4.3- 7 de junho – 10° DOMINGO
DO TEMPO COMUM
Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos
do Amaral**
Ele veio para os pecadores
I.
INTRODUÇÃO GERAL
No 10º Domingo do Tempo Comum do Ano A, destaca-se a temática do
encontro e da misericórdia, do perdão e do acolhimento à pessoa pecadora. Jesus
Cristo é o rosto da misericórdia do Pai (cf. Misericordiae Vultus, 2015, papa Francisco):
encarnado, evidencia quanto Deus não nos trata como exigem nossas faltas, mas
nos guia com compaixão, segurança e ternura. Hoje, Jesus contrapõe uma prática
de fé baseada estritamente na justiça a outra, ampliada pela misericórdia de
Deus.
Embora sejamos pecadores
e marcados pela realidade do mal, Jesus se aproxima de nós de modo insistente:
ele nos olha e nos ama, nos perdoa e nos chama (Evangelho). A razão do convite
para estarmos próximos do Senhor é que ele mesmo é o “remédio” que nos salva.
Somente próximos de Jesus conseguiremos purificar nossa vida, iluminar nossos
caminhos e pôr em prática seus bons ensinamentos.
Para nos tornarmos
perseverantes na proposta de vida que o Senhor Deus nos apresenta, somos
convidados a renovar nossa fé, pois é com essa chama acesa que conseguiremos
permanecer no caminho do Senhor. Dessa forma, é preciso, pois, revigorar-nos na
fé e dar glória a Deus, como nos diz o apóstolo. Que esta liturgia dominical,
oportunidade privilegiada de encontro com Deus na pessoa do seu Filho, Jesus
Cristo, nos renove e nos restaure em nossas mais diversas realidades, de vida e
de fé.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Os 6,3-6)
Nos escritos
veterotestamentários, deparamo-nos com a figura do profeta. Ele é mediador,
receptor e articulador da palavra do Senhor, sentinela e guardião. Não mantém
posto fixo, pois está presente na praça, no palácio e no átrio do templo –
ressoam seus gritos em todas as camadas da sociedade. Os profetas estão à
disposição de Deus, sobretudo pelo uso da linguagem. São homens da palavra e,
por isso, estão a seu serviço. É assim que se manifesta o sentido da vocação
profética: conduzir Israel no caminho da fé e da obediência a Deus. Nesse
sentido, na prática do amor e da justiça, o povo se reencontra no caminho que o
leva a Deus e à salvação.
Na primeira leitura,
escutamos o profeta Oseias. De modo geral, ele também assume, em si mesmo e em
sua missão, essas características apresentadas acima. A data de sua atuação
aproxima-se do reinado de Jeroboão II, entre 782 e 753 a.C. Contudo, alguns
trechos chegam perto da queda da Samaria, em 722 a.C. Nesta época, o povo
vivencia, de um lado, certa decadência religiosa e, de outro, prosperidade
material e paz política. O trecho proposto para esta liturgia integra um
conjunto maior que nos fala da infidelidade do povo na história: os erros de
ordem social e religiosa que tocam a vida de Israel, bem como suas
consequências.
O profeta, ao mencionar
os percalços que integraram a história de Israel, deseja despertar no povo a
consciência de que é necessário voltar-se a Deus: “É preciso saber segui-lo”. O
povo não possui perseverança na aliança com o Senhor: “O vosso amor é como
orvalho que cedo se desfaz”. O imperativo do profeta, porta-voz de Deus, deve
ser acolhido com generosidade de coração: “quero amor, e não sacrifícios”. O
Senhor espera do povo eleito fidelidade à aliança, para que não se desvie do
caminho proposto, caindo na tentação de outros deuses. Deus espera que seu povo
seja conduzido no caminho da fé e da obediência.
2. II leitura (Rm 4,18-25)
Este trecho da carta aos
Romanos tem inequívoca importância no conjunto da construção
lógico-argumentativa do apóstolo sobre a relação que se estabelece entre fé e
salvação. Paulo está respondendo, em certa medida, a dificuldades que surgem na
comunidade de Roma. Alguns cristãos vindos do judaísmo acreditam que a condição
para a salvação é a observância estrita da Lei mosaica. Para o apóstolo, não é
assim. Se, anteriormente, Paulo já havia afirmado que a pessoa humana é
justificada pela fé, agora ele retoma um personagem bíblico, Abraão, para dar
significado à sua argumentação.
Abraão é modelo de
pessoa temente e fiel ao Senhor. Deus prometeu-lhe terra farta e descendência
numerosa, e ele não duvidou, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus,
diz-nos o texto. Com fé em Deus, Abraão estava convencido de que o Senhor tinha
poder para cumprir o que havia prometido. Dessa forma, o v. 22 tem relevância:
“Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça”. Abraão foi justificado
não pela observância da Lei – até porque viveu em um tempo anterior à Lei –,
mas por sua fé. A fé vivenciada por esse homem – verdadeira, sincera e
autêntica – foi ocasião para sua salvação. Do mesmo modo acontecerá conosco: se
crermos naquele que ressuscitou Jesus dos mortos, seremos herdeiros de sua graça,
vida e salvação.
3. Evangelho (Mt 9,9-13)
A perícope evangélica
pode ser dividida em duas partes, que se conectam entre si: a vocação de
Mateus, o publicano, e o banquete com os pecadores. O texto é repleto de
simbolismos e significados, que não se encerram em si mesmos nem naquele que é
chamado; pelo contrário, acentuam a ação de Jesus e apontam-nos as
características fundamentais de sua missão.
A primeira parte do
texto já nos causa certa surpresa. Jesus chama um coletor de impostos, um
publicano, para segui-lo; ou seja, um pecador. Ele contribuía para a injustiça
social e econômica praticada pelo Império Romano. Era uma posição social
malvista pelos judeus, pois, muitas vezes, era o lugar da corrupção, da
ganância e da opressão. A surpresa que um judeu sentiu ao presenciar aquela
cena não deve ter passado despercebida: Jesus rompe com os critérios humanos,
sociais e religiosos da época. Mateus já era um condenado do seu tempo. O
Senhor chama alguém marginalizado e pecador para segui-lo, não um justo segundo
a Lei.
O primeiro versículo já
carrega consigo grande densidade de sentido: “Jesus viu um homem chamado
Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse: ‘Segue-me!’. Ele se levantou
e seguiu a Jesus”. O sujeito do verbo “ver” é Jesus. É o Senhor quem percebe
Mateus, e nota-o em sua profissão e atividade: coletor de impostos. Na verdade,
o texto quer-nos dizer que Jesus enxerga Mateus em sua realidade,
particularmente naquela que era ocasião de pecado para ele. O Senhor não é
ingênuo, mas sabe dos limites e das possibilidades daquele homem. Mateus está
sentado, uma posição passiva e inerte – parece quase morto em sua atual
condição de vida. Jesus faz-lhe um convite – “Segue-me” –, e ele se levanta e
vai. O fato de Mateus levantar-se de sua posição e seguir o Senhor também deve
ser sublinhado: estar levantado, ereto, erguido, de pé, será a posição do
Ressuscitado, que venceu as cadeias da morte. É de pé que o Ressuscitado
aparece no meio da comunidade reunida. Com esse chamado, Mateus renovou e
ressignificou toda sua história; agora, de pé, “ressuscitado” para uma vida
nova, seguirá a Jesus, seu Mestre e Senhor.
A segunda parte do texto
é, na verdade, consequência da primeira: o chamado se prolonga em dom de
comunhão, proximidade e amizade. Estão à mesa, em casa de Mateus, para uma
refeição: foi preparado um banquete! Ajuntam-se ali, além dos discípulos de
Jesus, muitos cobradores de impostos e pecadores. A cena é notada por alguns
fariseus, conhecedores da Lei, que se outorgavam o título de justos. Cheios de
maldade no coração, questionam os discípulos com base naquilo que veem. A
resposta de Jesus torna-se o ápice desta liturgia; mais uma vez, o Senhor
utiliza de uma mesa de refeição para transmitir um ensinamento importante. Sua
missão de chamar os pecadores, e não os justos, para participarem do Reino dos
Céus se justifica pelo fato de que os primeiros, sim, carecem desse chamado –
são os doentes que precisam de médico, não os sadios. Quem for realmente justo
já participa, antecipadamente, do Reino.
Jesus é aquele que nos
vê, nos chama e nos restaura em meio aos nossos dilemas humanos, permeados de
maldade, pecados e angústias. Esse seu movimento gera em nós dom de comunhão e
participação, de modo que o Senhor continua próximo a nós, amparando-nos, protegendo
e socorrendo. Ele usa de misericórdia, bondade e paciência com cada um de nós.
III. Pistas para reflexão
Conscientizar a
assembleia presente na liturgia da importância de perseverar no caminho de fé e
de obediência a Deus: em tempos de liquidez, é preciso (re)encontrar a prática
do amor e da justiça, que nos conduzem ao próprio Senhor. A fé, dessa maneira,
torna-se o elã vital que nos sustenta e nos revigora. Cabe-nos crer no Senhor
Jesus com profundidade e sinceridade de coração, para que avistemos a salvação.
É preciso dizer não a uma religião de pura externalidade, e sim a uma prática
religiosa que nos converta e converta nossas estruturas, tocando nossa
interioridade. Jesus é aquele que nos vê pessoalmente, nos chama e nos devolve
a dignidade de sermos chamados filhos e filhas de Deus.
Pe. Gustavo César dos
Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial
da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia
pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão
Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: gustavocesar339@gmail.com
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da
Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na
modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve,
Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/7-de-junho-10-domingo-do-tempo-comum/
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