09- SANTO AGOSTINHO E A TEORIA DA ILUMINAÇÃO NATURAL
Sempre almejando a sabedoria e mais ainda a verdade, Agostinho de
Hipona passou por diversas experiências filosóficas, desde seu materialismo
racionalista, passando pelo ceticismo, até sua substituição por uma concepção
espiritualista. Porém, nunca negou a existência de Deus. Estas experiências
fizeram com que o filósofo cristão amadurecesse bastante, inclusive no que diz
respeito às Sagradas Escrituras, que passou a compreender de forma mais
significativa e profunda.
Em princípio, Agostinho havia se integrado à seita Maniqueísta,
uma doutrina persa que pregava a existência de dois polos equivalentes e em
permanente luta no universo: o Bem e
o Mal.
Perceba que segundo esse modo de pensar, além de existirem, isto é, possuírem
realidades concretas, esses elementos têm o mesmo valor ou a mesma força.
Assim, os cristãos representavam os adeptos do Bem e os pagãos e bárbaros, os
do Mal.
No entanto, foi no neoplatonismo que Agostinho percebeu a
existência das coisas incorpóreas, reorientando sua busca em um sentido
transcendente. Segundo interpretações de Platão, o Mal não existe enquanto
entidade, só o Bem como ideia ontológica por excelência. O Mal não é uma
realidade, é um juízo e uma ação errôneos por ignorância. A partir daí,
Agostinho verificou que todas as coisas são boas, porque são obras de Deus e
que o Mal é culpa da forma como utilizamos o livre arbítrio.
Mas verificou também que todos buscam a felicidade e o Bem (pensamentos
semelhantes aos de Sócrates!). Eis, então, o problema: como reconhecer o Bem e
a felicidade? Agostinho constatou, pois, que a felicidade somente se encontra
em Deus, o Bem Supremo, e que nós temos esse conhecimento em nosso íntimo, de
forma confusa.
Desse modo, Agostinho estabelece uma ordem de perfeição, uma
graduação ou distinção dos seres para alcançar esse conhecimento que nos
levaria a uma vida beata. O corpo é mortal e a alma é seu princípio de vida.
Esta distinção vai dos seres inanimados e passa pelos vegetais, animais até o
homem. Mas não termina aqui. Acima da razão (do homem) ainda há verdades que
não dependem da subjetividade, pois suas leis são universais e necessárias: as
matemáticas, a estética e a moral. Só acima destas está Deus, que as cria,
ordena e possibilita o seu conhecimento, que deve, agora, ser buscado na
interioridade do homem.
Nessa ordem e por um processo de interiorização e
busca, pode-se encontrar essas verdades porque Agostinho admite que Deus
as ilumina,
estando elas já anteriormente em nosso espírito. A doutrina da Iluminação divina
caracteriza-se por uma luz que não é material e que se atinge quando do
encontro com o conhecimento da verdade para que o homem possa ter uma vida
feliz e beata. O lembrar-se disto, isto é, o recordar-se de um conhecimento
prévio é o que o filósofo/teólogo denomina de rememoração de Deus (herança da
teoria da reminiscência platônica).
Agostinho teve, portanto, muita importância para a consolidação da
Igreja. Isto porque em um momento de crise sobre posições divergentes, o seu
pensamento evidenciava a necessidade de conciliar razão e fé, utilizando a
filosofia como um instrumento que esclarecia ou explicava a relação do homem
com Deus, ainda que nesta devesse prevalecer a fé. Também porque isso auxiliava
os interesses da Igreja com relação à conversão dos pagãos ao invés de lutar
contra eles, ampliando o número de propagadores da fé. E, assim com uma
relativa estabilidade, a Igreja poderia expandir-se ainda mais, buscando o seu
ideal de universalidade e comunidade em cristo.
Por João Francisco P.
Cabral
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP
https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/teoria-iluminacao-natural-santo-agostinho.htm
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