7- Irmãos e irmãs em situação de
rua: “Não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7)
Por Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães*
Este artigo atende à necessidade de refletir sobre a questão e a realidade da moradia – tema da Campanha da Fraternidade da Igreja no Brasil, coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – em relação às pessoas em trajetória (tempo mais provisório) e situação (tempo de maior extensão) de rua, com o intuito de abrir significados para a moradia e o que ela representa para cada pessoa, e de mostrar que a própria rua ensina a sair dela quando se trabalha com o método indutivo, que toma a pessoa como sujeito de sua libertação, sempre à luz do humanismo cristão.
1. Para entrar no assunto
A
moradia é um tema crucial. A Campanha da Fraternidade sobre moradia é
necessária. A inclusão do povo em trajetória ou situação de rua nesta reflexão
é o vértice da problemática a ser enfrentada. Por isso, busco entender a
moradia como algo que tem sentido próprio para as pessoas, e esse sentido
protege a dignidade delas. Alguns textos bíblicos são emblemáticos, como
veremos.
Em
seguida, debruçamo-nos sobre a realidade do povo da rua – que, na fila dos
últimos, são os últimos –, para reforçar a feliz ideia de que a libertação da
prisão das pessoas na rua (ainda que essa expressão pareça paradoxal) está no
aprendizado da própria rua, o qual a faz ser compreendida como uma espécie de
método.
Finalmente,
em vez de tirarmos conclusões sobre esse delicado assunto, sugiro continuar o
aprendizado, sempre começando de novo e inovando.
2. Para aprofundar o assunto
2.1. A moradia como sentido e dignidade
O
profeta Isaías profere sete oráculos contra Judá (Is 5,5-22; 10,1), porque o
povo não deu os frutos de justiça que Deus esperava. Todos começam pela
partícula “ai”, como faz também o profeta Amós contra as injustiças praticadas
pelos nobres. O primeiro “ai” é sobre a moradia: “Ai dos que juntam casa a casa
e que acrescentam campo a campo, até não sobrar mais lugar, […] muitas casas
ficarão por certo abandonadas” (Is 5,8.9). O acúmulo de casas de uns denuncia a
falta de casa de outros. A casa não é um bem qualquer, pois desse bem derivam
vários outros aspectos da vida, além de constituir um valor relacionado à
condição da existência humana. Por isso, a casa não é dispensável; ao
contrário, é absolutamente necessária para o viver.
O assunto “casa” é levado a sério na Escritura Sagrada. Também
nós devemos levá-lo a sério. Casa – bayit, em
hebraico, e oikos, em
grego – refere-se a um lugar físico de moradia, mas também a um espaço de
comunhão, descanso e refúgio, abarcando ainda o conceito de família, lar, e até
o próprio templo ou a igreja como a casa de Deus. Todavia, Jesus, tendo tido
uma casa em Nazaré, onde cresceu e viveu com seus pais até a idade adulta e o
início de sua vida pública, nasceu fora de uma casa.
Também
José – que era da casa e da linhagem de Davi – subiu da Galileia, da cidade de
Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, para registrar-se com Maria,
sua esposa, que estava grávida. Quando estavam ali, completaram-se os dias de
ela dar à luz. Ela deu à luz o seu filho, o primogênito, envolveu-o em faixas e
deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria (Lc
2,4-7).
A
expressão “não havia lugar para eles na hospedaria” situa José, Maria e Jesus
fora de casa, na rua ou em algum lugar improvisado, numa manjedoura – o cocho
onde os animais comiam e bebiam e que podia ou não estar dentro do estábulo,
onde ficavam os animais e o estrume, resíduos animais e vegetais em
decomposição. Jesus nasceu fora de casa, em um canto qualquer, fora de uma
moradia, em situação precária, certamente amenizada por José e Maria, mediante
seus cuidados.
Por
mais que nos esforcemos para amenizar a narrativa do nascimento de Jesus, vamos
sempre esbarrar com esta realidade: aí se deu o mistério da encarnação do
Verbo, quando a Palavra se fez carne e veio morar entre nós (Jo 1,14). Depois
Jesus cresceu e se preparou para a missão em Nazaré, numa casinha em uma vila,
onde viveu a “vida-Nazaré”, como ensina São Charles de Foucauld, que
experimentou em profundidade a vida ao estilo de Nazaré, aquela escola chamada
Nazaré.
A Bíblia, ao tratar da moradia, abre uma perspectiva de futuro,
do escaton em
Deus, onde há muitas moradas. Em Jo 14,1-4, no início das palavras de
despedida, com o objetivo de dar consolação aos seus discípulos, Jesus lhes
diz: “Não se perturbe o vosso coração! […] na casa de meu Pai há muitas moradas
[…],vou preparar-vos um lugar. E depois que eu tiver ido preparar-vos um lugar,
voltarei e vos levarei comigo”. A morada na casa do Pai, com espaços diversos
para todos, é o suficiente para a calmaria do coração. Há uma evidência da
importância da morada aqui, já, e no ainda não, depois; uma afirmação do Reino,
que aqui começa por dom de Deus e aceitação do ser humano e adquire sua
plenitude na eternidade feliz, na morada do Pai. Há uma relação entre morar
aqui e morar lá, como se disséssemos que moramos aqui para morarmos lá; morar
onde quer que estejamos, mas sempre “morar”. As “muitas moradas” fazem
referência à vastidão e à abundância da casa do Senhor, que oferece lugar a
cada pessoa, sem que o critério seja o merecimento, e sim sua graça e seu amor,
oferecidos por Jesus, aqui e na convivência eterna.
2.2. A rua como método para encontrar o sentido e a dignidade
O papa
Francisco falou, discorreu e insistiu sobre uma nova configuração
teológico-pastoral da Igreja, de modo a ressituá-la interiormente, para que
seja desalojada, desacomodada, “desaburguesada”, e externamente, para que seja
uma presença profética e misericordiosa nas periferias existenciais, sociais,
geográficas e ambientais. Ele a definiu como “Igreja em saída”. É um movimento
eclesial fundamental de sair de si e ir ao encontro do outro e lá permanecer,
exercendo sua precípua missão evangelizadora, de modo que a proximidade de
Jesus Cristo não seja privilégio de alguns, mas real possibilidade para todos,
especialmente para os sofredores, pobres e marginalizados.
Dando
um passo adiante, fez realizar-se um sínodo dos bispos, organizado e vivenciado
de forma participativa, para tratar da sinodalidade da Igreja, o que quer dizer
que na Igreja todos caminham juntos, afetiva e efetivamente. Não é difícil
concluir que o caminhar junto da Igreja é o caminhar rumo à saída, pavimentando
o caminho com a cultura do encontro, fazendo o bem, acolhendo e incluindo os
periféricos do mundo. Com a eleição do papa Leão XIV, houve quem pensasse que
ele não trilharia esse caminho; ao contrário, porém, ele tem insistido na
sinodalidade da Igreja, como expressou aos bispos italianos em 17/6/2025,
dizendo que “a sinodalidade deve tornar-se uma mentalidade, no coração, nos
processos de decisão e nos modos de agir”, e também como se dirigiu aos
representantes de outras Igrejas e religiões em 19/5/2025: “Desejo
assegurar-vos minha intenção de continuar o compromisso do papa Francisco na
promoção do caráter sinodal da Igreja Católica” (Fernández, 2025).
Essa
dinâmica teológico-pastoral faz a Igreja encontrar-se, frutuosamente, com os
que não têm moradia, com os que vivem pelas rodovias, ruas, rincões e cortiços
das metrópoles, sem teto, sem terra, sem casa. Hoje, o déficit habitacional no
Brasil chega aos 32 milhões de unidades: faltam mais de 6 milhões de moradias,
enquanto 26 milhões são inadequadas (Mansur, 2024) e precisam ser substituídas.
O Dique da Vila Gilda, em Santos-SP, a maior palafita do Brasil, reúne mais de
26 mil pessoas que moram em assoalhos apoiados em estacas nas águas do mar,
construção que reiteradas vezes sofre incêndios com vítimas traumatizadas e
fatais, de crianças a pessoas idosas desamparadas.
Reafirmamos
que a moradia é um direito constitucional de toda pessoa humana no Brasil, e
que esse direito é violado sistematicamente há séculos. A moradia é o lugar de
cada um, mas é também a existência, porque morar é existir em algum lugar. Ela
é um território onde as pessoas permanecem, com endereço, acesso e registro,
mas é também o lugar de sonhar e trabalhar pela dignidade da vida e por
expectativas melhores. A moradia de cada um deve ser “construída sobre a
rocha”, no sentido literal – de um bom alicerce que a sustente – e no sentido
bíblico, espiritual, segundo o qual viver a Palavra de Deus é como construir a
moradia em lugar firme, que as tempestades da vida não abalam.
Nesse
universo estão as pessoas em situação de rua, ou seja, pessoas vitimadas por
situações que as colocaram, literalmente, na rua, pela força prepotente e
avassaladora da dependência de drogas ilícitas e lícitas, pela força da extrema
pobreza e da miséria e pela força de profundos e dolorosos conflitos nas
relações interpessoais, familiares e grupais. Na perspectiva da Igreja em
saída, as pessoas encontradas em situação de rua, além de serem consideradas
verdadeiramente “pessoas humanas”, precisam ser reconhecidas como “irmãos e
irmãs”, na perspectiva da fraternidade cristã, como reza o Evangelho e a
Doutrina Social da Igreja. Essa é a Igreja que expressa a centralidade de Jesus
Cristo e não negocia o Evangelho do Reino de Deus sob hipótese alguma, já que o
Evangelho do Reino é a síntese de toda a mensagem e da própria pessoa de Jesus
Cristo.
A rua
deve ensinar métodos de restauração humana, com base na ideia de que cada
pessoa em situação de rua se torna, inexoravelmente, o sujeito aprendiz de sua
verdadeira liberdade e dignidade. É assim que trabalha a Pastoral do Povo da
Rua, hoje presente em muitas cidades do Brasil e amplamente reconhecida. Na rua
é preciso fazer a passagem do não ir nem vir (porque as pessoas nessa situação
ou trajetória são encurraladas em determinados espaços) para o ir e vir com
liberdade; da rua sem sentido e totalmente irrelevante (porque ela é uma prisão
a céu aberto) para a rua que faz sentido e torna-se relevante para cada um, com
sua história de vida; da rua como lugar de andar (andam o tempo todo) para a
rua onde se aprendem métodos que libertam, métodos que fazem as pessoas
solidárias, esperançosas, e métodos para vencerem a situação de rua,
recuperarem as moradias e viverem apaziguadas em relação às ruas.
3. Para começar de novo o assunto
Como
são irmãos e irmãs em situação de rua, a fraternidade não cessa; não cessa a
necessidade de sempre começar de novo e cada vez de forma nova, reinventando os
passos, o caminho, a chegada. A fraternidade é uma característica humano-cristã
extremamente potente. Ela é a mais alta forma de qualificar os discípulos e
discípulas de Jesus e todos os membros da espécie humana. A vivência da
fraternidade desencadeia processos que se traduzem em assistência,
solidariedade,
esmola, caridade.
Os
programas, projetos e políticas públicas orientados pelo imperativo ético que
deve presidir a escolha de prioridades por parte dos agentes públicos, com a
finalidade de superar o déficit habitacional e os problemas referentes à
moradia, serão sempre necessários. Será necessário sempre começar de novo.
A mesma
atitude é requerida quando tratamos o assunto em âmbito eclesial, na
perspectiva pastoral, particularmente quando entendemos que fazer pastoral com
o povo da rua é, em vários sentidos, ir para a rua, estar com as pessoas e com
elas caminhar.
Referências bibliográficas
FERNÁNDEZ, Card. V. M. Sinodalità:
perché no e perché sì. 6 set. 2025. Disponível em:
https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/fernandez/documents/rc_ddf_doc_20250906_fernandez-relazione-corso-vescovi_it.html.
Acesso em: 2 out. 2025.
MANSUR, R. Brasil tem déficit habitacional de mais de seis
milhões de domicílios […]. G1,
21 jun. 2024. Disponível em:
https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2024/06/21/brasil-tem-deficit-habitacional-de-mais-de-seis-milhoes-de-domicilios-veja-ranking-de-estados.ghtml.
Acesso em: 2 out. 2025.
PASTORAL
NACIONAL DO POVO DA RUA. Coordenação de Ivone Maria Perassa e padre Marcos
Augusto Mendes, sj. Disponível em: https://pastoraldopovodarua.org.br/. Acesso
em: 2 out. 2025.
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães*
*é bispo diocesano de Santos-SP, teólogo pastoralista,
professor na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte, membro do Observatório da
Comunicação Religiosa do Brasil e do Observatório Eclesial Brasil, catequista,
educador, servidor da Pastoral Nacional do Povo da Rua pela CNBB.
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