4.2-
O Senhor olha o Coração –
Iluminados por Cristo – Os Frutos da Luz
A Liturgia da Palavra desse Quarto Domingo da Quaresma é marcada
por um outro símbolo batismal que é a luz, presente na Segunda Leitura e também
no Quarto Evangelho. A unção de Davi, o mais novo dos filhos de Jessé, revela
os critérios de Deus, pois, o Senhor olha o coração do homem. Pois, é esse o
parâmetro que utiliza em suas escolhas, desde o povo de Israel, pequeno e
frágil, chegando até aos discípulos de Jesus. No encontro de Jesus com o cego
torna-se presente, mais uma vez, o modo de escolher de Deus, pois, ao curá-lo,
Jesus ilumina seus olhos e coração, de modo que ele se torna seu discípulo. Os
discípulos, ontem e hoje, iluminados por Cristo, à exemplo do cego, são
convidados a produzir frutos próprios da luz: a bondade, a justiça e a verdade,
como indica a Segunda Leitura da Carta aos Efésios.
Diante da cena descrita na Primeira Leitura fica claro o modo de
escolher de Deus, já que prefere o frágil e jovem Davi a seus irmãos, descritos
por suas imponentes aparências. Coloca-se assim, em evidência o critério divino
utilizado no chamado, já que Deus não julga como os homens, mas, olha o coração
e não a aparência. Em sua liberdade de escolha, o Senhor pousa os olhos no
pequeno Davi, que nem mesmo foi levado em consideração, quando Samuel chegou
para ungir um dos filhos daquela casa. Mas, como os pensamentos de Deus não são
iguais aos pensamentos dos homens (Is 55,8-9), a sua predileção recai sobre o
pequeno pastor, que estava junto de suas ovelhas nos campos. Deus escolhe os
fracos, os menores, os indefesos, aqueles que muitas vezes não contam, a fim de
manifestar a sua força e o seu poder. Isso ocorreu sempre em toda a história de
Israel, com Davi, com o cego do Evangelho, com todos os discípulos e discípulas
de Jesus e acontece ainda hoje. O Senhor continua chamando e convidando aqueles
que deseja para a realização de seu projeto de amor, pois, ao escolher ele se
dirige aos homens, buscando a bondade e a verdade, próprias dos que servem a
Deus de coração sincero.
A cura do cego junto à piscina de Siloé é introduzida por uma
afirmação de Jesus que se encontra no capítulo anterior ao texto litúrgico,
quando afirma: Eu sou a Luz do mundo (Jo 8,12). O texto litúrgico em questão
também possui um contexto bastante próprio e importante de ser ressaltado que é
o da Festa das Tendas. Uma festividade anual que ocorria na cidade de Jerusalém
e reunia judeus e pessoas vindas de toda a parte para recordarem o período de
Israel no deserto guiado pelo Senhor. Um momento peculiar da cidade que se via
invadida por várias tendas, nas quais os que participavam da festa permaneciam.
A cidade era iluminada pela luz que partia do Templo e era espalhada em meio a
todos, fazendo com que fossem iluminadas as várias tendas dispostas por todos
os lados. Todavia, neste contexto de tamanha festa, cheia das luzes e cantos, o
homem cego continuava o seu caminho, privado da luz e do convívio social. Ao
encontrar-se com Jesus, ele é curado e também iluminado interiormente,
iniciando assim, o seu caminho que o levará à sua profissão de fé. Junto dele
se apresentam os seus vizinhos, os fariseus e seus pais, todos incrédulos
diante do sinal realizado por Jesus. O cego curado e iluminado por Cristo vai
aos poucos se abrindo à profissão de fé que fará, enquanto os demais, por sua
vez, se fecham tornando-se cegos diante da Luz que é Cristo. A distinção entre
o cego, os seus vizinhos e pais é clara, já que esses tinham medo de reconhecer
o sinal realizado, professando assim a fé em Cristo, sob pena de serem expulsos
da sinagoga. No que diz respeito aos fariseus, por se sentirem instruídos nas
coisas divinas, iluminados segundo os seus próprios critérios, mas, não segundo
os de Deus, fecham-se ao sinal se perdem, tornando-se cegos e longe da
salvação. O cego, por sua vez, ao encontrar-se com Jesus, no final do relato,
já curado de sua cegueira física e iluminado pela Luz de Cristo, pôde professar
a fé, prostrando-se diante Daquele que o tinha curado plenamente. Neste caso,
muito além da cura física a questão que se coloca é a vida nova daquele que era
cego e que em seu encontro com Cristo foi iluminado interiormente, assim como
diz a carta aos Efésios: "Desperta tu que dormes e sobre ti Cristo
resplandecerá" (Ef 5,14). Todos os cristãos, à exemplo do cego, são
chamados a ir à Cristo nesse período de quaresma, a fim de que, encontrando-se
com Ele sejam iluminados por sua Luz e por sua Palavra, confirmados na fé e
acolhidos como seus discípulos e discípulas missionários.
A Carta aos Efésios é bem direta quando propõe o modo de vida
daqueles que foram iluminados por Cristo que, por sua graça, nasceram para uma
vida nova. É direta a afirmação: "Outrora éreis trevas, mas, agora sois
luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade,
justiça, verdade” (Ef 5,8). O autor reconhece que todos os que foram marcados
pelo encontro com Cristo, que morreram com Cristo para a vida velha e nasceram
com Ele para a vida nova, são chamados a viver segundo os valores do Evangelho.
Na verdade, aos seus discípulos Jesus apresentou um caminho diferenciado e
novo, marcado por valores que iam além dos limites de um amor já provado e
reconhecido. Ele indica uma estrada que deve ser trilhada respondendo ao
chamado daqueles que foram escolhidos, segundo os critérios de Deus como Davi e
iluminados pela sua Luz, à exemplo do cego do Evangelho. O que o autor da Carta
aos Efésios pede aos seu ouvintes é que deixem-se tocar pela Luz de Cristo, a
fim de que sejam iluminados e renovados interiormente. De fato, o cristão que
se torna discípulos de Cristo assume para si o caminho do Mestre, marcado por
escolhas que o aproximam da vontade do Pai e o afastam de toda a espécie de
mal. Por isso, ao afirmar que os frutos da luz são bondade, justiça e verdade,
ele apresenta uma estrada a ser percorrida e um tipo de postura de vida a ser
adotada por aqueles que são chamados ao caminho do discipulado missionário.
Isto é, todos os que foram iluminados pela Luz de Cristo e curados de suas
cegueiras, tornam-se sinais da presença de Deus no mundo e na história,
trazendo a novidade de Deus para o dia a dia da vida. Sendo assim, espera-se
dos cristãos posturas que reflitam a bondade de Deus, principalmente com os
pequenos e pobres, com os que mais precisam e são excluídos. Que se tornem
profetas da justiça divina, que é a misericórdia dirigida aos seus filhos e
filhas, de modo especial na direção dos mais fracos e indefesos. Que sejam a
voz da verdade do Evangelho que questiona as escolhas da sociedade quando não
oferece condições dignas para todos e ainda privilegia uns poucos em detrimento
de tantos. Algo que é bem descrito na proposta da Campanha da Fraternidade, ao
convidar a todos a mudarem a forma de olhar para os necessitados, tornando-se
sinais do amor de Deus junto aos que mais precisam.
Que o Quarto Domingo da Quaresma forme a todos segundo os
critérios de Deus e desperte nos corações o desejo de ir a Cristo à exemplo do
cego de nascença, a fim de que iluminados por sua presença, graça e Palavra,
todos se tornem seus discípulos. De modo que, os frutos da Luz de Cristo na
vida da Igreja seja a presença de cristãos autênticos, capazes de dar razões à
sua fé e de viverem como novos homens e mulheres, marcados pelos valores da
bondade, da justiça, da solidariedade e da verdade.
Pe. Andherson
Franklin Lustoza de Souza
https://diocesecachoeiro.org.br/dicas-de-homilia-4o-domingo-da-quaresma-2/
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