08-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O
VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"
[Parte XI - 02]
"Ó Mestre, fazei que
eu procure mais consolar que
ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser
amado" [Atribuída São Francisco de Assis]
Do
ponto de vista estrutural - e mais ainda, espiritual - as doze invocações
contidas na Oração pela Paz atribuída a São Francisco podem ser agrupadas em
três movimentos correlatos e indissociáveis: o ser transformado, o sair de si
mesmo, e o levar esperança e consolo ao outro. Para que esse autêntico projeto
de vida se concretize, a disponibilidade de entrega e o deslocamento para fora
de si assumem clara centralidade. Isso nos permite concluir que tal oração é
muito menos uma súplica por bênçãos, graças e benefícios em favor de si mesmo -
como costuma ocorrer com demasiada frequência - e muito mais uma preocupação
solidária com a dor e o sofrimento dos demais. Com raríssimas exceções tais
invocações se orientam para a obtenção de algo, alguma coisa, e sim para a
disposição genuína em partilhar dons, serviços e cuidados. Não apontam para a
satisfação de necessidades pessoais, mas para o compromisso com
responsabilidades relacionais; não expressam expectativa de ser destinatário da
ação, mas a disposição de tornar-se seu agente propagador.
Aquele
que intercede, apresenta-se menos como alguém que espera receber amor,
compreensão, perdão ou consolo e mais como alguém que se oferece para levá-los
a quem deles mais necessita. Todas e cada uma das súplicas pronunciadas parecem
subordinadas a essa dinâmica fundamental; até mesmo a invocação pela
transformação de si não visa prioritariamente ao benefício de si próprio, mas à
capacitação para agir em favor dos demais. "Deus não escolhe os
capacitados - afirma certa máxima popular - Ele capacita os escolhidos".
Sob esse aspecto, a oração revela uma notável inversão de perspectiva - mas não
de valores - deslocando o eixo do próprio eu para as necessidades do outro, e
fazendo da disponibilidade e do compromisso para servir o seu eixo
estruturante.
A
pergunta que aqui parece se mostrar legítima e pertinente é: se essa dinâmica
parece adequada e funcional com vistas a otimizar o encontro entre pessoas que
não necessariamente se conhecem, por um tempo de convivência que pode ser breve
e transitório, por quais razões ela costuma enfrentar tantas dificuldades
quando se trata do encontro e da convivência entre duas pessoas que decidem
investir o melhor de si uma na outra e num tipo de vínculo que é concebido, ao
menos a princípio, para ser tão duradouro quanto possível? No que concerne à
minha percepção, vou reduzir a resposta a duas razões principais - decisão
“demasiado ousada”, diria qualquer bom terapeuta - visando descomplicar a
questão e favorecer a sua compreensão: isso geralmente acontece, ou porque uma
ou ambas as partes prometem sob juramento, mas na prática não entregam o melhor
de si, ou porque quando entregam o melhor de si não o fazem direcionado ao
companheiro e ao vínculo, mas a uma série de outros interesses e prioridades
que não exatamente essa.
Veja
bem: não há nada de errado - muito pelo contrário - em que o melhor de cada um
de nós seja investido em diferentes projetos, áreas e campos de nossa vida,
tanto pessoal quanto conjugal. Isso é normal, desejável, e na maioria das vezes
necessário. O perigo não reside exatamente nessa diversificação de
investimentos. O que coloca em risco ou agrava um relacionamento já em crise é
quando o parceiro e o vínculo deixam de ser prioridade máxima do investimento -
não necessariamente prioridade absoluta - e outros projetos e interesses passam
a ocupar esse lugar. Poucos conseguem compreender que também isso é uma
“traição”, uma infidelidade ou, se se preferir, uma gritante deslealdade. Não
suficiente, claro, para justificar como contrapartida uma traição física, por
exemplo, mas que, com frequência, contribui efetivamente para que isso ocorra.
Seria ingenuidade, numa eventual terapia de casal, discutir sobre qual dessas
duas modalidades de “traição” seria mais grave, ou qual das partes seria mais
culpada ou menos culpada pela deflagração da crise ou o seu agravamento. O
sentir-se mal amado, pouco envolvido , “preterido”, não importa se em favor de
uma outra pessoa, de um projeto ou profissão qualquer, pode ser vivenciado com
o mesmo peso - ou com peso ainda maior - que aquele suscitado por uma traição
física.
Tirar
o outro do lugar em que ele sempre sonhou e espera continuar sendo mantido é
como abandoná-lo em um barco à deriva justamente quando a tempestade se
aproxima e as águas começam a se agitar, cada vez mais ameaçadoras. Não
exatamente porque a embarcação possa estar correndo o sério risco de naufragar,
mas porque atravessar qualquer tormenta sem poder contar com quem jurou pública
e solenemente permanecer ao nosso lado, sobretudo em tais momentos, torna essa
travessia profundamente mais difícil, sentida e dolorosa. Poucas experiências
parecem ser tão devastadoras quanto perceber que, embora o outro ainda esteja
fisicamente presente, já não ocupa o mesmo barco, já não enfrenta as mesmas
turbulências, e sobretudo já não considera o parceiro como sua melhor escolha
nem o vínculo o mais importante investimento para o qual está disposto a
direcionar o melhor de si. Nesse sentido, o problema mais profundo de uma crise
nem sempre é a ausência total do outro - que pode ocorrer, por exemplo, quando
o divórcio se torna inevitável - mas a sua presença cada vez mais esvaziada de
prioridade afetiva. O outro está, mas não está por inteiro; participa, mas não
se envolve plenamente; responde, mas não se compromete o suficiente.
Paradoxalmente,
é exatamente essa presença parcial - uma espécie de “meia-entrega” existencial
- que, de forma um tanto discreta e progressiva, mas impiedosamente, corrói o
vínculo, porque mantém a aparência de continuidade enquanto, por dentro,
esvazia o sentimento de pertença e a percepção de centralidade. E o mais
inquietante é que essa corrosão não se dá de modo abrupto ou facilmente
identificável, mas por um processo lento de deslocamentos quase imperceptíveis,
em que pequenas ausências vão se acumulando até se tornarem uma forma de
presença esvaziada. O amor passa a ser uma espécie de território dividido, no
qual cada um ocupa espaços que já não se comunicam com a mesma intensidade nem
se reconhecem, um no outro, como projeto prioritário. Nesse território
fragmentado, as fronteiras deixam de ser apenas espaciais e passam a ser
afetivas, de modo que cada gesto, cada silêncio e cada escolha revelam uma
reorganização interna das prioridades, nem sempre assumida, mas sempre sentida.
Passam a conviver como se fossem duas vidas, dois barcos, ora navegando lado a
lado, ora em direções totalmente opostas, e mesmo quando seguem na mesma
direção já não o fazem movidos pela mesma força ou pela mesma expectativa de chegada,
mas por uma espécie de inércia compartilhada que sustenta a forma enquanto enfraquece
o conteúdo da travessia.
Um
vínculo seguro é sem dúvida capaz de suportar que uma das partes - ou mesmo
ambas - possa, provisória e conscientemente, direcionar o melhor de si com
vistas à consecução exitosa de um projeto profissional, por exemplo. Mas, para
que essa espécie de “exceção” ocorra sem colocar em risco esse vínculo, é
fundamental que ambos os parceiros estejam conscientes e de acordo com a
reconfiguração temporária de prioridades que essa exceção pressupõe, e que
nenhum deles se sinta ameaçado de perder a centralidade do lugar que lhe cabe,
não por direito, mas em virtude da mútua escolha e do consequente investimento
que livremente decidiram fazer um no outro. A questão decisiva, portanto, não é
a existência de prioridades circunstanciais temporárias, mas a preservação da
convicção de que cada um, assim como o vínculo, continua ocupando um lugar
singular e insubstituível na vida de ambos. Quando essa percepção permanece
intacta, os sacrifícios exigidos por determinados projetos tendem a ser
compreendidos - não raro, até compartilhados - como investimentos em um bem
maior, e não como sinais de afastamento ou desinteresse. Mas o que é solução
pode se transformar em crise quando aquilo que deveria constituir uma exceção
passa a se tornar regra, relegando o parceiro e a própria relação a uma
condição secundária e periférica e, consequentemente, cada vez mais
afetivamente vulnerável. O fato é que nenhum tipo de investimento, por mais
promissor que se mostre, pode ser comparado ao investimento que se faz em uma
pessoa. Desconhecer ou ignorar esse princípio costuma ser determinante para a
falência de considerável número de relacionamentos.
Obs.: Esta décima
primeira parte será completada e finalizada com o tópico 03, de mesmo título.
(*)Possui graduação em teologia pelo
Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade
Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade
Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela
Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos
consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário
de Vila Velha, ES.Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos
e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta
de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular.
Formou-se em Psicodrama (02 anos) pelo
Instituto Pegasus de Vitória, ES.
(*) Reflexão enviada
por WhatsApp, de Vitória(ES).
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