4.2- O
REINO É DOM DE DEUS PARA TODOS QUE ESTÃO DISPOSTOS A DELE PARTICIPAR
“De fato, eu
não vim para chamar os justos, mas os pecadores.” (Mt. 9,13)
Encerrados os ritos pascais, retomamos nossa caminhada guiados
pela espiritualidade do evangelho segundo são Mateus e do tempo comum. Tempo
este que é propício para aprofundar a intimidade com Jesus Cristo enquanto
conhecemos a essência de sua vida e missão. É tempo de responder o chamado que
Ele nos faz; tempo de constituir-se parte dos seus discípulos. Depois seremos
nós que – de modo semelhante a Filipe (Jo.
1,45) – iremos convidar outros discípulos para ter a mesma
experiência acolhedora e misericordiosa que Mateus e nós também tivemos com
Jesus. As palavras “misericórdia e sacrifício” centrais para se entender o tema
desta semana, são dois lados de uma mesma ponte que liga o Antigo Testamento ao
Novo Testamento. Elas nos ajudam a compreender que para Deus de nada vale ações
externas se elas não forem acompanhadas de uma adesão coerente, livre e
verdadeira ao chamado que Ele faz no seu plano de salvação.
Na primeira
leitura (Os.6,3-6), nos apresenta alguns dos questionamentos do
profeta Oseias ao povo de Israel. Oseias exerceu sua missão em uma época de
insegurança e desordem. O povo, sob influência política, religiosa e cultural
das nações vizinhas, acabou por incluir seus deuses nos ritos e levantou
altares a eles. As alianças políticas realizadas colocaram Israel em
dependência dos pagãos. O sincretismo religioso e a política demonstram
igualmente uma situação alarmante: Israel perdeu a confiança em Deus e prefere
depositar sua esperança na guerra e nos deuses estrangeiros.
Embora seja testemunha dos ritos religiosos onde o povo
engrandece a Deus, o profeta manifesta dúvida em relação a sua fé e conversão.
Mesmo esteja tecendo orações e salmos permeados de poesia e emoção, Israel
parece estar mais disposto a manipular e controlar Deus, do que se deixar
transformar em verdade e vida pela sua graça. O profeta conclui que o povo
precisa acordar desta “fé de sonolência” e desligada da vida real. De nada
adiantará os ritos magníficos, ornados de ouro e prata e espalhafatosos, se não
houver uma coerência e respeito a Aliança que demonstre verdadeiro desejo de
conversão e de comunhão com Deus. Este desejo deve ser manifestado através de
ações concretas de misericórdia, amor e solidariedades para com os irmãos.
Na segunda
leitura (Rm. 4,18-25), o Apóstolo Paulo escreve para a
comunidade cristã da cidade de Roma, considerada o centro do mundo na época. O
coração pastoral de Paulo percebe algo que rodeia a Igreja. Diante de uma
comunidade que cresce ao acolher tantos os judeus quantos pagãos, corre-se o
perigo de uma fragmentação eclesial ou cisma já que judeus e pagãos possuíam
visões diferentes a respeito da salvação. O Apóstolos recorda aos seus
leitores que se universal é a situação do pecado, isto é, se o pecado atingiu
toda a humanidade, universal também é o remédio para sanar tal desgraça, ou
seja, Deus ofereceu a todos, sem exceções, a mesma salvação e isto tornou a
todos igualmente seus filhos. Paulo lhes informa que Jesus Cristo é a salvação
oferecida de modo gratuito, concreto e palpável. Embora o cumprimento da Lei
seja algo relevante, não é ela que salva. Seu cumprimento não é um tipo de
pagamento realizado como uma espécie de boleto ou crediário ao longo da vida.
Por isto, cita o exemplo arrebatador de Abraão, cuja fé sempre foi creditada
antes de suas obras. Abrão acolheu o dom que Deus lhe ofereceu e continuou “esperando contra toda esperança”
(Rm. 4,18).
E esta fé foi sempre manifesta através de uma entrega incondicional com a
obediência ilimitada aos planos de Deus mesmo quando não entendia estes mesmos
planos.
O Evangelho
(Mt. 9,9-13) nos apresenta a vocação do publicano e futuro
evangelista, Mateus e a controvérsia sobre a pureza que nasce entre Jesus e os
fariseus no jantar promovido por Mateus e que é expressão de sua alegria ao
perceber que a salvação havia chegado a sua casa e em sua vida.
O ato de cobrar imposto, trabalho exercido por Mateus, era vista
pelos judeus como um pecado público relacionado a impureza, por isto, todos os
cobradores eram considerados amaldiçoados por Deus e excluídos da salvação. Na
verdade, a grande maioria dos que foram chamados e acolhidos por Jesus não eram
exemplos de perfeição, puros e santos. Judas, a Samaritana, Zaqueu e o próprio
Apóstolo Paulo são exemplos disto. Mateus ao responder de modo decisivo e
positivamente ao chamado, se apresenta como um desconcertante paradoxo: ele
como tantos outros vistos como desgraçados e excluídos da salvação se tornaram
exemplo de alegria evangélica, disponibilidade e acolhida da misericórdia.
Utilizando a mesma analogia usada por Jesus, Mateus se manifesta como um
obediente e atento paciente que acolhe o que foi indicado pelo médico e se
dispõe a seguir tudo que o que foi prescrito para sua cura. Cabe-nos perguntar se em nossa vida
estamos tento esta mesma atitude de acolhida e sincera obediência que Mateus
demonstrou e que o profeta Oséias exortou ao povo de Israel na primeira
leitura.
No que diz respeito a polêmica dos fariseus causada pela
aproximação com os pecadores… Um ponto logo de início chama a atenção. Os
fariseus reclamam da aproximação de Jesus para com os considerados impuros e
pecadores, mas eles mesmos não se preocupam com a própria conivência e
serventia para com o império romano, um império pagão. Esquecendo-se do seu
próprio telhado de vidro, os fariseus enxergam a atitude de Jesus como um
atentado aos ritos e normas de pureza. Tal atitude era vista como uma ferida na
moral e nos bons costumes. Muito preocupados com a manutenção de uma ilusória
pureza externa, os fariseus cegam o próprio coração e não percebem que a
atitude de Jesus Cristo, ao sentar-se a mesa e partilhar o alimento com os
pecadores publicamente, manifesta um plano de salvação que não é comprado por
observação de ritos, e portanto, não é privilégio de quem pode pagar seu preço normativo,
mas um convite aberto e proposto para todos, sem exceção.
O Reino não um lugar. É uma pessoa. É Jesus Cristo. Logo sua
missão é o Reino de Deus sendo plantado. É a graça de Deus surgindo e fluindo
de modo arrebatador para todos que dela necessitam e que tem consciência desta
necessidade. A única condição imposta para dele fazer parte é se deixar
transformar por sua graça a medida que vamos acolhendo e aceitando o olhar
misericordioso deste Deus que vem ao nosso encontro. Por isto, mais a frente Jesus
irá apresentar este Reino como uma festa de casamento onde todos são convidados
e devem responder ao convite, mas onde a condição para permanecer depois de
entrar na festa é estar com a roupa adequada, neste caso, a santidade que é
fruto da acolhida graça que produz conversão e redenção (Mt. 22,1-14).
Nós nos sentimos convidados a participar
deste banquete festivo aberto a todos os filhos e filhas de Deus? Ou devido ao
nosso rigorismo, nos enxergamos mais como porteiros incumbidos de fechar a
porta e carimbar a mão daqueles que julgamos ter “pago” o valor necessário para
o ingresso?
Pe. Paulo Sérgio Silva.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição.
https://diocesedecrato.org/homilia-do-10o-domingo-do-tempo-comum-ano-a/
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