sexta-feira, 26 de junho de 2026

8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

 8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

                   [Parte XI - 03]

              "Ó Mestre,  fazei que  eu  procure mais  consolar que  ser  consolado,  compreender que ser compreendido, amar que  ser  amado” [Atribuída a São Francisco de Assis].

Responda rápido, de preferência sem refletir: em algum momento de sua vida você já sentiu uma profunda paz em meio a uma situação de imensa dor ou grande sofrimento? Ou, inversamente, já se sentiu profundamente angustiado, atormentado, em meio a uma situação de intensa alegria e profunda felicidade? Considere ainda a seguinte situação: uma jovem em um leito de hospital, vivendo a proximidade da morte em virtude de uma enfermidade irreversível: pode essa mesma jovem experimentar paz intensa em sua alma? E por fim: uma pessoa bela, fisicamente saudável, que acaba de ser notificada de que é herdeira de uma fabulosa fortuna: pode essa pessoa se sentir profundamente angustiada diante de uma notícia dessa natureza? E então, chegou a responder "não" a alguma dessas perguntas? Se sim, a qual delas, exatamente? Agora reveja a pergunta e também sua resposta. Isto porque, sob certo prisma - aquilo que Nietzsche chamou de- "perspectivismo" -  todas e cada uma das indagações mencionadas podem ser respondidas afirmativamente. Isso por uma razão bastante simples, embora nem sempre no radar da consciência de grande número de pessoas - sobretudo de parceiros, cônjuges e cuidadores em geral: paz e felicidade podem e devem, claro - é o que se pressupõe e se espera - harmonizar-se segundo um mesmo e único diapasão; mas, por razões alheias à nossa vontade, e que raramente conseguimos alcançar, nem sempre é o que acontece. Há situações em que, mal a felicidade entra por uma porta, a paz sai discretamente por uma outra. Quando isso acontece, a mente não se aquieta e a alma não se acalma. Como se isso não bastasse, há situações tão ambíguas que podem produzir felicidade e angústia ao mesmo tempo.

Pense, por exemplo, no nascimento de um filho intensamente desejado e por longo tempo aguardado. Trata-se, sem dúvida, de um dos acontecimentos mais felizes e gratificantes da vida de inúmeras pessoas e casais. Ainda assim, não é raro que esse mesmo acontecimento venha acompanhado de medo, insegurança, preocupação com o futuro, e até mesmo uma sensação de vertigem seguida de calafrios diante da imensidão da responsabilidade que se tem pela frente. A felicidade está presente, e na maioria das vezes de forma exuberante, mas nem sempre a sensação de paz a acompanha na proporção em que seria de se esperar. Já seria suficiente se a acompanhasse orientando-se na mesma direção. De modo semelhante, uma pessoa pode finalmente alcançar o cargo tão sonhado, adquirir estabilidade financeira, realizar um antigo projeto de vida, e ainda assim permanecer inquieta, ansiosa e incapaz de desfrutar plenamente da tão almejada conquista. Isso geralmente ocorre porque a felicidade costuma ser associada mais diretamente com aquilo que acontece ao nosso redor, externamente, enquanto a paz depende muito mais da forma como assimilamos, interpretamos e integramos essas experiências em nosso mundo interior. Nem sempre esses dois "mundos" estão perfeitamente alinhados.

Em razão de tudo o que dissemos até agora, as pessoas, de um modo geral - e os casais e parceiros, de um modo particular - tendem a cometer dois equívocos que podem se mostrar cruciais. O primeiro, quando se dispõem a investir o melhor de si um no outro - e, por extensão, na família - pressupondo que isso significa investir com prioridade absoluta na felicidade de tais pessoas. O segundo, quando concebem a felicidade do parceiro, dos filhos e dos netos como sendo a posse do máximo possível de segurança individual, material e circunstancial. Ao afirmar que as necessidades de sobrevivência e de segurança ocupam a base de sua famosa pirâmide, sendo as primeiras a requerer satisfação imediata, de forma alguma Abraham Maslow pretendia afirmar que tais necessidades são as mais importantes. Elas sequer são consideradas por ele como "satisfacientes", no sentido de constituírem fontes genuínas de motivação. Isso porque, satisfeitas, elas saem imediatamente do foco de preocupação e de desejo, sendo substituídas por outras exponencialmente mais relevantes - tais como sentir-se amado, querido, validado, reconhecido, desejado e outras do gênero. Sobrevivência, segurança e qualidade de vida, com certeza tendem a trazer "felicidade", no sentido de conforto, bem-estar e satisfação, mas são consideradas "insatisfacientes", isto é, meramente pressupostas. Já o sentir-se incluído, validado, amado e valorizado traz algo da ordem da essência e do profundo: e isso é o que mais proximamente podemos chamar de paz. Por isso, em Maslow elas ocupam o cume da pirâmide, sendo também as mais difíceis de serem alcançadas. Em síntese, o que é da ordem do desejo jamais se satisfaz com o que é da ordem da estrita necessidade.

Amor conjugal e amor familiar são amores particularmente complexos, porque, mesmo quando reunimos amplas condições de assegurar o conforto e a "felicidade" material e circunstancial daqueles que "amamos", nem sempre estamos aptos a "abastecê-los" de afeto, segurança afetiva e bem-estar emocional - aquilo de que realmente precisam para sentir paz e viver em paz. Sofremos por isso. Sofremos porque nem sempre estamos conscientes do abismo que pode reinar entre esses dois mundos. Sofremos ainda mais quando, conscientes, percebemos que não estamos em condições de ultrapassar esse abismo. E, quanto mais conscientes estamos, e quanto menos conseguimos amá-los como gostaríamos, mais intensamente sofremos. Talvez exatamente por isso muitos de nós prefiramos trabalhar tanto, permanecer tanto tempo fora de casa, freneticamente, incansavelmente. "Workaholic": poucos conseguem compreender bem a extensão desse tipo de vício e de dependência. "Fanático - afirma John Powell em seu livro Psiquiatria da alma - é aquele que perdeu de vista o seu ideal e se desdobra em esforços para alcançá-lo". E é assim que, paradoxalmente, muitos pais e cuidadores, quanto mais material, contingencial e substancialmente presentes, mais afetiva, espiritual e emocionalmente ausentes. Queixamo-nos de "viver totalmente para a família" - cônjuge, filhos, netos - e isso não deixa de ser verdade; mas apenas uma parte da verdade. A outra é que também nós - provavelmente a grande maioria - somos afetiva e emocionalmente carentes e, exatamente por isso, afetiva e emocionante ausentes. Partimos do pressuposto de que, se somos bons provedores, é certo que amamos aqueles de quem cuidamos. Mas o fato é que uma família "feliz" pode ser uma família individualmente carente. Carente de quê? De afeto, de amor e de paz, naturalmente.

Muito se tem escrito sobre Jesus como um dos maiores - senão o maior - terapeutas que já existiram. Um aspecto particularmente interessante de sua atuação como cuidador e aconselhador, entretanto, é que quando as pessoas se aproximavam em busca de orientação e de indicação de caminhos que as conduzissem à felicidade, suas palavras giravam invariavelmente em torno da paz. Contemporaneamente, observa-se um fato curioso: clientes que deixam o consultório  emocionalmente abalados, por vezes destroçados, paradoxalmente são aqueles que costumam obter ganhos mais duradouros e recompensas mais gratificantes em suas vidas. O sofrimento momentâneo pode representar o preço da cura, mas é a paz que frequentemente se revela como o sinal mais seguro de que a transformação está, de fato, acontecendo.

Muitos filhos e netos, assim como maridos e esposas, certamente aceitariam abrir mão de certa quantidade de bem-estar material e de conforto cotidiano se isso pudesse resultar em mais presença física, afetiva e emocional. Não se trata, obviamente, de substituir um tipo de presença pelo outro - o que aqui está em jogo chama-se equilíbrio. Tampouco se trata de excluir a base da pirâmide - as necessidades de segurança e sobrevivência imediatas - e sim de fazer dela um impulso para se poder atingir o cume - onde reinam felicidade e paz. Uma e outra não são inimigas entre si; ao menos não deveriam ser. Mas acreditar que a simples presença da felicidade é suficiente para trazer paz, pode ser um equívoco que não só mantém a dor e o sofrimento, como pode aumentá-los ainda mais. Nem toda felicidade, por si mesma, produz paz, embora toda paz tenda a tornar a felicidade mais profunda e duradoura. No limite, caso fosse absolutamente necessário escolher, seria preferível ter paz sem ser feliz, do que ser feliz sem ter paz. De nada adianta morar num paraíso, se se leva uma vida infernal.

Obs.: Esta e as demais partes anteriores serão concluídas pela parte XII, de mesmo título.

(*) Psicólogo e Professor Universitário na Consultório de Psicologia

Vila Velha, Espírito Santo, Brasil

 

 

 

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