quinta-feira, 24 de setembro de 2026

9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)(**)

  

9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)(**)


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

[Parte XV-02 – Final]

"Ó Mestre, fazei-me instrumento da vossa paz!"

[Atribuída a São Francisco de Assis]

A princípio pode parecer absurda e descabida aos olhos de alguns credos demasiadamente utopistas e de certas religiões excessivamente idealistas, a proposta de uma Terapia da Imperfeição, tal como concebida pelo nicaraguense Ricardo Petter. Isso porque, sob o ponto de vista de tais credos e religiões, buscar apoio junto a alguém que se disponha a nos ajudar a aceitar, sem remorso e sem culpa, nossos limites, falhas e imperfeições, não coaduna com a crença em um paraíso perdido, a ser reconquistado por redenção divina, por um lado, e pelo lado humano, por meio de resignação, sofrimento e sacrifício. Tal crença não parece dialogar bem com uma terapia do tipo mencionado. O fato é que pecado e culpa, acompanhados de purgatório, inferno e danação, têm sido a ponta de ferro que faz girar, e consegue manter girando, o pião de certas teologias calcadas mais no medo e na condenação, do que no amor, na misericórdia e no perdão. Ainda assim, a aceitação de si mesmo, tal como se é e tal como por vezes não se consegue deixar de ser – dadas as limitações, imperfeições e a natureza pecaminosa do ser humano, de acordo com essas mesmas religiões – continua sendo, de acordo com as ciências ditas humanas em geral, e a ciência psicológica em particular, conditio sine qua non de uma autoestima saudável e de uma qualidade de vida desejável. “Das ações humanas não se deve rir, chorar, tampouco condenar, e sim compreender”, ensinava Baruch Espinosa. Quando conseguimos compreender, já não há mais razão alguma para julgar, afirma André Comte-Sponville. Ainda assim, se necessidade de julgar houvesse, de condenar, com certeza, já não mais deveria. "O julgamento é da história, faz parte dela – como ensinava Dom Armando Falcão, ex-Arcebispo de Brasília – mas o juízo último é de Deus". Pressupondo-se, claro, que Deus exista, e que, em existindo, seu amor seja de fato infinito e incondicional para com sua criação, suas criações e suas criaturas.

À guisa de conclusão: a princípio parece haver algo de errado e de incompreensível no fato de muitos casais se sentirem envergonhados, quando a situação real de sua vida conjugal e familiar vem à tona, tornando-se objeto de comentários desfavoráveis por parte de outros casais e de outras famílias. Geralmente isso acontece quando a convivência chega ao limite do insuportável, e de uma forma ou de outra precisa ser compartilhada com o propósito de buscar apoio e ajuda. Em situações como essa, quanto mais idealizado houver sido o vínculo conjugal, tanto mais difícil tenderá ser a condição para se lidar de forma serena e equilibrada com essa exposição pública da vida privada. Por outro lado, quanto maior for a congruência entre a vida em preto e branco que de fato se vive, e aquela ao vivo e a cores que se pinta e se tenta vender como autêntica e exemplar, tanto menor tenderá a ser o constrangimento diante da exposição pública do cotidiano do casal, bem como de uma eventual separação entre ambos. Da mesma forma, só faz sentido firmar que o matrimônio, assim como o vínculo conjugal, é um projeto divino, se estivermos suficientemente convencidos de que esse mesmo projeto é levado a cabo, não com a participação de seres angelicais e divinizados, e sim de seres imperfeitos, limitados e falhos. Por consequência, e por questão de coerência, não se pode presumir que um tal tipo de  união só possa ser passível de dissolução ou separação com a morte de um dos parceiros – “Até que a morte os separe”, como mutuamente se declaram no dia “D” de suas vidas. Seria exigir demais de seres imperfeitos e limitados, não raro sem condições de entregar o que prometem e sem sequer terem consciência daquilo com que estão se comprometendo e assumindo.  O que Deus uniu, certamente continua sendo acolhido e continuará sendo abençoado, mesmo se – e sobretudo quando – essa união humanamente já não mais se sustenta, e deve, respeitosa e humildemente ceder seu lugar a um outro vínculo e um novo relacionamento. Novo vínculo e novo relacionamento validados e abençoados sim "Senhor"! Como não!? Afinal, "Deus é amor! E Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele!".

Se a Oração pela Paz continua sendo uma boa companhia para esta longa, média ou curta viagem chamada vínculo conjugal, como também para o aconchego dessa verdadeira casa de acolhida chamada família, é porque ela não pressupõe, para o casal e para a convivência familiar, uma união idealizada, um relacionamento romantizado e um vínculo desprovido de tensões e conflitos. Antes, propõe que sejamos capazes de transformar aquilo que nos divide, naquilo que também tem o condão de nos aproximar; aquilo que nos fere e machuca, naquilo que também pode nos ajudar a crescer cada vez mais; aquilo que nos frustra e decepciona, naquilo que também pode nos fortalecer e capacitar. Talvez a máxima “até que a morte nos separe” não precise ser entendida como uma autêntica sentença de morte para com um tipo de vínculo que, mais do que nenhum outro, é por excelência transmissor e propagador de vida. O vínculo conjugal e o vínculo familiar não precisam ser imunes às feridas e cicatrizes para serem fecundos, nem ser perfeitos e puros para serem autênticos e verdadeiros. Precisam ser apenas suficientemente humanos para comportar amor e desamor, proximidade e distância, perdão e limite, realidade e esperança.

No fim das contas, talvez seja exatamente isso o que a oração atribuída a Francisco nos quer ensinar e propor: não que busquemos ser perfeitos – porque para isso teríamos que deixar de ser humanos – mas que, apesar de nossos limites e imperfeições, procuremos ser instrumentos de uma paz persistente, de uma felicidade viável, e de uma convivência humanamente possível. Nada além disso. Para um casal e para uma família isso basta. É suficiente. Máxima da convivência: se não podes ser perfeito, não faças da perfeição uma condição para amar e ser amado, nem tampouco para conviver em paz consigo e com quem amas. O melhor de ti e o melhor do outro basta. É suficiente. Ao menos aos olhos daquele que, a ambos, fez humanos, e não anjos, arcanjos, mulher-maravilha e super-homem. "Uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo”, como queria Nietzsche.

Obs.: Esta décima quinta parte, tópico 02, complementa e finaliza todas as demais anteriores, de mesmo título.

(*) Texto enviado pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).

 

(**)Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES.Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.

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