sexta-feira, 24 de julho de 2026

4.3- HOMILIA DO 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A O VERDADEIRO TESOURO É JESUS CRISTO

 

4.3- HOMILIA DO 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

O VERDADEIRO TESOURO É JESUS CRISTO

ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola.” (Mt 13,46)

            Continuando a apresentação das características e originalidade do Reino dos Céus, a liturgia deste domingo nos questiona, a partir de nossa vocação cristã, quais são as prioridades e os valores que fundamentam a nossa existência. Afinal, quem carrega o honroso nome de cristão, para ser verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, deve permanecer disposto a construir a sua vida sobre os valores proposto no Evangelho.

            A primeira leitura (1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o diálogo, realizado através de um sonho, entre Deus e o rei Salomão, que sucedeu a Davi, seu pai, no trono de Israel. Se Davi passou a história como modelo de rei forte, organizado e compassivo. Seu filho, Salomão, tornou-se a imagem e modelo do homem sábio. Em um sonho, Deus toma a iniciativa e procura o rei. Indaga o que seu coração busca e oferece-se para lhe conceder o que desejar. Neste encontro podemos perceber três coisas.  1ª) Mais do que um comandante de guerra, o rei é visto como o instrumento através do qual Deus conduz o seu povo. ) Salomão não enxergou o trono como um posto privilegiado, mas como um ministério/serviço que ele deveria exercer com responsabilidade afim de conduzir o povo eleito conforme a vontade de Deus. 3ª) O rei não se deixou engolir pela avareza dos altos postos e cargos de governo, pois não pediu fama, riqueza ou glória. Munido de um grande senso de responsabilidade, ele suplica que lhe sejam concedidas as habilidades necessárias para discernir entre o bem e o mal e assim ser capaz de cumprir a missão que Deus lhe confiou.

            Com estas atitudes diante de Deus, ele, o rei, se tornou o protótipo do homem “sábio”, que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir por valores passageiros ou superficiais. Deste modo, ele próprio poderia aconselhar ao povo eleito a escolher os valores eternos e essenciais que somente Deus pode oferecer. As atitudes e escolhas do rei Salomão são as mesmas que Jesus Cristo espera dos seus discípulos diante das parábolas narradas no evangelho de hoje.

            Na segunda leitura (Rm. 8,28-30) depois de afirmar que a salvação é dom universal que Deus oferece na pessoa do seu Filho, Jesus Cristo e que o Espírito Santo é a sabedoria divina que guia o coração humano para que possa acolher e viver na fidelidade o dom da graça salvífica, o Apóstolo Paulo reafirma que o caminho vivido por Jesus é a conclusão do plano de amor de Deus. Uma falha na interpretação pode levar a pensar que São Paulo está afirmando a predestinação no sentido de que a salvação é direcionada apenas a um grupo de predestinados e que Deus escolheu uma parte da humanidade para ser salva e outra não. Afirmar tal coisa conhecendo a teologia paulina se torna um erro grotesco e absurdo. Para o Apóstolo, o plano salvífico de Deus é gratuito e aberto a todos que desejam acolhê-lo. Ele é dom preparado por Deus desde toda a eternidade para toda a humanidade, no entanto, quem opta pela salvação em Jesus Cristo deve estar pronto para renunciar tudo aquilo que não se adequa ao seu projeto chamado Reino dos Céus.

            No Evangelho, continuamos acompanhando a catequese de São Mateus que visa revelar o mistério do Reino dos Céus. Depois de apresentar o Reino como uma realidade que é oferecida pela Graça a toda a humanidade (Mt 13,1-23) e que possui uma força transformadora, irreversível e que cresce à medida que é acolhido e vivido pelo coração humano (Mt 13-24-43), Mateus agora o apresenta como uma preciosidade inestimável, um bem incalculável oferecido por pura gratuidade, mas que exigirá a renúncia de todos os outros valores que podem querer tomar conta do nosso coração (Mt 13,44-52). Com estas parábolas, Jesus indica aos discípulos que para permanecer seguindo-o, eles deverão fazer do Reino de Céus, o centro de suas vidas como sua prioridade fundamental e vital.

            As duas primeiras parábolas apresentam o mesmo ensinamento: o Reino é uma realidade fundamental que todos devem estar dispostos a viver e acolher plenamente como seu bem mais precioso. As parábolas nos guiam por meio de três verbos presentes nas atitudes dos personagens: encontrar, vender/renunciar e alegrar-se.

            O encontro com a pessoa de Jesus ao longo dos quatros evangelhos acontece de modo semelhante ao tesouro e a pérola apresentados nas parábolas. Assim como o homem que encontrou o tesouro no campo, alguns encontraram Jesus sem que estivessem o procurando especificamente (Mt 4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,27-28; Jo 1,45-51; Mc 15,39; At 9,1-9) outros, como o comprador de pérolas, o encontraram depois de grande esforço e busca (Mt 2,1-12; Lc 8,43-48; Jo 12,20-22). Para ser capaz de encontrar Jesus se faz necessário ter o mesmo anseio que Salomão (primeira leitura): um coração simples, compreensivo e com a sabedoria capaz de discernir entre o bem e o mal. Segundo o saudoso Papa Bento XVI, todos nós devemos estar prontos para duas atitudes quando encontramos o tesouro fundamental da nossa vida: “deixar todas as outras coisas vãs para trás e, ao ouvir a voz da Verdade, que é Cristo, e segui-lo imediatamente!”

            Se a busca é o impulso que movimenta a vida de quem anseia pelo Reino, o ato de renunciar é a segunda força norteadora do seu coração. Renunciar a tudo que tem para permanecer com o que foi encontrado. O tesouro escondido, a pérola preciosa são o próprio Jesus Cristo, pois é Ele que enche a nossa existência de sentido e significado. A atitude dos personagens das parábolas é a mesma dos discípulos ao encontrar Jesus: não relutam, não ficam contabilizando perdas e ganhos (Mc 1,16-20). E uma vez feita a escolha não ficam se lamentando pelo que foi renunciado (Mc 9,17-22; Fl 3,7-14[1]). Do mesmo modo deve ser conosco ao nos encontrarmos com Cristo: precisamos estar dispostos a sacrificar tudo aquilo que consideramos o mais valioso bem para permanecer com Ele. Devemos nos perguntar: qual é a renúncia que devo fazer e ainda não o fiz? Qual valor preciso sacrificar para que meu coração seja somente de Jesus? Tudo devo renunciar porque Ele renunciou a tudo por mim. Tudo precisamos sacrificar para que Ele seja o único tesouro de nossa vida (Lc 14,25-27; Mt 10,37-39).

            Uma vez feita a escolha de renunciar tudo pelo tesouro (Cristo), a alegria deve tomar conta de quem o encontrou e escolheu segui-lo (Jo 4, 28-30; Mc 10,46-52). Nada deve nos alegrar mais do que a convicção de ter encontrado a Cristo e fazer parte da sua comunidade do Reino! Quem escolheu consagrar sua vida a Cristo deve ser sinal de alegria.

            A última parábola que narra uma rede repleta de peixes possui semelhanças com a parábola do semeador e com a do joio e o trigo. As três parábolas ensinam que o Reino dos Céus é oferecido a toda humanidade que no final dos tempos será dividida entre aqueles que optaram pelo Reino ou não. A rede que recolhe os peixes é a Igreja, a Comunidade de Jesus que permanece como sinal do Reino que cresce. Um dia, no entardecer da existência, estaremos todos, diante do pescador de nossas almas, que fará então a separação dos bons e dos maus. Por isto, a escolha por Cristo deve ser diária afim de evitar que algum pretenso tesouro efêmero queira ocupar o nosso coração.

Pe. Paulo Sergio Silva- Diocese de Crato.

https://diocesedecrato.org/homilia-do-17o-domingo-do-tempo-comum-ano-a-2/

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