sexta-feira, 5 de junho de 2026

08-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*) "ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO" [Parte XI - 02]

 

08-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

[Parte XI - 02]

              "Ó Mestre,  fazei  que  eu  procure mais  consolar que  ser  consolado,  compreender que ser compreendido, amar que  ser  amado" [Atribuída São Francisco de Assis]

Do ponto de vista estrutural - e mais ainda, espiritual - as doze invocações contidas na Oração pela Paz atribuída a São Francisco podem ser agrupadas em três movimentos correlatos e indissociáveis: o ser transformado, o sair de si mesmo, e o levar esperança e consolo ao outro. Para que esse autêntico projeto de vida se concretize, a disponibilidade de entrega e o deslocamento para fora de si assumem clara centralidade. Isso nos permite concluir que tal oração é muito menos uma súplica por bênçãos, graças e benefícios em favor de si mesmo - como costuma ocorrer com demasiada frequência - e muito mais uma preocupação solidária com a dor e o sofrimento dos demais. Com raríssimas exceções tais invocações se orientam para a obtenção de algo, alguma coisa, e sim para a disposição genuína em partilhar dons, serviços e cuidados. Não apontam para a satisfação de necessidades pessoais, mas para o compromisso com responsabilidades relacionais; não expressam expectativa de ser destinatário da ação, mas a disposição de tornar-se seu agente propagador.

Aquele que intercede, apresenta-se menos como alguém que espera receber amor, compreensão, perdão ou consolo e mais como alguém que se oferece para levá-los a quem deles mais necessita. Todas e cada uma das súplicas pronunciadas parecem subordinadas a essa dinâmica fundamental; até mesmo a invocação pela transformação de si não visa prioritariamente ao benefício de si próprio, mas à capacitação para agir em favor dos demais. "Deus não escolhe os capacitados - afirma certa máxima popular - Ele capacita os escolhidos". Sob esse aspecto, a oração revela uma notável inversão de perspectiva - mas não de valores - deslocando o eixo do próprio eu para as necessidades do outro, e fazendo da disponibilidade e do compromisso para servir o seu eixo estruturante.

A pergunta que aqui parece se mostrar legítima e pertinente é: se essa dinâmica parece adequada e funcional com vistas a otimizar o encontro entre pessoas que não necessariamente se conhecem, por um tempo de convivência que pode ser breve e transitório, por quais razões ela costuma enfrentar tantas dificuldades quando se trata do encontro e da convivência entre duas pessoas que decidem investir o melhor de si uma na outra e num tipo de vínculo que é concebido, ao menos a princípio, para ser tão duradouro quanto possível? No que concerne à minha percepção, vou reduzir a resposta a duas razões principais - decisão “demasiado ousada”, diria qualquer bom terapeuta - visando descomplicar a questão e favorecer a sua compreensão: isso geralmente acontece, ou porque uma ou ambas as partes prometem sob juramento, mas na prática não entregam o melhor de si, ou porque quando entregam o melhor de si não o fazem direcionado ao companheiro e ao vínculo, mas a uma série de outros interesses e prioridades que não exatamente essa.

Veja bem: não há nada de errado - muito pelo contrário - em que o melhor de cada um de nós seja investido em diferentes projetos, áreas e campos de nossa vida, tanto pessoal quanto conjugal. Isso é normal, desejável, e na maioria das vezes necessário. O perigo não reside exatamente nessa diversificação de investimentos. O que coloca em risco ou agrava um relacionamento já em crise é quando o parceiro e o vínculo deixam de ser prioridade máxima do investimento - não necessariamente prioridade absoluta - e outros projetos e interesses passam a ocupar esse lugar. Poucos conseguem compreender que também isso é uma “traição”, uma infidelidade ou, se se preferir, uma gritante deslealdade. Não suficiente, claro, para justificar como contrapartida uma traição física, por exemplo, mas que, com frequência, contribui efetivamente para que isso ocorra. Seria ingenuidade, numa eventual terapia de casal, discutir sobre qual dessas duas modalidades de “traição” seria mais grave, ou qual das partes seria mais culpada ou menos culpada pela deflagração da crise ou o seu agravamento. O sentir-se mal amado, pouco envolvido , “preterido”, não importa se em favor de uma outra pessoa, de um projeto ou profissão qualquer, pode ser vivenciado com o mesmo peso - ou com peso ainda maior - que aquele suscitado por uma traição física.

Tirar o outro do lugar em que ele sempre sonhou e espera continuar sendo mantido é como abandoná-lo em um barco à deriva justamente quando a tempestade se aproxima e as águas começam a se agitar, cada vez mais ameaçadoras. Não exatamente porque a embarcação possa estar correndo o sério risco de naufragar, mas porque atravessar qualquer tormenta sem poder contar com quem jurou pública e solenemente permanecer ao nosso lado, sobretudo em tais momentos, torna essa travessia profundamente mais difícil, sentida e dolorosa. Poucas experiências parecem ser tão devastadoras quanto perceber que, embora o outro ainda esteja fisicamente presente, já não ocupa o mesmo barco, já não enfrenta as mesmas turbulências, e sobretudo já não considera o parceiro como sua melhor escolha nem o vínculo o mais importante investimento para o qual está disposto a direcionar o melhor de si. Nesse sentido, o problema mais profundo de uma crise nem sempre é a ausência total do outro - que pode ocorrer, por exemplo, quando o divórcio se torna inevitável - mas a sua presença cada vez mais esvaziada de prioridade afetiva. O outro está, mas não está por inteiro; participa, mas não se envolve plenamente; responde, mas não se compromete o suficiente.

Paradoxalmente, é exatamente essa presença parcial - uma espécie de “meia-entrega” existencial - que, de forma um tanto discreta e progressiva, mas impiedosamente, corrói o vínculo, porque mantém a aparência de continuidade enquanto, por dentro, esvazia o sentimento de pertença e a percepção de centralidade. E o mais inquietante é que essa corrosão não se dá de modo abrupto ou facilmente identificável, mas por um processo lento de deslocamentos quase imperceptíveis, em que pequenas ausências vão se acumulando até se tornarem uma forma de presença esvaziada. O amor passa a ser uma espécie de território dividido, no qual cada um ocupa espaços que já não se comunicam com a mesma intensidade nem se reconhecem, um no outro, como projeto prioritário. Nesse território fragmentado, as fronteiras deixam de ser apenas espaciais e passam a ser afetivas, de modo que cada gesto, cada silêncio e cada escolha revelam uma reorganização interna das prioridades, nem sempre assumida, mas sempre sentida. Passam a conviver como se fossem duas vidas, dois barcos, ora navegando lado a lado, ora em direções totalmente opostas, e mesmo quando seguem na mesma direção já não o fazem movidos pela mesma força ou pela mesma expectativa de chegada, mas por uma espécie de inércia compartilhada que sustenta a forma enquanto enfraquece o conteúdo da travessia.

Um vínculo seguro é sem dúvida capaz de suportar que uma das partes - ou mesmo ambas - possa, provisória e conscientemente, direcionar o melhor de si com vistas à consecução exitosa de um projeto profissional, por exemplo. Mas, para que essa espécie de “exceção” ocorra sem colocar em risco esse vínculo, é fundamental que ambos os parceiros estejam conscientes e de acordo com a reconfiguração temporária de prioridades que essa exceção pressupõe, e que nenhum deles se sinta ameaçado de perder a centralidade do lugar que lhe cabe, não por direito, mas em virtude da mútua escolha e do consequente investimento que livremente decidiram fazer um no outro. A questão decisiva, portanto, não é a existência de prioridades circunstanciais temporárias, mas a preservação da convicção de que cada um, assim como o vínculo, continua ocupando um lugar singular e insubstituível na vida de ambos. Quando essa percepção permanece intacta, os sacrifícios exigidos por determinados projetos tendem a ser compreendidos - não raro, até compartilhados - como investimentos em um bem maior, e não como sinais de afastamento ou desinteresse. Mas o que é solução pode se transformar em crise quando aquilo que deveria constituir uma exceção passa a se tornar regra, relegando o parceiro e a própria relação a uma condição secundária e periférica e, consequentemente, cada vez mais afetivamente vulnerável. O fato é que nenhum tipo de investimento, por mais promissor que se mostre, pode ser comparado ao investimento que se faz em uma pessoa. Desconhecer ou ignorar esse princípio costuma ser determinante para a falência de considerável número de relacionamentos.

 

Obs.: Esta décima primeira parte será completada e finalizada com o tópico 03, de mesmo título.

(*)Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES.Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se  em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES.

(*) Reflexão enviada por WhatsApp, de Vitória(ES).

 

 

 

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