4-REFLEXÕES PARA O 10.º DOMINGO DO TEMPO COMUM- A
4.1- A FORÇA DO CHAMADO
DIVÍNO
O
Evangelho de hoje narra a vocação de
Mateus: Jesus passou pelo lugar onde se cobravam os tributos pela
circulação de mercadorias de uma região a outra. Além de um pequeno porto de
mar, Cafarnaum era uma cidade fronteiriça, situada do outro lado do Jordão.
Mateus ali desempenhava a função de cobrador de impostos. Jesus acolhe no grupo
dos seus seguidores um homem que era considerado pecador público: ao cobrar os
impostos dos seus conterrâneos, Mateus colaborava com uma autoridade
estrangeira, odiosamente ávida de recursos oriundos das províncias conquistadas
pelo império romano. Ao chamado de Jesus, Mateus responde imediatamente:
"ele se levantou e o seguiu". A condensação da frase ressalta
claramente a prontidão de Mateus ao responder à sua vocação. Isto significava
para ele o abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte
de lucro seguro, mesmo que, por vezes, injusto e desonesto. Havia muita gente
na cidade, talvez outros publicanos, mas Cristo chamou Mateus. Jesus
apontou-lhe o dedo, como ilustrado naquele famoso quadro de Caravaggio. Ele
sabia que era para mudar de vida e largou tudo. É claro que se sentiria
privilegiado: fazer parte do grupo mais próximo de Jesus e conviver com Ele
seria a maior riqueza da sua vida. A vocação é assim: uma intervenção
imperativa de Deus convocando. E a resposta, como a de Mateus, deve ser pronta.
Mais tarde, seria escolhido como um dos Doze que seguiriam o Senhor em todos os
seus passos: escutou suas palavras, testemunhou seus milagres, esteve entre os
que celebraram a Última Ceia, assistiu à instituição da Eucaristia, ouviu o
testamento do Senhor centrado no preceito do Amor e acompanhou Cristo no Horto
das Oliveiras, onde começaria, com os outros discípulos, um calvário de
angústia, especialmente por ter também abandonado Jesus. Depois, viveu a
alegria da Ressurreição e, na Ascensão, recebeu o mandado de levar a Boa Nova
até os confins da terra. Mais tarde, também com os discípulos e a Santíssima
Virgem, recebeu o fogo do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Ao escrever o
seu Evangelho, reviveu sem dúvida todos os gratos momentos passados ao lado do
Mestre. Compreendeu que a sua vida tinha valido a pena. Que diferença se,
naquela manhã, ficasse agarrado ao balcão dos impostos e não tivesse seguido o
chamado de Jesus! A nossa vida só vale a pena se a vivermos junto de Cristo,
com uma correspondência sempre mais fiel, se soubermos responder a cada apelo
de Jesus com um “sim” pronto e alegre. Para celebrar e agradecer a sua vocação,
Mateus deu um grande banquete, ao qual convidou os seus amigos, muitos dos
quais eram tidos por pecadores. Esse gesto reflete a alegria do novo Apóstolo
pela sua vocação, que é o bem mais valioso de sua vida, sem reparar na renúncia
inerente a todo o convite de Deus para segui-lo com passo firme. Nós também não
podemos nos deter no que é preciso deixar: mas devemos perceber o bem que Deus
quer realizar em nós e através de nós e assim comprovar a maravilha de estar
com Cristo e de ser instrumentos para coisas grandes. Quando servimos o Senhor,
quando dizemos “sim” a seu chamado, sempre temos suficientes motivos de festa,
de ação de graças, de alegria. Jesus continua passando pelas nossas vidas, chamando
à santidade e ao apostolado, com vocação divina, a todos os batizados: a Igreja
necessita, de maneira especial, de leigos que vivam com coerência sua vida
cristã no local onde se encontram: na família, no traba- lho, em todos os
ambientes da vida social. O Evangelho, para explicar que Deus não chama os
melhores, nem os mais preparados, termina com a alusão à misericórdia de Deus:
“Não necessitam de médico os sãos, mas os doentes. Não vim chamar os justos,
mas os pecadores para a conversão”. Jesus se autodenomina médico, cura as nossas
almas com a sua graça, especialmente no Sacramento da Penitência, o que seria
incurável apenas pelo nosso esforço humano. Aos que chama com uma vocação
sobrenatural, Deus concede as graças necessárias para a correspondência fiel
para toda a vida.
Dom Carlos Lema
Garcia Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Educação
https://arquisp.org.br/wp-content/uploads/2026/03/Ano-50A-36-10o-DOMINGO-DO-TEMPO-COMUM.pdf
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