4.2-1º de novembro – TODOS OS SANTOS E SANTAS
Por Ir.
Dra. Izabel Patuzzo*
A vocação de todos nós
1. INTRODUÇÃO GERAL
A celebração da
solenidade de Todos os Santos nos convida a contemplar a vida de todos aqueles
e aquelas que, de diversos modos, seguiram a Cristo na fidelidade, deixando-nos
exemplos de grandes testemunhos. Inúmeras pessoas não apenas trilharam o caminho
do discipulado de Jesus Cristo, mas também viveram de tal modo sua fé, que
construíram o Reino de Deus ao seu redor.
Na primeira leitura, o
Apocalipse de João descreve, em linguagem simbólica, a multidão daqueles que
deram a vida pela fé no Cordeiro de Deus. Eles “aclamam em alta voz que a
salvação pertence somente ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao
Cordeiro”. A segunda leitura nos recorda que, pelo sacramento do batismo, fomos
chamados para a vida de santidade como filhos e filhas de Deus. O Evangelho nos
apresenta as bem-aventuranças como caminho de uma vida pautada pelas diretivas
de Deus.
2. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ap 7,2-4.9-14)
A leitura do Apocalipse
proposta nesta liturgia descreve a multidão dos santos ao redor do trono
celeste, lugar que, na linguagem apocalíptica, significa a morada de Deus. Eles
são provenientes de todas as tribos de Israel, simbolizando que a corte celeste
é a morada de todos os santos, que vêm de todos os lugares. O cenário descrito
é de uma grande liturgia, em que todos adoram somente aquele que está no trono
celeste, Deus, e o Cordeiro. Trajam vestes brancas, símbolo da pureza daqueles
que não praticaram a idolatria. Trazem uma palma na mão, que expressa o
testemunho por meio do martírio. Esse sinal é conservado até hoje nas imagens
dos santos que testemunharam sua fé mediante a doação da própria vida. Todos
aqueles que foram marcados pelo sinal do batismo são protegidos por Deus contra
as forças do mal. O número 144 mil (12 x 12 x 1.000) é representativo de todas
as tribos de Israel, das quais se originaram as comunidades cristãs. Desse
modo, as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo estão em comunhão com todos
os antepassados que foram fiéis à Aliança. O número doze simboliza totalidade,
completude. Ao recordar o nome de cada tribo (v. 5-8, ausentes na leitura),
João indica às comunidades de seu tempo que Deus conhece cada uma pelo nome,
para a eternidade.
2. II leitura (1Jo 3,1-3)
A primeira carta de João
foi escrita para aprofundar a espiritualidade cristã e a consciência da ética
social das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo mediterrâneo do primeiro
século. Com a morte dos apóstolos, as comunidades da segunda geração sofrem com
as hostilidades e ameaças da parte do Império Romano e com as heresias vindas
do mundo helênico gentio. Nesse contexto, João deseja fortalecer a fé dos
discípulos e discípulas de Jesus Cristo.
O texto da segunda
leitura apresenta os traços característicos dos filhos e filhas de Deus, que é
o amor traduzido em ações. O amor a Deus e ao próximo deve estar no “DNA” do
cristão. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus; em
consequência, a criatura humana é chamada a cuidar da obra da criação, no
sentido mais amplo da palavra, com amor. As obras do mal, como vingança,
violência, mentira, corrupção, roubo, por exemplo, não podem habitar o coração
dos filhos e filhas de Deus. O cristão tem uma missão no mundo, que é a
vivência da caridade e dos valores evangélicos. Em Jesus Cristo, o amor de Deus
se revelou em plenitude. Jesus veio para iluminar as trevas e distinguir quem
caminha na luz de quem caminha na escuridão.
A leitura é grande
convite para perseverarmos no amor divino, que habita em nós pela água e pelo
Espírito, derramados sobre nós no batismo, e no amor de Cristo, pelo qual Deus
nos concede a vida eterna. Ser membro da comunidade de fé significa pertencer à
grande família dos filhos e filhas de Deus, que rejeitam todas as obras do mal.
3. Evangelho (Mt 5,1-12a)
A proclamação das
bem-aventuranças na montanha é dirigida àqueles que já estão no caminho do
discipulado. Esse ensinamento de Jesus é a carta magna para aqueles que
escolheram os valores do Reino de Deus. Por isso, o Evangelho segundo Mateus
insere esse discurso da montanha logo após o chamado dos primeiros discípulos.
O conjunto das bem-aventuranças constitui as orientações vitais para uma
comunidade que tem Jesus Cristo como Mestre e atualiza a Lei mosaica para o
contexto cristão.
O relato mateano das
bem-aventuranças deixa entrever que Jesus se dirige aos pequenos, enfermos,
pobres, àqueles que depositam toda a sua confiança em Deus, e não nos bens e
poderes deste mundo. Dizer que os pobres são bem-aventurados significa dizer
que a humildade e a simplicidade são atitudes fundamentais para os discípulos e
discípulas do Senhor, pois os ajudam a não cultivar a busca pelo ter ou o
domínio sobre os irmãos e irmãs.
As oito bem-aventuranças
formam um todo que se inicia e se conclui com a mesma expressão iluminadora:
“porque deles é o Reino dos Céus”. A palavra “justiça” também é um termo
central nessa passagem. Trabalhar pela justiça é atitude profética. Lutar pelos
direitos dos pobres é prática que vem de longa tradição bíblica, presente na
Lei mosaica, e, portanto, acompanha o povo de Deus desde os tempos mais
antigos.
As primeiras
bem-aventuranças recordam que a pobreza de espírito está estreitamente ligada à
atitude de mansidão. Jesus foi humilde e manso de coração, rechaçando todo tipo
de violência e agressão. Os aflitos serão consolados, pois, assim como Jesus os
consolou, também seus discípulos e discípulas são chamados a consolar os que
sofrem, sobretudo as vítimas de injustiça. Os puros de coração representam
todos os que escolhem o caminho do direito e da verdade. E os que trabalham
pela paz têm uma missão essencialmente social. Os que são perseguidos porque
promovem a justiça e a paz representam todas as pessoas que, apesar de sofrerem
por serem coerentes com os valores do Reino, cultivam no coração o espírito das
bem-aventuranças.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Todas as leituras desta
solenidade abrem-nos o espírito e o coração para seguirmos um caminho de
santidade com o olhar para a realidade além deste mundo. Para alcançar a glória
da ressurreição, tudo o que se passou com Jesus também se realizou e se realiza
na vida de quem abraça a fé cristã.
Como membros da grande
família dos filhos e filhas de Deus, temos traços em comum, dos quais o
principal é a vivência do mandamento do amor na sua concretude. A solenidade
deste domingo reúne inúmeros testemunhos de santos e santas que trazem em si a
imagem e semelhança de Deus; rostos de uma humanidade transfigurada. Os santos
não se consideravam pessoas perfeitas e, de fato, não eram. Somente Deus é
perfeito. Não obstante, esforçaram-se para se aproximar da imagem de Jesus
Cristo, buscando a cada dia crescer como seres humanos, como discípulos e
discípulas, tendo como meta a fidelidade ao Evangelho.
Ir. Dra. Izabel Patuzzo*
*Ir. Izabel Patuzzo pertence à Congregação Missionárias da
Imaculada. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e
em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção.
Doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
E-mail: isabellapatuzzo@hotmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/1o-de-novembro-todos-os-santos-e-santas-3/
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