10- SANTO AGOSTINHO E A PALAVRA DE DEUS
O mês de setembro, para a Igreja do Brasil, é muito
especial para todas as comunidades eclesiais missionárias. Já é uma tradição
que este mês seja lembrado como o “Mês da Bíblia”. Setembro foi escolhido pelos
Bispos do Brasil como o Mês da Bíblia em razão da festa de São Jerônimo,
celebrada no dia 30. A cada ano, um livro é meditado, rezado e estudado,
auxiliando cada cristão a se aproximar da palavra de Deus, “que é viva,
eficaz e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes. Penetra até dividir
alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e as intenções do
coração. Não há criatura que possa ocultar-se diante dela” (Hebreus 4,
12-13).
Santo Agostinho, em sua vida, foi um daqueles que
experimentou a força e o sustento da palavra de Deus. Em seu processo de
conversão, ele relata em suas Confissões: “O que sei, Senhor,
sem sombra de dúvida, é que te amo. Feriste meu coração com tua palavra, e te
amei” (Confissões X, 7, 8). Os primeiros encontros de Agostinho com a Escritura em
sua infância deram-se pelas leituras ouvidas certamente na igreja ou nas
proximidades. Foi após o despertar provocado pelo Hortensius, de
Cícero, quando estava com 18 anos, que leu, pela primeira vez, o texto da Escritura,
como narra nas Confissões (cf. Confissões III, 5, 9). “Essa
leitura, que se reduziu, evidentemente, a uma parte dessa biblioteca que é a
Bíblia, não teve resultado positivo, por motivos estilísticos: versado na
eloquência clássica, considerou inconveniente o estilo bíblico” (O’Donnell,
2019, p.184). Porém, lendo novamente ao menos alguns textos bíblicos, pouco
depois caiu na seita dos maniqueus, com os quais precisou ler e ouvir vários
textos conhecidos das Escrituras, mas inseridos num contexto
diferente, ao lado dos escritos dos maniqueus. Entre as leituras que esses
faziam da Escritura, o que mais afetou Agostinho foi o ataque dos
maniqueus ao antropomorfismo e à suposta imoralidade dos patriarcas do Primeiro
Testamento.
A partir desse ponto, o relato da conversão de
Agostinho é uma narração de sua aproximação progressiva e de sua apreciação
cristã sucessiva da Escritura. O estudo da Escritura e
de outros textos tornou indefensáveis as posições maniqueias. O ouvir a
pregação de Ambrósio e o exemplo de sua leitura silenciosa e atenta da Escritura tornaram
possível para Agostinho compreender como uma interpretação plausível da Escritura pudesse
estar de acordo com suas raízes socioculturais e as relativas expectativas.
Assim, Agostinho apresenta o momento decisivo de sua conversão como um ato de
leitura da Escritura e de aplicação literal daquela prescrição
moral a si mesmo. Retirou-se em Cassicíaco naquele mesmo inverno, a fim de ler
a Escritura (levando em consideração a recomendação de
Ambrósio de ler o profeta Isaías), mas os registros daquele inverno são mais de
natureza filosófica do que escriturística. Entretanto, nos anos seguintes,
antes de sua ordenação em Hipona, sua atenção voltou-se a textos específicos
da Escritura - particularmente o Gênesis -
para refutar os maniqueus.
Antes de sua ordenação presbiteral, em Hipona, em
391, “escreveu a seu bispo, Valério, a fim de pedir-lhe tempo para
dedicar-se ao estudo da Escritura” (O’Donnell, 2019, p.185). Essa
referência remete a um processo de formação como autodidata em Escritura,
que para nós, enquanto processo, é oculto, mas, enquanto resultado, é
ineludível. A partir de seus primeiros escritos como presbítero, sua obra está
cheia de referências, ecos e citações da Escritura. Agostinho
começa a mostrar fascínio pelos Salmos, que o acompanharão pelo
resto de sua vida. Enquanto presbítero, começou a confrontar-se com problemas
de interpretação paulina, e é sabido que, “em meados dos anos 90 do IV
século, chegou a um ponto em que tal estudo o levou a uma visão completamente
nova de Paulo, que influenciará sua teologia pelo resto de sua vida”
(O’Donnell, 2019, p.185). Isso não quer dizer que seu interesse pelo Gênesis e
pelos Salmos diminuirá. Nos anos seguintes, seu interesse
exegético principal direcionar-se-á para a obra de São João, tanto para o Evangelho como
para a primeira epístola, que se tornaram objeto de longas discussões,
resultando em obras e escritos.
Santo Agostinho é tido até hoje como referência
para o estudo da teologia bíblica. Esse talento para a interpretação da Bíblia e
para sua sistematização pode ser nitidamente observado em suas diversas obras
de comentários bíblicos e em seus numerosos sermões. Uma dessas obras de
comentários bíblicos, que também serviu de inspiração para a atuação política
de pessoas como Dietrich Bonhoeffer[1] e Martin Luther King Jr.,[2] é
a obra Sobre o Sermão do Senhor na Montanha. Nessa obra, Santo
Agostinho faz uma explanação do famoso sermão de Jesus Cristo no monte
(Evangelho de São Mateus, capítulos 5 a 7), que é considerado por muitos o
lugar onde se concentra a primeira exposição da ética cristã. Agostinho
considera a Bíblia como a expressão imediata da vontade e da
inteligência de Deus. A Escritura não é um livro de história,
e sim uma oferta divina que é proporcionada ao homem de fé para revelar-lhe o
que Deus lhe pede em cada momento e o que é que tem de fazer para agradá-Lo. É
a carta que Deus escreveu aos homens: “Daquela cidade, de onde estamos
ausentes como peregrinos, chegaram-nos cartas. São as Escrituras,
que nos exortam a viver bem” (Comentários aos salmos 90,2,1). O que faz ao
enviar suas cartas é fazer crescer em nós o desejo da pátria, de voltar ao
nosso autêntico lar.
A Bíblia nasceu da vontade de o
povo ser fiel a Deus e a si mesmo. Nasceu da preocupação de transmitir aos
outros e a nós essa fidelidade. A Bíblia é, portanto, humana e
divina tanto por sua origem como por seu conteúdo: “É um homem que fala de Deus,
Deus o inspira, é verdade, mas não deixava de ser um homem. A inspiração o fez
dizer algo. Sem ela, teria emudecido inteiramente. Porque um homem recebeu a
inspiração, não disse tudo o que o mistério é, mas o homem pode dizer”
(Tratado sobre o Evangelho de São João 1,1).
Ler a Escritura é entrar na
intimidade da relação de Deus com um povo que nos deixou por escrito o que
temos de fazer para que nossa vida seja continuamente conectada com Ele. “Agostinho
fez da Escritura o alimento de sua vida cotidiana, e foi capaz
de distribuí-la também como pão ao seu povo” (SIERRA RUBIO, 2003, p.8).
Como nos ensina o Concílio Vaticano II, “[...] é tão grande a força e a
virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da
fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida
espiritual” (DV 21).
Frei Caio
Filipe de Lima Pereira, OSA
-Texto
publicado na coluna Theos do Jornal Inquietude On-line, de setembro
de 2023.
REFERÊNCIAS
[1] Cf. BONHOEFFER,
Dietrich. Ética. 7 ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005.
[2] Clayborne Carson (org.). A
autobiografia de Martin Luther King. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2014, p. 88-89.
Tradução: Carlos Alberto Medeiros.
AGOSTINHO, Santo. Comentário
ao Evangelho e ao Apocalipse de São João. Tomo 1. São Paulo: Cultor de Livros,
2017.
AGOSTINHO, Santo. Comentário
aos Salmos: salmos 51-100. Vol. 9/2. São Paulo: Paulus, 2014.
AGOSTINHO,
Santo. Confissões. 17.ed. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São
Paulo: Paulus, 2004.
BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial
da CNBB. 3.ed. Brasília: Edições CNBB, 2019.
BONHOEFFER, Dietrich. Ética.
7 ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005.
CLAYBORNE, Carson (org.). A
Autobiografia de Martin Luther King. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2014, p. 88-89.
Tradução: Carlos Alberto Medeiros.
CONCÍLIO VATICANO II.
Constituição Dogmática Dei Verbum. In: Documentos do Concílio
Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 1966.
O’DONNELL, James J. Bíblia. In:
FITZGERALD, Allan D, OSA (org.). Agostinho através dos tempos: uma
enciclopédia. São Paulo: Paulus, 2018. p.183-186.
SIERRA RUBIO, Santiago,
OSA. A Bíblia: O Manjar de Deus. Col. Cadernos de Espiritualidade
Agostiniana (7), FABRA. São Paulo, 2003.
https://agostinianos.org.br/artigo/santo-agostinho-e-a-palavra-de-deus/
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