9-SANTO AGOSTINHO E A LUTA PELA BUSCA DA SANTIDADE
Por Edvânia Duarte Eleutério(*)
A
luta de Santo Agostinho: um espelho para a nossa própria jornada
Às vezes, percebemos
que estamos envolvidos em lutar contra desordens interiores, contra tendências
e más inclinações que nos arrastam para o pecado. Nessas horas, é bom olhar de
perto a luta dos santos e como conseguiram vencê-las. Hoje, convido você a ver
de perto os conflitos de Santo Agostinho que podem iluminá-lo, pois a luta dele
também pode ser a sua. No seu livro Confissões, ele narra toda essa batalha no
seu interior. Ele mesmo diz: “Infeliz de mim, quem me libertará deste corpo de
morte, senão tua graça por Jesus Cristo Nosso Senhor?”.
Pintura clássica barroca de Santo Agostinho
em seus estudos pelo artista italiano Antonio Cifrondi / Domínio público.
A
infância e juventude de Agostinho: uma busca intensa pela verdade
Santo Agostinho nasceu em 354 d.C. Sua mãe (que
também foi canonizada e é padroeira dos pais) já era cristã, mas optou por não
batizar Agostinho, pois temia que ele fosse submetido às duras penas da
confissão. Naquela época, um pecador público era submetido a graves humilhações
antes de ser readmitido à comunidade, se cometesse algum pecado. Santa
Mônica preferiu apenas catequizá-lo. Em todo caso, essa educação que Agostinho
recebeu na infância serviu para aproximá-lo minimamente de Jesus. Na juventude,
era um prodígio nos estudos, e um livro de Cícero o inspirou a querer buscar a
verdade.
Essa busca pela verdade o fez experimentar várias
filosofias, até mesmo a seita maniqueísta, uma doutrina herética, fundamentada
nos dois princípios opostos do Bem e do Mal. Até que ouviu a pregação do bispo
de Milão, Santo Ambrósio, que o tocou profundamente. A
pregação de Santo Ambrósio e a intercessão de Santa Mônica são imprescindíveis
para a conversão de Agostinho. Ele finalmente se vê constrangido a abraçar a
religião católica.
A
luta de Agostinho contra a luxúria
Ao acompanhar a história de Agostinho, quando chegamos a
esse ponto, pensamos: “Ufa! Batalha vencida!” Mas justo aí inicia-se um
tremendo confronto contra suas más inclinações, porque, durante a juventude, ele havia adquirido o vício da
luxúria, de modo que os pecados da carne eram realmente presentes na sua vida.
Agostinho chegou a ser
pai solteiro; Adeodato era seu filho com uma de suas amantes. Mas, depois da
conversão, ele já não podia viver essas paixões sem sentir uma enorme vergonha.
Santa Mônica rezava para que ele se casasse com uma boa mulher, mas Deus o
chamava para uma perfeição maior. E grandes foram as suas lutas.
Padre Paulo Ricardo explica que a conversão de Agostinho é algo excepcional.
Ele não se converteu moralmente, como a maioria dos cristãos, mas intelectualmente;
foi o interesse pela verdade que o levou até a luz de Cristo. Então, a batalha
continuava, pois, nos primeiros anos, Agostinho viveu uma luta intensa entre a
sua razão e a sua vontade.
A
conversão intelectual de Agostinho
Ele já conhecia a
verdade, mas não tinha forças para largar totalmente o pecado; e os prazeres da
carne o consumiam. Agostinho foi um dos mais brilhantes oradores de seu tempo;
e padre Paulo Ricardo também diz, para usar uma linguagem atual, que ele foi,
em seus anos de juventude, um “profissional do marketing”, um especialista em
construir e vender aparentes “verdades”. Seus escritos e discursos eram capazes
de arrastar qualquer ouvinte, convencendo-o até mesmo das mais falsas ideias.
Agostinho queria dar o passo definitivo da sua conversão
sem, no entanto, abandonar os velhos prazeres. Desse modo, ele adiava a sua entrega
a Deus o quanto podia. Ouvia a história dos santos, ficava impressionado e
comovido, mas ainda sofria as amarras dos sentidos e prazeres do mundo,
sentindo-se humilhado e envergonhado quando caía em pecado. Ele via sua miséria
e se atormentava pela dureza de seu coração, pela resposta negativa que dava ao
chamado de Deus.
O
poder da Palavra de Deus e o encontro no jardim
Foi num jardim, num
momento de oração, que Agostinho foi atingido pela graça de Deus. Ouviu a voz de
uma criança dizendo: “Toma e lê”. Abriu a Palavra de Deus e leu a Carta de São
Paulo aos Romanos, que diz: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos
prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas
revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os
desejos da carne” (13, 13-14).
E a graça de Deus o
iluminou: “Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da
frase, uma espécie de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas
as trevas de dúvida” (Confissões, VIII, 12).
Aí está, portanto, o caminho da santificação e vitória
nessa luta interior: é a graça de Deus que santifica, ela
nos visita iluminando nossa inteligência e fortalecendo a vontade. Mas cabe a
nós muita humildade, sabendo que tudo isso é dom de Deus, mas sem arrefecer na
luta, mantendo-se firme na oração e perseverante nas tribulações, até que a
graça do alto o visite e você se perceba completamente transformado.
O
caminho da santificação é uma jornada de graça e esforço
Como o próprio Santo
Agostinho dirá mais tarde: “A graça pressupõe a natureza”. Então, quando a
graça chega, deverá encontrar nossa natureza nessa luta e em constante oração
para alcançar o efeito desejado. Deus quer nos fazer totalmente santos, e deve
nos auxiliar com a sua graça.
Todavia, precisamos buscar a verdade
pela meditação, a fim de que a luz de Deus fortaleça a nossa vontade, assim como ocorreu com Agostinho. A
busca da verdade o levou à fé em Cristo e a reconhecer a Verdade que é uma
Pessoa, o próprio Jesus que nos exorta pela boca de São Paulo: “Despojemo-nos
das obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz. Comportemo-nos
honestamente, como em pleno dia” (Rm 13, 12).
(* ) Edvânia Duarte Eleutério – Missionária da Comunidade Canção
Nova desde 1997, é formadora de namorados e casais, entre outras funções.
Possui especialização em gestão de pessoas, counseling e bioética. Autora do
livro ‘Por que (não) eu?
https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/a-luta-de-santo-agostinho-pela-busca-da-santidade/

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