sexta-feira, 13 de março de 2026

8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 

 8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 


'TOMAI E COMEI, ISTO  É  O  MEU CORPO, TOMAI EBEBEI,  ISTO  É  O MEU SANGUE': AS MAIS CONTROVERTIDAS AFIRMAÇÕES DE UM MESTRE  CHAMADO JESUS" [Parte II]

         "Faz parte da natureza das religiões marcar terreno  exclusivo para  sua versão

          particular e igualmente  exclusiva de Deus"[Deepak Chopra]

Obs.: 1)Esta segunda parte complementa e finaliza a primeira de mesmo título.

            2) O texto já foi publicado em maio de 2024.       

[03] "EU SOU O CAMINHO: NINGUÉM VAI AO PAI SENÃO POR MIM": Induismo,  Zoroastrismo e Budismo, dentre outras, foram religiões originadas pelo menos meio milênio antes do Cristianismo. Diante desse fato caberia perguntar: Jesus teria feito essa mesma afirmação - "eu sou o caminho! Ninguém vai ao Pai senão por mim! - mirando fixamente o rosto de um induista, um zoroastrista ou um budista? Quando Jean Yves-leloup perguntou ao líder tibetano Dalai Lama qual seria para ele a melhor religião do mundo, foi surpreendido com a seguinte resposta: "a melhor religião do mundo é aquela que faz de você uma pessoa melhor". Seria perfeitamente aceitável se ele, Dalai Lama, sendo um mestre zen-budista, houvesse respondido: "bem, para mim, meus seguidores e meus discípulos, a melhor religião do mundo é o Zen-Budismo". Nada haveria de estranho ou de incoerente se sua resposta houvesse sido esta. Como seria perfeitamente compreensível se um mestre hinduista respondesse à mesma pergunta afirmando ser, para ele e seus discípulos, "o Induismo", e um mestre zoroastrista "o zoroastrismo". Se Jesus foi de fato o maior psicólogo que já existiu, como afirma o orador e escritor norte-americano Mark W. Baker, com certeza ele não teria feito - de forma categórica como se afirma tê-lo feito diante de seus seguidores e discípulos - essa mesma afirmação diante de um crente budista, induista ou zoroastrista, nem certamente diante de um crente fiel e seguidor de qualquer outra religião. Afirmar, portanto, que Jesus seja o único caminho que leva ao Pai, tudo bem: fica bem para os cristãos que acreditam nisso. Afinal, como sabemos, o Deus professado pelo Cristianismo é um Deus uno e ao mesmo tempo trinitário, que se revela nas pessoas do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Aproveitar o embalo, e com intenções proselitistas, afirmar que Jesus é também e ao mesmo tempo o único caminho que leva ao único Deus existente, e não somente ao "Deus Pai" dos cristãos e do cristianismo, é mais uma vez operar uma "extrapolação" e uma "apropriação indébitas" que certamente não contariam sequer com o aval do próprio Jesus. Está é mais uma das razões que levaram Nietzsche a afirmar que "o verdadeiro e autêntico Cristianismo morreu na cruz". Já tive ocasião de afirmar, em outra reflexão, que a razão principal da crítica nietzscheana ao monoteísmo cristão não é o monoteísmo em si, ou o monoteísmo propriamente dito, mas sim o monoteísmo excludente e "exclusivista operado de uma forma leviana, para não dizer insana, pela Igreja e a ortodoxia cristã - os termos são perfeitamente aceitáveis, desde que não se leve a afirmação pelo lado pessoal. Mais uma vez aqui o discurso ecumenista cai por terra deixando de fazer qualquer sentido. Afinal, se Jesus é o único caminho não só para os cristãos, mas também para todos os demais crentes e seguidores desta ou daquela religião, o respeito cede lugar à tolerância, e o discurso ecumenista lugar ao proselitismo. Liberdade de expressão religiosa não se "tolera"; se respeita e se celebra, como já afirmado anteriormente. Como um dos maiores, senão o maior psicólogo que já existiu, com certeza Jesus poderia ser tudo, menos proselitista; não casa com seu estilo. Ao contrário, e com todo respeito ao dizer isso, com o estilo da Igreja Institucional casa! E muito! "Ide pelo mundo inteiro, pregai o evangelho a toda criatura", não só tornou-se proselitismo desenfreado, como veio a ser causa de muita perseguição, condenação, tortura e morte ao longo dos tempos. Felizmente as torturas e as fogueiras cessaram; não, porém, a mentalidade excludente, exclusivista e proselitista. "Muitos caminhos levam a Roma!", diz um conhecido e sábio ditado; de Roma para o mundo, e do mundo para Deus, um só!

[04] "E O SENHOR ELOGIOU O ADMINISTRADOR DESONESTO PORQUE ELE AGIU COM ESPERTEZA": esta clássica afirmação de Lucas, colocada na boca de Jesus, está entre aquelas que têm suscitado maior dificuldade de interpretação ao longo dos séculos. Intérpretes de renome chegaram a afirmar que toda a passagem relacionada ao "administrador infiel ou desonesto" seria  "in"-interpretável, malgrada a advertência sempre esclarecedora de que Jesus não teria louvado a desonestidade ou o roubo em si mesmos, e sim a "esperteza" do administrador. A pergunta é simples: você faria uso de um recurso didático e pedagógico como esse na educação e formação de um filho ou neto seu? Pessoalmente, respondo sem pestanejar: não! Não faria! De forma alguma! Aí vem a pergunta que não aceita calar: se nem eu e nem você o faríamos, por qual razão Jesus, mestre e pedagogo infinitamente mais cônscio e sábio do que todos nós, o faria ou teria feito? Qualquer eticista ou moralista mediano sabe que por mais nobre e elevado que se considere um "fim", obviamente ele na pode ser atingido indiferentemente por qualquer "meio". E sem dúvida o meio de que se serve Lucas para seu propósito - por mais nobre que esse propósito seja - de  nobreza e sensatez parece ter pouco ou quase nada. Muito pelo contrário, percebe-se claramente que ele lança mão de um artifício inadequado e reprovável em todos os sentidos. Essa passagem no seu todo, e sobretudo a afirmação central em que o Senhor louva e elogia a esperteza do administrador desonesto, é sem dúvida um dos exemplos mais claros e incontestes de que o criador de uma narrativa, seja ele considerada "inspirada" ou não, pode acabar humanamente se excedendo e se  equivocando, mesmo quando impulsionado pela mais nobre e reta das intenções. Platão muito provavelmente terá feito algo parecido com Sócrates, que continuou sendo o principal interlocutor de seus famosos "diálogos", mesmo  quando estes continuavam sendo escritos décadas depois da morte do seu mestre. Sim, o mestre precisava continuar sendo lembrado e reverenciado; era mais do que justo e Platão sabia muito bem disso. Mas a forma como essa reverência acabou sendo prestada acabou representando um complexo e delicado problema para a posteridade: saber que palavras e afirmações eram de fato de Sócrates, e que palavras ou afirmações não passavam de pensamentos e convicções do próprio Platão colocados na boca de seu mestre. A fidelidade ao mestre gerou assim uma espécie de "infidelidade" - no mínimo uma imperdoável falta de respeito e consideração - para com os biógrafos e intérpretes tanto de um como de outro - tanto de Sócrates como de Platão. Se é praticamente certo que Jesus não teria feito uso das palavras deixadas por Lucas nessa passagem - menos ainda se "sob inspiração" ou sob o sopro do Espírito Santo - Lucas terá cometido para com Jesus a mesma infidelidade cometida por Platão para com Sócrates. O certo é que Jesus certamente não "assinaria embaixo" o texto sobre o "administrador desonesto", retratado por Lucas, ainda que a esperteza nesse caso seja louvável na mesma intensidade que a boa e reta intenção do evangelista. Por muito, muito menos, diversos apócrifos tiveram seus escritos literalmente recusados e banidos do cânon eclesiástico. O fato de Lucas ser considerado pela tradição cristã e pela Igreja Institucional como o padroeiro dos médicos e dos artistas não pode ser considerado razão, e muito menos um álibi, para que lhe seja feita tamanha concessão. Padres, bispos, e provavelmente até sua Santidade, o sucessor de Pedro, demonstram claro e manifesto desconforto quando têm que se defrontar com essa passagem e com qualquer interpretação que ela venha suscitar às mentes e inteligências mais bem intencionadas. Nessa hora, sinceramente, não resta outra alternativa senão rezar! E muito! Haja inspiração!

[05] "PORTANTO, DEVEIS SER PERFEITOS COMO VOSSO PAI CELESTIAL É PERFEITO": de acordo com o ex-embaixador nicaraguense junto à Santa Sé , Ricardo Peter, o Cristianismo é a primeira religião do mundo - e talvez seja a única, acréscimo nosso -  a propor a perfeição divina como modelo a ser intencional e conscientemente perseguido. O que de "per si" já seria estranho se considerarmos o fato de que o divino e o humano se revestem de naturezas totalmente distintas e em vários aspectos literalmente opostas. Deus, como se sabe, é "omni" em tudo, ao menos em tudo que é virtuoso: "onipresente", "onisciente", "onipotente" e por aí segue a carruagem das grandezas divinas. O ser humano, inversamente, não é "omni" em nada. Se for, e eu estiver enganado, será com certeza em praticar o pecado, já que de acordo com o ensinamento da Santa Madre Igreja tanto podemos ir para o céu como para o inferno. Por toda a eternidade, diga-se de passagem. Só de pensar nisso me dá arrepios. Mas o tema aqui é outro; portanto prossigamos retomando o fio da meada. Karim Khoury, em "Com a corda toda. Autoestima e qualidade de vida", afirma que "uma das maneiras mais eficazes de uma pessoa se sentir infeliz, culpada e deprimida, é comparar-se com parâmetros ideais ou idealizados, visto que isso acaba colocando uma enorme pressão sobre sua autoestima. Dessa forma seu referencial passa a ser a realidade do outro e não a sua própria vida". E conclui: "uma comparação inadequada fará com que você se sinta mal sem ao menos saber o porquê. Ao invés disso, comemore as suas qualidades e acabe de vez com o suplício das comparações". Portanto a afirmação de Mateus colocada na boca de Jesus deve ser considerada no mínimo infeliz, para não dizer suspeita e inadequada. Na chamada "passagem paralela" de Lucas, o termo "perfeito" desaparece, dando lugar a "misericordioso" - "sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso" - e embora a comparação ou a idealização persista, ela é sem dúvida mais acessível e mais humana do que o obsessivo perfeccionismo de Mateus. Uma vez mais, porém, chama a atenção o fato de que muitas palavras e afirmações não necessariamente têm sua origem na boca daquele de quem se fala, e sim na mente daqueles que contam e relatam o acontecido. Daí a sábia afirmação de Freud: "quando Paulo me fala de Pedro, conheço menos de Pedro do que de Paulo". Isso, claro, em pouco ou nada diminui o valor do relato enquanto dimensão soteriológica, ensino e ensinamento; apenas sugere reserva e prudência por parte de quem ensina, interpreta, e também se dá à tarefa de comentar criticamente tais relatos ou narrativas. Mateus antes de se colocar como discípulo, seguidor e evangelista, era como se sabe cobrador de impostos - "fiscal da receita", diríamos hoje - ao passo que Lucas era médico, e tinha portanto boas razões para preferir e ressaltar mais a "misericórdia" do que a "perfeição, diferentemente do publicano Mateus. Todavia essa sutil diferença não pode "passar batida" e nem resultar indiferente para os intérpretes e evangelizadores: a obsessão pela perfeição tem produzido um tipo de pessoas demasiado rígidas, intoleráveis e intolerantes, ao passo que a obsessão pela prática da misericórdia, não; pelo contrário, tem levado homens e mulheres de todas as raças e de todos os tempos, ao extremo da generosidade, da bondade e da doação. Francisco de Assis, Madre Tereza, Irmã Dulce, Padre Pio e João Paulo II, como de resto o próprio Jesus, são apenas alguns exemplos de misericórdia e bondade que continuam sendo referência para o mundo todo, e não  apenas para esta ou aquela religião. Ainda assim caberia a pergunta: afinal, de qual palavra ou conceito teria se servido Jesus para transmitir sua mensagem e seu ensinamento? Dir-se-á que isso não é o mais importante, e que o contexto em que cada narrativa surgiu e a intencionalidade do evangelista é o que de fato interessa. Isso não deixa de ser verdade, mas tampouco é suficiente para elucidar a complexidade de uma afirmação como a de Mateus, e sobretudo para minimizar as consequências que surgem em decorrência de sua opção pela perfeição. A pior delas, como já foi observado, é o fato de que a obsessão pelo perfeccionismo que estabelecesse Deus como parâmetro, tem inevitavelmente produzido pessoas de baixíssima autoestima, baixíssima tolerância, e baixíssima capacidade de compreensão. E isso, claro, não é nada bom. A melhor saída, portanto, quando o texto de referência é Mateus, em uma dada celebração, não seria passar horas e horas interpretando e tentando encontrar justificativas para sua opção terminológica, como geralmente acontece, e sim estabelecer um paralelo com a narrativa de Lucas, e poder de forma mais confortável, pedagógica e segura, explanar e propor a misericórdia e o amor - e não a "perfeição" - como virtude a ser imitada em Jesus. A perfeição - com todo respeito pela sugestão - que fique para os anjos e santos, que já estão a pelo menos meio caminho entre o humano e o divino; ao menos é o que se ensina e se pressupõe. No mais, "glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!". Às mulheres também, claro!

À guisa de conclusão: de acordo com Deepak Chopra, um dos principais expoentes de uma nova espiritualidade, Deus, mesmo sendo por essência e natureza um ser eterno e imutável, evolui e continua evoluindo. A princípio tal afirmação se mostra claramente destituída de sentido, tendo-se em vista que toda evolução pressupõe alguma forma de mudança ou de transformação. O próprio Deepak, entretanto, se adianta no sentido de oferecer uma alternativa de solução para o impasse. Ele afirma: "o que evolui, na verdade, é o entendimento humano que se tem sobre Deus. Há milhares de anos, talvez desde os tempos das cavernas, a mente humana possui a capacidade de abstrair a existência de uma realidade superior. Pinturas sagradas e estátuas são tão antigas quanto a civilização, precedem a linguagem escrita e talvez até a agricultura. Quando a consciência evolui Deus também evolui". Compare agora essa afirmação de Chopra com esta outra, de Frei Carlos, ex-reitor do Santuário de Frei Galvão, interior de São Paulo: "dogma quer dizer verdade. Uma verdade absoluta, definitiva, imutável, infalível, e absolutamente segura, sobre a qual não se pode pairar nenhuma dúvida. Uma vez proclamado solenemente, nenhum dogma pode ser revogado ou negado, nem mesmo pelo papa" [conteúdo atualizado em Maio de 2023]. Tendo presente o extremo contraste entre as duas afirmações anteriores, considere agora o fato de que Igreja, enquanto Instituição, tenha proclamado ao longo dos séculos nada menos que 43 dentre seus principais dogmas, de acordo com a mesma fonte acima citada; o último deles em 1950, com o Dogma da Assunção de Maria. O curioso de tudo isso é que de um modo geral as religiões são muitíssimo mais pretensiosas  e ambiciosas em relação à verdade do que a própria ciência, com uma diferença básica: enquanto na ciência o conceito de veracidade é sempre precedido pela investigação e a busca de evidências - a conclusão jamais precede a investigação, exceto em forma de hipótese - com a religião ocorre exatamente o contrário: com ou sem provas ou evidências, um juízo qualquer passa a ser automaticamente aceito como verdadeiro tão logo seja "proclamado" como tal. "Roma locuta, causa finita!". Fecha-se a tampa, apertam-se os parafusos, e baixam-se em definitivo defunto e caixão. Assim, enquanto depois de Karl Popper a ciência teve que se humilhar e admitir não ser possuidora em absoluto e em definitivo de verdade alguma, tendo que se satisfazer em custodiar por um espaço de tempo que Popper  chamou de "estágio de veracidade", aquilo que o consenso científico definiu "provisoriamente" como verdadeiro até que se prove o contrário, a Igreja Institucional proclama "suas verdades" como sendo "absolutas", "definitivas", "imutáveis", "infalíveis", "absolutamente seguras", sobre as quais em hipótese alguma pode pairar dúvida ou questionamento.

Quando Albert Einstein manifestou certa vez, publicamente, sua vontade de "conhecer a mente de Deus", todos aqueles que consideravam a ciência como inimiga da fé e da religião elevaram suas mãos para os céus e suspiraram aliviados: "glória a Deus nas alturas!". A questão que no atual estado das coisas se coloca parece ser bem diferente: quem, na verdade,  representa uma ameaça - se é que representa: a ciência para a religião ou a religião para a ciência? Quem, afinal de contas, se apresenta como único senhor e possuidor da verdade? Quem afinal considera suas verdades como absolutamente indubitáveis e portanto inquestionáveis? Quem, afinal, se autoproclama detentor do único caminho, da única verdade, e da única fonte de vida? Há muito a ciência vem humildemente revendo seus princípios, seus postulados e seus pressupostos - por vezes mais por pressão interna que por vontade própria, é bem verdade. A Igreja Institucional há séculos parece vir percorrendo exatamente o caminho inverso: de tempos em tempos vai acrescentando dogma após dogma ao seu  já vastíssimo e diversificado repertório. Dentre eles, um dos mais polêmicos e controversos - para não dizer "agressivos" - do ponto de vista do diálogo interconfessional e ecumênico: o dogma da "infalibilidade papal". Uma sutil revivescência - ou talvez não tão sutil assim - da clássica declaração "urbi et orbi" de que "Roma locuta, causa finita", e de quem detém afinal a última palavra. E ponto final! Assim, enquanto o pensamento científico vai progressivamente abrindo mão de suas antigas pretensões no tocante à "absolutez" e incontestabilidadede suas verdades, a religião - via Igreja Institucional - vai se apropriando cada vez mais, indébita e indevidamente, desse espaço deixado em aberto pela ciência. Duro golpe para o estudioso e o investigador científico, que já haviam presenciado a investigação filosófica durante todo o médio evo sofrer indevidamente esse mesmo tipo de interferência e desapropriação: "fhilosofhiae ancilla theologiae" - "a filosofia é uma serva da teologia", serva esta agora substituída pela ciência. Mudam-se o vassalos, mas o suserano - a rigor, a "suserana" - permanece o mesmo. E segue o andor que a chuva vem chegando.

De acordo com Sócrates, se existem verdades a serem buscadas pela razão humana, tais verdades não estão fora, mas dentro de nós mesmos. Nenhum dogma professado por qualquer religião que se conheça se dispôs até agora a reconhecer e partir desse pressuposto -  exceção talvez a ser feita ao Budismo, que para muitos, "strictu sensu", sequer deveria ser considerado religião. Muito pelo contrário, são verdades "reveladas" e vindas de fora, não importando a distância. Todas essas religiões demandam nossa fé e nossa adesão a tais verdades", de preferência sem um mínimo de questionamento ou qualquer interrogação. Rarissimamente uma religião - qualquer que seja ela - favorece e estimula a espiritualidade, entendida esta como busca pessoal, única, livre e indelegável. A "conformidade" - no sentido de "homogeneidade" - e com ela o conformismo, tem sido ao longo dos séculos e milênios a marca registrada de todas e das mais diferentes religiões. A trajetória espiritual pessoal chega a ser vista como uma espécie de "ameaça" à sobrevivência da "co"letividade ou da "co"munidade; o "todo" se mostra pouco resiliente para "suportar" a autonomia e o crescimento das partes. Pode ser exagero, e de fato parece sê-lo, mas parece haver sérias razões de fundo em praticamente todas as críticas que atribuem às religiões categorias ou atributos como: "conformismo", conformidade, "alienação" e "acriticidade". Nem toda razão é de fato crítica como deveria; parece ser apenas parcialmente verdadeira a afirmação kantiana de que "todo ser humano é, por natureza, filósofo". Potencialmente, sem dúvida; se de fato, essa já é uma outra história.

Concluindo de vez: toda religião que faz jus a esse nome é e será sempre um misto de divindade e humanidade. A tarefa missionária de todo apóstolo, discípulo e seguidor, é esforçar-se para que a dimensão divina prevaleça sobre a humana, e não o contrário. Muitos dentre os próprios apóstolos demoraram demais para compreender isso; alguns talvez sequer chegaram a esse nível de compreensão. A idéia e a pretensão de se manifestar ao mundo como "esposa" de Cristo, por parte da Igreja Institucional, não parece "casar" bem com as melhores lições de humildade deixadas pelo mestre. Quando um dogma ou uma interpretação inadequadamente literal entram por uma porta, o sagrado direito à dúvida e ao questionamento saem furtivamente pela outra. Mas o "Espírito" continua e continuará soprando, sempre, em todos os sentidos e direções. Abrir as portas, portões e janelas não só das construções mas também da mente e dos corações, será sempre percebido como um gesto de boa vontade em favor do diálogo e do entendimento. São nesse sentido as palavras de Deepak Chopra: "ao longo da evolução de Deus as pessoas anseiam por transformação. Cada religião se assemelha aum programa de treinamento, visando trocar a concha da mortalidade pelo manto reluzente da imortalidade. Quando as religiões insistem que apenas um programa funciona - e que os descrentes serão punidos como hereges por discordarem - a imortalidade se perde em meio ao dogma".

(* ) Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES.Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.

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