4- REFLEXÕES PARA O 18.º DOMINGO DO TEMPO COMUM- A
4.1- DAI-LHES
VÓS MESMOS DE COMER
Ao
iniciarmos o mês de agosto, a Igreja nos convida a celebrar o Mês Vocacional,
tempo em que nossas comunidades são animadas a contemplar, agradecer e rezar
com as diversas vocações que sustentam a vida e a missão da Igreja: do
ministério ordenado à vida familiar, da consagração religiosa ao serviço
generoso dos leigos. Neste Domingo, o Evangelho nos coloca diante de uma das
cenas mais marcantes da vida pública de Jesus: a multiplicação dos pães.
Trata-se de um acontecimento tão significativo que todos os evangelistas o
narram. Em Mateus, porém, um detalhe ilumina de modo especial a espiritualidade
deste domingo: o convite — ou melhor, o envio — que Jesus dirige aos discípulos
diante da multidão faminta: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Essa
frase simples e direta é o coração do Evangelho e o eixo que une todas as
leituras da liturgia de hoje. A multiplicação dos pães acontece logo após o
martírio de João Batista, ocorrido em um banquete na corte de Herodes. Ali, por
pressões e interesses dos poderosos, decreta-se a morte das esperanças do povo,
simbolizadas no testemunho profético de João. O banquete de Herodes é,
portanto, o banquete da morte. Ao receber a notícia da morte de João, Jesus
retira-se para um lugar deserto — talvez para rezar, talvez para chorar. Mas a
multidão o segue. E, ao vê-la, Jesus enche-se de compaixão. A compaixão de
Jesus não é mero sentimento; é movimento, decisão e compromisso. Ele cura,
acolhe, escuta e permanece. Em contraste com a atitude de Jesus, o
posicionamento dos discípulos revela superficialidade e falta de envolvimento.
Eles dizem: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as
multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” (Mt 14,15). Diante
da escassez e da hora avançada, os discípulos fazem o que qualquer pessoa
sensata faria: sugerem que cada um cuide de si. É a lógica da autopreservação,
do “não temos como”. É também a lógica que tantas vezes domina nossas
comunidades, famílias e instituições: “não temos recursos”, “não temos gente”,
“não temos tempo”, “não temos condições”. É a lógica do despedir, do não se
comprometer. A resposta de Jesus é desconcertante: “Eles não precisam ir
embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14, 16). Jesus não substitui os
discípulos; Ele os envolve, compromete e responsabiliza. A missão não é um
espetáculo em que Jesus faz tudo e nós assistimos. A missão é um trabalho
conjunto: Ele multiplica, mas nós repartimos. Os discípulos apresentam sua
pobreza: “Só temos cinco pães e dois peixes.” É pouco, insuficiente diante da
multidão. Mas é exatamente isso que Jesus pede: o pouco. O milagre começa
quando deixamos de esconder o pouco que temos e o colocamos nas mãos d’Ele. O
problema nunca é ter pouco; o problema é reter o pouco. Assim acontece com o
grande pecado social que atravessa a história: reter, acumular, não dividir os
bens necessários à vida. A bênção e a partilha transformam a escassez em
superabundância. O milagre não é apenas a multiplicação física dos alimentos,
mas a conversão do olhar: onde os discípulos veem falta, Jesus vê
possibilidade; onde o cálculo humano enxerga limites, o amor divino abre
caminhos. A multidão é saciada não porque alguém tinha muito, mas porque todos
se dispuseram a partilhar. A multiplicação dos pães revela-se como o banquete
da vida. Enquanto o palácio de Herodes celebra a violência e o poder que
elimina o justo, Jesus reúne o povo simples no deserto e oferece um banquete
que nasce da compaixão, da partilha e da confiança. Um banquete que não mata,
mas alimenta; que não exclui, mas reúne; que não oprime, mas devolve dignidade.
Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães antecipam a Eucaristia. Mateus
descreve Jesus tomando os pães, erguendo os olhos, abençoando, partindo e
distribuindo — os mesmos verbos da Última Ceia. A multiplicação dos pães é,
portanto, um sinal eucarístico. A Eucaristia não é apenas alimento para nós; é
formação para a missão. Quem come o Pão da Vida deve tornar-se pão partido para
os demais, especialmente para os mais necessitados. São Paulo nos recorda que
nada pode nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus (Rm 8,39). A
multiplicação dos pães é expressão visível desse amor inseparável, que cuida,
alimenta e sustenta nossa caminhada na fé. “Dai-lhes vós mesmos de comer!” não
é uma frase do passado. É um imperativo atual, dirigido à Igreja de hoje. A
missão cristã não é delegável, terceirizada ou opcional. Jesus continua dizendo
à sua Igreja: “Vocês é que vão alimentar.” A Eucaristia que recebemos nos
transforma em Eucaristia para o mundo. O pão que partilhamos no altar nos envia
a partilhar o pão da vida cotidiana. Que este domingo reacenda em nós a coragem
de oferecer o pouco que temos, confiando que, nas mãos de Cristo, ele se
tornará abundância para muitos. A missão nasce sempre assim: não de
estratégias, mas de compaixão; não de cálculos, mas de olhar; não de teorias,
mas de proximidade.
Dom Márcio Antonio Vidal de Negreiros,
OSA Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região Santana
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