8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL
RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"
[Parte
XI - 03]
"Ó Mestre, fazei que
eu procure mais consolar que
ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser
amado” [Atribuída a São Francisco de Assis].
Responda
rápido, de preferência sem refletir: em algum momento de sua vida você já
sentiu uma profunda paz em meio a uma situação de imensa dor ou grande
sofrimento? Ou, inversamente, já se sentiu profundamente angustiado,
atormentado, em meio a uma situação de intensa alegria e profunda felicidade?
Considere ainda a seguinte situação: uma jovem em um leito de hospital, vivendo
a proximidade da morte em virtude de uma enfermidade irreversível: pode essa mesma
jovem experimentar paz intensa em sua alma? E por fim: uma pessoa bela,
fisicamente saudável, que acaba de ser notificada de que é herdeira de uma
fabulosa fortuna: pode essa pessoa se sentir profundamente angustiada diante de
uma notícia dessa natureza? E então, chegou a responder "não" a
alguma dessas perguntas? Se sim, a qual delas, exatamente? Agora reveja a
pergunta e também sua resposta. Isto porque, sob certo prisma - aquilo que
Nietzsche chamou de- "perspectivismo" - todas e cada uma das indagações mencionadas
podem ser respondidas afirmativamente. Isso por uma razão bastante simples,
embora nem sempre no radar da consciência de grande número de pessoas -
sobretudo de parceiros, cônjuges e cuidadores em geral: paz e felicidade podem
e devem, claro - é o que se pressupõe e se espera - harmonizar-se segundo um
mesmo e único diapasão; mas, por razões alheias à nossa vontade, e que
raramente conseguimos alcançar, nem sempre é o que acontece. Há situações em
que, mal a felicidade entra por uma porta, a paz sai discretamente por uma
outra. Quando isso acontece, a mente não se aquieta e a alma não se acalma.
Como se isso não bastasse, há situações tão ambíguas que podem produzir
felicidade e angústia ao mesmo tempo.
Pense,
por exemplo, no nascimento de um filho intensamente desejado e por longo tempo
aguardado. Trata-se, sem dúvida, de um dos acontecimentos mais felizes e
gratificantes da vida de inúmeras pessoas e casais. Ainda assim, não é raro que
esse mesmo acontecimento venha acompanhado de medo, insegurança, preocupação
com o futuro, e até mesmo uma sensação de vertigem seguida de calafrios diante
da imensidão da responsabilidade que se tem pela frente. A felicidade está
presente, e na maioria das vezes de forma exuberante, mas nem sempre a sensação
de paz a acompanha na proporção em que seria de se esperar. Já seria suficiente
se a acompanhasse orientando-se na mesma direção. De modo semelhante, uma
pessoa pode finalmente alcançar o cargo tão sonhado, adquirir estabilidade
financeira, realizar um antigo projeto de vida, e ainda assim permanecer
inquieta, ansiosa e incapaz de desfrutar plenamente da tão almejada conquista.
Isso geralmente ocorre porque a felicidade costuma ser associada mais
diretamente com aquilo que acontece ao nosso redor, externamente, enquanto a
paz depende muito mais da forma como assimilamos, interpretamos e integramos
essas experiências em nosso mundo interior. Nem sempre esses dois
"mundos" estão perfeitamente alinhados.
Em
razão de tudo o que dissemos até agora, as pessoas, de um modo geral - e os
casais e parceiros, de um modo particular - tendem a cometer dois equívocos que
podem se mostrar cruciais. O primeiro, quando se dispõem a investir o melhor de
si um no outro - e, por extensão, na família - pressupondo que isso significa
investir com prioridade absoluta na felicidade de tais pessoas. O segundo,
quando concebem a felicidade do parceiro, dos filhos e dos netos como sendo a
posse do máximo possível de segurança individual, material e circunstancial. Ao
afirmar que as necessidades de sobrevivência e de segurança ocupam a base de
sua famosa pirâmide, sendo as primeiras a requerer satisfação imediata, de
forma alguma Abraham Maslow pretendia afirmar que tais necessidades são as mais
importantes. Elas sequer são consideradas por ele como
"satisfacientes", no sentido de constituírem fontes genuínas de
motivação. Isso porque, satisfeitas, elas saem imediatamente do foco de
preocupação e de desejo, sendo substituídas por outras exponencialmente mais
relevantes - tais como sentir-se amado, querido, validado, reconhecido,
desejado e outras do gênero. Sobrevivência, segurança e qualidade de vida, com
certeza tendem a trazer "felicidade", no sentido de conforto,
bem-estar e satisfação, mas são consideradas "insatisfacientes", isto
é, meramente pressupostas. Já o sentir-se incluído, validado, amado e
valorizado traz algo da ordem da essência e do profundo: e isso é o que mais
proximamente podemos chamar de paz. Por isso, em Maslow elas ocupam o cume da
pirâmide, sendo também as mais difíceis de serem alcançadas. Em síntese, o que
é da ordem do desejo jamais se satisfaz com o que é da ordem da estrita
necessidade.
Amor conjugal e amor
familiar são amores particularmente complexos, porque, mesmo quando reunimos
amplas condições de assegurar o conforto e a "felicidade" material e
circunstancial daqueles que "amamos", nem sempre estamos aptos a
"abastecê-los" de afeto, segurança afetiva e bem-estar emocional -
aquilo de que realmente precisam para sentir paz e viver em paz. Sofremos por
isso. Sofremos porque nem sempre estamos conscientes do abismo que pode reinar
entre esses dois mundos. Sofremos ainda mais quando, conscientes, percebemos
que não estamos em condições de ultrapassar esse abismo. E, quanto mais
conscientes estamos, e quanto menos conseguimos amá-los como gostaríamos, mais
intensamente sofremos. Talvez exatamente por isso muitos de nós prefiramos
trabalhar tanto, permanecer tanto tempo fora de casa, freneticamente,
incansavelmente. "Workaholic": poucos conseguem compreender bem a extensão
desse tipo de vício e de dependência. "Fanático - afirma John Powell em
seu livro Psiquiatria da alma - é aquele que perdeu de vista o seu ideal e se
desdobra em esforços para alcançá-lo". E é assim que, paradoxalmente,
muitos pais e cuidadores, quanto mais material, contingencial e
substancialmente presentes, mais afetiva, espiritual e emocionalmente ausentes.
Queixamo-nos de "viver totalmente para a família" - cônjuge, filhos,
netos - e isso não deixa de ser verdade; mas apenas uma parte da verdade. A
outra é que também nós - provavelmente a grande maioria - somos afetiva e
emocionalmente carentes e, exatamente por isso, afetiva e emocionante ausentes.
Partimos do pressuposto de que, se somos bons provedores, é certo que amamos
aqueles de quem cuidamos. Mas o fato é que uma família "feliz" pode
ser uma família individualmente carente. Carente de quê? De afeto, de amor e de
paz, naturalmente.
Muito
se tem escrito sobre Jesus como um dos maiores - senão o maior - terapeutas que
já existiram. Um aspecto particularmente interessante de sua atuação como
cuidador e aconselhador, entretanto, é que quando as pessoas se aproximavam em
busca de orientação e de indicação de caminhos que as conduzissem à felicidade,
suas palavras giravam invariavelmente em torno da paz. Contemporaneamente,
observa-se um fato curioso: clientes que deixam o consultório emocionalmente abalados, por vezes
destroçados, paradoxalmente são aqueles que costumam obter ganhos mais
duradouros e recompensas mais gratificantes em suas vidas. O sofrimento
momentâneo pode representar o preço da cura, mas é a paz que frequentemente se
revela como o sinal mais seguro de que a transformação está, de fato,
acontecendo.
Muitos
filhos e netos, assim como maridos e esposas, certamente aceitariam abrir mão
de certa quantidade de bem-estar material e de conforto cotidiano se isso
pudesse resultar em mais presença física, afetiva e emocional. Não se trata,
obviamente, de substituir um tipo de presença pelo outro - o que aqui está em
jogo chama-se equilíbrio. Tampouco se trata de excluir a base da pirâmide - as
necessidades de segurança e sobrevivência imediatas - e sim de fazer dela um
impulso para se poder atingir o cume - onde reinam felicidade e paz. Uma e
outra não são inimigas entre si; ao menos não deveriam ser. Mas acreditar que a
simples presença da felicidade é suficiente para trazer paz, pode ser um
equívoco que não só mantém a dor e o sofrimento, como pode aumentá-los ainda
mais. Nem toda felicidade, por si mesma, produz paz, embora toda paz tenda a
tornar a felicidade mais profunda e duradoura. No limite, caso fosse
absolutamente necessário escolher, seria preferível ter paz sem ser feliz, do
que ser feliz sem ter paz. De nada adianta morar num paraíso, se se leva uma
vida infernal.
Obs.: Esta e as demais
partes anteriores serão concluídas pela parte XII, de mesmo título.
(*)
Psicólogo e Professor Universitário na
Consultório de Psicologia
Vila Velha, Espírito Santo, Brasil
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