sexta-feira, 20 de março de 2026

8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 8-   REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"- [Parte X-01]

 

"Onde houver trevas, que eu leve a luz!!"

[Atribuída a  São Francisco de Assis]

ONDE HOUVER TREVAS, QUE EU LEVE A LUZ!

 

Se interpretarmos em sentido literal esta súplica de Francisco, seremos levados a concluir que somente Deus, e ninguém mais, pode trazer luz onde reinam trevas. Isso porque somente o Criador possui o poder de criar ex nihilo, isto é, a partir do nada, unicamente em função da potência criadora de sua palavra: "Fiat!" - "Faça-se!". Tal súplica, portanto, só pode ser lida e interpretada em chave metafórica ou figurada. Nesse caso, a pergunta que inevitavelmente se coloca é: a que tipo de trevas e de luz Francisco está se referindo? Para tentar responder a essa questão, não podemos nos esquecer de que todas e cada uma das invocações de sua oração são precedidas e orientadas pela busca de um bem maior que lhes serve de referência e horizonte: a paz. Sendo assim, a pergunta muda de configuração e passa a ser: que tipo de treva mais tem ameaçado a nossa paz e mais inquietude tem trazido ao nosso coração?

 

Nossa busca por respostas retroage às fontes mais remotas da tradição cultural e religiosa da humanidade. Isso porque o primeiro tipo de trevas de que se tem registro é descrito no relato da criação narrado no Livro do Gênesis, também chamado Livro das Origens. Ali, a realidade primária e primordial a partir da qual tudo tem origem é descrita como vazia, informe e totalmente envolta em trevas. A rigor, é a partir desse cenário caótico e nebuloso que tem lugar o primeiro ato da criação: "Faça-se a luz!" - disse Deus. E a luz se fez. Se de fato tudo assim aconteceu, terá sido esta a primeira vez que "alguém" assume a missão de levar luz onde reinam trevas. Tal ação encerra um simbolismo profundo: para que a realidade originária, informe e envolta em trevas, pudesse ser ordenada e se tornasse habitável e acolhedora, foi necessário que antes fosse iluminada. De acordo com as Escrituras, esse é um tipo especial de luz que não depende de nenhum astro luminoso para brilhar - o sol, a lua e as estrelas seriam criados apenas no quarto dia. Iluminada e ordenada, essa nova realidade está pronta para acolher e sustentar a vida, notadamente a mais preciosa delas: a vida humana.

 

Ainda de acordo com as Escrituras, essa luz que irrompe em meio às trevas é a primeira obra da criação a receber qualificação moral. O relato afirma que, ato contínuo à sua criação, "Deus viu que a luz era boa". Essa não é uma declaração meramente estética ou uma afirmação puramente descritiva; ela revela uma conexão profunda e substancial entre luz e bem. À luz de uma tal luz - uma espécie de centelha da luz divina presente por participação, imagem e semelhança em toda a obra criada - cada ser se mostra tal como é, em sua essência ou verdade fundamental, sem prejuízo algum decorrente de qualquer ilusão ou distorção por parte do olhar humano. "In lumine tuo videbimus lumen" - "Na tua luz veremos a luz", exclamará mais tarde o salmista envolto em meditação. Curiosamente, entretanto, Deus não qualifica as trevas como más. No contexto da criação, elas representam apenas o estado primordial caótico e desorganizado, ainda não iluminado. Para que a luz possa ser criada, Deus não destrói nem tampouco entra em conflito com as trevas; ele apenas separa luz e trevas, estabelecendo respectivamente o ritmo do dia e o da noite. Esta - a noite - é cuidadosa e estrategicamente incorporada ao projeto divino da criação. O que o mal, a maldade e os maldosos mais parecem temer é serem descobertos ou revelados. Por isso temem a luz, abominam seus reflexos e esquivam-se da luminosidade.

 

Aqui, uma longa tradição espiritual intuiu algo que, se não inquestionável, é no mínimo curioso: o mal - diferentemente do bem - não cria realidades novas; ele apenas distorce realidades boas. Assim, a mentira não cria uma nova verdade - ela apenas deforma a verdade existente. A injustiça não cria uma nova justiça - ela apenas corrompe uma ordem justa. O ódio não cria uma nova forma de amor - ele apenas desfigura a capacidade de amar. Com a criatura, não parece ser diferente. A ideia de que cada ser humano é um microcosmo é recorrente tanto na filosofia grega antiga quanto na filosofia medieval e renascentista, bem como na espiritualidade oriental e em certas vertentes da psicologia contemporânea.

 

Essa dinâmica de convivência e alternância entre luz e treva não aparece apenas na tradição bíblica, retomada na súplica de Francisco. De diferentes formas, ela ressurge no pensamento humano ao longo da história. Culturas diversas, por caminhos distintos, de uma forma ou de outra acabam quase sempre convergindo para uma verdade crucial: as trevas mais perigosas não são aquelas que habitam e circundam o mundo exterior, e sim aquelas que permanecem não iluminadas nas regiões mais profundas e sombrias de cada um de nós. Na psicologia profunda de Carl Gustav Jung, por exemplo, encontramos a ideia da Sombra, um mundo sombrio de impulsos reprimidos, medos, angústias, fragilidades e potenciais adormecidos, que quase sempre permanece desconhecido e ignorado. E justamente porque desconhecidas, tais sombras acabam exercendo influência silenciosa e poderosa sobre nossas vidas, gerando conflitos interiores e comportamentos distorcidos.

 

De acordo com Jung, o amadurecimento psicológico consiste em lançar luz sobre essa região sombria da psique, fazendo com que tais sombras se dissipem e permitam que o caos interior comece a se organizar lentamente. O processo descrito por Jung assemelha-se ao ato criador de levar luz onde reinam trevas, inaugurando assim uma realidade totalmente nova. "Eis que faço novas todas as coisas", anuncia o Livro do Apocalipse, apontando para a instauração de "um novo céu e uma nova terra" como resgate definitivo e pleno da criação ao final dos tempos.

 

Também a trajetória espiritual empreendida pela consciência em busca de seu despertar, de acordo com certas tradições budistas, apresenta características análogas ao projeto divino de levar luz onde reinam trevas. O despertar da consciência é chamado de "iluminação" justamente porque a mente humana é vista, inicialmente, como envolta em ignorância e desconhecimento, antes de tudo de si própria. Essa ignorância produz ilusões e desvios comprometedores sobre o próprio eu, sobre o desejo e sobre a realidade circundante. O despertar da consciência ocorre quando o ser humano deixa de viver de modo automático - identificado com pensamentos, emoções e condicionamentos exteriores - e passa a desenvolver uma atenção lúcida e contínua sobre si mesmo. Nesse processo, a pessoa percebe que não é a mente, e que só a consciência iluminada permite tornar-se presente e capaz de testemunhar os próprios movimentos interiores sem se deixar dominar por eles. Quando esse despertar atinge o seu auge - processo chamado de "iluminação" - a vida deixa de ser governada por automatismos inconscientes e passa a ser vivida com maior clareza, liberdade e autenticidade. O despertar não cria uma nova realidade; ele apenas revela aquilo que sempre esteve presente, mas que permanecia obscurecido pelas trevas da ignorância. Dessa forma, a iluminação pode ser entendida como um clareamento gradual e progressivo da consciência: à medida que as ilusões e as distorções vão se dissipando, diminui também a cota de dor e sofrimento que elas antes produziam.

 

Na tradição cristã, essa mesma dinâmica aparece de forma transparente na súplica de Francisco: "Onde houver trevas, que eu leve luz!". Tal súplica transforma em missão a tarefa de levar luz onde reinam trevas. Não se trata de ser a fonte da luz, mas de tornar-se seu instrumento. O ser humano é chamado a participar da obra criadora introduzindo claridade onde existe confusão, reconciliação onde existe divisão, esperança onde predomina o desânimo e assim por diante. Temos assim três perspectivas aparentemente diferentes confluindo para um mesmo ponto essencial. Jung fala da necessidade de iluminar as sombras interiores; o budismo fala do despertar da mente como um processo de iluminação que dissipa as trevas da ignorância e do desconhecimento; a espiritualidade franciscana fala de levar luz às trevas da ignorância interior, às trevas do egoísmo moral, e às trevas da desordem nas relações humanas.

 

Em todas essas visões aparece a mesma intuição profunda: a vida floresce onde a consciência se ilumina. A jornada humana pode, portanto, ser compreendida como um processo contínuo e inesgotável de iluminação e dissipação de muitas e diferentes trevas. Primeiro, a luz revela e ilumina as trevas do mundo ao nosso redor. Depois, revela e lança luzes sobre as sombras do nosso próprio mundo interior. E, por fim, transforma-se em presença constante capaz de revelar e iluminar também as trevas do mundo interior daqueles com os quais convivenos. Aquilo que começou como claridade no início da criação torna-se também vocação humana: acolher a luz, deixar-se transformar por ela e levá-la adiante onde persistem trevas que precisam ser reveladas e iluminadas.

 

Em seu livro "A Return to Love", Marianne Williamson escreveu: "Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é o de sermos poderosos além de qualquer medida. É a nossa luz, não a nossa escuridão, que mais nos assusta. Perguntamo-nos: quem sou eu para ser brilhante, lindo, talentoso, fabuloso? Na verdade, quem é você para não ser? Você é um filho de Deus. Fazer-se pequeno não ajuda a melhorar mundo. Não há nada de iluminado em se diminuir-se para que os outros não se sintam inseguros ao seu redor. Todos nós fomos feitos para brilhar, como as crianças. Nascemos para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós. Ela não está apenas em alguns; está em todos. E, quando deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo. À medida que nos libertamos do nosso próprio medo, nossa presença automaticamente liberta os outros".

 

"Onde houver trevas, que eu leve a luz!". Como esta súplica de Francisco pode ser aplicada ao relacionamento amoroso que permeia o vínculo conjugal? É sobre isso que refletiremos no tópico dois desta décima parte.

 

( * ) Texto enviado pelo autor, de Vitória(ES)- via WhatsApp.

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