9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
APARENTEMENTE ABSURDAMENTE
SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO
[Parte
I]
[∆]
Você e sua neta – substitua por neto, filho ou filha, se preferir – estão
retornando de uma festa de aniversário. O sinal fecha. Uma jovem aproveita,
sobe num monociclo e pedala, enquanto alterna quatro ou cinco bolinhas jogadas
para o alto, que retornam às suas mãos. Duas ou três bolinhas caem no chão. Ela
desce, recolhe e retoma o pequeno ritual. Agora é o monociclo que embaralha
suas pernas. Ela salta. Bolinhas e monociclo vão ao chão. Uma vez mais a jovem
recolhe tudo. O sinal fecha. Ela se dirige à calçada, baixa a cabeça e
permanece em silêncio. Você segue em frente. Sua neta, sem dizer uma palavra,
observa atentamente. De repente você dá meia-volta e retorna. O sinal está
fechado, mas a jovem continua lá, no mesmo lugar, cabisbaixa. Você encosta o
carro com cuidado. Chama pela jovem acenando com a mão. Sua neta segue
observando. Você diz à jovem, sem sequer saber seu nome: “Por favor, não
desista! Cair e levantar faz parte da vida. Acontece com você, comigo, com todo
mundo. Mundo que precisa muito, de pessoas como você!”. Ato contínuo, você
retira certa quantia da carteira e insiste: “Por favor, aceite. Mas por hoje
chega! Agora vá para casa!”. Ela responde: “Moço, não sei o que dizer! Vou
comprar algo para meus dois filhos que estão me esperando”. Você diz: “Não
precisa dizer nada! Você já disse tudo! Vá com Deus!”. Sua neta continua
atenta, sem dizer uma palavra. Você tem consciência de que regras existem. Mas
sabe também que regras admitem exceções. Bem como sabe que seu pequeno gesto
não vai resolver a vida daquela jovem, e muito menos salvar o mundo.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Rio, quarenta graus. Quarenta e três, para ser mais exato! Na praia, as pessoas
não saem da água. Algumas parecem bacalhau, de tanto sal. As crianças
reclamando o tempo todo, e a mais novinha esguelando. "Eita passeio! Sair
do Belém para conhecer o Rio, justo nesse período calorento, definitivamente
não foi uma boa ideia", desabafa a pobre mãe. Mas... Touché! De repente
ela escuta uma voz gritando: “Olha o picolé aí, gente! Só cinquentinha, para
acabar rapidinho!”. Ela pensa: “Cinquenta reais um picolé já é demais! Puta
merda!”. Mas a mais novinha acaba de cagar. E convenhamos: esguelar por quase
uma hora, paciência; até dá para aguentar. Mas esguelar toda cagada, naquele
calorão do inferno, ninguém merece! “Dá dois picolés aqui, moço! Um de limão,
outro de abacaxi! Abacaxi não tem não!? De coco, então!”. Em um minuto a
menorzinha e os irmãozinhos devoram tudo. Quase engolindo os palitos junto.
“Mãe, quero mais!”. A paciência se esgota. Tudo tem limite. “Todo mundo pra
casa! Agora! Vamos logo! Pra morrer nesse forno, que mais parece o inferno, a
gente morre em casa!”. Ela estava cansada de saber que aqueles dois
picolezinhos não iriam adiantar coisa nenhuma. Mas melhor dois, que nada.
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ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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No fim, não teve jeito! Você acabou mesmo se separando daquele estropício,
porque senão a emenda acabaria ficando pior que o soneto. Não foi uma tomada de
decisão precipitada, decidida de uma hora para outra, menos ainda sem motivos
que a justificassem. Sinceramente, não foi. Foram anos de diferenças, de
discussões pesadas, palavrões, e por vezes até vassouradas. As coisas foram se
acumulando, acumulando, até que finalmente você explodiu com seu grito de
guerra: “Independência ou morte! Chega! Cada um pro seu lado! Suma já da minha
vida!”. Hoje você vive com outro, e ele, pelo que você ficou sabendo, com duas
outras. A vida andou e você andou junto. Você está bem. Aliás, bem não. “Muito
bem, obrigada!”. Só que, de vez em quando, lá uma vez por outra, uma na vida
outra na morte, você se vê tomada por uma saudade que, sem pedir licença, invade sua privacidade. Saudade de uma
conversa, de um olhar, de uma risada, de uma cumplicidade que vocês tinham –
aos tapas e beijos, é bem verdade – e que ninguém mais parece ter nos dias de
hoje. Você sabe muito bem por que se separou, e está fora de cogitação sequer
pensar em voltar. Mas também sabe que descartar, assim do nada, o que havia de
bom, não é fácil. Não é mesmo! Seria mentir para si mesma. Ecco! La vita è
così! Estropício!
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Tá lembrado daquele botão da camisa que está por um fio? De navalha, não; de
linha mesmo. Você olha para ele e pensa: “Amanhã eu costuro essa merda!”. O amanhã
chega, você esquece. O depois de amanhã também chega! E você esquece de novo. E
o danado continua ali, pendurado por duas linhazinhas, desafiando a gravidade
e, mais que a gravidade, a sua incansável preguiça. Incansável preguiça, é boa!
Até que um dia você precisa sair correndo, voando. Olha para o bendito botão já
nas últimas, e pensa: “Agora ele cai! Porca miséria!”. Não cai. Você chega ao
seu destino, passa a mão na camisa e ele continua lá, mais firme do que nunca,
como se tivesse sido pregado com Araldite. Você está careca de saber que o
bicho deveria ter sido consertado há meses. Talvez anos. Mas o seu inconsciente
é traiçoeiro: “Eu, hein!!! Enquanto não cai, vai mexer pra quê!?”.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Você está numa padaria. Esperando o café e olhando distraidamente para o
movimento. À sua frente, um senhor de idade, cabelos brancos, conta algumas
moedas sobre o balcão. Conta uma vez. Conta duas. Depois outra. Falta pouco.
Uma única moeda. Ele olha para o pão que pretende comprar, olha para as moedas,
e começa a guardar tudo de volta no bolso. Você poderia simplesmente se
adiantar e se oferecer para pagar a diferença. A maioria talvez fizesse isso.
Não lhe faria falta alguma. Talvez você nem percebesse, depois. Mas há uma
diferença entre dar dinheiro, oferecer uma ajuda, prestar um socorro, ou
contribuir para que alguém que já perdeu muito, quase tudo, possa recobrar seu
autorrespeito, sua dignidade e sua autoestima. Discretamente você se aproxima da
balconista, entrega-lhe uma moeda, e simplesmente diz: “Com licença! Acho que
essa moeda deve ter caído das mãos desse senhor”. O idoso olha para o chão,
olha para você, percebe a delicadeza do seu gesto, sorri e diz: “Obrigado”.
Você sorri de volta, pega seu café e vai embora. Talvez aquele senhor tenha
apenas comprado um pão naquele dia. Talvez não. Talvez tenha conseguido algo
bem mais importante: a sensação inestimável de ser tratado com amor, respeito e
dignidade, sem sequer ter pedido por isso. Bendita moeda. Gesto belíssimo!
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Sabe aquela cadeira que ninguém escolhe para sentar porque é dura, baixinha e
já está até meio bambinha, prestes a despedaçar a qualquer momento? Pois é.
Todo mundo, disfarçadamente ou não, acaba saindo fora daquela cadeirinha.
Sobretudo quem já anda com uns quilinhos a mais na barriguinha. Já imaginou o
vexame se a cadeirinha... trec! Despedaça? Com que cara o recém-caído
barrigudinho vai ficar, não é verdade? Mas pra você a relação com a cadeirinha
é bem outra. Por histórias que só você tem pra contar, é justamente ali, na
bendita cadeirinha, que você mais gosta de sentar. Dê no que dê! Ou, no que
deixe de dar. Pode haver poltrona italiana na sala, sofá de couro canadense,
cadeira de balanço, cadeira do papai, e sabe-se lá o que mais, pra se sentar.
Enquanto a cadeirinha não quebrar, é nela que você vai sentar. E ai de quem
tirá-la do lugar! Eita cadeirinha preciosa!
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUA, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIA.
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Difícil é suportar aquele sujeito que, toda vez que você conta uma história,
interrompe para corrigir um detalhe pelo qual ninguém perguntou absolutamente
nada. Você fala que foi ontem, ele corrige dizendo que foi anteontem. Você diz
que eram oito pessoas, ele garante que eram nove. Você fala que choveu pra
caramba, ele garante que não foi chuva. Foi garoa. E fininha. Nem precisou de
guarda-chuva. E você vai deixando pra cá, deixando pra lá, cozinhando o galo e
a galinha. Pintinhos não, porque aí já seria covardia. Até que um dia você
conta uma história que viveu absolutamente sozinho, no meio do deserto do
Saara, meia-noite, de um ano bissexto. Daquelas que ninguém no mundo tem como
saber o que aconteceu com você. Para sua surpresa – ou já nem tanto, assim – o
nosso fita-cassete interrompe: “Não foi bem assim!”. Você olha para o cara,
respira fundo, detém o fogo nas narinas pra não cuspir fogo nele, e então manda
ver: “Ah, é, sabichão!? Tudo bem! Então conta você!”. Silêncio! Absurdo!
Sepulcral! De sentir mosquinha zumbindo a quilômetros. Ele não sabe. Nunca
soube. Virou surdo-mudo. Mas durante anos passou a vida confundindo ter razão
sobre alguma coisa, com ter opinião sobre tudo. Fosse o que fosse.
Curiosamente, certo tempo depois você percebe que aquela mania de corrigir os
outros em tudo, uma coisa que parecia absolutamente inútil e sem sentido, tinha
algo importante escondido: ensinar você a selecionar melhor as batalhas pelas
quais vale a pena lutar, e aquelas diante das quais é melhor retroceder.
Tagarela!
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Ponte supercongestionada. Carros andando a passo de tartaruga. Tartaruga velha,
já cansada. Você, como sempre, apressado. Buzinaço atrás de buzinaço. "Sai
da frente, palhaço! Mas que merda!Só pode ser mais um louco querendo ir pro
espaço!". Você zomba, escracha, baixa o vidro e tenta abrir conversa com o
motorista do lado. Você tinha razão! Alguns metros à frente, uma ou duas
pessoas, à distância, tentam convencer uma mãe desesperada a saltar da mureta.
Para o lado de dentro, claro. Não dá certo. A mulher insiste que vai saltar de
qualquer jeito. Diz que não aguenta mais o marido violento, o filho drogado, o
pai na UTI e... Nesse exato momento, você está passando ao lado. Não tá nem aí
pro que está acontecendo. Muito pelo contrário. "Deixa pular!", você
grita. "Se tivesse que pular, já teria pulado!". Os gritos continuam
e a fila segue em frente. Incluindo seu carro. Você chega em casa reclamando de
Deus e de todo mundo. Vai dormir tarde e terá que levantar cedo. Como sempre.
No dia seguinte, no trabalho, você ouve alguém comentando o fato, enquanto
assiste a cena no noticiário da TV: "Meu Deus! Mais uma que tira a vida.
Ainda por cima, uma mãe de família!". Nesse exato momento, a cena mostra
você passando e gritando o que havia gritado. Coincidência ou não, aquela mãe
salta para a morte alguns segundos depois. Os colegas reconhecem você. Não
falam nada. Ficam calados. Consigo mesmo, você pensa: "Será que pulou por
causa do que eu falei!? Puta merda! Só faltava essa!". Não há como saber.
Nem você nem ninguém jamais saberá. "E se eu tivesse dito exatamente o
contrário!? Será que ela não teria saltado?". Duas ou três palavras bem
colocadas, e talvez ela não tivesse pulado. Talvez nada mais que isso.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Agora fala sério! Lembra daquele ventilador velho que você guarda naquele
quarto imundo, todo empoeirado e fedorento, que faz mais barulho do que vento?
Você liga e ele começa: nhéc-nhéc-nhéc... Parece que vai levantar voo, mas o
máximo que consegue é espalhar o calor de um canto para o outro. Você olha para
ele e pensa: “No próximo mês, quando eu receber meu salário – se é de
aposentadoria, cuidado: você já anda mais pra lá do que pra cá – eu compro
outro”. O salário entra e sai – com o preço atual das coisas, sai rápido até
demais – e nada do INSS aprovar a aposentadoria do coitado do ventilador.
"Que saco!". Até que numa noite de calor insuportável, beirando 45
graus, você resolve dormir com ele ligado. Eita decisão mal tomada! O danado
começa a girar, girar, girar sempre mais, até fazer um barulho infernal e... De
repente você percebe que está dormindo como um anjinho. Mas não é pelo ventinho.
É pelo excesso absurdo de barulho que o bendito acabou fazendo. Finalmente, por
bem ou por mal, você teve que entender que aquele trambolho barulhento, que
parecia não servir nem para espantar uma mosca, estava fazendo exatamente
aquilo que você precisava: fazer você desabar de sono, de tanta raiva.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
Obs.: Esta
primeira parte será completada pela segunda e pela terceira de mesmo título.
(*) Texto enviado pelo autor, via
Whatsapp de Vitória (ES).
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