4.2-
14 de junho – 11° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos
do Amaral**
Nós somos o povo e o rebanho do
Senhor
I.
INTRODUÇÃO GERAL
O domingo sempre será o
dia privilegiado do cristão, pois nele celebramos a Páscoa semanal de nosso
Senhor. Por isso, é o dia da reunião da comunidade, em torno da Palavra e da
Eucaristia, em memória da ressurreição de Cristo. Neste 11º Domingo do Tempo
Comum, desejamos, mais uma vez, realizar essa experiência de proximidade e de
encontro com Deus.
Nesta liturgia, podemos
considerar que o refrão do texto dos Salmos sintetiza todo o mistério
celebrativo: “Nós somos o povo e o rebanho do Senhor” (Sl 99). Esse refrão, na
verdade, é a tomada de consciência do povo da Escritura – mas também de cada um
de nós, no agora de nossa vida – de que fazemos parte do povo de Deus, de que
Ele olha por nós e se aproxima, repleto de amor e misericórdia, para nos
libertar do pecado e nos salvar do poder da morte.
Na primeira leitura, o
povo liberto da escravidão do Egito começa a caminhar no deserto da
purificação. Deus continua a guiá-lo e orientá-lo, ressaltando o poder da
aliança e da escuta da sua voz. A segunda leitura tem como grande temática a
justificação, que é, na verdade, o modo pelo qual Deus nos reconciliou com ele
mesmo por meio da ação do Filho, Jesus. Por fim, no Evangelho, Jesus chama o
grupo dos doze, constituindo o novo povo de Deus, fundado sob a herança de
Israel. Seus discípulos recebem do Mestre autoridade para realizarem, em sua
missão, ações parecidas com as do próprio Jesus.
Que, na vivência desta
liturgia dominical, possamos fazer esta experiência que nos é proposta: termos
a consciência de que somos o povo e o rebanho do Senhor, de que ele nos ama
incondicionalmente e está sempre próximo a nós, guiando-nos e protegendo em nossas
maiores angústias e necessidades.
II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ex 19,2-6a)
O trecho do livro do
Êxodo coloca-nos diante do anúncio da eleição e da aliança de Deus com o povo.
Na verdade, Israel já foi libertado das mãos do faraó do Egito. Agora, no
deserto, os libertos se aproximam do monte Sinai, lugar em que Deus anuncia a
Moisés a eleição do povo e a conclusão da aliança. O texto deste domingo tem a
função de ser como que um “prólogo” daquilo que se desenvolverá posteriormente.
A ideia que perpassa todo o bloco é que o povo necessita deixar-se purificar e
iluminar por Deus. O deserto se caracterizará por ser tempo de libertar a mente
e o coração de quaisquer estruturas de escravidão, pecado e morte. Somente um
povo liberto poderá habitar, plenamente, na terra de liberdade, terra da
promessa divina.
Moisés sobe à montanha
para se encontrar com Deus. Chama-nos a atenção que, antes mesmo de transmitir
um ensinamento ao grande líder ou ao povo, o Senhor faz memória de quem Ele é e
do que já fez em favor de Israel: “Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos
levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (v. 4). Deus rememora os grandes
feitos do passado, como agiu com mão poderosa em favor da libertação do povo. O
Senhor trouxe Israel até os pés da montanha sagrada, o Sinai, para ratificar
tanto sua eleição quanto a aliança e renovar a promessa da posse da terra que
mana leite e mel.
Consciente disso, o povo
continua a ouvir o Senhor. Nos v. 5-6a, Deus apresenta ao povo sua
responsabilidade em todo esse processo existencial e espiritual: ouvir sua voz
e guardar sua aliança. É preciso, pois, permanecer junto a Deus, pois é ele
quem conduz todo o processo libertador/salvador de Israel, que se iniciou lá
atrás, no Egito, e desembocará na posse da terra. Escutar a voz do Senhor é
sinônimo de fidelidade, consciência e compromisso com ele. Quando o povo se
distancia da proposta divina, dá espaço para que o mal, o pecado e a morte
participem de sua realidade. Podemos dizer que, nesse trecho, Deus quer
despertar todo o Israel para a seguinte conscientização: ele é seu povo e seu
rebanho, nação santa e sacerdotal.
2. II leitura (Rm 5,6-11)
A carta de São Paulo aos
Romanos é a mais teológica e sistemática entre todos os escritos paulinos. Foi
redigida, possivelmente, em Corinto, entre os anos 55 e 60 d.C. Em síntese,
objetiva apresentar, de forma clara e distinta, o Evangelho da salvação
anunciado por Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, que justifica o ser humano
pela fé – e não pela observância da Lei – e o insere numa vida renovada por
meio do Espírito Santo. Nessa carta, sobressai o tema da justificação. A
justiça de Deus não é punitiva, mas é ação salvadora que faz que o pecador se
torne justo. Dessa forma, a justificação é um dom gratuito, imerecido e
incondicional; portanto, não é resultado de méritos humanos ou de práticas
puramente exteriores.
O último versículo do
trecho da segunda leitura proposta para esta liturgia sintetiza, de modo claro,
a reflexão do apóstolo: “Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus
Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação”
(v. 11). Nossa fé está em Deus: por intermédio de Jesus, fomos reconciliados,
ou seja, justificados. Antes do tempo da justificação, erámos ainda, segundo o
texto, fracos (v. 6a), ímpios (v. 6b), pecadores (v. 8b) e inimigos de Deus (v.
10a). Na plenitude dos tempos, podemos pensar qual a novidade trazida pelo
Senhor a nós. Com a morte e ressurreição de Cristo, Deus Pai nos reconciliou
com ele: fez-nos justos (v. 7b), salvou-nos (10c), redimiu-nos e
reconciliou-nos (v. 11c). Por isso, cumpre nos esforçarmos para viver à altura
da dignidade à qual fomos chamados.
3. Evangelho (Mt 9,36-10,8)
O trecho do Evangelho
proposto para esta liturgia pode ser dividido ao menos em três partes: a
primeira, sobre a compaixão de Jesus e a missão; a segunda, sobre a escolha
daqueles que comporão o grupo dos doze; e a terceira, em que o Senhor transmite
algumas instruções missionárias àqueles que ele mesmo chamou. Vejamos cada uma
dessas partes com mais detalhes.
Na primeira parte do
texto, Jesus vê a multidão e move-se de compaixão por ela. O povo estava
cansado e abatido, como ovelhas que não têm pastor. Por um lado, o povo parece
disperso; por outro, tem vontade de se encontrar verdadeiramente com Deus. O
olhar de Jesus para as pessoas sempre será repleto de compassividade, ternura e
afeto. Por isso, deseja fazer-lhes algo. Diante das muitas exigências e
desafios da missão, Jesus fala da grandeza da messe e da escassez de trabalhadores.
É preciso rezar a Deus e pedir-lhe mais pessoas que cooperem na messe. Dessa
forma, a missão destas será de reunir o povo de Deus disperso para o Reino dos
Céus, que vem ao nosso encontro.
Depois, na segunda parte
do trecho evangélico, vemos o chamado dos doze discípulos. Jesus os escolhe e
os envia em missão, o que significa a formação, ou melhor, a restauração do
povo de Deus, constituído sob a herança das doze tribos de Israel. Segundo o
texto, Jesus “deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem
todo tipo de doença e enfermidade” (Mt 10,1b). A ação dos discípulos se
assemelha à ação do próprio Mestre: eles serão sinal da presença de Deus, que
restaura e renova tanto Israel (durante a vida de Jesus) quanto todas as nações
(após a morte e ressurreição do Senhor). É listado, nessa oportunidade, o nome
de todos aqueles que foram escolhidos pelo Senhor.
Por fim, na terceira e
última parte do Evangelho, encontramo-nos com o Senhor, que instrui seus
discípulos e lhes dá recomendações para a missão. A expressão “não deveis ir
aonde moram os pagãos” (v. 5b) significa que, no tempo da vida de Jesus, seus
escolhidos direcionarão seus esforços para o povo de Israel: “Ide, antes, às
ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 6a). A missão atingirá sua
universalidade – até os confins da terra – a partir do evento da paixão, morte
e ressurreição de Cristo. O conteúdo do anúncio missionário sempre será a
proximidade do Reino dos Céus e será testemunhado pelos sinais realizados: a
cura dos doentes, a ressurreição dos mortos, a purificação dos estigmatizados
como “leprosos” e a expulsão dos demônios (v. 8).
III. Pistas para reflexão
Despertar na comunidade
a consciência de que somos o povo e o rebanho do Senhor. Salientar como Deus
age em nosso favor, libertando-nos e salvando-nos de realidades físicas e,
principalmente, espirituais. Dar centralidade à pessoa de Jesus Cristo, como
aquele que nos justifica diante do Pai. Contribuir para que a comunidade sinta
e compreenda que o Senhor sempre nos observa com olhar compassivo, terno e
misericordioso.
Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior
Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial
da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia
pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão
Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: gustavocesar339@gmail.com
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da
Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na
modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve,
Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/14-de-junho-11-domingo-do-tempo-comum/
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