4.3- HOMILIA DO 11º DOMINGO DO TEMPO
COMUM – ANO A
A VIDA CRISTÃ É PERENE
MISSÃO
“Ao ver as multidões,
Jesus encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como
ovelhas que não têm pastor.” (Mt. 9,36)
Depois de nos apresentar a vocação de Mateus como modelo de
discipulado e de fé, a liturgia nos convida a tomar parte nesta comunidade
nascente – a comunidade dos Discípulos – e nos deixar formar pelos valores do
Reino na escola do divino Mestre através das catequeses que Jesus Cristo, ao
longo de três anos de missão, ofereceu a todos que a Ele buscavam.
Posteriormente esta comunidade será enviada em missão para fazer o Reino dos
Céus ser conhecido por todo o mundo.
A primeira
leitura (Ex. 19,2-6ª) nos transporta para o deserto do
Sinai, lugar onde aos pés de um Monte, Deus realizou sua Aliança com o seu
Povo. Este “pacto” proposto por iniciativa de Deus, juridicamente implica
direitos e deveres que devem ser observados pelas partes envolvidas, e do ponto
de vista religioso, se tratava de um compromisso sagrado que incluía juramentos
solenes e a realização de oblações e sacrifícios.
Como acontece em toda história da salvação, a iniciativa da
Aliança é de Deus. Dentre todos os povos da terra, o Senhor escolhe Israel para
laços de comunhão e familiaridade. Este povo escolhido recebe uma missão de
tornar-se uma nação sacerdotal que será um sinal do amor e da santidade de Deus
para todas as nações. Este compromisso assumido por Deus será uma indicação do
que Ele deseja realizar com toda a humanidade. Do mesmo modo, não foram os
discípulos que escolheram Jesus dentre todos os mestres que havia em Israel. A
iniciativa do chamado foi e é sempre de Jesus Cristo (cf: Mt. 9,9-13; Mc. 1,16-20; Mc.
3,13-19; Lc.5,4-11). Assim como Deus escolheu Israel dentre
todos os povos para ser um povo sacerdotal, Jesus Cristo, dentre as multidões
que o seguiam, escolheu 72 discípulos e deste grupo de discípulos elegeu 12
apóstolos para se tornar a semente do novo Israel, a Igreja, que deveria se
tornar sinal do Evangelho para toda a humanidade.
A segunda
leitura (Rm. 5,6-11) o Apóstolo Paulo, na maturidade de
seus anos de missão, apresenta para a comunidade cristã de Roma a síntese de
sua teologia. Como vimos no domingo passado, a comunidade de Roma possuía
certas divisões por ser constituída de cristãos vindo tanto do judaísmo quanto
do paganismo e que possuíam visões diferentes sobre a lei de Moisés e sobre a
salvação. O Apóstolo lhes recorda que o essencial da fé e da salvação é a
pessoa de Jesus Cristo. Toda a humanidade pecou e foi destituída da graça, Deus
em sua benevolência se dignou nos resgatar através do seu Filho. Cabe a
humanidade aceitar a proposta realizada por Jesus através da vivência eclesial
da fé. Para Paulo, a comunidade dos discípulos é o sinal inegável do amor de
Deus. E este amor jamais deverá parar de causar encanto e espanto no coração humano.
Deus aceitou morrer por nós quando ainda estávamos mergulhados nas mazelas do
mal e do pecado. Se trata de um amor inigualável e que subverte os princípios
da racionalidade. A missão da comunidade cristã não é discutir quem deve ser
salvo ou como deve ser salvo, mas dar testemunho deste amor incomensurável cujo
ápice é apresentado na loucura da Cruz.
O Evangelho (Mt.
9,36-10,1-8) após ter apresentado Jesus anunciando a chegada do
Reino em palavras, obras, vida e verdade, e de ter mostrado a vocação de Mateus
como modelo de discipulado, a liturgia nos introduz no chamado “discurso da
missão”. Afinal, quem foi chamado e respondeu positivamente, antes de anunciar,
deve aprender com Aquele que é o Reino em pessoa, Jesus Cristo. Pois, só pode
ser verdadeiramente discípulos quem “caminhou” com Jesus, escutou seus
ensinamentos, testemunhou os sinais operados por sua Graça e deixou os valores
do Reino adentrar no coração e criar raízes perenes em sua vida. Esses “doze” –
que representam a totalidade de Israel e de toda a humanidade – serão os
continuadores da missão de Jesus e deverão anunciar a salvação e libertação que
Deus fez a toda a criação.
Mateus introduz a pessoa e as ações de Jesus Cristo imbuído dos
mesmos sentimentos que os profetas manifestaram nos oráculos divinos no Antigo
Testamento. Como acontecera outrora com Israel que fora abandonado pelos reis e
sacerdotes a própria sorte (Ez.
34,2-10), Jesus encontra o povo desnorteado, cansado e
indefeso. Ele os aconselha e exorta a clamar ao Pai pedindo zelosos pastores
através da oração. E Deus escuta os clamores, pois a vinda do Filho é a
manifestação desta escuta divina. E o Filho escolhe discípulos conforme o seu
coração (Jr. 3,17).
Ao pecar a humanidade inteira se perdeu, Deus em seu amor escolheu Israel
para resgatar a todos os povos (Ex.
28,1; Lv. 20.24,26; Dt. 7,6-11; Is. 41,8-9). Do mesmo modo,
Jesus escolhe os discípulos para que através do anúncio do evangelho eles façam
a humanidade ter conhecimento de que a salvação já se aproxima.
Essa missão – que é o prolongamento da própria missão de Jesus –
consiste em anunciar o Reino e em se opor decididamente contra tudo aquilo que
escraviza o homem ferindo a sua dignidade – “deu-lhes
poder para expulsarem os espíritos maus e curarem todo tipo de doença e
enfermidade” (Mt.
6,7). A missão acontece primeiramente na proclamação jubilosa
de que o alvorecer da salvação se aproxima, pois “o Reino dos céus está próximo!” (Mt. 10,7) Todavia a
missão não é apenas teoria, logo não são suficientes discursos e pregações. O
Reino precisa ser comunicado também em atos – eles devem curar, ressuscitar,
purificar e expulsar o mal (Mt.
10,8).
Os discípulos recebem instruções sobre como realizar a missão.
Jesus os convida viver à pobreza, à simplicidade, ao despojamento dos bens
materiais, fugindo do desejo de poder e dominação que muitas vezes leva a
buscar os próprios interesses. O Reino é também fraternidade, então um
discípulo deve apoiar o outro – sem rivalidade ou divisão – e juntos devem se
comprometer fielmente com o anúncio da mensagem de Jesus.
O envio e as instruções do Evangelho proclamado permanecem
válidos, pois a verdade independe do tempo. As condições para a missão e os
contextos variam a cada era e a cada cultura onde o evangelho é semeado,
todavia a recomendação de que da Palavra de Deus permaneça como centro da
missão e que nossas atitudes sejam reflexos da pregação são e permanecem
condições essenciais para que todas as atividades missionárias frutifiquem em
sinais concretos do Reino de Céus.
Às vezes imaginamos a missão unicamente como um tempo (uma
semana missionária, por exemplo), viagem para visitas e partilha da Palavra de
Deus. No entanto, a missão não é um momento esporádico na nossa vida cristã, na
verdade, a missão constitui a nossa essência. Não é a toa que o Documento de
Aparecida se refere aos cristãos de todos os tempos como “Discípulos Missionários”.
Assim sendo, um monge ou uma freira que vivem enclausurados em oração são tão
missionários quanto o leigo ou sacerdote que ajuda em um país distante. Todos
os discípulos são convidados a assumir a vida cotidiana como missão, pois se
trata da realidade na qual devemos servir a Deus em cada pessoa com a qual nos
encontramos. Assim compreendemos que não realizamos uma missão, nossa vida é
missão.
Pe. Paulo Sérgio Silva.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição –
Farias Brito
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