8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )
"ATÉ
QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE
SÃO FRANCISCO"- [Parte X-01]
"Onde houver trevas, que eu leve a luz!!"
[Atribuída
a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER TREVAS, QUE EU LEVE A LUZ!
Se
interpretarmos em sentido literal esta súplica de Francisco, seremos levados a
concluir que somente Deus, e ninguém mais, pode trazer luz onde reinam trevas.
Isso porque somente o Criador possui o poder de criar ex nihilo, isto é, a
partir do nada, unicamente em função da potência criadora de sua palavra:
"Fiat!" - "Faça-se!". Tal súplica, portanto, só pode ser
lida e interpretada em chave metafórica ou figurada. Nesse caso, a pergunta que
inevitavelmente se coloca é: a que tipo de trevas e de luz Francisco está se
referindo? Para tentar responder a essa questão, não podemos nos esquecer de
que todas e cada uma das invocações de sua oração são precedidas e orientadas
pela busca de um bem maior que lhes serve de referência e horizonte: a paz.
Sendo assim, a pergunta muda de configuração e passa a ser: que tipo de treva
mais tem ameaçado a nossa paz e mais inquietude tem trazido ao nosso coração?
Nossa
busca por respostas retroage às fontes mais remotas da tradição cultural e
religiosa da humanidade. Isso porque o primeiro tipo de trevas de que se tem
registro é descrito no relato da criação narrado no Livro do Gênesis, também
chamado Livro das Origens. Ali, a realidade primária e primordial a partir da
qual tudo tem origem é descrita como vazia, informe e totalmente envolta em
trevas. A rigor, é a partir desse cenário caótico e nebuloso que tem lugar o
primeiro ato da criação: "Faça-se a luz!" - disse Deus. E a luz se
fez. Se de fato tudo assim aconteceu, terá sido esta a primeira vez que
"alguém" assume a missão de levar luz onde reinam trevas. Tal ação
encerra um simbolismo profundo: para que a realidade originária, informe e
envolta em trevas, pudesse ser ordenada e se tornasse habitável e acolhedora,
foi necessário que antes fosse iluminada. De acordo com as Escrituras, esse é
um tipo especial de luz que não depende de nenhum astro luminoso para brilhar -
o sol, a lua e as estrelas seriam criados apenas no quarto dia. Iluminada e
ordenada, essa nova realidade está pronta para acolher e sustentar a vida,
notadamente a mais preciosa delas: a vida humana.
Ainda de
acordo com as Escrituras, essa luz que irrompe em meio às trevas é a primeira
obra da criação a receber qualificação moral. O relato afirma que, ato contínuo
à sua criação, "Deus viu que a luz era boa". Essa não é uma
declaração meramente estética ou uma afirmação puramente descritiva; ela revela
uma conexão profunda e substancial entre luz e bem. À luz de uma tal luz - uma
espécie de centelha da luz divina presente por participação, imagem e
semelhança em toda a obra criada - cada ser se mostra tal como é, em sua
essência ou verdade fundamental, sem prejuízo algum decorrente de qualquer ilusão
ou distorção por parte do olhar humano. "In lumine tuo videbimus
lumen" - "Na tua luz veremos a luz", exclamará mais tarde o
salmista envolto em meditação. Curiosamente, entretanto, Deus não qualifica as
trevas como más. No contexto da criação, elas representam apenas o estado
primordial caótico e desorganizado, ainda não iluminado. Para que a luz possa
ser criada, Deus não destrói nem tampouco entra em conflito com as trevas; ele
apenas separa luz e trevas, estabelecendo respectivamente o ritmo do dia e o da
noite. Esta - a noite - é cuidadosa e estrategicamente incorporada ao projeto
divino da criação. O que o mal, a maldade e os maldosos mais parecem temer é
serem descobertos ou revelados. Por isso temem a luz, abominam seus reflexos e
esquivam-se da luminosidade.
Aqui, uma
longa tradição espiritual intuiu algo que, se não inquestionável, é no mínimo
curioso: o mal - diferentemente do bem - não cria realidades novas; ele apenas
distorce realidades boas. Assim, a mentira não cria uma nova verdade - ela
apenas deforma a verdade existente. A injustiça não cria uma nova justiça - ela
apenas corrompe uma ordem justa. O ódio não cria uma nova forma de amor - ele
apenas desfigura a capacidade de amar. Com a criatura, não parece ser
diferente. A ideia de que cada ser humano é um microcosmo é recorrente tanto na
filosofia grega antiga quanto na filosofia medieval e renascentista, bem como
na espiritualidade oriental e em certas vertentes da psicologia contemporânea.
Essa
dinâmica de convivência e alternância entre luz e treva não aparece apenas na
tradição bíblica, retomada na súplica de Francisco. De diferentes formas, ela
ressurge no pensamento humano ao longo da história. Culturas diversas, por
caminhos distintos, de uma forma ou de outra acabam quase sempre convergindo
para uma verdade crucial: as trevas mais perigosas não são aquelas que habitam
e circundam o mundo exterior, e sim aquelas que permanecem não iluminadas nas
regiões mais profundas e sombrias de cada um de nós. Na psicologia profunda de
Carl Gustav Jung, por exemplo, encontramos a ideia da Sombra, um mundo sombrio
de impulsos reprimidos, medos, angústias, fragilidades e potenciais
adormecidos, que quase sempre permanece desconhecido e ignorado. E justamente
porque desconhecidas, tais sombras acabam exercendo influência silenciosa e
poderosa sobre nossas vidas, gerando conflitos interiores e comportamentos
distorcidos.
De acordo
com Jung, o amadurecimento psicológico consiste em lançar luz sobre essa região
sombria da psique, fazendo com que tais sombras se dissipem e permitam que o
caos interior comece a se organizar lentamente. O processo descrito por Jung
assemelha-se ao ato criador de levar luz onde reinam trevas, inaugurando assim
uma realidade totalmente nova. "Eis que faço novas todas as coisas",
anuncia o Livro do Apocalipse, apontando para a instauração de "um novo
céu e uma nova terra" como resgate definitivo e pleno da criação ao final
dos tempos.
Também a
trajetória espiritual empreendida pela consciência em busca de seu despertar,
de acordo com certas tradições budistas, apresenta características análogas ao
projeto divino de levar luz onde reinam trevas. O despertar da consciência é
chamado de "iluminação" justamente porque a mente humana é vista,
inicialmente, como envolta em ignorância e desconhecimento, antes de tudo de si
própria. Essa ignorância produz ilusões e desvios comprometedores sobre o
próprio eu, sobre o desejo e sobre a realidade circundante. O despertar da
consciência ocorre quando o ser humano deixa de viver de modo automático -
identificado com pensamentos, emoções e condicionamentos exteriores - e passa a
desenvolver uma atenção lúcida e contínua sobre si mesmo. Nesse processo, a
pessoa percebe que não é a mente, e que só a consciência iluminada permite
tornar-se presente e capaz de testemunhar os próprios movimentos interiores sem
se deixar dominar por eles. Quando esse despertar atinge o seu auge - processo
chamado de "iluminação" - a vida deixa de ser governada por
automatismos inconscientes e passa a ser vivida com maior clareza, liberdade e
autenticidade. O despertar não cria uma nova realidade; ele apenas revela
aquilo que sempre esteve presente, mas que permanecia obscurecido pelas trevas
da ignorância. Dessa forma, a iluminação pode ser entendida como um clareamento
gradual e progressivo da consciência: à medida que as ilusões e as distorções
vão se dissipando, diminui também a cota de dor e sofrimento que elas antes
produziam.
Na
tradição cristã, essa mesma dinâmica aparece de forma transparente na súplica
de Francisco: "Onde houver trevas, que eu leve luz!". Tal súplica
transforma em missão a tarefa de levar luz onde reinam trevas. Não se trata de
ser a fonte da luz, mas de tornar-se seu instrumento. O ser humano é chamado a
participar da obra criadora introduzindo claridade onde existe confusão,
reconciliação onde existe divisão, esperança onde predomina o desânimo e assim
por diante. Temos assim três perspectivas aparentemente diferentes confluindo
para um mesmo ponto essencial. Jung fala da necessidade de iluminar as sombras
interiores; o budismo fala do despertar da mente como um processo de iluminação
que dissipa as trevas da ignorância e do desconhecimento; a espiritualidade
franciscana fala de levar luz às trevas da ignorância interior, às trevas do
egoísmo moral, e às trevas da desordem nas relações humanas.
Em todas
essas visões aparece a mesma intuição profunda: a vida floresce onde a
consciência se ilumina. A jornada humana pode, portanto, ser compreendida como
um processo contínuo e inesgotável de iluminação e dissipação de muitas e
diferentes trevas. Primeiro, a luz revela e ilumina as trevas do mundo ao nosso
redor. Depois, revela e lança luzes sobre as sombras do nosso próprio mundo
interior. E, por fim, transforma-se em presença constante capaz de revelar e
iluminar também as trevas do mundo interior daqueles com os quais convivenos.
Aquilo que começou como claridade no início da criação torna-se também vocação
humana: acolher a luz, deixar-se transformar por ela e levá-la adiante onde
persistem trevas que precisam ser reveladas e iluminadas.
Em seu
livro "A Return to Love", Marianne Williamson escreveu: "Nosso
medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é o
de sermos poderosos além de qualquer medida. É a nossa luz, não a nossa
escuridão, que mais nos assusta. Perguntamo-nos: quem sou eu para ser
brilhante, lindo, talentoso, fabuloso? Na verdade, quem é você para não ser?
Você é um filho de Deus. Fazer-se pequeno não ajuda a melhorar mundo. Não há
nada de iluminado em se diminuir-se para que os outros não se sintam inseguros
ao seu redor. Todos nós fomos feitos para brilhar, como as crianças. Nascemos
para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós. Ela não está apenas em
alguns; está em todos. E, quando deixamos nossa própria luz brilhar,
inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo. À
medida que nos libertamos do nosso próprio medo, nossa presença automaticamente
liberta os outros".
"Onde houver trevas, que eu leve a
luz!". Como esta súplica de Francisco pode ser aplicada ao relacionamento
amoroso que permeia o vínculo conjugal? É sobre isso que refletiremos no tópico
dois desta décima parte.
( * ) Texto enviado
pelo autor, de Vitória(ES)- via WhatsApp.
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