'TOMAI
E COMEI, ISTO É O MEU
CORPO, TOMAI EBEBEI, ISTO É O MEU
SANGUE': AS MAIS CONTROVERTIDAS AFIRMAÇÕES DE UM MESTRE CHAMADO JESUS" [Parte II]
"Faz parte da natureza das
religiões marcar terreno exclusivo
para sua versão
particular e igualmente exclusiva de Deus"[Deepak Chopra]
Obs.:
1)Esta segunda parte complementa e finaliza a primeira de mesmo título.
2) O texto já foi publicado em maio de 2024.
[03] "EU
SOU O CAMINHO: NINGUÉM VAI AO PAI SENÃO POR MIM": Induismo, Zoroastrismo e Budismo, dentre outras, foram
religiões originadas pelo menos meio milênio antes do Cristianismo. Diante
desse fato caberia perguntar: Jesus teria feito essa mesma afirmação - "eu
sou o caminho! Ninguém vai ao Pai senão por mim! - mirando fixamente o rosto de
um induista, um zoroastrista ou um budista? Quando Jean Yves-leloup perguntou
ao líder tibetano Dalai Lama qual seria para ele a melhor religião do mundo,
foi surpreendido com a seguinte resposta: "a melhor religião do mundo é
aquela que faz de você uma pessoa melhor". Seria perfeitamente aceitável
se ele, Dalai Lama, sendo um mestre zen-budista, houvesse respondido:
"bem, para mim, meus seguidores e meus discípulos, a melhor religião do
mundo é o Zen-Budismo". Nada haveria de estranho ou de incoerente se sua
resposta houvesse sido esta. Como seria perfeitamente compreensível se um
mestre hinduista respondesse à mesma pergunta afirmando ser, para ele e seus
discípulos, "o Induismo", e um mestre zoroastrista "o
zoroastrismo". Se Jesus foi de fato o maior psicólogo que já existiu, como
afirma o orador e escritor norte-americano Mark W. Baker, com certeza ele não
teria feito - de forma categórica como se afirma tê-lo feito diante de seus
seguidores e discípulos - essa mesma afirmação diante de um crente budista,
induista ou zoroastrista, nem certamente diante de um crente fiel e seguidor de
qualquer outra religião. Afirmar, portanto, que Jesus seja o único caminho que
leva ao Pai, tudo bem: fica bem para os cristãos que acreditam nisso. Afinal,
como sabemos, o Deus professado pelo Cristianismo é um Deus uno e ao mesmo
tempo trinitário, que se revela nas pessoas do Pai, do Filho, e do Espírito
Santo. Aproveitar o embalo, e com intenções proselitistas, afirmar que Jesus é
também e ao mesmo tempo o único caminho que leva ao único Deus existente, e não
somente ao "Deus Pai" dos cristãos e do cristianismo, é mais uma vez
operar uma "extrapolação" e uma "apropriação indébitas" que
certamente não contariam sequer com o aval do próprio Jesus. Está é mais uma
das razões que levaram Nietzsche a afirmar que "o verdadeiro e autêntico
Cristianismo morreu na cruz". Já tive ocasião de afirmar, em outra
reflexão, que a razão principal da crítica nietzscheana ao monoteísmo cristão
não é o monoteísmo em si, ou o monoteísmo propriamente dito, mas sim o
monoteísmo excludente e "exclusivista operado de uma forma leviana, para
não dizer insana, pela Igreja e a ortodoxia cristã - os termos são
perfeitamente aceitáveis, desde que não se leve a afirmação pelo lado pessoal.
Mais uma vez aqui o discurso ecumenista cai por terra deixando de fazer qualquer
sentido. Afinal, se Jesus é o único caminho não só para os cristãos, mas também
para todos os demais crentes e seguidores desta ou daquela religião, o respeito
cede lugar à tolerância, e o discurso ecumenista lugar ao proselitismo.
Liberdade de expressão religiosa não se "tolera"; se respeita e se
celebra, como já afirmado anteriormente. Como um dos maiores, senão o maior
psicólogo que já existiu, com certeza Jesus poderia ser tudo, menos
proselitista; não casa com seu estilo. Ao contrário, e com todo respeito ao
dizer isso, com o estilo da Igreja Institucional casa! E muito! "Ide pelo
mundo inteiro, pregai o evangelho a toda criatura", não só tornou-se
proselitismo desenfreado, como veio a ser causa de muita perseguição,
condenação, tortura e morte ao longo dos tempos. Felizmente as torturas e as
fogueiras cessaram; não, porém, a mentalidade excludente, exclusivista e
proselitista. "Muitos caminhos levam a Roma!", diz um conhecido e
sábio ditado; de Roma para o mundo, e do mundo para Deus, um só!
[04] "E
O SENHOR ELOGIOU O ADMINISTRADOR DESONESTO PORQUE ELE AGIU COM ESPERTEZA":
esta clássica afirmação de Lucas, colocada na boca de Jesus, está entre aquelas
que têm suscitado maior dificuldade de interpretação ao longo dos séculos.
Intérpretes de renome chegaram a afirmar que toda a passagem relacionada ao
"administrador infiel ou desonesto" seria "in"-interpretável, malgrada a
advertência sempre esclarecedora de que Jesus não teria louvado a desonestidade
ou o roubo em si mesmos, e sim a "esperteza" do administrador. A
pergunta é simples: você faria uso de um recurso didático e pedagógico como
esse na educação e formação de um filho ou neto seu? Pessoalmente, respondo sem
pestanejar: não! Não faria! De forma alguma! Aí vem a pergunta que não aceita
calar: se nem eu e nem você o faríamos, por qual razão Jesus, mestre e pedagogo
infinitamente mais cônscio e sábio do que todos nós, o faria ou teria feito?
Qualquer eticista ou moralista mediano sabe que por mais nobre e elevado que se
considere um "fim", obviamente ele na pode ser atingido
indiferentemente por qualquer "meio". E sem dúvida o meio de que se
serve Lucas para seu propósito - por mais nobre que esse propósito seja -
de nobreza e sensatez parece ter pouco
ou quase nada. Muito pelo contrário, percebe-se claramente que ele lança mão de
um artifício inadequado e reprovável em todos os sentidos. Essa passagem no seu
todo, e sobretudo a afirmação central em que o Senhor louva e elogia a
esperteza do administrador desonesto, é sem dúvida um dos exemplos mais claros
e incontestes de que o criador de uma narrativa, seja ele considerada
"inspirada" ou não, pode acabar humanamente se excedendo e se equivocando, mesmo quando impulsionado pela
mais nobre e reta das intenções. Platão muito provavelmente terá feito algo
parecido com Sócrates, que continuou sendo o principal interlocutor de seus
famosos "diálogos", mesmo
quando estes continuavam sendo escritos décadas depois da morte do seu
mestre. Sim, o mestre precisava continuar sendo lembrado e reverenciado; era
mais do que justo e Platão sabia muito bem disso. Mas a forma como essa
reverência acabou sendo prestada acabou representando um complexo e delicado
problema para a posteridade: saber que palavras e afirmações eram de fato de
Sócrates, e que palavras ou afirmações não passavam de pensamentos e convicções
do próprio Platão colocados na boca de seu mestre. A fidelidade ao mestre gerou
assim uma espécie de "infidelidade" - no mínimo uma imperdoável falta
de respeito e consideração - para com os biógrafos e intérpretes tanto de um
como de outro - tanto de Sócrates como de Platão. Se é praticamente certo que
Jesus não teria feito uso das palavras deixadas por Lucas nessa passagem -
menos ainda se "sob inspiração" ou sob o sopro do Espírito Santo -
Lucas terá cometido para com Jesus a mesma infidelidade cometida por Platão
para com Sócrates. O certo é que Jesus certamente não "assinaria
embaixo" o texto sobre o "administrador desonesto", retratado
por Lucas, ainda que a esperteza nesse caso seja louvável na mesma intensidade
que a boa e reta intenção do evangelista. Por muito, muito menos, diversos
apócrifos tiveram seus escritos literalmente recusados e banidos do cânon
eclesiástico. O fato de Lucas ser considerado pela tradição cristã e pela
Igreja Institucional como o padroeiro dos médicos e dos artistas não pode ser
considerado razão, e muito menos um álibi, para que lhe seja feita tamanha
concessão. Padres, bispos, e provavelmente até sua Santidade, o sucessor de
Pedro, demonstram claro e manifesto desconforto quando têm que se defrontar com
essa passagem e com qualquer interpretação que ela venha suscitar às mentes e
inteligências mais bem intencionadas. Nessa hora, sinceramente, não resta outra
alternativa senão rezar! E muito! Haja inspiração!
[05]
"PORTANTO, DEVEIS SER PERFEITOS COMO VOSSO PAI CELESTIAL É PERFEITO":
de acordo com o ex-embaixador nicaraguense junto à Santa Sé , Ricardo Peter, o
Cristianismo é a primeira religião do mundo - e talvez seja a única, acréscimo
nosso - a propor a perfeição divina como
modelo a ser intencional e conscientemente perseguido. O que de "per
si" já seria estranho se considerarmos o fato de que o divino e o humano
se revestem de naturezas totalmente distintas e em vários aspectos literalmente
opostas. Deus, como se sabe, é "omni" em tudo, ao menos em tudo que é
virtuoso: "onipresente", "onisciente",
"onipotente" e por aí segue a carruagem das grandezas divinas. O ser
humano, inversamente, não é "omni" em nada. Se for, e eu estiver
enganado, será com certeza em praticar o pecado, já que de acordo com o
ensinamento da Santa Madre Igreja tanto podemos ir para o céu como para o
inferno. Por toda a eternidade, diga-se de passagem. Só de pensar nisso me dá
arrepios. Mas o tema aqui é outro; portanto prossigamos retomando o fio da
meada. Karim Khoury, em "Com a corda toda. Autoestima e qualidade de
vida", afirma que "uma das maneiras mais eficazes de uma pessoa se
sentir infeliz, culpada e deprimida, é comparar-se com parâmetros ideais ou
idealizados, visto que isso acaba colocando uma enorme pressão sobre sua
autoestima. Dessa forma seu referencial passa a ser a realidade do outro e não
a sua própria vida". E conclui: "uma comparação inadequada fará com
que você se sinta mal sem ao menos saber o porquê. Ao invés disso, comemore as
suas qualidades e acabe de vez com o suplício das comparações". Portanto a
afirmação de Mateus colocada na boca de Jesus deve ser considerada no mínimo
infeliz, para não dizer suspeita e inadequada. Na chamada "passagem
paralela" de Lucas, o termo "perfeito" desaparece, dando lugar a
"misericordioso" - "sede misericordiosos como vosso Pai celeste
é misericordioso" - e embora a comparação ou a idealização persista, ela é
sem dúvida mais acessível e mais humana do que o obsessivo perfeccionismo de
Mateus. Uma vez mais, porém, chama a atenção o fato de que muitas palavras e
afirmações não necessariamente têm sua origem na boca daquele de quem se fala,
e sim na mente daqueles que contam e relatam o acontecido. Daí a sábia
afirmação de Freud: "quando Paulo me fala de Pedro, conheço menos de Pedro
do que de Paulo". Isso, claro, em pouco ou nada diminui o valor do relato
enquanto dimensão soteriológica, ensino e ensinamento; apenas sugere reserva e
prudência por parte de quem ensina, interpreta, e também se dá à tarefa de
comentar criticamente tais relatos ou narrativas. Mateus antes de se colocar
como discípulo, seguidor e evangelista, era como se sabe cobrador de impostos -
"fiscal da receita", diríamos hoje - ao passo que Lucas era médico, e
tinha portanto boas razões para preferir e ressaltar mais a
"misericórdia" do que a "perfeição, diferentemente do publicano
Mateus. Todavia essa sutil diferença não pode "passar batida" e nem
resultar indiferente para os intérpretes e evangelizadores: a obsessão pela
perfeição tem produzido um tipo de pessoas demasiado rígidas, intoleráveis e
intolerantes, ao passo que a obsessão pela prática da misericórdia, não; pelo
contrário, tem levado homens e mulheres de todas as raças e de todos os tempos,
ao extremo da generosidade, da bondade e da doação. Francisco de Assis, Madre
Tereza, Irmã Dulce, Padre Pio e João Paulo II, como de resto o próprio Jesus,
são apenas alguns exemplos de misericórdia e bondade que continuam sendo
referência para o mundo todo, e não
apenas para esta ou aquela religião. Ainda assim caberia a pergunta:
afinal, de qual palavra ou conceito teria se servido Jesus para transmitir sua
mensagem e seu ensinamento? Dir-se-á que isso não é o mais importante, e que o
contexto em que cada narrativa surgiu e a intencionalidade do evangelista é o
que de fato interessa. Isso não deixa de ser verdade, mas tampouco é suficiente
para elucidar a complexidade de uma afirmação como a de Mateus, e sobretudo
para minimizar as consequências que surgem em decorrência de sua opção pela
perfeição. A pior delas, como já foi observado, é o fato de que a obsessão pelo
perfeccionismo que estabelecesse Deus como parâmetro, tem inevitavelmente
produzido pessoas de baixíssima autoestima, baixíssima tolerância, e baixíssima
capacidade de compreensão. E isso, claro, não é nada bom. A melhor saída,
portanto, quando o texto de referência é Mateus, em uma dada celebração, não
seria passar horas e horas interpretando e tentando encontrar justificativas
para sua opção terminológica, como geralmente acontece, e sim estabelecer um
paralelo com a narrativa de Lucas, e poder de forma mais confortável,
pedagógica e segura, explanar e propor a misericórdia e o amor - e não a
"perfeição" - como virtude a ser imitada em Jesus. A perfeição - com
todo respeito pela sugestão - que fique para os anjos e santos, que já estão a
pelo menos meio caminho entre o humano e o divino; ao menos é o que se ensina e
se pressupõe. No mais, "glória a Deus nas alturas e paz na terra aos
homens de boa vontade!". Às mulheres também, claro!
À guisa de
conclusão: de acordo com Deepak Chopra, um dos principais expoentes de uma nova
espiritualidade, Deus, mesmo sendo por essência e natureza um ser eterno e
imutável, evolui e continua evoluindo. A princípio tal afirmação se mostra claramente
destituída de sentido, tendo-se em vista que toda evolução pressupõe alguma
forma de mudança ou de transformação. O próprio Deepak, entretanto, se adianta
no sentido de oferecer uma alternativa de solução para o impasse. Ele afirma:
"o que evolui, na verdade, é o entendimento humano que se tem sobre Deus.
Há milhares de anos, talvez desde os tempos das cavernas, a mente humana possui
a capacidade de abstrair a existência de uma realidade superior. Pinturas
sagradas e estátuas são tão antigas quanto a civilização, precedem a linguagem
escrita e talvez até a agricultura. Quando a consciência evolui Deus também
evolui". Compare agora essa afirmação de Chopra com esta outra, de Frei
Carlos, ex-reitor do Santuário de Frei Galvão, interior de São Paulo: "dogma
quer dizer verdade. Uma verdade absoluta, definitiva, imutável, infalível, e
absolutamente segura, sobre a qual não se pode pairar nenhuma dúvida. Uma vez
proclamado solenemente, nenhum dogma pode ser revogado ou negado, nem mesmo
pelo papa" [conteúdo atualizado em Maio de 2023]. Tendo presente o extremo
contraste entre as duas afirmações anteriores, considere agora o fato de que
Igreja, enquanto Instituição, tenha proclamado ao longo dos séculos nada menos
que 43 dentre seus principais dogmas, de acordo com a mesma fonte acima citada;
o último deles em 1950, com o Dogma da Assunção de Maria. O curioso de tudo
isso é que de um modo geral as religiões são muitíssimo mais pretensiosas e ambiciosas em relação à verdade do que a
própria ciência, com uma diferença básica: enquanto na ciência o conceito de
veracidade é sempre precedido pela investigação e a busca de evidências - a
conclusão jamais precede a investigação, exceto em forma de hipótese - com a
religião ocorre exatamente o contrário: com ou sem provas ou evidências, um
juízo qualquer passa a ser automaticamente aceito como verdadeiro tão logo seja
"proclamado" como tal. "Roma locuta, causa finita!".
Fecha-se a tampa, apertam-se os parafusos, e baixam-se em definitivo defunto e
caixão. Assim, enquanto depois de Karl Popper a ciência teve que se humilhar e
admitir não ser possuidora em absoluto e em definitivo de verdade alguma, tendo
que se satisfazer em custodiar por um espaço de tempo que Popper chamou de "estágio de veracidade",
aquilo que o consenso científico definiu "provisoriamente" como
verdadeiro até que se prove o contrário, a Igreja Institucional proclama
"suas verdades" como sendo "absolutas",
"definitivas", "imutáveis", "infalíveis",
"absolutamente seguras", sobre as quais em hipótese alguma pode
pairar dúvida ou questionamento.
Quando Albert
Einstein manifestou certa vez, publicamente, sua vontade de "conhecer a
mente de Deus", todos aqueles que consideravam a ciência como inimiga da
fé e da religião elevaram suas mãos para os céus e suspiraram aliviados:
"glória a Deus nas alturas!". A questão que no atual estado das
coisas se coloca parece ser bem diferente: quem, na verdade, representa uma ameaça - se é que representa:
a ciência para a religião ou a religião para a ciência? Quem, afinal de contas,
se apresenta como único senhor e possuidor da verdade? Quem afinal considera
suas verdades como absolutamente indubitáveis e portanto inquestionáveis? Quem,
afinal, se autoproclama detentor do único caminho, da única verdade, e da única
fonte de vida? Há muito a ciência vem humildemente revendo seus princípios,
seus postulados e seus pressupostos - por vezes mais por pressão interna que
por vontade própria, é bem verdade. A Igreja Institucional há séculos parece
vir percorrendo exatamente o caminho inverso: de tempos em tempos vai
acrescentando dogma após dogma ao seu já
vastíssimo e diversificado repertório. Dentre eles, um dos mais polêmicos e
controversos - para não dizer "agressivos" - do ponto de vista do
diálogo interconfessional e ecumênico: o dogma da "infalibilidade
papal". Uma sutil revivescência - ou talvez não tão sutil assim - da
clássica declaração "urbi et orbi" de que "Roma locuta, causa
finita", e de quem detém afinal a última palavra. E ponto final! Assim,
enquanto o pensamento científico vai progressivamente abrindo mão de suas
antigas pretensões no tocante à "absolutez" e incontestabilidadede
suas verdades, a religião - via Igreja Institucional - vai se apropriando cada
vez mais, indébita e indevidamente, desse espaço deixado em aberto pela
ciência. Duro golpe para o estudioso e o investigador científico, que já haviam
presenciado a investigação filosófica durante todo o médio evo sofrer
indevidamente esse mesmo tipo de interferência e desapropriação:
"fhilosofhiae ancilla theologiae" - "a filosofia é uma serva da
teologia", serva esta agora substituída pela ciência. Mudam-se o vassalos,
mas o suserano - a rigor, a "suserana" - permanece o mesmo. E segue o
andor que a chuva vem chegando.
De acordo com
Sócrates, se existem verdades a serem buscadas pela razão humana, tais verdades
não estão fora, mas dentro de nós mesmos. Nenhum dogma professado por qualquer
religião que se conheça se dispôs até agora a reconhecer e partir desse
pressuposto - exceção talvez a ser feita
ao Budismo, que para muitos, "strictu sensu", sequer deveria ser
considerado religião. Muito pelo contrário, são verdades "reveladas"
e vindas de fora, não importando a distância. Todas essas religiões demandam
nossa fé e nossa adesão a tais verdades", de preferência sem um mínimo de
questionamento ou qualquer interrogação. Rarissimamente uma religião - qualquer
que seja ela - favorece e estimula a espiritualidade, entendida esta como busca
pessoal, única, livre e indelegável. A "conformidade" - no sentido de
"homogeneidade" - e com ela o conformismo, tem sido ao longo dos
séculos e milênios a marca registrada de todas e das mais diferentes religiões.
A trajetória espiritual pessoal chega a ser vista como uma espécie de
"ameaça" à sobrevivência da "co"letividade ou da
"co"munidade; o "todo" se mostra pouco resiliente para
"suportar" a autonomia e o crescimento das partes. Pode ser exagero,
e de fato parece sê-lo, mas parece haver sérias razões de fundo em praticamente
todas as críticas que atribuem às religiões categorias ou atributos como:
"conformismo", conformidade, "alienação" e
"acriticidade". Nem toda razão é de fato crítica como deveria; parece
ser apenas parcialmente verdadeira a afirmação kantiana de que "todo ser
humano é, por natureza, filósofo". Potencialmente, sem dúvida; se de fato,
essa já é uma outra história.
Concluindo de
vez: toda religião que faz jus a esse nome é e será sempre um misto de
divindade e humanidade. A tarefa missionária de todo apóstolo, discípulo e
seguidor, é esforçar-se para que a dimensão divina prevaleça sobre a humana, e
não o contrário. Muitos dentre os próprios apóstolos demoraram demais para
compreender isso; alguns talvez sequer chegaram a esse nível de compreensão. A
idéia e a pretensão de se manifestar ao mundo como "esposa" de
Cristo, por parte da Igreja Institucional, não parece "casar" bem com
as melhores lições de humildade deixadas pelo mestre. Quando um dogma ou uma
interpretação inadequadamente literal entram por uma porta, o sagrado direito à
dúvida e ao questionamento saem furtivamente pela outra. Mas o
"Espírito" continua e continuará soprando, sempre, em todos os
sentidos e direções. Abrir as portas, portões e janelas não só das construções
mas também da mente e dos corações, será sempre percebido como um gesto de boa
vontade em favor do diálogo e do entendimento. São nesse sentido as palavras de
Deepak Chopra: "ao longo da evolução de Deus as pessoas anseiam por
transformação. Cada religião se assemelha aum programa de treinamento, visando
trocar a concha da mortalidade pelo manto reluzente da imortalidade. Quando as
religiões insistem que apenas um programa funciona - e que os descrentes serão
punidos como hereges por discordarem - a imortalidade se perde em meio ao
dogma".
(* ) Possui graduação em teologia pelo Instituto
teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do
Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de
Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia
Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos
professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário
de Vila Velha, ES.Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos
e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta
de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular.
Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de
Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo
Comportamental.
https://www.escavador.com/sobre/3708588/lindolivo-soares-moura
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