9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
APARENTEMENTE ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO
[Parte
II]
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Parabéns pra você! Seu moral como médico[a], no hospital, vai de vento em popa.
Seus colegas de trabalho, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, dentre
outros, falam muito bem de você. Nota dez. Ou mil, se preferir. Mas... Há um
detalhezinho de nada. Pronto! Baixou para nove e noventa e nove. Dizem que você
é seco demais. Mais seco do que a caatinga do nordeste. O que tem que falar
para o paciente, você fala na lata. Doa em quem doer. "A verdade
liberta", você se defende, sempre repetindo essa máxima. Aprendeu desde
cedo na sua Igreja. Achou bonito, correto, e registrou: a verdade liberta! Você
é uma pessoa de meia-idade – maneira de falar, pra não dizer exatamente a
verdade. Vai que você não gosta. Mas diz um velho ditado que um dia é da caça,
outro do caçador. Por essas coisas que só Deus explica, um belo dia você, de
médico, passou a paciente. "E então, doutor, diz a verdade, sem rodeios: é
grave?". Não era! Era gravíssimo. O médico conhecia bem sua postura sobre
verdade e secura. Sorte sua, que ele não concordava totalmente com ela. Falou
dos avanços da ciência, dos casos bem-sucedidos, e até chegou a brincar dizendo
que Deus costuma dar uma forcinha extra para quem é médico. Depois, com muito
tato, disse o que você tinha, e que
iriam juntos dar o melhor de si para o melhor prognóstico. Você ouviu tudo com
atenção. Não se desesperou. Curiosamente , se acalmou. Aquelas palavras
certamente não tinham o condão de curar você. Mas conseguiram algo com o qual
você não contava, de forma alguma: aliviaram a sua dor. Daí em diante você
passou a pensar: "A verdade é importante! Muito! Mas o mais sagrado mesmo
é o amor!". São Paulo aos Coríntios. Jeito de falar!
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, MAS ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Você entra no elevador, aperta o botão do seu andar e pronto. Acabou sua
participação nessa transação. O resto é com a máquina, que faz tudo sem fazer
cara feia e sem reclamar, mesmo sabendo que vai trabalhar vinte e quatro horas
por dia, todo santo dia, incluindo dia santo. Subir, parar, abrir, fechar,
descer, recomeçar, deixa com ela que ela dá conta do recado. Mas aí aparece
alguém correndo pelo corredor. Desesperado! A porta começa a fechar e você, num
reflexo quase heróico, estica o dedo e aperta o botão para mantê-la aberta. A
pessoa entra ofegante: “Obrigado!”. “Imagina!”. Dois ou três segundos depois,
cada um volta para o seu silêncio. "Tchau!". "Tchau!". Você
poderia simplesmente ter deixado a porta fechar e seguido em frente. Afinal,
quem mandou aquele estropício chegar atrasado!? É ou não é verdade? Mas, por
alguma razão difícil de explicar, você apertou o botão e fez o elevador ficar
parado. Nenhum ato heróico, nenhum milagre, nada que vá lhe angariar aplausos
na Câmara ou reconhecimento no Senado. Diga-se de passagem, e só aqui entre
nós: é cada honra ao mérito e cada homenageado, que Nossa Senhora! Até o
encardido desconfia. Voltando ao que interessa. Talvez sejam justamente essas
pequenas gentilezas que façam a convivência humana ter sentido e continuar
valendo a pena. Gesto simples, sem nenhuma repercussão social maior. Mas
humano. Profundamente humano.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Para que serve aquele perfume refinado depois de um banho caprichado, usado
especialmente quando a gente vai ao encontro da pessoa amada? Falando
francamente? Para absolutamente nada. Ou
será que não!? Talvez sirva para deixar o nosso bolso ainda mais vazio.
E, no entanto, experimente sair sem ele depois de escolher a melhor roupa,
ajeitar o cabelo e se olhar no espelho. Parece que está faltando alguma coisa,
não é verdade? E não é qualquer coisa: a coisa mais importante. Se você não
fosse sair de casa, para ver a pessoa amada, talvez julgasse que não estaria
faltando nada. Nem daria bola. Mas vai dizer isso para sua autoestima e para o
nariz da pessoa amada, vai! Perfume, loção ou desodorante.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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A princípio, convenhamos, você não precisa de uma janela bonita para morar numa
bela casa. Bastariam paredes, um teto e uma porta. E tudo bem. Afinal, quanto
menos acessos para os amigos do alheio e pessoas mal-intencionadas poderem
entrar, tanto melhor. Nesses tempos em que estamos vivendo, então, se a gente
pudesse, até sem porta a gente ficaria. Ave-Maria! Mas, pensando bem, pare e
analise melhor. Experimente sentar perto ou se debruçar naquela janela num fim
de tarde, abrir a cortina e deixar o sol entrar, trazendo luz para as plantas e
vitamina D para você e sua família. De repente, a sala parece outra, o dia
parece outro e você também parece outro. Outrinho da Silva! Não parecia servir
para muita coisa, quase nada, mas agora você percebe que aquela janela permite
entrar sol, vento, luz, e o que é ainda melhor, paisagem. Belíssima! Linda de
morrer! Aí você lembra de novo dos amigos do alheio, e depois de avaliar essas
tantas coisas boas que você percebeu, acaba concluindo:
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Sabe aquela oração que você aprendeu desde criança, e que de tão repetida você
agora reza sem prestar atenção nas palavras, e menos ainda no sentido? Tipo
aquelas “mil Ave-Marias” que, lá pelo meio milheiro das Aves, mais da metade
das pessoas já estão sonolentas, quase dormindo, e olhando para o relógio de
cinco em cinco minutos. Pois é! Você aprendeu a rezar no automático. Enquanto
reza, você pensa não sei em quantas contas que estão para ser pagas, no arroz
que ficou no fogo e sabe-se lá se já não deve ter queimado, na vizinha bonitona
que mora no AP ao lado – nessa você não só pensa! Imagina o tempo todo!
Ave-Maria! Cheia de graça...– e sabe lá Deus em mais o quê. Amém pra cá, amém
pra lá, e a oração vai seguindo seu curso, enquanto sua cabeça está a
quilômetros-luz do que você está rezando e do que está sendo rezado. Até que um
dia, por alguma razão que ninguém sabe explicar direito, você para de rezar
como quem cumpre uma mera obrigação, e começa a prestar atenção no que está
dizendo. Descobre que uma palavrinha que você repetiu milhares de vezes, agora
parece ter acabado de nascer para você. Aquela oração, que aparentemente não
parecia servir para mudar absolutamente nada fora, talvez estivesse ali
justamente para mudar alguma coisa dentro de você.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Um belo dia – no presente caso, pura força de expressão – você acorda super
atrasado, pula da cama acelerado, escova os dentes voando, veste a primeira
roupa que aparece pela frente, e sai de casa feito um foguete. Só depois, já
ultrapassada mais da metade do trajeto em direção ao trabalho, percebe que
esqueceu uma coisa absolutamente corriqueiríssima, banalíssima e
insignificantíssima – tudo com íssima: o cafezinho da manhã. Você não desmaiou,
não enfartou, e menos ainda morreu. “Só faltava essa! Pelo amor de Deus!”. Quem
disse isso foi sua finada mãe, lá do céu. Como eu dizia, não aconteceu
absolutamente nada. O mundo continuou girando, os pássaros voando e você
acelerado cada vez mais. Até que duas ou três horas depois você começa a olhar
para todo mundo com uma cara de poucos amigos, seu estômago roncando, a
paciência desmilinguando, e qualquer pessoa que passe perto de você mastigando
passa a ser seu pior inimigo. Aí então você entende, de uma vez por todas, que
aquele cafezinho com pão e manteiga, que parecia não servir para mais nada a
não ser ludibriar seu estômago, estava fazendo um trabalhão desgraçado sem você
perceber. Cafezinho com pãozinho e manteiga - ou margarina.
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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Você está sozinho em casa, fazendo coisa nenhuma de especial - quem é que não
ama não fazer nada, não é verdade? - quando começa a assobiar pra cima e pra
baixo, pra baixo e pra cima, sem parar. Não porque esteja feliz, não porque
tenha tido algum aumento de salário – chamar de aumento o que não cobre nem a
inflação, não serve nem como piada – nem porque esteja com alguma música
chocantérrima na cabeça. Simplesmente assobia. Uma melodia qualquer. Simples
assim! Dessas que aparecem sem pedir licença e que você nem sabe direito de
onde vieram. Anda pela casa assobiando, abre a geladeira assobiando, procura a
chave assobiando e, se alguém perguntar o que você está fazendo, provavelmente
você responderá: “Nada!”. E é exatamente isso. Nada. O assobio não resolve
merda nenhuma, não transmite nenhuma mensagem importante, e convenhamos:
dificilmente alguém vai parar o que está fazendo para apreciar sua performance.
Às vezes, inclusive, quem estiver por perto vai perder as estribeiras com você:
“Ou! Dá pra parar com isso não!? Que saco!”. Mas experimente passar alguns dias
sem assobiar, sem cantarolar, sem bater os dedos na mesa, sem fazer aquele
barulhinho involuntário que acompanha certas tarefas diárias, e você vai ver o
que acontece. Ansiedade, irritabilidade e compulsividade na certa. Ainda assim,
a casa continua de pé, as coisas continuam funcionando e aparentemente nada
parece ter mudado. Nada, exceto você. Bem mais alegre, falante, e sobretudo
menos chato. Subiozinho curioso, esse seu!
APARENTEMENTE ABSURDAMENTE
SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
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De repente, você abre o armário, vê aquela roupa linda que nunca vestiu e
pensa: “É hoje!”. Você vira Romeu, e a roupa Julieta. O espelho, como se
refletisse a mudança, manda ver: “Nossa! Hoje você arrasou!”. Coincidência ou
não, mal você chega à festa para a qual você está indo de penetra, alguém com
quem você vem flertando há um tempão sem a pessoa perceber, não se contém:
“Caramba! Seu look está demais! Parabéns!”. E você, com o coração palpitando -
melhor, disparando - responde como se estivesse de calção e camiseta: “Menos,
menos! Você sempre exagerando!”. Isso não é vaidade. Ou será que é? Ah! Quer
saber?! Se for, que seja! Dane-se! Uma vaidadezinha de vez enquanto é ótimo pra
autoestima. Vaidadezinha vez por outra!
APARENTEMENTE
ABSURDAMENTE SUPÉRFLUO, ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO.
Obs.: Esta
segunda parte será complementada e finalizada com a terceira, de mesmo título.
(*) Texto enviado
pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).
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