5.2- 27 de setembro – 26º
DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André
Malacarne*
O
discípulo “fala” menos e “faz” mais!
1.
INTRODUÇÃO GERAL
A obediência ou a
desobediência à Palavra de Deus não se realiza com discursos imediatistas, mas
na configuração da vida. De fato, somos mais do que decisões isoladas, somos
mais do que um erro ou um acerto. Somos a soma das decisões que definem a
direção para a qual orientamos nossa existência. Pode acontecer que, uma hora
ou outra, seja necessário repensar o caminho, e isso não faz de ninguém melhor
ou pior. O horizonte de todo discípulo-missionário está na vida e no mistério
de amor de Jesus, capaz de viver um “sim” permanente, até a doação total na
cruz. A humildade e a entrega se transformam, em Jesus, em sinal de “glória”.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ez 18,25-28)
Ezequiel é o profeta do
exílio babilônico (século IV a.C.). Junto dele estão outros israelitas
deportados. Imaginemos um grupo que se encontra distante de sua terra e de sua
cultura conversando sobre essa situação, lembrando-se da família e do lugar
onde viviam e tentando encontrar um culpado de tudo o que estava acontecendo:
quem pecou para provocar a ira de Deus?
O profeta Ezequiel
recorda ao povo que não se trata de descobrir “quem pecou”, mas de assumir a
responsabilidade pessoal diante de todos os acontecimentos: “Quando um justo se
desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele
morre” (v. 26). Não é difícil também para nós cair na tentação de buscar
culpados, de buscar os “maus” da história, sem tomar consciência das nossas
maldades.
A profecia recorda ainda
que existe a tensão entre a perversão do justo e a conversão do injusto. Por
isso, a vida não pode ser resumida em uma ou outra prática, mas na direção do
bem, na conversão constante em vista de uma existência orientada para o caminho
do Senhor. Todos erramos em algum momento, mas Deus está sempre de braços
abertos para acolher quem decide regressar ao seu plano de amor:
“Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (v.
28).
2. II leitura (Fl 2,1-11)
A vida comunitária
carrega sempre tensões, por mais madura que seja. É bonito aquilo que São Paulo
escreveu à comunidade de Filipos: “aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor;
vivei em harmonia, procurando a unidade” (v. 2). A disputa pelo poder, a busca
por prestígio, os cargos utilizados para a imposição de ideias são armadilhas
às relações fraternas e à vivência da fé.
O caminho para “sarar”
essa ferida é reconhecer no outro um irmão, um “tu” muito amado por Deus: “Nada
façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o
outro é mais importante” (v. 3). Para viver essa condição de humildade, Paulo
evocou um hino que apresenta Jesus Cristo como aquele que “esvaziou-se a si
mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (v. 7).
Jesus é Deus que se abaixa, que se esvazia, que assume a natureza humana para
viver o amor até o fim, na cruz.
Cabe a todo seguidor de
Jesus, na experiência da comunidade cristã, não se colocar como o centro de
tudo nem buscar privilégios, mas, sim, assumir o imperativo da humildade, a
qual abre as portas para relações fraternas e justas e tem seu fundamento
naquilo que Paulo sintetizou de maneira muito direta: “Tende entre vós o mesmo
sentimento que existe em Cristo Jesus” (v. 5).
3. Evangelho (Mt 21,28-32)
Os dois filhos de que
nos fala o Evangelho deste domingo podem ser o espelho das nossas tensões mais
profundas. De um lado, um filho cumpridor das regras, obediente, que não
questiona, não interroga, mantém todas as aparências intactas, mas,
internamente, contraria tudo, com vergonha de dizer a verdade...; de outro, o
filho rebelde, contestador da autoridade paterna, desobediente, que, porém,
deixando aberto o espaço do pai, vai descobrindo o mapa do caminho que precisa
fazer e, pouco a pouco, deixa-se transformar.
Jesus conta a parábola
de um pai que mandou seus dois filhos trabalhar na sua vinha. O primeiro
resmungou, não queria, mas depois pensou melhor e foi para a vinha. O segundo
reagiu com entusiasmo – um entusiasmo imediato que, entretanto, não permaneceu.
Alguns estudiosos interpretam esses dois filhos como a imagem do povo de Israel
e dos pagãos. Os israelitas estabeleceram uma aliança com Deus rapidamente, mas
tiveram dificuldade de vivê-la. Os pagãos, por sua vez, não acolheram a Deus de
imediato, mas foram aderindo ao projeto de Jesus.
O seguimento de Jesus
Cristo se realiza no passo a passo da nossa vida. Não é uma decisão rasa e
imediata, nem mesmo uma obediência exterior. Seguir Jesus Cristo é sempre um
movimento de discernimento da liberdade, da responsabilidade, dos erros e dos
acertos, porque é essa a dinâmica da vida. O primeiro filho, que teve a
dificuldade inicial de acolher o chamado, descobriu que a vinha do pai também
era sua e foi trabalhar. Não basta dizer “sim, Senhor”, como o segundo filho.
Deus pede mais!
A parábola é contada aos
chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, ou seja, àqueles que tinham se
tornado a imagem do segundo filho: rígidos nas leis e calculistas no medir os
outros. Em contraposição a eles estão “as prostitutas e os publicanos” (v. 32),
que eram acusados de serem filhos maus, mas, para Jesus, precederão àquele
outro grupo no Reino de Deus (v. 31).
Jesus inverte a lógica e
mexe com nossos preconceitos. De fato, quando nos achamos superiores, como
indicou Paulo na segunda leitura, o Evangelho nos convida a tomar consciência
da nossa pequenez, a buscar o abaixamento, a reconhecer que nossas atitudes de
acusação do outro ou de algumas categorias sociais podem ser a tradução de uma
hipocrisia de que nosso coração está cheio. O caminho é sempre a mudança, a
conversão e a consciência que o salmista ajuda a tecer: “De mim lembrai-vos,
porque sois misericórdia e sois bondade sem limites, ó Senhor!”
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A liturgia da Palavra
deste domingo é uma oportunidade de avaliar e meditar a intencionalidade das
nossas ações: por que dizemos “sim” e por que dizemos “não”; quanto tempo
persevera nosso “sim” e quanto persevera nosso “não”. Um mundo “líquido” e
fluido parece que transforma tudo em imediatismo, em velocidade, o que acaba
distorcendo e diminuindo a seriedade de decisões importantes. O amor exige
tempo, demora, opção de vida que não se desfaz na primeira dificuldade. De
fato, Rilke, o grande poeta, já ensinou que “amar é durar, luzir com uma luz
que não tem fim”.
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon
André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São
Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em
Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia
Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/27-de-setembro-26o-domingo-do-tempo-comum-2/
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