9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)(**)
"ATÉ
QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE
SÃO FRANCISCO"
[Parte XV-02 – Final]
"Ó Mestre, fazei-me instrumento da vossa
paz!"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
A
princípio pode parecer absurda e descabida aos olhos de alguns credos
demasiadamente utopistas e de certas religiões excessivamente idealistas, a
proposta de uma Terapia da Imperfeição, tal como concebida pelo nicaraguense
Ricardo Petter. Isso porque, sob o ponto de vista de tais credos e religiões,
buscar apoio junto a alguém que se disponha a nos ajudar a aceitar, sem remorso
e sem culpa, nossos limites, falhas e imperfeições, não coaduna com a crença em
um paraíso perdido, a ser reconquistado por redenção divina, por um lado, e
pelo lado humano, por meio de resignação, sofrimento e sacrifício. Tal crença
não parece dialogar bem com uma terapia do tipo mencionado. O fato é que pecado
e culpa, acompanhados de purgatório, inferno e danação, têm sido a ponta de
ferro que faz girar, e consegue manter girando, o pião de certas teologias
calcadas mais no medo e na condenação, do que no amor, na misericórdia e no
perdão. Ainda assim, a aceitação de si mesmo, tal como se é e tal como por
vezes não se consegue deixar de ser – dadas as limitações, imperfeições e a natureza
pecaminosa do ser humano, de acordo com essas mesmas religiões – continua
sendo, de acordo com as ciências ditas humanas em geral, e a ciência
psicológica em particular, conditio sine qua non de uma autoestima saudável e
de uma qualidade de vida desejável. “Das ações humanas não se deve rir, chorar,
tampouco condenar, e sim compreender”, ensinava Baruch Espinosa. Quando
conseguimos compreender, já não há mais razão alguma para julgar, afirma André
Comte-Sponville. Ainda assim, se necessidade de julgar houvesse, de condenar,
com certeza, já não mais deveria. "O julgamento é da história, faz parte
dela – como ensinava Dom Armando Falcão, ex-Arcebispo de Brasília – mas o juízo
último é de Deus". Pressupondo-se, claro, que Deus exista, e que, em
existindo, seu amor seja de fato infinito e incondicional para com sua criação,
suas criações e suas criaturas.
À
guisa de conclusão: a princípio parece haver algo de errado e de
incompreensível no fato de muitos casais se sentirem envergonhados, quando a
situação real de sua vida conjugal e familiar vem à tona, tornando-se objeto de
comentários desfavoráveis por parte de outros casais e de outras famílias.
Geralmente isso acontece quando a convivência chega ao limite do insuportável,
e de uma forma ou de outra precisa ser compartilhada com o propósito de buscar
apoio e ajuda. Em situações como essa, quanto mais idealizado houver sido o
vínculo conjugal, tanto mais difícil tenderá ser a condição para se lidar de
forma serena e equilibrada com essa exposição pública da vida privada. Por
outro lado, quanto maior for a congruência entre a vida em preto e branco que
de fato se vive, e aquela ao vivo e a cores que se pinta e se tenta vender como
autêntica e exemplar, tanto menor tenderá a ser o constrangimento diante da exposição
pública do cotidiano do casal, bem como de uma eventual separação entre ambos.
Da mesma forma, só faz sentido firmar que o matrimônio, assim como o vínculo
conjugal, é um projeto divino, se estivermos suficientemente convencidos de que
esse mesmo projeto é levado a cabo, não com a participação de seres angelicais
e divinizados, e sim de seres imperfeitos, limitados e falhos. Por
consequência, e por questão de coerência, não se pode presumir que um tal tipo
de união só possa ser passível de
dissolução ou separação com a morte de um dos parceiros – “Até que a morte os
separe”, como mutuamente se declaram no dia “D” de suas vidas. Seria exigir
demais de seres imperfeitos e limitados, não raro sem condições de entregar o
que prometem e sem sequer terem consciência daquilo com que estão se
comprometendo e assumindo. O que Deus
uniu, certamente continua sendo acolhido e continuará sendo abençoado, mesmo se
– e sobretudo quando – essa união humanamente já não mais se sustenta, e deve,
respeitosa e humildemente ceder seu lugar a um outro vínculo e um novo
relacionamento. Novo vínculo e novo relacionamento validados e abençoados sim
"Senhor"! Como não!? Afinal, "Deus é amor! E Quem permanece no
amor permanece em Deus e Deus nele!".
Se
a Oração pela Paz continua sendo uma boa companhia para esta longa, média ou
curta viagem chamada vínculo conjugal, como também para o aconchego dessa
verdadeira casa de acolhida chamada família, é porque ela não pressupõe, para o
casal e para a convivência familiar, uma união idealizada, um relacionamento
romantizado e um vínculo desprovido de tensões e conflitos. Antes, propõe que
sejamos capazes de transformar aquilo que nos divide, naquilo que também tem o
condão de nos aproximar; aquilo que nos fere e machuca, naquilo que também pode
nos ajudar a crescer cada vez mais; aquilo que nos frustra e decepciona,
naquilo que também pode nos fortalecer e capacitar. Talvez a máxima “até que a
morte nos separe” não precise ser entendida como uma autêntica sentença de
morte para com um tipo de vínculo que, mais do que nenhum outro, é por
excelência transmissor e propagador de vida. O vínculo conjugal e o vínculo
familiar não precisam ser imunes às feridas e cicatrizes para serem fecundos,
nem ser perfeitos e puros para serem autênticos e verdadeiros. Precisam ser
apenas suficientemente humanos para comportar amor e desamor, proximidade e
distância, perdão e limite, realidade e esperança.
No
fim das contas, talvez seja exatamente isso o que a oração atribuída a
Francisco nos quer ensinar e propor: não que busquemos ser perfeitos – porque
para isso teríamos que deixar de ser humanos – mas que, apesar de nossos
limites e imperfeições, procuremos ser instrumentos de uma paz persistente, de
uma felicidade viável, e de uma convivência humanamente possível. Nada além
disso. Para um casal e para uma família isso basta. É suficiente. Máxima da
convivência: se não podes ser perfeito, não faças da perfeição uma condição
para amar e ser amado, nem tampouco para conviver em paz consigo e com quem
amas. O melhor de ti e o melhor do outro basta. É suficiente. Ao menos aos
olhos daquele que, a ambos, fez humanos, e não anjos, arcanjos,
mulher-maravilha e super-homem. "Uma corda estendida entre o animal e o
super-homem – uma corda sobre um abismo”, como queria Nietzsche.
Obs.: Esta décima quinta parte, tópico 02,
complementa e finaliza todas as demais anteriores, de mesmo título.
(*) Texto enviado pelo
autor, via Whatsapp de Vitória (ES).
(**)Possui
graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em
Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em
Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e
mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma -
Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e
psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES.Durante esses 11
anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do
mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual,
vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente
em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente,
cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.
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