8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
"TEMAS COMPLEXOS EM PAUTA NO CONGRESSO: PATRIOTISMO E
COMPROMISSO, OU SENSACIONALISMO E OPORTUNISMO?"
[Parte I]
"Problemas complexos raramente admitem soluções simples" [L.S.M.]
“Solução
Final”: não há como esquecê-la. Recebeu esse nome em razão do pressuposto de
que, depois dela, não haveria necessidade de lançar mão de nenhuma outra. Foi
concebida como suficiente, irrefutável e definitiva. O assassinato de
aproximadamente seis milhões de judeus foi seu resultado mais hediondo. A
solução final não surgiu de repente, única e exclusivamente em razão do
brilhantismo maquiavélico de uma mente. Foi resultante de um processo gradual
de radicalização de natureza ideológica, política e social, para ficar apenas
nessa tríade. Transformado em política de Estado, o antissemitismo foi
alimentado pela propaganda nazista em busca de culpados para a crise sem
precedentes que assolava a Alemanha naquele momento. A Segunda Grande Guerra
acelerou esse processo, fazendo com que a discriminação e a exclusão evoluíssem
para perseguições, deportações em massa e, finalmente, o extermínio sistemático
de milhões de pessoas. Fanatismo ideológico, concentração de poder, silêncio
conspirador e uma dose inaceitável de conformismo social: essa foi a combinação
de fatores que deu origem à mais macabra de todas as atrocidades: a “solução
final”.
Vivemos
tempos difíceis. Alguns não hesitariam em classificá-los como sombrios. Outros,
ainda mais pessimistas, diriam que estamos vivendo uma era de retrocessos e que
o pior ainda está por vir. Manter-se equidistante tanto do excesso de
pessimismo quanto do excesso de otimismo pode parecer difícil. Difícil, mas
necessário. “O otimista é um tolo, o pessimista é um chato. Bom mesmo é ser
realista com esperança”, sugere Ariano Suassuna. A democracia, bem longe do que
se poderia presumir, não é exatamente uma utopia. É a governança do possível. O
ideal permanece como fonte de inspiração para que esse possível não se
distancie demasiado do real, e menos ainda descambe para o sombrio mundo da
malandragem, da fanfarronice e dos interesses espúrios.
Em
nosso país, no exato interstício entre o primeiro e o segundo turno de uma
eleição, um repertório de medidas de última hora vem sendo sancionado de forma
inoportuna, controvertida e irresponsável por parte da Câmara e do Senado, em
indisfarçável conluio com um dos candidatos. Essa demonstração de leviandade
deixa no ar a suspeita de que o interesse público e o bem comum estejam sendo relegados
em favor do sensacionalismo retórico – mais conhecido como populismo – e do
oportunismo político. Mas como conseguir perceber o “manobrismo” que norteia
uma estratégia, quando se opera com uma mente passionalmente polarizada,
incapaz de acessar as entrelinhas dos discursos e a ambiguidade das intenções?
A
presente reflexão não pretende abordar prós e contras das benesses e dos
pacotes de bondades que ambos os candidatos vêm prometendo e que o Congresso
vem votando em velocidade supersônica e a toque de caixa. Pretende, sim, ser um
chamado ao bom senso e à reflexão em meio ao tsunami dos acontecimentos em
curso. Afinal, para que o voto possa cumprir sua função, não basta que o
eleitor-cidadão compareça às urnas. Isso é importante, mas insuficiente. É
preciso que cada voto seja expressão de uma decisão bem fundamentada e
consciente. Se você continua fazendo parte de uma minoria que ainda pensa, cuja
mente não se deixou polarizar, tente responder a essa simples pergunta: por
quais razões, em plena era da informação e do conhecimento, a velha tática do
“pão e circo” continua desafiando a liberdade e a autonomia do pensamento? Com
essa luz nos servindo de “estrela-guia”, vejamos como o oportunismo e o
sensacionalismo podem se esconder por trás de discursos de patriotismo,
compromisso e comprometimento proferidos pelos candidatos.
Suponhamos
que você seja declaradamente favorável à redução da chamada escala 6x1 para
5x2, cinco dias de trabalho e dois de descanso, um dos tantos “pacotes” que,
como maná, parecem estar caindo do céu em resposta aos apelos e súplicas de
ambos os candidatos. Nesse caso, você faz parte de um percentual estatístico
que gira em torno de sessenta e seis e setenta e três por cento dos
brasileiros, de acordo com as pesquisas. Lembrando que esse apoio varia
conforme as condições propostas, especialmente a manutenção dos salários.
Imaginemos também que você não seja um simples cidadão entre tantos outros.
Você é um Senador da República. Detalhe importante: onde se lê “Senador”,
entenda-se “servidor” da República. Já no cargo, o político politiqueiro fácil
e rapidamente se esquece disso. Pressuponha ainda que você não seja um entre
tantos outros Senadores: você ocupa o cargo de Presidente da Casa. No presente
caso, do Senado. Sabedor de que a Câmara dos Deputados já votou a favor da
aprovação da PEC em questão e sabendo que essa aprovação não teria sido
devidamente precedida por debate e discussão, você decide arquivar a referida
PEC. Parabéns para você. Isso se chama liderança política. Liderança,
consciência e compromisso. A isso se dá o nome de Democracia. Se
representativa, indireta, não importa. Continua sendo Democracia. Até aqui você
continua honrando sua profissão e dignificando o cargo que ocupa. Vai se sentir
bem ao contemplar sua imagem no espelho e encarar seus filhos e netos.
Mas
eis que, de repente, entra em cena a serpente que expulsou mais de um milhão do
paraíso. Você se vê envolvido por uma situação de altíssima tensão política, em
que a polarização e o idolatrismo acrítico vêm ditando o ritmo. Assim como os
dois candidatos que ocupam os polos dessa polarização, você sabe disso. A saúde
política do país agoniza na UTI. A situação é emergencial. O momento é crítico.
A solução precisa ser cirúrgica. Um dos candidatos, considerado azarão, saiu à
frente depois de um primeiro turno de votação. Contratados a peso de ouro, os
respectivos “staffs”, incluindo os seus, entram em cena. É hora de pensar com
rapidez, maquiavelizar, raciocinar e elaborar a “solução final”. A orientação é
clara: não importa que solução seja tomada. Importa que funcione. Ética,
valores, princípios e virtuosidade: depois se pensa nisso. Poder é poder e
pouco ou nada tem a ver com tudo isso. Nietzsche talvez dissesse: o poder está
para além do bem e do mal. Kelsen talvez diria: quando o poder entra por uma
porta, a justiça sai pela outra. “O fanatismo e a inteligência nunca habitam a
mesma casa”, afirma Ariano Suassuna. Num quadro como esse, oportunismo e
sensacionalismo campeiam livres, sem que ninguém – exceto mentes ainda livres –
lhes faça frente. Nas ruas e praças, nos centros e nas periferias, o refrão
ecoa alto: “olha a ‘solução final’ chegando a jato aí, gente!!!”. Lavô-jatô,
passou o rodo, promulgou, e o assunto tá encerrado. Senatus locuta, causa
finita!Cumpra-se!
Obs.: Esta primeira parte continua e se conclui
com a segunda, de mesmo título.
(*)Reflexão enviada de
Vitória (ES) via Whatsapp.

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