sexta-feira, 30 de outubro de 2026

8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

 8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)


"TEMAS COMPLEXOS EM PAUTA NO CONGRESSO: PATRIOTISMO E COMPROMISSO, OU SENSACIONALISMO E OPORTUNISMO?"

                           [Parte I]

           "Problemas complexos  raramente admitem soluções simples" [L.S.M.]

“Solução Final”: não há como esquecê-la. Recebeu esse nome em razão do pressuposto de que, depois dela, não haveria necessidade de lançar mão de nenhuma outra. Foi concebida como suficiente, irrefutável e definitiva. O assassinato de aproximadamente seis milhões de judeus foi seu resultado mais hediondo. A solução final não surgiu de repente, única e exclusivamente em razão do brilhantismo maquiavélico de uma mente. Foi resultante de um processo gradual de radicalização de natureza ideológica, política e social, para ficar apenas nessa tríade. Transformado em política de Estado, o antissemitismo foi alimentado pela propaganda nazista em busca de culpados para a crise sem precedentes que assolava a Alemanha naquele momento. A Segunda Grande Guerra acelerou esse processo, fazendo com que a discriminação e a exclusão evoluíssem para perseguições, deportações em massa e, finalmente, o extermínio sistemático de milhões de pessoas. Fanatismo ideológico, concentração de poder, silêncio conspirador e uma dose inaceitável de conformismo social: essa foi a combinação de fatores que deu origem à mais macabra de todas as atrocidades: a “solução final”.

Vivemos tempos difíceis. Alguns não hesitariam em classificá-los como sombrios. Outros, ainda mais pessimistas, diriam que estamos vivendo uma era de retrocessos e que o pior ainda está por vir. Manter-se equidistante tanto do excesso de pessimismo quanto do excesso de otimismo pode parecer difícil. Difícil, mas necessário. “O otimista é um tolo, o pessimista é um chato. Bom mesmo é ser realista com esperança”, sugere Ariano Suassuna. A democracia, bem longe do que se poderia presumir, não é exatamente uma utopia. É a governança do possível. O ideal permanece como fonte de inspiração para que esse possível não se distancie demasiado do real, e menos ainda descambe para o sombrio mundo da malandragem, da fanfarronice e dos interesses espúrios.

Em nosso país, no exato interstício entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição, um repertório de medidas de última hora vem sendo sancionado de forma inoportuna, controvertida e irresponsável por parte da Câmara e do Senado, em indisfarçável conluio com um dos candidatos. Essa demonstração de leviandade deixa no ar a suspeita de que o interesse público e o bem comum estejam sendo relegados em favor do sensacionalismo retórico – mais conhecido como populismo – e do oportunismo político. Mas como conseguir perceber o “manobrismo” que norteia uma estratégia, quando se opera com uma mente passionalmente polarizada, incapaz de acessar as entrelinhas dos discursos e a ambiguidade das intenções?

A presente reflexão não pretende abordar prós e contras das benesses e dos pacotes de bondades que ambos os candidatos vêm prometendo e que o Congresso vem votando em velocidade supersônica e a toque de caixa. Pretende, sim, ser um chamado ao bom senso e à reflexão em meio ao tsunami dos acontecimentos em curso. Afinal, para que o voto possa cumprir sua função, não basta que o eleitor-cidadão compareça às urnas. Isso é importante, mas insuficiente. É preciso que cada voto seja expressão de uma decisão bem fundamentada e consciente. Se você continua fazendo parte de uma minoria que ainda pensa, cuja mente não se deixou polarizar, tente responder a essa simples pergunta: por quais razões, em plena era da informação e do conhecimento, a velha tática do “pão e circo” continua desafiando a liberdade e a autonomia do pensamento? Com essa luz nos servindo de “estrela-guia”, vejamos como o oportunismo e o sensacionalismo podem se esconder por trás de discursos de patriotismo, compromisso e comprometimento proferidos pelos candidatos.

Suponhamos que você seja declaradamente favorável à redução da chamada escala 6x1 para 5x2, cinco dias de trabalho e dois de descanso, um dos tantos “pacotes” que, como maná, parecem estar caindo do céu em resposta aos apelos e súplicas de ambos os candidatos. Nesse caso, você faz parte de um percentual estatístico que gira em torno de sessenta e seis e setenta e três por cento dos brasileiros, de acordo com as pesquisas. Lembrando que esse apoio varia conforme as condições propostas, especialmente a manutenção dos salários. Imaginemos também que você não seja um simples cidadão entre tantos outros. Você é um Senador da República. Detalhe importante: onde se lê “Senador”, entenda-se “servidor” da República. Já no cargo, o político politiqueiro fácil e rapidamente se esquece disso. Pressuponha ainda que você não seja um entre tantos outros Senadores: você ocupa o cargo de Presidente da Casa. No presente caso, do Senado. Sabedor de que a Câmara dos Deputados já votou a favor da aprovação da PEC em questão e sabendo que essa aprovação não teria sido devidamente precedida por debate e discussão, você decide arquivar a referida PEC. Parabéns para você. Isso se chama liderança política. Liderança, consciência e compromisso. A isso se dá o nome de Democracia. Se representativa, indireta, não importa. Continua sendo Democracia. Até aqui você continua honrando sua profissão e dignificando o cargo que ocupa. Vai se sentir bem ao contemplar sua imagem no espelho e encarar seus filhos e netos.

Mas eis que, de repente, entra em cena a serpente que expulsou mais de um milhão do paraíso. Você se vê envolvido por uma situação de altíssima tensão política, em que a polarização e o idolatrismo acrítico vêm ditando o ritmo. Assim como os dois candidatos que ocupam os polos dessa polarização, você sabe disso. A saúde política do país agoniza na UTI. A situação é emergencial. O momento é crítico. A solução precisa ser cirúrgica. Um dos candidatos, considerado azarão, saiu à frente depois de um primeiro turno de votação. Contratados a peso de ouro, os respectivos “staffs”, incluindo os seus, entram em cena. É hora de pensar com rapidez, maquiavelizar, raciocinar e elaborar a “solução final”. A orientação é clara: não importa que solução seja tomada. Importa que funcione. Ética, valores, princípios e virtuosidade: depois se pensa nisso. Poder é poder e pouco ou nada tem a ver com tudo isso. Nietzsche talvez dissesse: o poder está para além do bem e do mal. Kelsen talvez diria: quando o poder entra por uma porta, a justiça sai pela outra. “O fanatismo e a inteligência nunca habitam a mesma casa”, afirma Ariano Suassuna. Num quadro como esse, oportunismo e sensacionalismo campeiam livres, sem que ninguém – exceto mentes ainda livres – lhes faça frente. Nas ruas e praças, nos centros e nas periferias, o refrão ecoa alto: “olha a ‘solução final’ chegando a jato aí, gente!!!”. Lavô-jatô, passou o rodo, promulgou, e o assunto tá encerrado. Senatus locuta, causa finita!Cumpra-se!

Obs.: Esta primeira parte continua e se conclui com a segunda, de mesmo título.

(*)Reflexão enviada de Vitória (ES) via Whatsapp.

 

 

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