente presente em corpo, alma e
divindade na Eucaristia pelas mãos consagradas do sacerdote ministerial.
Elevemos a Deus um TE DEUM LAUDAMUS pelo sacerdote ou pelos sacerdotes de
nossas comunidades, estes homens de fé, homens da Eucaristia, condoreiros de
Jesus que carregam nas suas mãos solícitas o pão da palavra e o pão da vida, a
Eucaristia.
Meus
irmãos,
A
velha disciplina latina dizia que hoje foi instituído o MANDATUM NOVUM, ou
seja, o Mandamento Novo. Por isso, encerrando nossa reflexão, de joelhos
voltemos para o Sacrário e cantemos com fé, esperança e caridade, e, acima de
tudo pedindo ao mundo dilacerado pela guerra o mandamento do amor, que é
paz: “Tão
sublime sacramento/ adoremos neste altar, / pois do Antigo Testamento/deu ao
Novo seu lugar. / Venha a fé por suplemento/ os sentidos completar. Ao Eterno
Pai cantemos/, e a Jesus, o Salvador. / Ao Espírito exaltemos, / na Trindade
eterno amor. / Ao Deus Uno e Trino demos/ a alegria do louvor. Amém”
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