4.2-
FELIZ OS
CONVIDADOS PARA A CEIA DO SENHOR
“Porque a
minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida”.
(Jo. 6,51-58)
“Terra,
exulta de alegria, Louva o teu pastor e guia, Com teus hinos, tua voz”.
Assim inicia-se a primorosa sequência composta por São Tomás de Aquino
especialmente para a festa de hoje. Qual o sentido desta festa? Celebrar,
proclamar, professar, expressar a nossa fé inabalável em Jesus Cristo, presente
em corpo, alma e divindade no seu augusto Sacramento! Deste modo, enquanto
retomamos nossa peregrinação espiritual através da vivência da liturgia do
tempo comum, a solenidade de hoje nos recorda que se desejarmos percorrer este
caminho até a sua conclusão, não poderemos ter outro alimento senão aquele que
fortalece para a vida eterna: a Eucaristia.
Na primeira
leitura (Dt. 8,2-3.14b-16ª), Moisés celebra com o povo de
Israel, antes de entrar na terra prometida. Faz um memorial dos 40 anos de
peregrinação no deserto, lugar onde o povo através das provações, foi preparado
para começar vida nova. Recorda-se que Deus não só permaneceu ao lado do seu
povo como saciou sua sede e o alimentou com o maná. Assim sendo, Israel deve
viver a gratidão na lembrança do que o Senhor fez: libertou, acompanhou, guiou,
protegeu e alimentou o seu Povo. O Maná enquanto fruto da providência se tornou
uma antecipação da Eucaristia. Todavia, o Maná era um alimento perecível e
transitório porque visava fortalecer apenas a vida transitória deste mundo em
que estamos. Agora que vivemos a plenitude da revelação com a Encarnação do
Filho de Deus e fomos redimidos por sua Morte e Ressurreição, caminhamos
pressurosos para o Reino de Deus e a vida eterna. Por isto, recebemos – ainda
que sem mérito algum da nossa parte – o “pão dos anjos” como alimento, pois se
caminhamos para a vida eterna, o alimento deve ser então imperecível e eterno (Jo. 6,58).
Na segunda
leitura (1Cor. 10,16-17), fazendo um paralelo entre Antigo e o
Novo Testamento, Paulo recorda aos cristãos da comunidade de Corinto que a
redenção humana foi realizada não com derramamento do sangue de animais, mas
com o sangue do próprio Deus. Cientes deste sacrifício único, somos convidados
a fugir do perigo de esvaziar a essência da celebração eucarística.
No Evangelho
(Jo. 6,51-58), João nos apresenta a catequese oferecida por
Jesus para a multidão que o segue depois que ele multiplicou os pães e os
peixes e saciou sua fome de alimento perecível e aguçou a fome de alimento
eterno.
Jesus, a Palavra viva de
Deus que se tornou carne, se reúne na última ceia com seus discípulos. Antes de
oferecer-se na Cruz, oferece-se como Pão que dá vida nova ao mundo. A oferta
que Ele faz de si mesmo na Cruz foi antecipada na oferta da Eucaristia e a
oferta da Eucaristia expressa sua doação plena na cruz pela nossa redenção. A
celebração é encerrada com salmos e com a decisão de ir ao Monte das Oliveiras
lugar onde Jesus iniciará sua Paixão. Os discípulos o acompanham como expressão
de que a Igreja deve sofrer e se doar pelo seu Mestre como Ele próprio o fez
pela Igreja e por toda humanidade. Permanece em Jesus quem o comunga e
permanecer em Jesus significa viver o seu projeto do Reino.
Na festa de Corpus
Christi, a cada ano, a Igreja atualiza o mistério vivido na Quinta-feira Santa,
mas o celebra com uma espiritualidade marcada pela Ressurreição. Se na Última
Ceia, depois de partilhar o pão, os apóstolos seguem em procissão com Jesus
para o Horto das Oliveiras para uma noite de agonia, traição e perseguição rumo
a via cruz, na noite de Corpus Christi, retomamos esta procissão, mas na
alegria da Ressurreição rumo a vida eterna.
As celebrações
suntuosas, onde se instalam as divisões e nas quais alguns são privilegiados e
outros humilhados esvaziam a força e o sentido deste amor que lava os nossos
pés enquanto se prepara para lavar nossos pecados na cruz. Tais “celebrações
repletas de ritos, mas vazias de amor por estão tomadas por ambição e
egocentrismo, destroem a Unidade que a comunhão do Corpo de Cristo exige.
Comungar o Senhor, seu Corpo e seu Sangue, significa comungar seu desejo de
alimentar a vida plena da humanidade. Assim, compreendemos que para verdadeira
experiência da Eucaristia, é necessário, que aqueles que comungam, ofertem a
própria vida conforme o coração divino presente na Eucaristia. Não apenas
receber a comunhão – não importando se foi recebida por meio da mão ou na boca
– é necessário se tornar também comunhão. A Eucaristia é o princípio da
comunhão na vida da Igreja e convoca a todos para a mesma missão em busca da unidade.
O mundo com suas divisões ideológicas e culturais, não deve influenciar a
caminhada da Igreja. Devemos acolher a todos, mas sem renunciarmos aos
compromissos e exigências que a fidelidade ao Evangelho impõe.
Somos convidados a
adorar o Senhor. Somos convidados a receber a Eucaristia e nos tornarmos também
Eucaristia. Quando comungamos nos tornamos sacrários vivos, onde Cristo se faz
realmente presente em nós na Hóstia consagrada. Na procissão que realizamos
depois da comunhão levamos o ostensório onde apresentamos ao mundo nosso
Salvador, no entanto não esqueçamos que na mesma procissão somos testemunhas
vivas de sua presença pela Eucaristia que comungamos e pelo testemunho que
damos através da vivência da fé cotidiana.
Hoje, quando o sacerdote
depois de elevar sagrado Corpo e o sagrado Sangue e afirmar: “Eis o mistério da fé”,
plenos de alegria afirmemos com fé e coração eucarístico: “Todas as vezes que comemos deste pão e
bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor a vossa morte, enquanto esperamos
vossa vinda.” Que nós, em nossa vida e missão, tenhamos certeza de
que a Igreja nasce e vive da Eucaristia e que a Eucaristia realiza em nós,
ainda aqui na terra, a comunhão que viveremos no céu com Deus que é: Pai, Filho
e Espírito Santo.
Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora
da Conceição – Farias Brito
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