4.3- HOMILIA DO 17º
DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
O VERDADEIRO TESOURO É JESUS CRISTO
“ele vai,
vende todos os seus bens e compra aquela pérola.” (Mt 13,46)
Continuando a apresentação das características e originalidade do Reino dos
Céus, a liturgia deste domingo nos questiona, a partir de nossa vocação cristã,
quais são as prioridades e os valores que fundamentam a nossa existência.
Afinal, quem carrega o honroso nome de cristão, para ser verdadeiramente
discípulo de Jesus Cristo, deve permanecer disposto a construir a sua vida
sobre os valores proposto no Evangelho.
A primeira leitura
(1Rs 3,5.7-12) apresenta-nos o diálogo, realizado através
de um sonho, entre Deus e o rei Salomão, que sucedeu a Davi, seu pai, no trono
de Israel. Se Davi passou a história como modelo de rei forte, organizado e
compassivo. Seu filho, Salomão, tornou-se a imagem e modelo do homem sábio. Em
um sonho, Deus toma a iniciativa e procura o rei. Indaga o que seu coração
busca e oferece-se para lhe conceder o que desejar. Neste encontro podemos
perceber três coisas. 1ª) Mais
do que um comandante de guerra, o rei é visto como o instrumento através do
qual Deus conduz o seu povo. 2ª)
Salomão não enxergou o trono como um posto privilegiado, mas como um
ministério/serviço que ele deveria exercer com responsabilidade afim de
conduzir o povo eleito conforme a vontade de Deus. 3ª) O rei não se
deixou engolir pela avareza dos altos postos e cargos de governo, pois não
pediu fama, riqueza ou glória. Munido de um grande senso de responsabilidade,
ele suplica que lhe sejam concedidas as habilidades necessárias para discernir
entre o bem e o mal e assim ser capaz de cumprir a missão que Deus lhe confiou.
Com estas atitudes diante de Deus, ele, o rei, se tornou o protótipo do homem
“sábio”, que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa
seduzir por valores passageiros ou superficiais. Deste modo, ele próprio
poderia aconselhar ao povo eleito a escolher os valores eternos e essenciais
que somente Deus pode oferecer. As atitudes e escolhas do rei Salomão são as
mesmas que Jesus Cristo espera dos seus discípulos diante das parábolas
narradas no evangelho de hoje.
Na segunda leitura
(Rm. 8,28-30) depois de afirmar que a salvação é dom universal
que Deus oferece na pessoa do seu Filho, Jesus Cristo e que o Espírito Santo é
a sabedoria divina que guia o coração humano para que possa acolher e viver na
fidelidade o dom da graça salvífica, o Apóstolo Paulo reafirma que o caminho
vivido por Jesus é a conclusão do plano de amor de Deus. Uma falha na
interpretação pode levar a pensar que São Paulo está afirmando a predestinação
no sentido de que a salvação é direcionada apenas a um grupo de predestinados e
que Deus escolheu uma parte da humanidade para ser salva e outra não. Afirmar
tal coisa conhecendo a teologia paulina se torna um erro grotesco e absurdo.
Para o Apóstolo, o plano salvífico de Deus é gratuito e aberto a todos que
desejam acolhê-lo. Ele é dom preparado por Deus desde toda a eternidade para
toda a humanidade, no entanto, quem opta pela salvação em Jesus Cristo deve
estar pronto para renunciar tudo aquilo que não se adequa ao seu projeto
chamado Reino dos Céus.
No Evangelho,
continuamos acompanhando a catequese de São Mateus que visa revelar o mistério
do Reino dos Céus. Depois de apresentar o Reino como uma realidade que é
oferecida pela Graça a toda a humanidade (Mt 13,1-23) e que possui uma força
transformadora, irreversível e que cresce à medida que é acolhido e vivido pelo
coração humano (Mt
13-24-43), Mateus agora o apresenta como uma preciosidade
inestimável, um bem incalculável oferecido por pura gratuidade, mas que exigirá
a renúncia de todos os outros valores que podem querer tomar conta do nosso
coração (Mt 13,44-52).
Com estas parábolas, Jesus indica aos discípulos que para permanecer
seguindo-o, eles deverão fazer do Reino de Céus, o centro de suas vidas como
sua prioridade fundamental e vital.
As duas primeiras parábolas apresentam o mesmo ensinamento: o Reino é uma
realidade fundamental que todos devem estar dispostos a viver e acolher
plenamente como seu bem mais precioso. As parábolas nos guiam por meio de três
verbos presentes nas atitudes dos personagens: encontrar, vender/renunciar e
alegrar-se.
O encontro com a pessoa de Jesus ao longo dos quatros evangelhos acontece de
modo semelhante ao tesouro e a pérola apresentados nas parábolas. Assim como o
homem que encontrou o tesouro no campo, alguns encontraram Jesus sem que
estivessem o procurando especificamente (Mt
4,18-22; Mc 1,16-20; Lc 5,27-28; Jo 1,45-51; Mc 15,39; At 9,1-9)
outros, como o comprador de pérolas, o encontraram depois de grande esforço e
busca (Mt 2,1-12; Lc
8,43-48; Jo 12,20-22). Para ser capaz de encontrar Jesus se faz
necessário ter o mesmo anseio que Salomão (primeira leitura): um coração
simples, compreensivo e com a sabedoria capaz de discernir entre o bem e o mal.
Segundo o saudoso Papa Bento XVI, todos nós devemos estar prontos para duas
atitudes quando encontramos o tesouro fundamental da nossa vida: “deixar todas as outras coisas vãs para
trás e, ao ouvir a voz da Verdade, que é Cristo, e segui-lo imediatamente!”
Se a busca é o impulso que movimenta a vida de quem anseia pelo Reino, o ato de
renunciar é a segunda força norteadora do seu coração. Renunciar a tudo que tem
para permanecer com o que foi encontrado. O tesouro escondido, a pérola
preciosa são o próprio Jesus Cristo, pois é Ele que enche a nossa existência de
sentido e significado. A atitude dos personagens das parábolas é a mesma dos
discípulos ao encontrar Jesus: não relutam, não ficam contabilizando perdas e
ganhos (Mc 1,16-20).
E uma vez feita a escolha não ficam se lamentando pelo que foi renunciado (Mc 9,17-22; Fl 3,7-14[1]).
Do mesmo modo deve ser conosco ao nos encontrarmos com Cristo: precisamos estar
dispostos a sacrificar tudo aquilo que consideramos o mais valioso bem para
permanecer com Ele. Devemos nos perguntar: qual é a renúncia que devo fazer e ainda não o fiz? Qual
valor preciso sacrificar para que meu coração seja somente de Jesus?
Tudo devo renunciar porque Ele renunciou a tudo por mim. Tudo precisamos
sacrificar para que Ele seja o único tesouro de nossa vida (Lc 14,25-27; Mt 10,37-39).
Uma vez feita a escolha de renunciar tudo pelo tesouro (Cristo), a alegria deve
tomar conta de quem o encontrou e escolheu segui-lo (Jo 4, 28-30; Mc 10,46-52).
Nada deve nos alegrar mais do que a convicção de ter encontrado a Cristo e
fazer parte da sua comunidade do Reino! Quem escolheu consagrar sua vida a
Cristo deve ser sinal de alegria.
A última parábola que narra uma rede repleta de peixes possui semelhanças com a
parábola do semeador e com a do joio e o trigo. As três parábolas ensinam que o
Reino dos Céus é oferecido a toda humanidade que no final dos tempos será
dividida entre aqueles que optaram pelo Reino ou não. A rede que recolhe os
peixes é a Igreja, a Comunidade de Jesus que permanece como sinal do Reino que
cresce. Um dia, no entardecer da existência, estaremos todos, diante do
pescador de nossas almas, que fará então a separação dos bons e dos maus. Por
isto, a escolha por Cristo deve ser diária afim de evitar que algum pretenso
tesouro efêmero queira ocupar o nosso coração.
Pe. Paulo Sergio Silva- Diocese de Crato.
https://diocesedecrato.org/homilia-do-17o-domingo-do-tempo-comum-ano-a-2/
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