sexta-feira, 31 de julho de 2026

4- REFLEXÕES PARA O 18.º DOMINGO DO TEMPO COMUM- A 4.1- DAI-LHES VÓS MESMOS DE COMER

 

 

4- REFLEXÕES PARA O 18.º DOMINGO DO TEMPO COMUM-  A

4.1- DAI-LHES VÓS MESMOS DE COMER

Ao iniciarmos o mês de agosto, a Igreja nos convida a celebrar o Mês Vocacional, tempo em que nossas comunidades são animadas a contemplar, agradecer e rezar com as diversas vocações que sustentam a vida e a missão da Igreja: do ministério ordenado à vida familiar, da consagração religiosa ao serviço generoso dos leigos. Neste Domingo, o Evangelho nos coloca diante de uma das cenas mais marcantes da vida pública de Jesus: a multiplicação dos pães. Trata-se de um acontecimento tão significativo que todos os evangelistas o narram. Em Mateus, porém, um detalhe ilumina de modo especial a espiritualidade deste domingo: o convite — ou melhor, o envio — que Jesus dirige aos discípulos diante da multidão faminta: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Essa frase simples e direta é o coração do Evangelho e o eixo que une todas as leituras da liturgia de hoje. A multiplicação dos pães acontece logo após o martírio de João Batista, ocorrido em um banquete na corte de Herodes. Ali, por pressões e interesses dos poderosos, decreta-se a morte das esperanças do povo, simbolizadas no testemunho profético de João. O banquete de Herodes é, portanto, o banquete da morte. Ao receber a notícia da morte de João, Jesus retira-se para um lugar deserto — talvez para rezar, talvez para chorar. Mas a multidão o segue. E, ao vê-la, Jesus enche-se de compaixão. A compaixão de Jesus não é mero sentimento; é movimento, decisão e compromisso. Ele cura, acolhe, escuta e permanece. Em contraste com a atitude de Jesus, o posicionamento dos discípulos revela superficialidade e falta de envolvimento. Eles dizem: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” (Mt 14,15). Diante da escassez e da hora avançada, os discípulos fazem o que qualquer pessoa sensata faria: sugerem que cada um cuide de si. É a lógica da autopreservação, do “não temos como”. É também a lógica que tantas vezes domina nossas comunidades, famílias e instituições: “não temos recursos”, “não temos gente”, “não temos tempo”, “não temos condições”. É a lógica do despedir, do não se comprometer. A resposta de Jesus é desconcertante: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14, 16). Jesus não substitui os discípulos; Ele os envolve, compromete e responsabiliza. A missão não é um espetáculo em que Jesus faz tudo e nós assistimos. A missão é um trabalho conjunto: Ele multiplica, mas nós repartimos. Os discípulos apresentam sua pobreza: “Só temos cinco pães e dois peixes.” É pouco, insuficiente diante da multidão. Mas é exatamente isso que Jesus pede: o pouco. O milagre começa quando deixamos de esconder o pouco que temos e o colocamos nas mãos d’Ele. O problema nunca é ter pouco; o problema é reter o pouco. Assim acontece com o grande pecado social que atravessa a história: reter, acumular, não dividir os bens necessários à vida. A bênção e a partilha transformam a escassez em superabundância. O milagre não é apenas a multiplicação física dos alimentos, mas a conversão do olhar: onde os discípulos veem falta, Jesus vê possibilidade; onde o cálculo humano enxerga limites, o amor divino abre caminhos. A multidão é saciada não porque alguém tinha muito, mas porque todos se dispuseram a partilhar. A multiplicação dos pães revela-se como o banquete da vida. Enquanto o palácio de Herodes celebra a violência e o poder que elimina o justo, Jesus reúne o povo simples no deserto e oferece um banquete que nasce da compaixão, da partilha e da confiança. Um banquete que não mata, mas alimenta; que não exclui, mas reúne; que não oprime, mas devolve dignidade. Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães antecipam a Eucaristia. Mateus descreve Jesus tomando os pães, erguendo os olhos, abençoando, partindo e distribuindo — os mesmos verbos da Última Ceia. A multiplicação dos pães é, portanto, um sinal eucarístico. A Eucaristia não é apenas alimento para nós; é formação para a missão. Quem come o Pão da Vida deve tornar-se pão partido para os demais, especialmente para os mais necessitados. São Paulo nos recorda que nada pode nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus (Rm 8,39). A multiplicação dos pães é expressão visível desse amor inseparável, que cuida, alimenta e sustenta nossa caminhada na fé. “Dai-lhes vós mesmos de comer!” não é uma frase do passado. É um imperativo atual, dirigido à Igreja de hoje. A missão cristã não é delegável, terceirizada ou opcional. Jesus continua dizendo à sua Igreja: “Vocês é que vão alimentar.” A Eucaristia que recebemos nos transforma em Eucaristia para o mundo. O pão que partilhamos no altar nos envia a partilhar o pão da vida cotidiana. Que este domingo reacenda em nós a coragem de oferecer o pouco que temos, confiando que, nas mãos de Cristo, ele se tornará abundância para muitos. A missão nasce sempre assim: não de estratégias, mas de compaixão; não de cálculos, mas de olhar; não de teorias, mas de proximidade.

Dom Márcio Antonio Vidal de Negreiros, OSA Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região Santana

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