I-
LITURGIA
DA QUINTA-FEIRA SANTA
- Toda Liturgia da Igreja já é a celebração
do Mistério Pascal de Cristo. Contudo, de modo mais proeminente, e cumprindo
aquilo que o Senhor mandou, desde o Antigo Testamento, celebramos esta
"festa memorável em honra do Senhor". Não mais a celebramos com o
sacrifício de cordeiros e cabritos, mas com o sacrifício do único cordeiro
pascal da família de Deus (a Igreja): o Cordeiro de Deus que tira o pecado do
mundo, Jesus Cristo, que nos pede: "Fazei isto em minha memória"
(1Cor 11,24b).
- Páscoa significa passagem, conforme vimos
em Ex 12,11b: "Pois é a Páscoa, isto é, a Passagem do Senhor". Deus
antecipa ritualmente aquilo que acontecerá historicamente. A Páscoa dos judeus
celebra a salvação dos filhos de Israel da praga exterminadora. No lugar do
primogênito da família, é sacrificado um cordeiro. O sangue marca as portas
daqueles que comeram o cordeiro pascal; por isso, são salvos. Os que não estão
marcados são, em seguida, mortos. De igual maneira, a Páscoa dos judeus
antecipa outra passagem: a do Mar Vermelho, ou seja, da escravidão para a
liberdade. Os judeus não mais servem a homens ou a um país estrangeiro, mas são
livres para servir e amar a Deus e encaminharem-se para a Terra Prometida.
- De
igual modo, a graça da nova Páscoa que Jesus chama de "Nova aliança em meu
sangue" (1Cor 11,25) é antecipada ritualmente nesta Noite Santa: "na
noite em que foi entregue" (1Cor 11,23). Ele mesmo havia dito: "Ninguém
me tira a vida, eu a dou livremente" (Jo 10,18). Ritualmente Cristo doa
sua vida nos sinais do pão e do vinho, que passam a ser seu Corpo e Sangue.
Este gesto antecipa a sua morte redentora na Cruz. Quando os soldados chegaram,
nesta mesma noite, para prendê-lo, o Senhor já havia se entregado aos seus, que
amou até o fim (cf. Jo 13,1). Assim como o cordeiro pascal imolado pelas
famílias judaicas salvou os primogênitos da praga exterminadora, os que comerem
do Corpo e beberem do Sangue do Senhor serão preservados da morte e com Cristo
farão a Páscoa, isto é, a Passagem desta vida para junto do Pai.
- Na Bíblia está escrito: "Este mês será
para vós o começo dos meses; será o primeiro mês do ano [...] no décimo dia
deste mês [...] e devereis guardá-lo preso até o dia catorze deste mês"
(Ex 12,2-3.6); "Na noite em que foi o entregue, o Senhor Jesus tomou o pão"
(1Cor 11,23); "Era antes da festa da Páscoa" (Jo 13,1). Na história
humana, Deus se revela como o Salvador e a Liturgia tem um importante papel de
atualizar o tempo da graça de Deus, como nos diz o Catecismo: "A liturgia
cristã não somente recorda os acontecimentos que nos salvaram, como também os
atualiza, os torna presentes. O mistério pascal de Cristo é celebrado, não é
repetido; o que se repete são as celebrações" (CIgC 1104).
- Deus, para que seu mistério salvífico toque
cada pessoa em cada momento da história, institui um memorial, no qual os
judeus imolam o cordeiro em "honra do Senhor" (Ex 12,14) e os
cristãos o fazem "em memória" de Cristo (cf. 1Cor 11,24-25). Nós,
cristãos, seguimos o exemplo de Jesus: "Dei-vos o exemplo, para que façais
a mesma coisa que eu fiz" (Jo 13,15). Assim, a salvação, a obra de Deus em
nosso favor, nos alcança pelos rituais, símbolos, gestos e palavras atualizados
pela força do Espírito Santo, na Liturgia.
- Na tradição cristã, a palavra
"liturgia" quer expressar que o povo de Deus toma parte na 'obra de
Deus'. Por ela, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua em sua
Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção" (CIgC 1069). Contudo,
a Liturgia não é uma obra humana, mas uma obra divina, e a Igreja a faz por
mandato divino. Vejamos o início de nossos textos: "O Senhor disse a
Moisés e a Aarão no Egito" (Ex 12,1); São Paulo diz: "O que eu recebi
do Senhor, foi isso que vos transmiti" (1Cor 11,23); em João encontramos:
"Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz" (Jo
13,15). Portanto, é obra e mandato divino o que fazemos na Igreja e por ela.
Nenhum ser humano tem poder sobre a Liturgia, porque ela é uma ação divina na
qual, nós tomamos parte como instrumentos e como recebedores da graça. É por
ela, de modo único, que a salvação nos chega. Assim, o gesto de Jesus de lavar
os pés dos discípulos e a resposta.
-
"Se eu não te lavar, não terás parte comigo" (Jo 13,8) - confirmam a
graça de Cristo derramada em nós e por nós. A Liturgia da Igreja não é um
apêndice ou um detalhe, mas é o modo pelo qual a salvação nos toca. Não é
possível entrar na vida da graça, na vida da salvação, sem permitir que Cristo
nos toque, nos abrace e nos lave os pés. É verdade que a Liturgia não esgota
toda a vida da Igreja, mas é o seu ápice. Ela é obra de Cristo e ação da
Igreja: por meio dela, Cristo anuncia o Evangelho, Cristo derrama a graça de
sua Cruz que dá vida nova, Ele nos envia o seu Espírito e, como ponto mais alto
desta vida, continua a se doar a nós como alimento, o Pão da Vida na
Eucaristia.
- Participemos da liturgia com atenção,
dedicação e obediência, de forma ativa, consciente e frutuosa. Permitamos que o
Senhor nos lave os pés. E, ao sermos lavados pela sua caridade, saiamos e
façamos, não coisas novas, mas a mesma coisa que o Senhor nos fez: lavar os pés
dos irmãos pela evangelização, caridade e conversão.
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