4.2- 21 de junho – 12° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos
do Amaral**
A
perseguição
I.
INTRODUÇÃO GERAL
O dia do Senhor é
ocasião especial para a reunião da comunidade em torno da Palavra e da
Eucaristia, em memória da ressurreição de Cristo. O domingo sempre será o dia
privilegiado do cristão, tendo em vista que foi no primeiro dia da semana que o
Senhor ressuscitou – esse é o evento fundador de nossa fé. Em linhas gerais, a liturgia do 12° Domingo do Tempo Comum tem como
temática destacada a perseguição.
No Evangelho segundo São
Mateus, no Sermão da montanha, a perseguição é considerada uma bem-aventurança:
“Bem-aventurados sois vós quando vos
injuriarem e perseguirem [...]” (Mt 5,11a). Em outra oportunidade, Jesus
alerta seus discípulos de que, se ele mesmo foi perseguido, eles também o serão
(Jo 15,20). É importante notar que perseguição é diferente de sofrimento. Este
é inato à condição humana: sofremos porque provamos do mal e do pecado, de
situações-limite, de nossa fragilidade e vulnerabilidade. A perseguição, por
sua vez, possui uma nuance diferente: os justos é que são os perseguidos,
precisamente por carregarem consigo a virtude da justiça. Jesus, o Justo do
Pai, incorporará esse papel: perseguido, assumirá a imagem do Servo do Senhor e
levará essa missão até as últimas consequências.
Tanto a primeira leitura
quanto o Evangelho se enquadram nessa lógica. O texto de Jeremias mostra-nos a
figura do profeta, que, de um lado, está seduzido por Deus e, de outro, está
sendo perseguido pelos ímpios, injustos e maldosos de seu tempo. Já o trecho do Evangelho, estruturado pela
tríplice repetição “não tenhais medo”, é constituído pelas recomendações de
Jesus para a missão, conscientizando seus discípulos de que as perseguições
integram esse caminho. É preciso, pois, confiarmos em Deus.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
2. I leitura (Jr 20,10-13)
A obra de Jeremias, no
Antigo Testamento, expressa-se mormente pela sua densidade teológica e riqueza
espiritual. O profeta está situado entre os séculos VII e VI a.C., um dos
períodos mais críticos da história do povo: o colapso de Judá e a destruição da
cidade santa, Jerusalém. Sua missão profética está, portanto, atrelada à
decadência política, à infidelidade religiosa e à iminente catástrofe nacional.
Sendo sinal vivo da aliança de Deus com o povo, o profeta é voz de esperança
diante de tantas situações difíceis e desafiadoras.
O trecho proposto para
esta liturgia (Jr 20,10-13) vem logo em seguida de uma dolorosa experiência do
profeta. Ele foi preso e açoitado por Fassur, o superintendente do templo, em
razão de suas profecias. Jeremias está humilhado, isolado, ridicularizado; está
se sentindo traído e cercado – o profeta se reveste da imagem do justo
perseguido. O comentário “talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo
e desforrar-nos dele” (v. 10c) provém dos ímpios que o observam, tramam e
arquitetam a maldade. “Denunciai-o, denunciemo-lo” (v. 10b) é expressão
indicativa de que a bondade, a justiça e a prática do bem serão alvos de
perseguições, maquinações e sofrimentos. Jeremias assume o paradoxo do
profetismo: ser portador da Palavra de Deus é também carregar o peso da
incompreensão e da rejeição da parte de muitos.
Contudo, o texto não
termina por aqui. Há uma virada de perspectiva, ocasionada pela fé. Diz-nos o
texto: “Mas o Senhor está ao meu lado,
como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (v.
11a). Todo o cenário de crise, perseguição e desespero não é ocasião para que o
profeta sucumba. Ele dá um salto na fé, pois confia plenamente em Deus. O
Senhor combate em favor do justo, a justiça divina triunfará. Dessa forma,
entendemos também que a fé não é a ausência de conflitos e dificuldades, mas a
capacidade de esperar, confiar e acreditar, apesar deles.
2. II leitura (Rm 5,12-15)
O texto da carta aos
Romanos proposto nesta liturgia se distancia um pouco da temática da
perseguição, tratada especificamente pelo profeta Jeremias e pelo evangelista
Mateus. Contudo, o trecho dessa segunda
leitura traz uma reflexão importante que nos edifica na fé e nos fortalece na
missão. O apóstolo deseja ratificar que Cristo é a imagem do homem novo, o
primeiro e iniciador de uma nova humanidade.
Para tanto, São Paulo
estabelecerá um paralelo significativo entre o primeiro homem, Adão, e o novo homem,
Cristo Jesus. Diz-nos o texto: “O pecado entrou no mundo por um só homem” (v.
12a). Ao trazer-nos a imagem do primeiro ser vivente, o apóstolo retoma a
temática da desobediência, tratada nos primeiros capítulos do livro do Gênesis.
Pela desobediência, a humanidade foi marcada, de uma vez por todas, pela
realidade do pecado. E foi pelo pecado que a morte entrou no mundo. No entanto,
com Jesus, o Filho unigênito do Pai, toda a humanidade pode contemplar a graça
e a salvação divinas. Pelo seu sangue derramado na cruz, Jesus reconciliou-nos
e justificou-nos com Deus e abriu-nos um novo tempo e uma nova esperança.
A comparação feita pelo
apóstolo atinge seu ápice no v. 15b: “A transgressão de um só levou a multidão
humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o
dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em
abundância sobre todos”. Destaca-se Jesus como novo Adão, aquele que, de modo
superior, fez que o dom de Deus, sua graça e sua bênção, fosse derramado sobre
todos nós. Se em Adão nós pecamos, em Cristo somos justificados.
3. Evangelho (Mt 10,26-33)
O texto evangélico proclamado nesta liturgia leva à plenitude a
temática do justo perseguido, lançada pela primeira leitura, de Jeremias. Na verdade, as
palavras de Jesus dirigidas hoje aos seus discípulos são um convite para que
continuem a testemunhar intrepidamente e sem medo o Evangelho que liberta e
salva a todos, numa expressão de confiança total em Deus.
O trecho apresenta uma
coerência fácil de ser percebida: depois de transmitir aos seus discípulos sua
autoridade, Jesus lhes fala dos sofrimentos e das perseguições que deverão
enfrentar. Podemos, a propósito, fazer um paralelo com outra passagem bíblica: “O servo não é maior do que seu senhor. Se
me perseguiram a mim, também hão de perseguir-vos [...]” (Jo 15,20). Dessa
forma, entendemos que o caminho discipular jamais será uma via de benesses,
privilégios ou reconhecimentos; pelo contrário, será um caminho de
incompreensões, angústias, sofrimentos e perseguições.
O texto é estruturado em
torno da tríplice expressão “não tenhais
medo” (v. 26a; 28a; 31a) – convite à
perseverança na fé e à confiança filial. Primeiramente, os discípulos são
convocados para a dimensão do anúncio: “o que escutais ao pé do ouvido,
proclamai-o sobre os telhados!” (v. 27b). A
missão apostólica não deve recuar por medo de anunciar a Palavra de Deus em
realidades desafiadoras. Nada ficará encoberto; pelo contrário, tudo será
revelado. Em seguida, Jesus os encoraja em relação às perseguições. Os ímpios,
injustos, maldosos e pecadores podem matar o corpo, mas não a alma. O
Mestre salienta que a perseverança deve fazer parte do caminho do discípulo, de
modo que não deverão temer as realidades que causam “prejuízo” de ordem material
ou corporal. Pelo contrário, deve-se temer as realidades que nos afastam da
presença de Deus e nos desviam de sua eternidade. O alerta é um indicativo também de que as perseguições nos purificam e
nos renovam, de modo que nos elevam até mais próximo de Deus. Por fim, o
texto termina com uma promessa, permeada de esperança e confiança em Deus. Aqueles que testemunharem, com fé,
solicitude e confiança, o Evangelho de Jesus entre as pessoas serão contados,
diante de Deus, entre os justos que assumiram o compromisso e a
responsabilidade da missão.
III. Pistas para reflexão
Levar a comunidade a
refletir sobre a lógica proposta nesta liturgia: o justo não é aquele isento de
desafios e dificuldades; pelo contrário, assumindo sua condição, mostra-se
perseverante no caminho de fé, de anúncio e de testemunho da Boa-nova. Despertar as consciências sobre o fato de
que a prática do bem é algo inegociável, ainda que, por causa dela, sejamos
perseguidos, com sofrimentos e injustiças.
Pe. Gustavo
César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial
da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia
pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão
Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: gustavocesar339@gmail.com
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da
Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na
modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve,
Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e
pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/21-de-junho-12-domingo-do-tempo-comum/
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