5.3- HOMILIA DO 26° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
O REINO DE DEUS É CHAMADO DIVINO E RESPOSTA HUMANA
“Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as
prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. (Mt. 21,31)
Amados irmãs e amadas irmãs!
Como discípulos em formação permanente, neste domingo continuamos com a
temática das Parábolas do Reino. Se na semana passada fomos apresentados a
decisão compassiva de Deus, que em sua infinita misericórdia, a todos convida
para trabalhar no seu Reino de paz e amor, hoje, a parábola proposta por Jesus
Cristo fala da decisão de cada ser humano diante deste convite realizado pelo
Pai. Diante da proposta de Deus, podemos assumir dois caminhos: dizer “sim” e
colaborar com Ele de modo autêntico e verdadeiro ou escolher caminhos de
egoísmo, indiferença, falsidade e recusar o compromisso que Deus nos pede. A
Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Ele. Uma
decisão que significa um esforço leal na construção de um mundo novo, de
justiça, de fraternidade, de paz.
O evangelho de hoje situa-nos em Jerusalém, já perto do final da missão de
Jesus. Jesus já entrara em Jerusalém e fora recebido com louvores pela multidão
(Mt. 21,1-11).
Todavia, o entusiasmo do povo foi sendo substituído, aos poucos, por uma recusa
ou insatisfação diante do projeto apresentado por Jesus. Os líderes religiosos
questionam Jesus sobre sua “autoridade”, e Ele os indaga sobre a origem do
batismo pregado por João Batista. Diante do silêncio ou recusa em responder,
Jesus os adverte de que se eles continuassem de coração fechado, nunca
compreenderiam a forma como Deus escolheu salvar a humanidade. Jesus então
apresenta três parábolas, para ilustrar a recusa de Israel em acolher a
proposta do Reino. Com elas, Jesus convida os líderes religiosos a refletir
sobre a situação de fechamento que os impedirá de viver as alegrias do Reino de
Deus. Hoje, meditamos uma destas três parábolas.
A parábola dos dois
filhos aponta duas atitudes diversas ante as propostas de
Deus. O primeiro filho foi convidado pelo pai trabalhar “na vinha”. O filho
recusa de imediato. No contexto familiar da Palestina do tempo de Jesus, a
resposta causaria ao pai vergonha e acabava com sua autoridade e honra diante
dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, o primeiro filho acaba
por se arrepender de sua atitude e vai trabalhar na vinha (vers. 28-29). O
segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu: “sim, senhor, eu vou”. Ele
oferece uma resposta satisfatória, que não desrespeita e honra paterna. Foi
então considerado por todos como um filho exemplar. No entanto, na verdade, não
foi trabalhar na vinha. A parábola ensina que, no olhar de Deus, o que importa
não é quem se comportou bem apenas para manter a aparência. Mas, de acordo com
a lógica divina, o importante é cumprir, realmente, a vontade do pai. No Reino,
não bastam palavras bonitas ou boas intenções ditas apenas da boca para fora,
mas é preciso uma resposta decisiva e coerente aos desafios e às propostas do
Pai (Deus). Por isto, que em determinado momento, Jesus alertou aos fariseus de
que os cobradores e prostitutas entrariam primeiro que eles no Reino de Deus (Mt.21,31).
Diante desta urgente constatação, na primeira leitura (Ez.18,25-28), o profeta Ezequiel convida
os israelitas no cativeiro na Babilônia a comprometerem-se de forma séria e
coerente com Deus, sem desculpas ou justificativas. Cada fiel deve tomar
consciência do resultado do seu compromisso com Deus e assumir, com coerência
sua adesão à Aliança que Deus novamente oferece a Israel. Cada um precisa
descobrir que, diante das escolhas erradas e da insistência de permanecer no
caminho do mal, enfrentará as consequências. No entanto, se decidir abandonar
os caminhos de egoísmo e de pecado e decidir-se por Deus e pelos valores do seu
Reino, encontrará a vida e a liberdade almejada.
Assim, São Paulo –
na segunda leitura
(Fl. 2,1-11) – em um notável hino de louvor cristológico,
lembra que os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver na
entrega total ao Pai e aos seus planos redentores. Ao nos exortar para ter “os mesmos sentimentos e a mesma
caridade” que nosso Redentor e a viver “numa só alma e num só coração”, ele nos
lembra que mesmo divididos pela diversidade de línguas e culturas, somos todos
membros de um mesmo corpo e de uma só família e que por isto não devemos
nortear nossa vida em comunidade alimentados “por competição ou por vanglória; mas, com humildade”.
(Fl.2,3)
Aos olhos de quem não adentrou na dinâmica do Evangelho, não vestiu os trajes
dos convidados da festa do Reino (Cf: Mt. 22,1,14) e não aceita que a
misericórdia divina se volte para buscar os perdidos ou pecadores, Jesus foi um
rebelde. O cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde,
que fez da sua vida um caminho de acolhida para quem deseja recomeçar sua
peregrinação à Jerusalém Celeste. A parábola responde àqueles que o acusavam de
acolher os pecadores e os excluídos, isto é, aqueles que aparentemente,
disseram não a Deus em algum momento de sua vida. Jesus manifesta em suas
palavras e na sua vida que, na perspectiva de Deus, não interessam as
convenções externas, mas a atitude interior. O que honra a Deus não é o mero
cumprimento de ritos externos para aparentar bondade, mas o coração que cumpre
verdadeiramente a sua vontade. Os ritos celebrados devem ser acompanhados pela
verdade do coração. Os fariseus celebravam ritos escrupulosamente, no entanto
se recusavam a praticar a misericórdia para com aqueles que já estavam
condenados aos olhos de quem não conhece o coração de Deus. Nós devemos
celebrar o que vivemos e viver o que celebramos como nos recorda parte do Rito
de Ordenação. “Toma
consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a
tua vida com o mistério da Cruz do Senhor.”
Reflitamos: O que é que significa, dizer “sim” a Deus? Será que é ser batizado
ou crismado? Será ser casado na igreja? É fazer parte de alguma pastoral ou
movimento na paróquia? É ter feito votos em um instituto religiosos? É ir todos
os dias à missa? Obviamente que isto expressa nosso sim a Deus! Todavia, é
preciso que esse “sim inicial” se confirme, depois, no modo como vivemos a
dignidade do sacramento do Batismo ou da Confirmação em um verdadeiro esforço
permanente, trabalhando, na vinha do Pai. Nunca serão suficientes apenas
palavras e declarações de boas intenções. É justo e necessário viver, dia a
dia, os valores do Evangelho e seguir Jesus no caminho de amor que Ele
percorreu e assim construir através gestos concretos, um mundo de justiça, de
bondade, de solidariedade, de perdão, de paz.
Encerremos com o salmo deste domingo: O Senhor é piedade e retidão e
reconduz ao bom caminho os pecadores. Ele dirige os humildes na justiça, e aos
pobres Ele ensina seu caminho (vers. 8-9) Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos
e fazei-me conhecer a vossa estrada. Porque sois o Deus da minha salvação; em
Vós espero, ó Senhor, todos os dias! (vers. 4 -5)
Pe. Paulo Sérgio Silva.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.
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