REFLEXÃO PARA
A SEXTA-FEIRA SANTA
-
UMA MORTE HUMANA, DEMASIADO HUMANA
Por Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Jesus não agia nem decidia como se tudo estivesse programado; ou
seja, não seguia um script que
determinava tanto o que falava quanto o que fazia. Não podemos pensar que Jesus
fosse uma marionete nas mãos de Deus. As ações dele e suas palavras/mensagens
eram marcadas pela solidariedade diante das tragédias da vida. É mais razoável
assentir que o cotidiano de Jesus se configurava em função das dores e das
crises de seu povo. Em meio à contradição da vida de homens e mulheres é que
ele se inseria e decidia seus discursos e comportamentos. Jesus fez da solidariedade
seu grande programa de vida. E nós?
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 52,13-53,12)
Na
primeira leitura, encontramo-nos com o quarto cântico do Servo. Nesse cântico,
o sofrimento e a morte são consequência da missão. Posteriormente, os redatores
do Novo Testamento farão a releitura desse texto como se tratasse da morte de
Jesus. Não há sacrifício expiatório, e sim prática de solidariedade. Deus não
precisa de uma vítima expiatória para salvar o povo. Precisa, sim, de ações de
misericórdia e de solidariedade em relação às pessoas. A prática da
solidariedade é muito mais útil do que o sacrifício. Na verdade, podemos dizer
que a antropologia é muito mais importante do que a teologia; ou seja, a
maneira como tratamos uns aos outros interessa mais a Deus do que a maneira
como o tratamos. O texto de Isaías insiste na substituição do sacrifício pela
prática da solidariedade: “No entanto, Javé queria esmagá-lo com o sofrimento:
se ele entrega sua vida em reparação pelos pecados, então conhecerá seus
descendentes, prolongará sua existência, e o projeto de Javé triunfará por meio
dele” (v. 10). Com isso, desautoriza a teologia oficial do pós-exílio, que se
fundamentava na prática do sacrifício.
2. II leitura (Hb 4,14-16; 5,7-9)
Jesus
somente está junto a Deus por ter exercido a solidariedade para com as pessoas.
Nele podemos manter a fé, porque seus passos sempre se direcionaram àqueles que
precisavam urgentemente de gestos de solidariedade e de fraternidade. Nele não
há insensibilidade à fraqueza, pois foi justamente a partir da fraqueza que se
fez forte. O auxílio oportuno somente se manifesta quando temos condições de
nos juntarmos aos pobres e fracos deste mundo. A obediência encontrou em Jesus
a plenitude (v. 7-9). Tornou-se ele mesmo exemplo que deve ser seguido e
imitado. Sua obediência produz frutos não para ele mesmo, mas para todos
quantos lhe obedecem. Para estes, ele se torna “fonte de salvação” (v. 9). Por
ter se solidarizado com a humanidade ao enfrentar a morte, Jesus pode ser
chamado, ao mesmo tempo, de Filho de Deus e sacerdote de Melquisedeque. Desde
que Cristo se assentou no trono de Deus, já não há perigo para os crentes se
aproximarem dele (cf. Is 6,1-6; Ex 19,21), visto que se converteu em “trono da graça”
(v. 16), pois se apresenta como nosso irmão, conhece por experiência (v. 15)
nossa situação de debilidade e, por isso, está presente solidariamente para nos
socorrer.
Deve-se
salientar que o autor de Hebreus, ao falar do sumo sacerdote, abre mão do aspecto
de autoridade (Hb 3,1-6) para insistir unicamente no aspecto da solidariedade.
Cristo se mostrou solidário à humanidade ao haver adotado uma atitude de
humildade. Hebreus 5 descreve de forma bastante precisa o caminho de humildade
e de solidariedade que conduziu Cristo ao sacerdócio. Trata-se de evocação
impressionante da paixão de Cristo, que nos faz pensar particularmente em sua
oração no Getsêmani (Mt 26,36-44). Vemos como Cristo compartilhou até o fim
nossa condição humana, com tudo o que isto supõe de miséria e de sofrimento. Em
meio à angústia de uma morte iminente, ele reza, grita e chora (v. 7).
Mostrando-se compassivo para com os fracos (Hb 5,2), sua situação corresponde
àquela que todo sumo sacerdote precisa aceitar para ser capaz de verdadeira
compaixão.
1.
Evangelho (Jo 18,1-19,42)
A cena
transcorre num jardim. Deliberadamente, Jesus nele entra para enfrentar, nesse
momento, as forças do mal, que se apresentam na forma do poder imperial em
aliança com as lideranças religiosas. É impressionante a força do diálogo entre
Jesus e os soldados e como Jesus demonstra ter real clareza sobre sua
identidade: “‘Quem vocês estão procurando?’ Responderam-lhe: ‘Jesus Nazareno’.
Jesus lhes disse: ‘Sou eu’” (18,4-5). Não há espaço para dúvidas. As palavras de
Jesus são diretas, certeiras. Gaguejar, jamais. Tão certeiras são as palavras,
e, mesmo que sejam apenas duas – EU SOU –, os soldados caem no chão. São
palavras densas de significado e, portanto, não voltam vazias. O jardim ainda
continuaria a produzir flores. As forças do mal até mesmo poderiam pensar que a
vitória estava com elas. Os soldados cumpriam exemplarmente uma ordem militar.
No entanto, desconheciam por completo que a entrega amorosa da vida de Jesus
representava o retorno ao Pai e, consequentemente, o “reverdejamento” do
jardim. O império do mal jamais poderia impedir a chegada da primavera. Uma
morte humana, demasiado humana. Em seu relato da paixão, João insiste na
soberana liberdade que Jesus manifestou ao se aproximar de sua própria morte. Ao
enfrentar a tragédia que se avizinhava, ele teve a competência de converter
essa prova inevitável em um ato de amor e de solidariedade. Nem por isso,
porém, João e os demais evangelistas deixam de mostrar a angústia e,
provavelmente, a dúvida que se apoderaram de Jesus condenado à cruz. O próprio
Jesus compartilhou a sorte comum a toda a humanidade. Com sua morte e
ressurreição, a morte mudou de sentido. Decerto ela continua a ser o final
aparentemente absurdo da existência humana. No entanto, de uma vez por todas,
deixou de ser o sinal veemente da ruptura desesperada que nos leva para longe
do Amor definitivo. A morte designa a caducidade biológica e a total finitude
do ser humano. Ensina-nos que somos provisórios, não definitivos, e insiste em
lembrar que possuímos um horizonte limitado. A ressurreição de Jesus nos
recorda que há um retorno ao amor de Deus. Se, na primeira leitura,
observávamos que o sofrimento e a morte do Servo eram consequências de sua
missão, podemos também afirmar que o sofrimento e a morte de Jesus refletem sua
missão junto ao povo.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
1) A
solidariedade é marca essencial do discípulo de Jesus. É ela, fundamentalmente,
que nos faz romper com nosso próprio mundo e passar a caminhar em direção a
outros mundos de possibilidades. Solidários, temos condições de nos abrirmos à
partilha. Rompemos com a prática do egoísmo e com a cultura própria do consumo.
Paramos de recitar o “compro, logo existo” para exercitarmos a prática de obras
de misericórdia para com todos aqueles que nos rodeiam.
2)
Jesus é o EU SOU que confronta os poderes da morte. Apenas a presença dele é
suficiente para desestruturar toda e qualquer manifestação de antivida. Como
testemunhas que somos do EU SOU, também nos cabe compreender que nossas práticas,
valores e ações são suficientes para desestruturar as manifestações de morte,
violência, pobreza e discriminação espalhadas por toda a sociedade.
Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
*é doutor em
Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e
pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor
no programa de mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR) e no Centro Universitário Internacional (Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado
em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel
em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). Professor na
Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do roteiro do
4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/3-de-abril-paixao-do-senhor-lasr/
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